Lá e de Volta Conteúdo desconexo e aleatório…

29nov/072

Tchau Bangalore

Após 4 meses, hoje ficam para trás os vidros espelhados, o mármore e o granito, e os belos jardins dos prédios suntuosos das grandes empresas de Tecnologia da Informação (TI) de Bangalore. A cidade me recebeu bem mas não tive muito tempo para retribuir. Terei que esperar o ano que vem para realmente conhecê-la.

Na última semana aqui, tive algum tempo para retornar ao centro. No sábado passado, fomos eu e meu amigo Kris a uma apresentação de Qawwali, um estilo de música de devoção da religião chamada Sufismo, derivada de uma mistura do islã e do hinduísmo.

A apresentação é incrivelmente bela e uma noite clara de lua cheia deram um toque especial ao evento. O único porém é que Bangalore a noite nesta época do ano já é bastante fria. A temperatura lá, a céu aberto, devia estar beirando os 10 graus positivos.

Sobre a música em si, deixo vocês com um trecho para ser apreciado. Para tentar explicar um pouco, notem que cada música é repleta de improvisações e há troca de poesias entre os vocalistas principais (a mulher e o homem centrais) numa espécie de competição. O objetivo é compartilhar o amor e a devoção a Alá (ou Brahma, ou Deus de acordo com a religião de cada um) e alguns presentes chegam a entrar em transe.

Dias depois, nesta última quarta-feira, retornamos ao centro para fazermos algumas comprinhas. Claro que não sem antes almoçarmos num belo restaurante que contenha qualquer comida “não-indiana”. Não agüentava mais tanto molho e caldo apimentado.

Passamos o dia em lojinhas de roupas e artesanato procurando produtos no melhor estilo bom e barato. Os lojistas, claro, nos atendem com brilho nos olhos. Para eles, qualquer turista estrangeiro é uma chance de realizar uma boa venda.

Indo às compras…
Eu acho que esta é Parvati. Atrás de mim, meio escondido, está Ganesha. Estas estátuas custam pelo menos R$ 7.000,00

Já ao anoitecer retornamos cansados. Nestes últimos dois dias que se seguiram, apenas finalizamos preparativos para a verdadeira viagem que começa agora! Próxima parada, Delhi!

23nov/073

Lá ao Brasil e de Volta à Índia 2007-08 (1)

Conforme prometido, começo agora a narrar minha saga pelo mundo. O percurso promete de tudo um pouco, principalmente porque terei pouco tempo, pouco preparo, e pouco dinheiro para a empreitada. Assim, não vou me surpreender se tiver que incluir mais alguns “causos” no meu rol de trapalhadas internacionais...

No total, serão pelo menos 8 países pela Ásia e Europa, além do Brasil. Em ordem mais ou menos cronológica estão: Índia, Alemanha, República Tcheca, Polônia, Estônia, Finlândia, Brasil, Inglaterra, e Bahrein (Oriente Médio). Os trajetos serão percorridos com a menor quantidade de dinheiro possível, contando ainda com a possibilidade de dormir somente então – mais economia de tempo e dinheiro, claro.

A viagem começa aqui mesmo em Bangalore, já que faltou tempo para conhecer a cidade antes. Também vou aproveitar esta última semana na cidade para fazer algumas comprinhas, coisa pouca, algumas firulas aqui, supérfluos ali, e outras bobagens pelo caminho.

Na Sexta-feira próxima, dia 30, embarco à Nova Delhi, capital Indiana. Uma das cidades mais antigas do mundo (lendas estimam que a cidade tenha mais de 5.000 anos) merece uma atenção especial. O contraste do caos urbano com anos de história promete ser uma das principais atrações deste grande centro com mais de 13 milhões de habitantes.

A visita a uma das 7 novas maravilhas do mundo é a próxima parada. Em Agra encontra-se o Taj Mahal: O famoso mausoléu, concluído em 1654 pelo imperador Shah Jahan, foi projetado como local de descanso eterno para sua rainha preferida. Também na cidade, outra visita imperdível é à Fortaleza de Agra, construída em 1565 e posteriormente transformada em palácio.

Roteiro de Viagem
Clique no mapa para visualizar o nome das cidades que visitarei e a ordem da visita

Depois de 4 meses me matando de tanto comer pimenta aqui na Índia, finalmente embarco novamente à Alemanha. Por lá, pretendo retornar à Munique e em seguida visitar outro amigo em Chemnitz, cidade que teve forte influência da Alemanha Oriental até 1989.

Partiremos juntos eu e Sancho Pança rumo à República Tcheca e à Polônia. Visitaremos a capital destes dois países por uns dias. Como quero distância da realidade, deixo Pança para trás rumo a países pelos quais sempre fantasiei: Letônia, Lituânia, e Estônia. Os três são ex-integrantes da antiga União Soviética e recheiam o meu imaginário com contrastes culturais desde que os estudei pela primeira vez no Ensino Médio.

Helsinki é o último destino na primeira parte da viagem. A capital da Finlândia também é única em sua história e nas atrações que oferece. O próprio povo finlandês é uma atração à parte devido a seus hábitos inusitados. Apesar disto, meu principal objetivo na cidade é reencontrar amigos que lá deixei em 2003.

A primeira parte c’est fini ici. De Helsinki retorno ao Brasil para um belo descanso. Retorno à Índia somente após o natal e ano novo mas não sem antes visitar novos destinos.

No velho mundo visito Londres: Depois que fiquei sabendo que meu irmão (sujeitinho abusado) ia visitar a cidade, não podia deixar barato. Tratei de me programar para visitá-la também. Em seguida, aproveitando que meu vôo de retorno à Bangalore faz escala no Bahrein, pretendo também dar uma volta por lá.

Não sei até que ponto este roteiro será seguido à risca. Não é o que pretendo. Exceção feita às datas dos bilhetes aéreos, deixarei o restante da viagem o mais flexível possível, entregue às surpresas do acaso. Vamos ver no que dá...

Stay tuned!

14nov/076

Estagiários de TI em Bangalore

Este será meu último texto de cunho técnico-científico-econômico-político-social-filosófico-profissional do ano, prometo. Depois deste, semana que vem, começo a contar a minha viagem pelo mundo que começará aqui mesmo em Bangalore, dia 25 próximo. Já estou contando os dias para iniciar a jornada e retornar ao Brasil dia 18 de Dezembro...

O que segue é um resumo do que as empresas de Tecnologia da Informação (TI) estão oferecendo aos alunos finalistas aqui no instituto, durante o período de estágio obrigatório. Na verdade, os alunos do último semestre do curso precisam escolher entre ingressar no estágio ou escrever uma monografia. A grande maioria, claro, opta pelo estágio e as empresas não perdem tempo em conquistar as melhores cabeças pensantes.

Intel, EMC, HP, e GE estiveram aqui até agora ministrando palestras sobre as vantagens de se trabalhar em seus ambientes. As palestras em si, claro, são purpurinadas: Não por coincidência começam com um belo vídeo institucional e em seguida cada palestrante inicia seu discurso mostrando os brilhos de sua empresa.

Todas elas, sendo gigantes mundiais, foram capazes de impressionar os alunos com alguma estatística (sempre na casa dos bilhões de dólares) e com uma variedade incrível de produtos e serviços prestados. A GE, por exemplo, que começou com a genial idéia da lâmpada incandescente aperfeiçoada por Tomas Edison, hoje atua em áreas como aviação, finanças, energia, saúde, e transportes. A propósito, o maior centro de Pesquisa e Desenvolvimento da GE no mundo fica aqui em Bangalore.

Ao final das apresentações, detalhes específicos da rotina de trabalho foram sendo revelados. Em termos técnicos, todas requerem conhecimento das linguagens de programação C/C++, Java, e alguma outra da plataforma .NET. Claro que também são esperados conhecimentos básicos de Ciência da Computação (infra-estrutura de redes, sistemas operacionais, arquitetura de computadores, etc.) mas estes variam em grau de exigência de uma empresa para outra, e até mesmo de uma divisão para outra dentro da mesma empresa.

A Intel, por exemplo, é rigorosa quanto aos conhecimentos de C/C++, sistemas operacionais, e arquitetura de computadores. A HP e a EMC possuem divisões que trabalham desde o desenvolvimento de sistemas de informação (exigindo conhecimentos de mais alto nível), a desenvolvimento de drivers e sistemas embutidos (softwares que operam dentro de uma impressora, por exemplo).

Em termos de rotina de trabalho, todas elas oferecem horários completamente flexíveis (desde que as tarefas sejam cumpridas), fornecem laptops, permitem o trabalho em casa, mantém várias estruturas de lazer no próprio ambiente de trabalho (academias, cinemas, sala de jogos, etc.), e realizam programações culturais. A quantidade de ambientes voltados a atividades de lazer, aliás, dá uma idéia do tamanho dos escritórios. Só aqui em Bangalore há locais onde mais de 3.000 pessoas trabalham.

Elas também normalmente possuem uma hierarquia bem horizontal e com programas de reposicionamento em qualquer escritório do mundo, em qualquer uma de suas divisões. A GE chega a bancar programas de mestrado e doutorado para os empregados contratados após o período de estágio.

Diante de tantas maravilhas, você já deve estar se perguntando: E o salário? Bem, lembre-se que este ainda é um país pobre, mais pobre que o Brasil, e que o custo de vida aqui é bem inferior ao brasileiro. Assim, para o programa de estágio, os salários variam entre R$ 600,00 e R$ 900,00. Depois de contratados, os ex-alunos passam a receber em torno de R$ 1.500,00 mais alguns benefícios como plano de saúde, alimentação, e transporte. Segundo algumas empresas, pode demorar até 6 anos para que um profissional recém-contratado se torne um gerente com um salário em torno de R$ 3.000,00.

A título de comparação, um artigo recente da revista The Economist lista a média salarial mais os bônus dos gerentes de TI em diversos países do mundo. Enquanto a média anual no Brasil é de quase US$ 80.000 (cerca de R$ 150.000 por ano), na Índia esta média é de US$ 25.000.

Para ser selecionado para o estágio, os alunos precisam primeiro fazer uma prova de aptidão (conhecimentos gerais, lógica, etc.) e uma prova técnica. Depois desta triagem, os selecionados passam por uma entrevista com o departamento de recursos humanos, e outra com os gerentes ou diretores de áreas. A Intel é a exceção neste caso: Nela, a triagem é feita apenas através da análise de currículo. Os selecionados, então, vão direto para entrevista técnica.

Uma vez contratados, os estagiários da EMC começam imediatamente a pôr a mão na massa. Não tem esta de ser treinado primeiro. A GE, no outro extremo, aplica treinamentos que podem durar mais de um mês antes do estagiário sequer começar a trabalhar.

Curiosamente, todas as empresas enaltecem com firmeza cada um dos benefícios acima e criticam os concorrentes como se não oferecessem condições similares. Como falta mão-de-obra qualificada, parece que vale tudo para disputar os melhores alunos.

4nov/072

Hinduísmo: Mitologias da Criação

Quem sou eu? O que esperar desta vida? É o destino ou o acaso que nos guia em nossos passos, muitas vezes excessivamente precavidos para não deixarmos nossa zona de conforto? Mas o que fazer quando o conforto nos deixa sem avisar, ávido por nos dissimular quando menos esperamos? O nascimento é o início e a morte o final? Existe um deus (ou muitos deles)? Para que tantas perguntas sem resposta?

As respostas (ou parte delas) começam com um círculo. O círculo é a mais espontânea das formas naturais. Ela pode ser vista em pequenas bolhas, no horizonte e no sol que se põe, nas estrelas, e nos planetas. O círculo também é a forma que melhor representa o universo do Hinduísmo. Os Hindus vêem o mundo como atemporal, sem amarras e fronteiras, cíclico e infinito. Este universo é o meio pelo qual o divino se apresenta; o divino pode ser visto em qualquer elemento deste universo.

***

O deus Ganesha, removedor de obstáculos, venerado por sua sabedoria, tem um irmão, Murugan. Diz a lenda que ambos disputavam o amor dos pais ferozmente até que chegaram a um consenso quanto à decisão: quem percorresse o universo mais rapidamente teria o lugar de destaque no coração deles.

Murugan, deus da guerra, parte sem pestanejar em seu pavão. Certo da vitória, nem olha para trás. Ganesha, por sua vez, olha delicadamente para os pais, dá uma volta em torno deles e diz:

- Vocês são meu universo!

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Para os Hindus, Brahma é Deus e cria o mundo. O mundo que ele cria não é apenas este mundo externo material, objetivo, governado por princípios físicos e matemáticos. É também o mundo interior e subjetivo dos pensamentos e dos sentimentos.
Na verdade, Deus não “cria” o mundo. Ele simplesmente fez todas as criaturas perceberam a sua existência. Esta percepção leva à descoberta. Descobrir é criar.

Este mundo descoberto por Brahma é envolto na Deusa. Ela sempre existiu mesmo quando ninguém a observava. Para Brahma, a Deusa é Shatarupa, aquela que toma infinitas formas. Shatarupa é também Saraswati, deusa do conhecimento, na qual em suas infinitas formas reflete à resposta da pergunta de Brahma: Quem sou eu?

Esta questão é o impulso da criação. Ela fez Deus abrir os olhos e olhar para a Deusa.

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Deus tem várias formas: Ele cria o mundo como Brahma, o mantém como Vishnu e o destrói como Shiva. Um dia, Shiva começou a cantar. A melodia era tão doce que comoveu Vishnu e o fez chorar. De tanto chorar, Vishnu derreteu-se e pôde ser colocado num pote por Brahma.

O pote então foi derramado na Terra e seu conteúdo foi delicadamente abençoando tudo a seu redor, até se transformar no Rio Ganges: Banhar-se no Ganges é banhar-se em Deus.

***

Como em um círculo, a vida nunca acaba, não tem começo, nem fim. Está em um constante ciclo de idas e vindas neste universo. Não há o que esperar após a morte. Você não sabe o que vai acontecer no próximo instante, para que se preocupar com o que vai acontecer depois dela? Tudo no mundo Hindu é renascimento. Pessoas morrem e renascem. Sociedades morrem e renascem. O cosmo morre e renasce. Tudo vai e volta, como num balanço, como num círculo.

PS: Este texto contém fragmentos da mitologia Hindu extraídos do livro “A Handbook of Hindu Mythology”, de conversas com amigos aqui na Índia, e da leitura da Wikipédia. O Hinduísmo não possui manuscritos absolutos que governam a religião como é o caso da Bíblia e do Alcorão. Uma mesma história ou deus no sul da Índia pode ter um significado completamente diferente no norte. Por isto, considerem este apenas mais uma interpretação do que este povo acredita.