Continuando o passeio pelo sudoeste da França, ainda na região metropolitana de Toulouse (tema do post anterior), principalmente se você é um aficionado por aviões, é imperdível fazer um tour pelas fábricas da Airbus, inclusive a que fabrica o gigante A380. Dá para visitar e conhecer também um pouco mais do antigo Concorde. A visita é guiada (francês ou inglês) e, atenção, deve ser agendada com no mínimo 2 dias de antecedência. Você pode escolher dentre algumas opções de visita e pagar de acordo com sua escolha. O site específico para as visitas dá mais detalhes.
Depois é partir para um dos destinos nas redondezas. O mais perto e um dos mais interessantes é talvez a cidade medieval de Carcassone que, aliás, dá nome ao jogo de tabuleiro. O centro da cidade ainda preserva as fortificações construídas ao longo dos séculos XI e XIII. Carcassone tem aeroporto e vôos da Ryan Air mas não recomendo ficar na cidade. De Toulouse é fácil e barato ir de trem ou agendar passeios de um dia. Em Toulouse também é possível agendar passeios pelo Canal do Meio-Dia. Ele é o canal mais antigo em funcionamento na Europa e permite a navegação entre o Mediterrâneo e o Atlântico.
Dentre os destinos um pouco mais distantes, nos Pirineus ao sul há estações de ski, parques naturais, e cidadelas medievais. Ao norte de Toulouse, no Vale do Lot há vinícolas, mais parques naturais e cidades medievais. À oeste há a cidade de Bordeaux, praias, dunas, turismo de aventura, tantos outros parques naturais e outras e numerosas vinícolas na região de St. Emilion. Para todas estas regiões, no entanto, é preciso um pouco mais de tempo. Vale a pena reservar pelo menos 2 ou 3 noites em cada uma delas.
Cada um destes destinos serão destrinchados em próximos posts.
Dicas para toda a viagem
- Com exceção de Bordeaux cuja ida de trem é apropriada e de regiões bem próximas de Toulouse onde é possível agendar passeios diários, é recomendável que você alugue um carro para conhecer o interior do Sudoeste da França. As pequenas cidadelas medievais, as vinícolas e as belas paisagens naturais nos trajetos entre uma cidade e outra não estão nos pacotes de agências e não têm estação de trem. Mas você vai querer parar para conhecê-las.
- Reserve tempo na sua viagem para surpreender-se. É comum descobrir pequenas vilas, marcos históricos, belas paisagens, restaurantes, vinícolas, dentre outras atrações pouco conhecidas e que não estavam no seu roteiro. Não ter tempo para apreciar estas descobertas é arrependimento garantido.
- Considere a visita na baixa estação. As cidades pequenas do interior costumam ficar entupidas de turistas e os hotéis ficam caros e lotados. Na baixa estação é possível reservar quartos em simpáticos hotéis 2 estrelas por cerca de EUR 40 e visitar tudo com calma.
- Coma os queijos e tome os vinhos da região. Procure se informar com moradores e lojistas a especialidade de cada cidade.
- Se você gosta de Jazz, fique ligado nas datas do Festival Internacional de Jazz que ocorre todo verão em Marciac, uma minúscula cidade com pouco mais de 1.100 habitantes distante 130km de Toulouse.
Tags: dicas, Sudoeste da França, toulouse
Toulouse fica no sudoeste da França. É sede da Airbus e portão de entrada para visitar os Pireneus. Está também à meia distância entre o Mediterrâneo e o Oceano Atlântico. Por seu tamanho, atrativos e localização, Toulouse é uma base excelente para quem planeja conhecer diferentes regiões do sudoeste da França. De lá, chega-se em aproximadamente 2 horas à Bordeaux, do lado atlântico, à Narbonne, do lado mediterrâneo, ou em diferentes cidades nas cordilheiras dos Pireneus ao sul ou do vale do Lot ao Norte. Sem contar que a cidade rosa de Toulouse, em si, é charmosa, diversa e com muita história para contar.
Algumas das regiões de destaque no sudoeste da França. Toulouse está marcada com a letra M, ao centro.
Com traços de presença humana desde o século VIII a.C., a cidade viveu intensamente o período romano, e passou por diferentes reinados até o século XI d.C., pela influência Católica na idade média, pela monarquia francesa, até chegar à república. Após a revolução francesa, entretanto, a cidade perdeu sua força de influência na região, sendo “rebaixada” a capital do departamento de Haute-Garrone. Só no século XX ela começou a recuperar seu prestígio e riqueza, primeiro se tornando a capital da região de Midi-Pyrénées (da qual o departamento de Haute-Garrone é hoje uma das subdivisões) e, mais tarde, vencendo a disputa com Bordeaux para receber a sede da Airbus.
Após os massivos investimentos da indústria aeroespacial, a cidade enriqueceu. E suas universidades cresceram junto, fazendo de Toulouse uma das cidades mais jovens da França. A tradução da riqueza e juventude se vê no centro histórico impecavelmente bem conservado, na variedade de entretenimento disponível, e em sua infra-estrutura, um exemplo para outras cidades na França. Exemplos como o sistema de bicicletas públicas Vélo Toulouse são de dar inveja (mas podemos adotar a bicicleta no Brasil também). São 242 estações e milhares de bicicletas espalhadas pela cidade disponíveis para utilização gratuita por 30 min. É tempo mais do que suficiente para ir de uma estação a praticamente qualquer outra na cidade, utilizando bicicletas muito bem equipadas.


À esquerda, um dos pontos para retirada de bicicletas. Basta colocar seu cartão de crédito e escolher o número da magrela desejada. À direita, a fachada frontal do Capitole.
Passear por Toulouse de bicicleta é ótimo. Vale a pena conhecer a cidade assim se estiver com pouco tempo. Em apenas um dia dá para visitar os principais pontos e ainda curtir a noite em agitados bares. A primeira parada na cidade deve ser na praça do Capitole. O Capitole é a sede do governo municipal desde o século XVI e destaca na fachada o rosado característico de toda cidade. O prédio hoje ainda abriga uma Cia. de Ópera e a Orquestra Sinfônica de Toulouse.
De lá, qualquer ruela escolhida será um agradável passeio pela história da cidade. No caminho, placas descrevem o significado e contam a história de casas, fontes, estátuas e igrejas. Recomendo o trajeto do Capitole até a bela Basílica de St. Sernin. Em épocas mais quentes também vale o passeio pelas margens do rio Garonne. No inverno, opte por um dos bons museus da cidade. Eu gostei muito do museu da Fundação Bemberg, na mansão de Assézat. Já vale pela visita à mansão em si, mas ainda fui surpreendido pelo acervo renascentista em exibição.
No próximo post falo dos arredores da cidade e de algumas dicas para conhecer o restante da região. Enquanto isto, veja mais fotos de Toulouse no Álbum de Fotos:
Capitole
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View of the Garonne River – Source: http://www.isae.fr/
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Tram in the new line of Toulouse – Source: http://www.trams-in-france.net/
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Tags: Igreja, museu, Sudoeste da França, toulouse, trânsito
Amanhã, como em toda última sexta-feira do mês, acontece a bicicletada. Um passeio de bicicleta pela cidade com o objetivo de conscientizar motoristas, e divulgar a bicicleta como solução para o trânsito e para o aumento da qualidade de vida nas grandes cidades.
Em São Paulo, o encontro começa às 18h e os ciclistas saem às 20h da Praça do Ciclista, no cruzamento da Av. Paulista com a Rua da Consolação. No Rio há dois locais de encontro: um às 19h na Cinelândia (em frente ao ODEON) e outro na esquina da Praia de Botafogo com São Clemente a partir das 18h. No Rio, em particular, haverá outro encontro neste domingo. Trata-se da pedalada suburbana, com horário de saída às 9h, do portão principal da Quinta da Boa Vista. Em Vitória, a concentração desta sexta-feira começa às 19h na antiga ponte da passagem em Jardim da Penha.
Há muitas outras cidades pelo Brasil onde o movimento ocorre. Procure na sua. Se ainda está na dúvida se deve ir ou não, conheça melhor os benefícios de sair por aí pedalando.
Tags: bicicletas, trânsito
Visitei São Paulo algumas vezes, o suficiente apenas para conhecer seus principais atrativos e ter uma primeira impressão formada. Gosto da cidade mas vejo-a cada vez mais como peças de Lego desencaixadas: bairros inteiros se voltam para eles próprios e ficam cada vez mais distantes uns dos outros graças aos engarrafamentos que interligam a cidade. Aos poucos, a cidade vai exarcebando suas desigualdades.
“O distrito de Moema, que abriga a Vila Nova Conceição, bairro com o metro quadrado mais caro de São Paulo, possui uma renda per capita média de 5,5 mil reais e um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,961, superior ao de países como Suíça, Dinamarca e Estados Unidos. (…) Com uma população de 124,9 mil habitantes, o distrito [de Jardim Helena] possui uma renda média de 584 reais e um IDH inferior ao de países como Gabão e Sri Lanka.” (Carta Capital, 580, p. 21)
Seria fácil culpar os governantes só pelos problemas que a cidade vem apresentando. No caso das chuvas que castigam a cidade recentemente, há vários indícios de problemas no desassoreamento do rio Tietê, dentre outros que estão longe de ter causa natural ou divina. No trânsito, a cidade teima em priorizar o alargamento e a expansão das ruas e avenidas enquanto a expansão do metrô caminha a passos lentos. E na periferia há ocupações irregulares por quem não teve outra opção e pouco investimento. O resultado é que 57% dos entrevistados numa pesquisa do IBOPE [pdf] disseram que sairiam da cidade se pudessem e caiu de 46% para 28% os que consideram o governo atual da prefeitura bom/ótimo.
Mas, embora o povo tenha sua parcela de culpa no voto, as eleições possuem uma lógica cruel. Procure no Google por informações sobre como se eleger vereador em São Paulo. A estratégia de quem ganha não passa por planos de melhorar a cidade. Ganha quem gasta mais na campanha e mobiliza (paga) mais cabos eleitorais em diferentes bairros e comunidades. O custo médio para se eleger vereador na capital chega a 1 milhão de reais.
Os governantes são, portanto, no mínimo duas vezes culpados: uma vez pela forma irresponsável com que se elegem e apóiam tal sistema (ao invés da trabalharem para adotar o financiamento público de campanha, por exemplo). Outra pela incompetência de suas gestões públicas. Para Rodrigo Martins, da Carta Capital (Edição número 580), os governos acabam por satisfazer primeiro os interesses de quem os financia. Para o cientista político Leonardo Sakamoto, “se houve melhora na maneira como a administração municipal trata os mais humildes em São Paulo, isso se deve à sua mobilização, pressão e luta e não a bondades de supostos iluminados ou da esmola das classes mais abastadas. Até porque nossos “grandes líderes” naufragam em tempos de chuva.”
São Paulo faz hoje 456 anos com pouco a comemorar.
Tags: chuvas, desigualdades, são paulo, tráfego, trânsito
Aprendi a andar de bicicleta quando pequeno mas raramente a utilizava como meio transporte. Aos poucos, enquanto crescia, ia deixando de lado as pedaladas, ao ponto de parar por completo. Redescobri a prática em 2003, quando morei na Finlândia. Passei a ir à universidade, a bares e restaurantes, ao supermercado, e às casas de amigos com minha bicicleta – mesmo quando o frio era de -25ºC. De lá pra cá, aos poucos, fui percebendo e entendendo a importância da bicicleta com parte da solução para o trânsito das grandes cidades.
Recentemente, comecei a pesquisar o assunto mais a fundo. Descobri que existem muitos mitos infundados em torno do uso da bicicleta no trânsito, e que para melhorarmos-o não é preciso grandes reformas de infraestrutura. O mais importante que falta é conscientização de motoristas e ciclistas. Motoristas precisam respeitar os ciclistas e dar a prioridade prevista no Código Trânsito a eles. E ciclistas precisam respeitar o Código de Trânsito.
Por este motivo, criei a seção Pedalando aqui no blog que reúne informações sobre os benefícios da bicicleta e a importância de respeitá-las no trânsito. Após lê-la, espero que comece a deixar seu carro mais em casa.
Tags: bicicletas, Carro, trânsito
Hoje, de bicicleta, dei a volta na parte continental de Vitória. Do Carrefour, na Reta da Penha, vou até a Praia do Canto e cruzo a ponte Ayrton Senna. De lá, sigo até o final de Camburi pela praia e, em seguida, entro em Jardim Camburi pela Avenida Gelo Vervloet Santos, contornando o Aeroporto Eurico Salles. Vou até o Hospital Vitória-Apart, já na Serra, e desço até chegar na Avenida Fernando Ferrari retornando assim à Vitória. Finalmente, percorro toda esta Avenida, passando pela Universidade Federal e cruzando a ponte da passagem, até chegar novamente ao Carrefour.
Ao todo são pouco mais de 18 Km em praticamente uma hora. É um trajeto bonito com vistas para a praia de Camburi, o Convento da Penha, o monte Mestre Álvaro, e a nova Ponte da Passagem. Teria sido perfeito se não fosse pela qualidade das ciclovias – quando elas existem. As únicas exceções estão na ciclovia da praia de Camburi e em um pequeno pedaço da ciclovia da Avenida Fernando Ferrari. Na primeira, o trajeto de pouco mais de 4 km é bem sinalizado e adequado para a mão dupla de bicicletas. Na segunda, num trecho de pouco mais de 1 km ao passar pela Universidade, não há sinalização mas o asfalto é bom e a ciclovia bem protegida de pedestres e carros.

(Mapa aproximado do percurso. As partes em azul são as que possuem boas ciclovias. Em vermelho as partes com ciclovias ruins e em preto onde não há ciclovia.)
Mas estes dois trechos são exceções. Nas outras partes onde existem ciclovias, não há sinalização ou conservação. Existem também vários desníveis e o percurso muitas vezes se confunde com o espaço para pedestres. Além disto, quase metade dos 18 km não possui nenhuma ciclovia e o ciclista é obrigado a disputar espaço com os carros nas ruas ou com pedestres nas calçadas. Muito pior é constatar que praticamente toda a cidade de Vitória encontra-se sem ciclovias e a prefeitura não parece demonstrar interesse nelas.
Dois exemplos recentes reforçam esta impressão. O primeiro é o da nova Ponte da Passagem. Não há ciclovia nela. O improviso dado pela prefeitura obriga o ciclista a passar por baixo do viaduto em frente à Universidade, em uma curva muito perigosa, para cruzar o canal pela ponte antiga. Depois, é obrigado a cruzar a avenida novamente, agora já na própria via porque não existe ciclovia na Reta da Penha, para respeitar a lei de trânsito e se manter no sentido dos carros. O segundo exemplo é ainda mais recente. A XX Feira do Verde, que começou no dia 10 e termina hoje, não reservou espaço para ciclistas. Parece que nem pensou neles. Não é permitida a entrada de bicicletas e não há bicicletários com segurança do lado de fora para deixá-las. Quer saber mais sobre o meio-ambiente e aprender a respeitá-lo? Vá de carro, claro.

(Projeto da nova Ponte da Passagem. Alguém vê alguma bicicleta?)
Há relatos similares de problemas não apenas na Capital mas em toda Grande Vitória por pessoas participantes do movimento Bicicletada. Parece-me que existe um ciclo vicioso em curso que ainda não foi quebrado: As pessoas não tem consciência da importância da utilização da bicicleta como meio de transporte e as prefeituras corroboram esta visão ao priorizar carros nos investimentos no trânsito.
Já passou da hora de mudarmos isto!
Tags: bicicletas, ciclovias, trânsito, vitória
Quem pôde ficar online durante o apagão deve ter se divertido um bocado também no Twitter. O serviço ficou repleto de boas piadas sobre a pane em Itaipu que provocou a queda de energia no Paraguai, em quase todo o Sudeste, e em partes da região Sul e Centro-Oeste. Abaixo uma seleção de pérolas que circulam o Twitter.
Do @pedrodoria:
“problemas de transmissao em Itaipu: aposto que é tudo culpa da Claro” (fonte)
“Furnas terminou a migração para o windows 7
” (fonte)
Do @almirante:
“A luz voltou no Paraguai. Mas deve ter vindo de contrabando.” (fonte)
“A condução da política energética brasileira desperta nossos instintos mais primitivos. O tato, no caso de hoje.” (fonte)
Do @prenass:
“A Madonna mandou um #jesusapagaluz e resultado #apagao” (fonte)
“Segundo @fofuji, o #apagao é um viral do filme #2012″ (fonte)
“Meu nome é John Connor e se você está lendo isso, você é a resistência. #terminator” (fonte)
Do @mvsmotta:
“Bom,já sabemos + ou – como será o fim do mundo:um monte de gente falando bobagens no Twitter e…BUM!” (fonte)
“Legal:vizinhos das ruas q já tem luz gritando “eu tenho,vc ñ tem”. (fonte)
“Agora é oficial:piadas envolvendo apagão+Madonna+Jesus Luz demonstram q nem depois q a energia voltar,seus neurônios “ligarão” (fonte)
De @mcbpeder:
“Neste natal vou pedir ao Papai Noel: 1 carro anfibio (p escapar dos alagamentos) e um gerador (para quando Itaipu tirar ferias)” (fonte)
“Tem velas no meu banheiro. Acabei de dar uma cagada super romântica.” (fonte)
Para mais pérolas, confira claro a tag #apagao.
- Aqui no blog houve uma boa de troca de comentários no post “Quem não conhece a Índia só vê seus extremos“
- A jornalista Cora Rónai está morando em Nova Délhi e já escreveu dois belos relatos da cidade. Um da parte nova e outro da antiga. Recomendo também os posts sobre Delhi aqui no blog.
- Um cidadão de origem Indiana dividiu o prêmio Nobel de química deste ano. Agora já são 13 indianos ou pessoas de origem Indiana a ganhar o prêmio em toda sua história. No Brasil, ninguém ainda ganhou.
- No dia 16 de Outubro, os motoristas de rickshaw de Bangalore entraram em greve contra a pressão do governo para que usem cores mais adequadas ao meio-ambiente e taximetros digitais. O resultado? Uma redução de quase 29% nos níveis de dióxido sulfúrico, 58.8% de óxidos de nitrogênio, 33,3% de óxido de carbono, e 18.1% nos níveis de partículas suspensas.
- Para quem quer saber mais sobre as condições de trabalho na Índia, dois Nova Iorquinos morando em Delhi escreveram um divertido post sobre o assunto. O filme Outsourced (“Despachado para a Índia” na horrível tradução para o português) também vale a diversão no mesmo tema.
Li um post sobre “curiosidades” da Índia e respondi a um amigo que era contra as afirmações do texto. Disse-lhe que aquele era um “texto típico de quem acabou de chegar na Índia pela primeira vez e não entende nada do país ainda.” Como meu amigo perguntou o porquê de estar tudo errado no texto lido, trago a resposta para o blog para estimular uma discussão:
Não é que esteja tudo errado com o post mas as afirmações jogadas ali soltas ficam fora de contexto.
Quem chega a Índia pela primeira vez sem saber nada, fala o que vê, e esquece de perceber as entrelinhas. A Índia é um país de muitos contrastes e extremos então não há uma verdade sobre o país. Vamos a alguns exemplos pontuais do texto do sujeito da moça:
Em Bangalore, 3a. maior cidade da India, não tem calçadas! As pessoas andam se amontoando na beira da estrada/rua/avenida mesmo junto com os carros, onibus, caminhões, auto-rickshaws, vacas , cachorros, e outros animais!
É claro que há calçadas! E em muitos lugares elas são melhores que muitas calçadas brasileiras. Em outros elas não existem mesmo. E não há um monte de gente, vaca, etc. em todos os lugares. As vacas, por exemplo, estão em grande parte apenas nas periferias da cidade.
Todos os lagos da cidade servem como cagódromo/ mijódromo, sem exceção, de dia ou de noite! Os muros também tem a mesma serventia, especialmente para os homens, claro!
Não são todos. No Lal Bagh, um jardim botânico, há um lago grande e muito limpo. Ninguém defeca ou urina ali. E muitos muros também são respeitados. Depende do tipo de pessoa que frequenta o lugar e da aparência/conservação do muro.
os bares/restaurantes/discos fecham as 11:30 da noite (desligam a musica e as pessoas são convidadas a se retirarem…)!
A maioria dos bares fecha mesmo às 11:30, alguns burlam a lei (subornam alguém) e conseguem fechar 2, 3 da manhã. Mas, independente disto, as festas/diversões não acabam 11:30 como o texto faz parecer. Sempre há um amigo com uma festa em algum lugar particular para prolongar a noite de quem quiser.
E por aí vai. Não vejo hoje, maniqueísmo na Índia como marinheiros de primeira viagem (inclusive eu, dois anos atrás) vêem. A Índia não é só o luxo da novela da Globo ou a miséria do filme “Quem Quer Ser um Milionário?”. Ao contrário, é um país de muitas dimensões e variações dentro destes extremos.
Tags: Animais, Bangalore, Curiosidade, Festa
Este final de semana tive uma longa e interessante discussão sobre, dentre outros assuntos, política. Mais especificamente a política brasileira atual. Foi uma boa conversa mas o resultado, pelo menos neste tópico, não me surpreendeu. Em geral, quando o assunto é política, entro numa roda com este tópico e as opiniões já estão formadas e as defesas preparadas. Mas não quero entrar no mérito deste comportamento. O objetivo aqui é expor três dos argumentos que considero mais comuns e a problemática de suas utilizações.
Começo pela corrupção e a crítica de que o governo atual é corrupto. Quem a faz parece esquecer-se que a corrupção faz parte de todas as sociedades, desde pelo menos Platão. Existe no mundo todo, mesmo entre países ricos e desenvolvidos, entre setores públicos e privados, e entre governos de direita e de esquerda. Além do mais, é difícil dizer se o Brasil é mais ou menos corrupto que outros países. Esta é uma medição tão difícil que até mesmo a organização Transparência Internacional parou de atualizar o seu Índice de Percepção da Corrupção. Por ser tão ubíqua, a corrupção não é, para mim, argumento para criticar ou elogiar um governo.
Não estou dizendo que devemos aceitá-la. Corrupção se previne, combate e pune, claro. Mas mesmo assim ela continuará existindo. Em Teoria de Jogos, a corrupção ocorre, por exemplo, quando os agentes (ou jogadores) conseguem burlar os mecanismos de um jogo e lucrar mais assim. Num jogo cujo objetivo é puramente maximizar os lucros, os jogadores sempre tentarão tomar ações com este objetivo em mente; e se for possível fazê-lo roubando ou mentindo, pouco importa. Na República de Platão (III, 361d), Glauco já se referia a tais possibilidades ao dizer que “não se deve querer ser justo, mas parecê-lo”. Glauco também cita a garantia de impunidade como uma das origens da corrupção.
Por isto as teorias se desenvolveram ao longo da história prevendo mecanismos de controle e de outros incentivos que não apenas o lucro. O objetivo era evitar, por exemplo, situações do tipo encontrado em jogos de soma zero, onde para um ganhar o outro tem que perder. Infelizmente, como bem diz o vencedor do Nobel de Economia, Douglass North (1990, p. 108), “(…) até nos casos onde o framework institucional contribui para capturar mais ganhos com comércio em relação a frameworks passados, ainda assim vão existir incentivos para trapaças, passageiros clandestinos, etc. que contribuirão para as imperfeições do mercado. Dadas as características comportamentais dos seres humanos, simplesmente não há nenhuma forma de se elaborar instituições capazes de resolver os complexos problemas inerentes às transações e ao mesmo tempo se ver livre de incentivos incompatíveis.”
Assim, não é porque uma organização se envolveu numa atividade ilícita ou que alguns de seus integrantes sejam corruptos que todas as suas qualidades devem ser descartadas. Para trazer um exemplo prático citado na conversa com meus amigos, a Petrobras foi acusada por um deles de realizar despejo programado de lixo de maneira irregular no mar. Ora, ela faz isto porque, voltando à teoria de jogos, ela “ganha” mais assim. Fosse outra empresa, pública ou privada, a história provavelmente seria a mesma. O desmatamento da Amazônia, o despejo de lixo no mar e em rios, a caça e pesca indiscriminada, dentre outros exemplos de violência ao meio-ambiente são cometidos por pessoas físicas e jurídicas de todos os tipos, no Brasil e no mundo inteiro. A Vale, para citar um exemplo de grande empresa privada brasileira, não é nenhuma santa também. Utilizar este argumento para invalidar todas as conquistas da Petrobrás é uma falácia lógica. Uma muito comum, aliás, de “prova por exemplo”. No exemplo aqui exposto, tal argumento só pode ser utilizado para afirmar que existe alguém na Petrobrás que age contra as leis ambientais. E, assim, não digo que esta pessoa está certa, pelo contrário, acho tal denúncia séria, deve ser investigada e o(s) envolvido(s) punido(s) para que, aí sim, o trabalho da empresa seja cada vez mais transparente e dentro das leis.
Desta maneira, quando defendo o trabalho e as conquistas do atual governo, não estou citando alguns exemplos isolados ou afirmando a incorruptibilidade do mesmo. E não é também uma defesa ideológica. Refiro-me a dados comparativos e a fatos. Mas daí, quando começo a falar deles, ouço que estatísticas podem ser manipuladas. Ora! Que conveniente, não é mesmo? Agora, quando os números não interessam é porque foram mascarados. Os números do Banco Mundial, da OECD e de órgãos brasileiros de medição que existem desde antes da nossa atual democracia, todos eles agora mascaram números, aparentemente só porque favorecem o atual governo de um único país. Em outras palavras, afirmar manipulação estatística é afirmar que todos os governos anteriores foram idôneos em relação às medições de seus indicadores e o governo atual foi o único a manipular os números para que houvessem as atuais quebras de recordes em séries históricas. Se não esta afirmação, ou seja, se houve manipulação em anos anteriores, o governo atual manipulou tanto a mais assim? Tal distorção não seria percebida pela oposição e imprensa, tão ávidas em refutar as conquistas deste governo?
Estes três argumentos, o da corrupção, o de exemplos isolados e o da manipulação estatística, para justificar uma suposta má qualidade da gestão do governo Lula são fracos. E mais interessante, irônico até, é que os mesmos poderiam facilmente ser aplicados a qualquer um dos lados. Fosse um governo liberal, de direita, que por ventura tivesse tido as mesmas conquistas, as mesmas poderiam ser “invalidadas” por causa da corrupção no governo, exemplos de fracasso, e uma suposta manipulação estatística. Onde está o mérito desta oposição, então? Não há. Na opinião de Rafael Galvão, em um dos blogs que mais me agrada atualmente, a oposição ao atual governo não consegue mostrar uma alternativa superior. O jornalista Pedro Dória também falou disto ao comentar a vitória do novo presidente americano ano passado: “Um dos resultados da eleição de Barack Obama é que a direita brasileira periga ficar órfã e terminar sem argumentos.”
Aí, sem saída, muitas pessoas parecem preferir repetir retóricas como as acima a mudar suas convicções.
Tags: corrupção, economia, governo, idéias, Mercado, política






