O Sorriso da Mona Lisa
Já falei aqui no blog que acho a obra mais famosa de da Vinci extremamente sobrevalorizada. Mas outro dia algo novo me ocorreu sobre esta minha opinião. Porque do nada volto a falar deste assunto com uma novidade é algo que talvez anos de psicanálise possam desvendar. Enfim, o fato é que tenho uma teoria nova para o sorriso misterioso da Mona Lisa.
Acho que o sorriso dela é um sorriso de deboche. Veja bem, no meu último post sobre este assunto no blog, falei de um boato sobre o motivo da obra ter ficado tão famosa. Aparentemente, Leonardo da Vinci, ao terminá-la, saiu às ruas dizendo que aquele era o seu melhor trabalho. Aquilo supostamente acabou por contribuir para que outros argumentos e o boca-a-boca a tornassem uma das obras mais conhecidas e referenciadas em todo mundo. Pois bem. Mas e se Leonardo da Vinci estivesse na verdade pregando uma peça em todo mundo?
Fez lá uma pintura razoável de uma mulher qualquer (até hoje se discute quem seria a tal) e colocou nela o seu próprio sorriso. Uma mistura de deboche e desprezo por quem fica apreciando obras de arte por sua fama ou pelo que outras pessoas dizem dela, e não pelo que ela realmente é. Neste caso, teríamos hoje no Louvre um monte de gente indo ver a pintura de uma mulher que está lá rindo de todos eles. Debochando de quem pagou caro para vê-la e está agora perdendo seu tempo.
Genial este Leonardo, não?
A importância da eleição de Dilma
Eu escrevi este texto originalmente para um amigo mas quero compartilhá-lo com todo mundo que venha eventualmente ler este blog. Porque o primeiro programa de Dilma na TV ontem me emocionou e acho que tem importância histórica. Porque penso que muitas pessoas mais ricas no Brasil não têm a real noção do significado do governo Lula e da importância de eleger Dilma. Estas pessoas, felizmente para elas, não sabem o que é pobreza. Mas pelo menos deveriam ser capaz de imaginar o que é viver com menos de US$ 1/dia.
Eu só fui ver este tipo de pobreza na Índia e chorei na primeira vez que vi uma cidade inteira de pessoas cagando na rua, vivendo em barracos de chão de terra batida e telhado e paredes de plástico, e comendo restos ao lado de ratos e outros bichos. Sei que ainda existe isto em várias partes do Brasil. Mas no Brasil de Lula, mais de 30 milhões de pessoas passaram a viver com mais dignidade! É meia França ou quase uma Argentina inteira. Neste Brasil, educação deixou de ser sucateada, e crédito passou a ser acessível a todos. É um Brasil que desafiou preconceitos, quebrando forças conservadoras elitistas. Eu posso continuar listando fatos mas acho que todos os conhecem ou deveriam.
O Serra, ao contrário, não fez quase nada por São Paulo. É um estado infinitamente mais rico que qualquer outro mas suas políticas ficaram meramente no âmbito das obras públicas e dos investimentos no básico de educação e saúde. Este é o básico que todo governo deveria fazer. Mas São Paulo pode muito mais (aliás, não é este o slogan do candidato?) e ninguém
ainda fez isto pelo estado, na minha opinião.
E por que não? Eu tenho uma teoria. São Paulo é o estado mais rico e também um dos mais conservadores. É onde está a maior concentração de classe média que mais me envergonha no país. Esta que quer tirar vantagem em tudo, que acha que carro é o melhor meio de transporte, que não quer um metrô na porta de sua casa, que tem vergonha de pobre, etc. Esta classe média vota em Serra (e agora em Alckmin) porque não quer perder seus privilégios. Quer manter as coisas como estão. É de um egoísmo e uma mesquinhez que só vejo precedente na história de nossas altas classes de origem portuguesa (leia Ubaldo Ribeiro, por exemplo).
Então eu me emociono mesmo quando vejo que o povo está se beneficiando tanto de um governo e percebe isto, e não se deixa enganar. Vocês viram o jingle de Serra tentando se mostrar como continuidade de Lula, e se associando indevidamente ao atual presidente? Viram ele usando uma favela de mentira em seu programa? Que vergonha alheia do Serra que eu tenho. É um candidato que não tem projeto, nem identidade. E felizmente isto está ficando claro para cada vez mais gente. Eu fico feliz de ver o Real se valorizando, os números em geral infinitamente melhores que do governo anterior, e mais pessoas se beneficiando disto.
E por tudo isto, este governo do Lula não pode ser só um espirro. Sabe, não pode ser só um governo de esquerda, exceção na nossa recente história democrática. Tem que haver continuidade para deixá-lo marcado! Para que ninguém se esqueça, para que estes ricos egoístas e preconceituosos tomem mais um tapa de luva. E para que estes mesmos ricos tenham que engolir cada vez mais pessoas humildes em aeroportos, comprando carro, viajando e fazendo parte cada vez maior das riquezas do nosso Brasil. Os mais humildes merecem muito isto e finalmente estão tendo! Tem que continuar assim.
Verão, sol, calor e… bicicleta! Na Dinamarca tem
Um dos argumentos que mais escuto no Brasil para as pessoas não usarem bicicleta é que faz muito calor e ninguém quer suar antes de chegar no trabalho, supermercado, shopping, etc. Mas eis que me deparo com o verão Dinamarquês. Faz calor também, tem dia que bate 35 graus. O sol é forte e nem sempre o tão incômodo vento gélido do norte resolve colaborar justamente nestes poucos momentos que precisamos dele. Mesmo assim, ao invés de diminuir o número de ciclistas na rua, eles aumentam! Incrível, não!?
É verão, faz calor? Então use menos roupas! (fonte)
Em outras palavras, para mim, no Brasil, quem goza de saúde plena, mora a menos de 5km do trabalho e não usa bicicleta para se deslocar é muito provavelmente acomodado. Preguiçoso mesmo! Porque não há nada mais que explique o sujeito pegar um carro para percorrer míseros 5km. É preguiça de mexer as pernas um pouco por no máximo 30 minutos. É muito mais conveniente (e ao mesmo tempo egoísta, claro) sentar a bunda no carro, ligar o ar condicionado e ignorar os problemas do mundo na sua bolha particular. Se não por isto, então há outra razão. E talvez as duas andem bem juntas neste caso. Status! O sujeito quer se exibir, aí bota o terno para ir ao trabalho e diz que se não fosse de carro, suaria muito.
Como assim ir para a praia de carro? A galera aqui na Dinamarca vai de bicicleta em massa. (fonte)
No Brasil, distinção de classe está justamente no suor. O pensamento desta elite preconceituosa segue a seguinte linha: Quem sua é pobre que faz trabalho braçal e não pode bancar ar condicionado. Rico trabalha menos e não pode se sujeitar as mesmas condições de transporte e que geram suor. Imagina suar no terno Armani novo! Aqui em Aalborg, ao contrário, vi ontem o chefe do departamento de Ciência da Computação da Universidade indo trabalhar de bermuda e camiseta. Foi de bicicleta, claro. Imagina uma coisa dessas no Brasil?! Quem é que admitiria um empregado indo trabalhar de bermuda e camiseta? Não pode, tá errado. Não pode ir de bicicleta também porque tem que mostrar que é bem de vida. Vejam neste exemplo uma explicação histórica (daqui):
"No século XIX, entre o meio industrial inglês, surgiu o colarinho branco como marca da estratificação social. Apenas os que ocupavam altos cargos nas empresas poderiam ostentar o colarinho alvejado, pois nos postos mais baixos o contato com a fuligem fazia qualquer peça de roupa branca enegrecer em poucos minutos. A essa mesma época, as próprias necessidades do trabalho impuseram o abandono do uso da casaca em prol de uma vestimenta que era um aperfeiçoamento das roupas dos trabalhadores rurais: o terno.
Se antes as calças vinham apenas até o joelho, Lord Brummel lançou a moda das calças compridas, como aquelas usadas pelos limpadores de chaminé. Mas claro, estas calças de limpador de cahminé combinavam-se com botas polidas com champagne, com paletós negros e camisas brancas com elaborados nós de gravata. Brummel, o pai do dandismo, morre em 1840, mas deixa fincadas as raízes do uso do terno como distinção de classe, como foram as unhas compridas na antiga China: o trabalhador braçal, de baixa renda, de classe baixa, não pode usar colarinhos brancos, nem manter as unhas compridas, senão não trabalha, não come, não sobrevive.
No Brasil, a distinção se faz pelo suor. Somos a última nação ocidental pretensamente civilizada a abolir o trabalho escravo. Isso há pouco mais de 100 anos. O escravo era os pés e as mãos do seu senhor. Seus braços e pernas. São conhecidas as gravuras do período colonial em que vemos escravos carregando o senhor em sua liteira, vestido como se europeu fosse, abanando-se ou sendo abanado. Acaso estivesse esse senhor andando pelas próprias pernas, suportaria o calor em sua casaca de veludo?
[Atualmente, ]Vai embora a casaca mas em seu lugar fica o terno (...)"
Mas não adianta argumentar que pedalando devagar você sua muito pouco ou que podemos (devemos) usar roupas mais leves no dia-a-dia. Não adianta um texto longo como este e provas de que o uso de bicicletas funciona em outros lugares. Sabe o que adianta? Mexer no bolso destas pessoas. Quando usar carro passar a se tornar algo extremamente caro, aí elas passarão a procurar alternativas. E também cobrar por infraestrutura para as bicicletas. Alguém aí acha que é possível de outra forma?
Na Dinamarca… E a Copa do Mundo
No dia seguinte à derrota da Dinamarca na copa, chego ao escritório para cumprimentar um colega dinamarquês:
- Poxa cara, que pena a Dinamarca ter perdido, estava torcendo para que pelo menos fosse para as oitavas...
- Perdeu? No quê?
- Na Copa, ontem, perdeu o jogo para o Japão...
- Ah, nem tava sabendo... Perdeu é? Paciência, não tínhamos um time tão bom mesmo...
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Os dinamarqueses parecem levar uma vida pacata. Não querem enriquecer e comprar tudo como os americanos, não querem construir robôs como os japoneses, não querem morar nos EUA como os indianos e mexicanos, e não querem ganhar a copa do mundo como nós brasileiros. Não, eles parecem não se importar.
Para eles importa cumprir suas 7 horas diárias de trabalho e depois ir para casa ficar com a família. No verão, tiram férias, no inverno, bem, no inverno não sei ainda... E o tempo que sobra eles gastam pagando impostos.
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Mas nem todos os dinamarqueses estavam ignorando a copa. A praça central de Aalborg deve ter reunido umas duas ou três centenas de pessoas, quase todas torcendo para o time da casa. Alguns gritavam vez ou outra mas o clima era sereno.
A não ser no jogo contra a Holanda, o primeiro deles. Assistir aos jogos de dois países europeus aqui é como assistir a um jogo do campeonato brasileiro no Brasil. Há provocações de todos os tipos e o clima pode ser resumido numa ótima frase de um amigo meu: “A copa do mundo é uma ocasião onde podemos ser preconceituosos sem sermos mal vistos por isto.”
***
Assisto aos jogos num bar no centro que projeta a imagem em um telão tipo cinema. Vou para lá de bicicleta e chego em 10 minutos. É fácil andar de bicicleta aqui. Não porque a infraestrutura seja melhor que no Brasil mas porque as pessoas respeitam os ciclistas.
Mas, tudo bem, a infraestrutura também é muito melhor. O país tem 12 ciclovias nacionais, tipo auto-estrada mesmo, além de centenas de ciclovias regionais e locais, com semáforos exclusivos e tudo mais.
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Mas com tanto imposto, não dava para ser diferente. O mínimo que se paga é 32% e o máximo chega a algo em torno de 56%. Até o ano passado passava dos 60% mas eles reduziram a carga. Isto sem contar o imposto embutido nos produtos que pagamos, em torno de 25%, um dos mais altos do mundo.
Em compensação, temos tudo. Cidades bem cuidadas, plano de saúde, rodovias, educação, e por aí vai. Ah, bibliotecas! Que maravilha as bibliotecas daqui. Posso pegar qualquer livro, CD, DVD, jogos para PC, Wii, PlayStation, Xbox, de graça por até 30 dias. E mais, consulto tudo online e posso pedir um item de qualquer biblioteca pública da Dinamarca. Eles entregam na biblioteca mais próxima sem cobrar nada extra pelo serviço.
***
Hoje tem Alemanha e Espanha. Vou assistir com amigos alemães e espanhóis. Não vou torcer em especial para nenhum dos dois mas me divirto com o drama alheio. É a única vantagem de ter o Brasil fora da copa: assistir tranqüilo aos jogos que restam. Tal qual a maioria dos dinamarqueses desde o início da copa, mesmo quando ainda estavam jogando.
Quão justa (ou democrática) é uma eleição
Na última eleição para prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab foi eleito com 46% dos votos no segundo turno (60% dos votos válidos). Isto significa que mais da metade dos eleitores de São Paulo não quiseram Kassab como prefeito. Ou seja, mesmo no segundo turno, com apenas dois candidatos disputando, ele não representa o desejo da maioria. E mesmo que ele tivesse, digamos, 50% mais 1 voto, ainda assim, mais de 4 milhões de eleitores não estariam sendo representados por sua vitória. É justo, portanto, um sistema que deixa tanta gente insatisfeita?
A pergunta é pertinente porque a forma como votamos no Brasil pode ser simples mas não é a mais justa do ponto de vista teórico. Não quero aqui discutir, no caso específico do Brasil, os potenciais de fraude das urnas eletrônicas e, de maneira mais geral, a racionalidade limitada e temporal dos seres humanos, passível de manipulação pela mídia, independente do grau de instrução. Ambas são questões sensíveis das quais precisamos nos informar mas que precisariam de outro post para serem minimamente resumidas. Neste post, então, trato especificamente de como eleições (independente do propósito) podem ser estruturadas.
Para conhecermos duas outras opções de eleições, tomemos as preferências de 12 eleitores em relação a 3 candidatos, C1, C2 e C3. 5 eleitores preferem votar primeiro no candidato C1 (votariam nele primeiro), depois no candidato C2, e por último no candidato C3 (ou 5 preferem C1 > C2 > C3). 4 eleitores preferem votar primeiro em C3, depois em C2, e por último em C1 (ou 4 preferem C3 > C2 > C1). E, finalmente, 3 eleitores preferem votar primeiro em C2, depois em C3 e por último em C1 (ou 3 preferem C2 > C3 > C1). A tabela abaixo resume as preferências de cada grupo de eleitores:
|
Qtde. Eleitores |
Ordem de preferência por candidatos |
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5 |
C1 > C2 > C3 |
|
4 |
C3 > C2 > C1 |
|
3 |
C2 > C3 > C1 |
Neste cenário, se a eleição fosse direta com apenas um turno, o candidato C1 venceria com 5 votos. Mas se a mesma eleição tivesse dois turnos, o resultado seria diferente. C1 e C3 iriam para o segundo turno, o primeiro com 5 e o segundo com 4 votos, respectivamente. Assim, com o candidato C2 eliminado, as preferências dos eleitores para o segundo turno ficariam da seguinte forma:
|
Qtde. Eleitores |
Ordem de preferência por candidatos |
|
5 |
C1 > C3 |
|
4 |
C3 > C1 |
|
3 |
C3 > C1 |
Ou seja, C3 ganharia a eleição neste caso com 7 votos, 2 a mais que C1, no segundo turno. Numa terceira forma de realizar a mesma eleição, dadas as mesmas preferências dos eleitores pelos 3 candidatos citados acima, C2 se consagraria vencedor. Trata-se de uma eleição comparando os pares de preferências. Nela, teríamos o resultado descrito abaixo.
Comparando apenas C1 com C2, 7 eleitores preferem C2 e 5 preferem C1, então C2 ganha 1 voto. Comparando C1 com C3, 7 eleitores preferem C3 e 5 preferem C1, então C3 também ganha 1 voto. Finalmente, comparando C2 com C3, 8 eleitores preferem C2 e 4 preferem C3 então C2 ganha mais um voto, ganhando este tipo de eleição com 2 votos.
Repare que em 3 métodos eleitorais diferentes, 3 candidatos diferentes ganharam, mesmo com as mesmas preferências dos eleitores! E isto em um cenário bem simples com 12 eleitores e 3 candidatos. A Wikipédia (em inglês) detalha mais de 10 métodos diferentes para a realização de uma eleição, cada um com suas vantagens e desvantagens em relação a outros métodos.
Sim, as nossas eleições no Brasil, de voto direto em dois turnos, possuem problemas. Mas são mais baratas e rápidas, e mais simples de serem compreendidas. Em outras palavras, enquanto não conseguimos conceber alternativas ao mesmo tempo melhores e viáveis, continuamos deixando um bocado de gente insatisfeita ao final de cada pleito.
O poder das mídias sociais
Esta semana escrevi como autor convidado no portal ReadWriteWeb Brasil. Confira abaixo um trecho do meu artigo "Atenção, Pessoas Instáveis Emocionalmente Tendem a Participar mais Ativamente na Internet", que trata do poder cada vez maior das mídias sociais:
Ao mesmo tempo em que a Internet vai ficando mais social, nossa vida, tanto em seus aspectos positivos quanto negativos, passa a acontecer mais nela também. Principalmente nos sites e serviços que favorecem a interação social e, assim, conquistam mais a nossa atenção. Conquista-a porque nossos amigos e família estão lá, e queremos fazer parte do mesmo grupo que eles. Ou porque pessoas que respeitamos estão lá e queremos nos aproximar delas.
O co-fundador do Facebook disse ano passado em entrevista que uma mensagem que você recebe é menos importante do que quem a envia. Reputação conta. Não nos interessa a opinião de todo mundo. Nossa racionalidade é limitada porque não temos a capacidade de processar toda a informação disponível. Por isto, a informação dada por pessoas em quem confiamos e/ou respeitamos tende a ser muito mais valorizada.
Software livre não é solução
Num post anterior falei de quatro problemas do software livre. Inerentes a eles está o aspecto social do desenvolvimento de qualquer software, e principalmente de sistemas de informação. Muitas pessoas ainda não se dão conta que todas as etapas de desenvolvimento, da sua concepção enquanto idéia, até o seu uso se dá de forma social e, mais importante, com a participação do usuário. Pelo menos deveria ser assim para todo sistema de informação, já que este tipo de software é uma construção inerentemente social e tem por objetivo atender a uma demanda social (Brooks 1995). Pense em um sistema de controle de estoque, educacional, de controle bancário, de uma loja, etc. e fica fácil perceber que estes ficam sempre no meio de alguma interação social. Por isto, o desenvolvimento de um sistema para uma empresa sem a contribuição de seus potenciais usuários é um sistema fadado ao fracasso já na sua concepção.
No caso do software livre este aspecto social é ainda mais importante pelas características da equipe de desenvolvimento (Weber 2004). Elas são, em geral, dispersas geograficamente e possuem programadores trabalhando por uma motivação pessoal, às vezes sem nenhum tipo de compensação financeira. Por este motivo, os programadores precisam ser e estar motivados para trabalhar num projeto de software livre. Motivação esta que está diretamente atrelada a dois componentes do software: 1) o desafio técnico que ele oferece e 2) a grande base de usuários que terá acesso a seu código e usará o sistema, formando uma comunidade ativa de pessoas discutindo o mesmo. Pense em todos os softwares livre de sucesso: WordPress, Linux, Firefox, Apache, etc. São todos aplicativos de complexidade mais alta e de aplicação mais genérica, multi-uso, com uma comunidade ativa de usuários e desenvolvedores.
Este tipo de software motiva os melhores programadores do mundo inteiro. É exatamente o oposto de trabalhar num software para, digamos, uma loja no Brasil. Construir um software destes é relativamente simples e está restrito apenas aos usuários brasileiros; porque o conjunto de regras aqui é diferente das de outros países para este tipo de software. Assim, como os melhores programadores brasileiros dedicam seus tempos livres a projetos como o Linux, sobram para estes projetos específicos os programadores pagos pelo governo ou empresas, ou aqueles despreparados e que não conseguem contribuir em projetos mais desafiadores.
Não estou dizendo com tudo isto que sou contra o software livre. Também não o acho uma alternativa melhor ou pior que outras formas de desenvolvimento (e.g., software customizado ou produto) sem levar em conta o contexto. Ele é, para mim, apenas mais uma opção a ser considerada, com seus prós e contras. Não acho, por exemplo, que o governo brasileiro está errado em adquirir software livre. Acho que ele está errado em fazer este tipo de aquisição quando o faz porque o software é livre. É preciso sempre ponderar qual é a melhor solução para as necessidades de uso, sendo o tipo de licença do software e a forma de produzi-lo variáveis no processo.
A diretriz arbitrária do governo brasileiro de sempre optar por software livre é ruim para ele, para a população e para a indústria. De maneira análoga, o governo poderia também arbitrariamente decidir por comprar software brasileiro em detrimento de software de outros países. Fazendo isto, ele deixa de fazer a aquisição considerando o mais importante, a compra do software com o melhor potencial de atendê-lo em suas necessidades. A analogia é importante porque a indústria de tecnologia no Brasil era exatamente protegida desta forma até o começo da década de 90. O resultado foi um atraso tecnológico pelo qual até hoje pagamos o preço.
Note que adotar software proprietário não significa adotar padrões fechados ou bloquear o acesso à informação. É perfeitamente possível, comum até, utilizar um software proprietário com padrões abertos e que torne a informação mais acessível e disponível para todos. Basta lembrar que a base da Internet, o conjunto de protocolos TCP/IP, não nasceu aberto, muito pelo contrário, foi desenvolvido pelos militares americanos e com o objetivo de uso exclusivo. Mesmo hoje, o principal conjunto de protocolos e padrões da Internet são mantidos por uma organização americana patrocinada pela gigante VeriSign e pela Agência Nacional de Segurança dos EUA. É uma questão política complexa mas, simplificando, a Internet só é livre hoje porque os EUA deixa. (Sobre este assunto, recomendo o excelente conjunto de visualizações mostrando a geopolítica da Internet – em francês)
Concluindo, software livre não é solução de problemas por ser livre. Aliás, software livre, em si, não é solução de nada. Do ponto de vista do desenvolvimento, ele pode ser visto como uma modalidade de criação do software. Uma muito mais apropriada para alguns tipos de projeto, aqueles com potencial de atrair uma comunidade de desenvolvedores abrangente. Do ponto de vista do usuário final, é apenas mais uma variável a ser considerada no processo de aquisição. E uma que não deveria se sobrepor às suas necessidades de uso.
Num post anterior falei de quatro problemas do software livre. Inerentes a eles está o aspecto social do desenvolvimento de qualquer software, e principalmente de sistemas de informação. Muitas pessoas ainda não se dão conta que todas as etapas de desenvolvimento, da sua concepção enquanto idéia, até o seu uso se dá de forma social e, mais importante, com a participação do usuário. Pelo menos deveria ser assim para todo sistema de informação, já que este tipo de software é uma construção inerentemente social e tem por objetivo atender a uma demanda social (Brooks 1995). Pense em um sistema de controle de estoque, educacional, de controle bancário, de uma loja, etc. e fica fácil perceber que estes ficam sempre no meio de alguma interação social. Por isto, o desenvolvimento de um sistema para uma empresa sem a contribuição de seus potenciais usuários é um sistema fadado ao fracasso já na sua concepção.
No caso do software livre este aspecto social é ainda mais importante pelas características da equipe de desenvolvimento (Weber 2004). Elas são, em geral, dispersas geograficamente e possuem programadores trabalhando por uma motivação pessoal, às vezes sem nenhum tipo de compensação financeira. Por este motivo, os programadores precisam ser e estar motivados para trabalhar num projeto de software livre. Motivação esta que está diretamente atrelada a dois componentes do software: 1) o desafio técnico que ele oferece e 2) a grande base de usuários que terá acesso ao seu código e usará o sistema, formando uma comunidade ativa de pessoas discutindo o mesmo. Pense em todos os softwares livre de sucesso: WordPress, Linux, Firefox, Apache, etc. São todos aplicativos de complexidade mais alta e de aplicação mais genérica, multi-uso, com uma comunidade ativa de usuários e desenvolvedores.
Este tipo de software motiva os melhores programadores do mundo inteiro. É exatamente o oposto de trabalhar num software para, digamos, uma loja no Brasil. Construir um software destes é relativamente simples e está restrito apenas aos usuários brasileiros; porque o conjunto de regras aqui é diferente das de outros países para este tipo de software. Assim, como os melhores programadores brasileiros dedicam seus tempos livres a projetos como o Linux, sobram para estes projetos específicos os programadores pagos pelo governo ou empresas, ou aqueles despreparados e que não conseguem contribuir em projetos mais desafiadores.
Não estou dizendo com tudo isto que sou contra o software livre. Também não o acho uma alternativa melhor ou pior a outras formas de desenvolvimento (e.g., software customizado ou produto) sem levar em conta o contexto. Ele é, para mim, apenas mais uma opção a ser considerada, com seus prós (que quase todo mundo conhece) e contras (dos quais falei aqui). Não acho, por exemplo, que o governo brasileiro está errado em adquirir software livre. Acho que ele está errado em fazer este tipo de aquisição quando o faz porque o software é livre, sem considerar exatamente seus prós e contras e os de outras opções. É preciso sempre ponderar qual é a melhor solução para as necessidades de uso, sendo o tipo de licença do software e a forma de produzi-lo variáveis no processo.
A diretriz arbitrária do governo brasileiro de sempre optar por software livre é ruim para ele, para a população e para a indústria. De maneira análoga, o governo poderia também arbitrariamente decidir por comprar software brasileiro em detrimento de software de outros países quando houver a opção. Fazendo isto, ele deixa de fazer a aquisição considerando o mais importante, a compra do software com o melhor potencial de atendê-lo em suas necessidades. A analogia é importante porque a indústria de tecnologia no Brasil era exatamente protegida desta forma até o começo da década de 90. O resultado foi um atraso tecnológico pelo qual até hoje pagamos o preço.
Note que adotar software proprietário não significa adotar padrões fechados ou bloquear o acesso à informação. É perfeitamente possível, comum até, utilizar um software proprietário com padrões abertos e que torne a informação mais acessível e disponível para todos. Basta lembrar que a base da Internet, o conjunto de protocolos TCP/IP, não nasceu aberto, muito pelo contrário, foi desenvolvido pelos militares americanos e com o objetivo de uso exclusivo. Mesmo hoje, o principal conjunto de protocolos e padrões da Internet são mantidos por uma organização americana patrocinada pela gigante VeriSign e pela Agência Nacional de Segurança dos EUA. É uma questão política complexa mas, simplificando, a Internet só é livre hoje porque os EUA deixa.
(Sobre este assunto, recomendo o excelente conjunto de visualizações mostrando a geopolítica da Internet: http://www.arte.tv/fr/Comprendre-le-monde/le-dessous-des-cartes/392,CmC=396,view=maps.html – em francês)
Concluindo, software livre não é solução de problemas por ser livre. Aliás, software livre, em si, não é solução de nada. Do ponto de vista do desenvolvimento, ele pode ser visto como uma modalidade de criação do software. Uma muito mais apropriada para alguns tipos de projeto, aqueles com potencial de atrair uma comunidade de desenvolvedores abrangente. Do ponto de vista do usuário final, é apenas mais uma variável a ser considerada no processo de aquisição. E uma que não deveria se sobrepor às suas necessidades de uso.
Não compre software à toa
Os cerca de 4.500 dabbawallas (literalmente, pessoa com uma caixa) de Mumbai entregam mais de 175.000 refeições diariamente na cidade. Cada um faz aproximadamente 40 entregas numa das cidades mais caóticas e populosas do mundo. Não há meios de transporte adequados, não há planejamento urbano, não existem ciclovias, e não há espaço para tanta gente junta na cidade. Mais, as entregas são controladas com um sistema de anotações coloridas nas caixas de entrega. Não há software para registrar os pedidos, nem GPS para controlar os tempos de entrega. Mesmo assim, eles cometem apenas um erro a cada 16 milhões de entregas.
Entregando comidas. Alguém vê alguma tecnologia moderna aí? (fonte)
Quando morei na Índia, em Bangalore, um sujeito batia na minha porta toda semana para levar minhas roupas para a lavanderia. Anotava os itens a lápis num caderninho amarelado pelo tempo. Fazia o mesmo com todos os demais moradores do prédio e saía de lá com dois sacos enormes de roupas presos em cada lado de sua pequena lambreta. Na semana seguinte voltava com as roupas limpas, sem misturá-las com a dos demais moradores. Não havia software nem smartphone para fazer os registros de seus clientes.
Em São Paulo existe uma rádio exclusivamente dedicada a alertar os ouvintes dos problemas de tráfego na cidade. Por mais triste que seja uma cidade precisar de um serviço como este, o mesmo ajuda bastante. Ele funciona baseado no feedback dos ouvintes via telefone ou SMS. Não é necessário que os carros da cidade possuam GPS para informar sua posição à rádio, nem software para processar em tempo real as informações recebidas.
Nos EUA, a venda de livros em 2009 totalizou US$23,9 bilhões. Livros como os conhecemos hoje começaram a surgir no começo do século XVIII mas sua história acompanha a origem da escrita, 5.000 anos atrás. O livro é uma das tecnologias em uso em larga escala mais antigas. Não precisa de fonte de energia, não quebra se cair no chão, permite anotações e marcações em qualquer lugar e pode durar centenas de anos. Os recentes ebooks, mesmo com todos os benefícios pregoados para alavancar suas vendas, venderam nos EUA cerca de US$313 milhões ou módicos 1,3% do total.
(fonte: Wikipédia)
O que todos estes exemplos têm em comum? Eles utilizam nenhuma ou quase nenhuma tecnologia moderna para realizar tarefas complexas como monitorar o tráfego de São Paulo ou lavar as roupas de milhares de pessoas em Bangalore. E não há software em uso em nenhum dos exemplos acima. Não há demanda para ele nestes casos porque as tecnologias mais, digamos, arcaícas como o lápis e o caderno são mais baratas e garantem a eficiência desejada.
Software deve atender a uma demanda social. Do contrário, não tem valor. Em linhas gerais, software bom é aquele que facilita nosso trabalho. De que adianta investir milhões em uma solução se é possível fazer o mesmo sem ela? Ou com uma muito mais barata? Tomemos o caso da rádio em São Paulo. A mesma poderia investir em GPSs para uma amostragem de carros e em um software que recebesse os dados das posições dos carros e processasse-os, permitindo a divulgação da informação do tráfego em tempo real. Mas com o feedback dos motoristas a informação que chega é quase em tempo real, sem nenhum dos custos com software ou GPS.
Desperdiça-se muito dinheiro com softwares desnecessários. Em órgãos públicos no Brasil, por exemplo, compra-se software porque é livre ou porque o dinheiro está disponível e será perdido no final do ano se nada for feito (volta para a União). Em empresas, compra-se software com a esperança de que os negócios melhorarão quando na verdade os processos internos é que estão ruins e precisam melhorar.
Por isto, atender a uma demanda social significa também rearranjar as práticas atuais que o software pretende melhorar. Uma nova solução de software, por si só, não trará ganhos para uma organização. Ao contrário, pode trazer prejuízos. A adoção de software, quando necessária, exige mudanças organizacionais. É preciso se adaptar aos benefícios que um software oferece.
Em muitos casos, o uso de softwares (ou outras tecnologias modernas) é hoje essencial para um negócio. Mas estes se tornam cada vez mais pré-requisitos e não diferenciais competitivos. Os diferenciais não estão nas tecnologias em si mas na maneira como são utilizadas. Repare que as entregas feitas pelos dabbawallas em Mumbai ocorrem sem o uso de nenhum tipo de tecnologia moderna. E se apesar disto eles recebem tanta atenção de acadêmicos e jornalistas é porque a forma como uma organização se estrutura é mais crucial para o seu sucesso que tecnologia pura e simples.
Mais:
- O site Street Use: Supreme low tech [en] coleciona exemplos de negócios usando quase nada de tecnologia
- A excelente matéria do The New Yorker avalia os benefícios do Kindle (o leitor de livros eletrônicos da Amazon) em relação ao livro impresso.