Em Cracóvia, lendas de dragão e trombeteiro
“Alô pessoal! Aqui é um brasileiro em Varsóvia rumo à Cracóvia, desejando a todos um belo dia e uma viagem segura!” Foi assim que anunciei minha presença (em inglês) num rádio de baixa freqüência no carro de meu amigo. Cracóvia, claro, foi muito mais divertida que Varsóvia.
No dia anterior, nosso amigo alemão retornou à Chemnitz, sua terra natal, por conta da pressão no trabalho. Tinha um projeto de pesquisa para terminar e atrasos não eram muito tolerados. Restou a mim e ao meu amigo polonês acordar bem cedo rumo ao sul do país. Na saída de Varsóvia um tráfego surpreendente foi classificado como rotineiro: Levamos os típicos 30 minutos numa das principais rodovias de acesso à capital. Em seguida, fomos “presenteados” com uma neblina muito espessa praticamente o tempo todo. Não deu para ver a paisagem ou desconcentrar do trânsito até chegarmos ao nosso destino.
Paramos o carro próximo da estação de trem em Cracóvia e seguimos a pé. No caminho, construções antigas (e preservadas!) caracterizavam uma cidade bem diferente da capital. Cracóvia não foi tão bombardeada nem teve uma revolta local tão intensa e duradoura como em Varsóvia durante a Segunda Guerra. Para explicar um pouco, a cidade tem suas origens lá no século VII e chegou a ser capital da Polônia durante 1038 e 1596. Também fez parte do Império Austríaco entre 1846 e 1918 e atualmente é a capital de uma das províncias polonesas no extremo sul do país. Turisticamente a cidade é atrativa pela incrível quantidade de monumentos históricos que preserva e pelas opções de vôos baratos (que só a Europa tem) principalmente oriundos de Londres. Não à toa, a cidade está entupida de britânicos da mesma forma e pelos dois mesmos motivos que Praga.

Praça Central. Do lado direito a Basílica de Santa Maria, no centro o Hall de Drapers, e do lado esquerdo a torre da prefeitura. Fonte da foto: Wikipédia
Tínhamos só um dia na cidade então tivemos que nos contentar apenas com as principais atrações do lugar. Fomos primeiro à Praça Central, local originalmente concebido para mercantes no século XIII. No entorno, não dá para não notar a Basílica de Santa Maria, e suas duas colunas, uma diferente da outra, em estilo gótico. Diz a lenda que, no século XIII, um trombeteiro foi flechado na garganta do alto de uma das torres enquanto soava um alarme para alertar a população da invasão mongol. Até hoje a mesma melodia é tocada de hora em hora e interrompida pela metade simbolizando a fatídica morte do pobre trombeteiro.
Dentro da Basílica, destaque para o Retábulo de Veit Stoss, o maior retábulo em estilo gótico da Europa, esculpido por Veit Stoss entre 1477 and 1489. O danado é gigante, tem mais de 12 metros de altura e 11 metros de largura quando os painéis estão abertos. Ou seja, 132m² de área é maior que muito apartamento no Brasil.
Já era pra lá de meio-dia quando saímos da Basílica e meu estômago roncava. Graças ao meu amigo, fomos a um restaurante típico, que nenhum turista vai. O local era simples mas bem cuidado, não tinha nenhuma decoração ou cardápio ou garçom. Aliás, nem banheiro tinha, era só cozinha e uma sala de uns 30m² onde os clientes se espremiam. E eu nem sei o que comi. Na hora ele me falou o nome mas o diacho do polonês é muito complicado e já absorvi a minha parcela de línguas complicadas com o finlandês. Anyway, saí de lá satisfeito e pronto para seguir em frente.
Retábulo de Veit Stoss. Fonte: Wikipédia
A parada seguinte foi o Castelo de Wawel, referência na Europa Oriental e curiosamente considerado um dos sete chakras do mundo pelos Hindus. Esta última informação eu li lá em Cracóvia e confirmei agora na Wikipédia. No local, tesouros guardados por séculos, e o pátio interno do palácio em estilo renascentista são os destaques. Como na Basílica, ali também há espaço para lendas e folclores. A mais difundida é a do Dragão de Wawel: Nela, um dragão vivia numa gruta no pé da colina onde se encontra o Castelo de Wawel. E ele aterroriza as cidades próximas e deixava rastros de destruição por onde passava. Para evitar mais ataques, uma jovem donzela era deixada todo mês na entrada da gruta para que o dragão a devorasse (sempre as pobres das donzelas são as que sofrem).
Vista externa do castelo
Quando só sobrou a filha do rei, a sua mão foi prometida em casamento a quem matasse o dragão. Após inúmeras tentativas fracassadas, um aprendiz de sapateiro resolveu se arriscar. Mas ao invés do ataque direto, estufou enxofre em um carneiro abatido e ofereceu ao dragão. No dia seguinte, o monstro acordou com uma sede terrível e começou a beber incontrolavelmente a água do rio Vistula. A sede não passava e o dragão bebeu tanta água que explodiu. O aprendiz de sapateiro se tornou o herói da cidade, casou-se com a princesa, e os dois viveram felizes para sempre...
Já anoitecia quando deixamos as Colinas de Wawel. Antes de partimos, porém, ainda fizemos uma parada rápida para um belo chocolate quente. Já no trajeto de volta à Varsóvia, minha cabeça estava no destino seguinte: Finlândia. A possibilidade de rever o país que foi minha casa por um ano entre 2002 e 2003 me deixara ansioso desde quando deixei a Índia. E finalmente o momento chegara.
Detalhe do pátio interno do castelo