Uma semana depois de ter chegado à Bangalore, parti para Cingapura. Fui convidado a participar de um casamento e não podia perder esta oportunidade única. Antes de falar da cerimônia (assunto para outro post), uma introdução se faz necessária: O país é composto de 63 pequenas ilhas ao sul da Malásia, entre este e a Indonésia, e praticamente não há distinção entre o país e a cidade (é uma coisa só, de tão pequeno). Devido a sua privilegiada posição geográfica, na rota entre o Oceano Índico e o Mar da China Meridional, a região se viu influenciada (e muitas vezes colônia) de portugueses, holandeses, malaios, ingleses, japoneses e chineses desde o século II d.C.

Independência e a formação do país como ele é hoje, só veio mesmo em agosto de 1965, após dois anos de uma tentativa frustrada de união com a Malásia. À época, o país era bastante pobre como muitos ainda o são no sudeste asiático. O domínio inglês entre 1819 e 1959 e a ocupação japonesa durante a Segunda Guerra deixaram bastantes cicatrizes. “Pertencer” à Malásia (a fusão foi uma tentativa voluntária) durante dois anos também não foi muito produtivo já que este último tem até hoje problemas graves a resolver.

Assim, foi através de políticas públicas corretas, conscientização da população através da educação, leis severas, além de outros fatores menos importantes como a língua (inglês é uma das oficiais, e falada fluentemente por muitos), posição geográfica, e o tamanho populacional e territorial que este país se transformou, em 40 anos, numa grande força econômica no mundo, oferecendo excelente infra-estrutura e condições sociais aos seus cidadãos. Não à toa, portanto, chegar ao suntuoso Aeroporto de Changi (um dos melhores do mundo), vindo da Índia, causa um impacto tão grande que é difícil explicar. O outro lado é que muitos turistas acham o país um tédio só: Não há poluição, pobreza, tráfego caótico, sujeira, falta de educação, grandes aglomerações, e problemas de infra-estrutura. Tudo funciona de maneira tão eficiente e organizada que para muitos não há “emoção” na visita.

Talvez por ter amigos por lá e ter tido o privilégio de ser apresentado à cidade por eles, achei tudo formidável. Isto foi reforçado também por outros três motivos além do vínculo de amizade: Primeiro, a presença de três grandes grupos étnicos (chineses, malaios e indianos) é evidente e contribui bastante para a diversidade cultural (embora eu não tenha notado tanta miscigenação). Além disto, o poder econômico do país garante a preservação do patrimônio histórico e faz questão de destacá-lo em excelentes museus e em áreas abertas muito bem cuidadas. Por último, a modernidade oferece ainda parques temáticos, shoppings, meios de transporte eficientes, e segurança para se andar sossegado pelas ruas a qualquer hora do dia ou da noite. Apesar do clima extremamente quente e úmido, e das doenças tropicais (dengue, malária, etc.) que parecem ser o único problema ainda grave, esta é para mim uma das cidades mais atraentes que já visitei.

No dia 25 de Janeiro, quando cheguei, fui recebido por dois amigos de Cingapura e um alemão (o mesmo que viajou comigo à República Tcheca e à Polônia) que também fora convidado para o casamento. Já anoitecia então fomos direto ao Parque da Costa Leste, uma área aberta e arborizada às margens do Estreito de Cingapura, dedicado à prática de esportes e ao lazer, com várias opções de bares e restaurantes. Enquanto botávamos o assunto em dia, caminhávamos pela praia observando o pôr-do-sol atrás do moderno centro financeiro que visitaria dois dias depois. Do outro lado, também à distância, o pouso de aviões (inclusive um gigantesco Airbus A380) podia ser apreciado a todo instante. Mais tarde, no caminho para o hotel, paramos num distrito árabe para tomarmos o melhor (segundo meu amigo) teh tarik (um tipo de chá com leite condensado) de Cingapura e conhecermos a Mesquita do Sultão, construída pelo Sultão Hussain em 1826 (em um post futuro explico a colonização inglesa e a relação com o sultão).

Fotos do dia 25

O dia seguinte, 26, foi todo dedicado ao casamento (sim, um dia inteiro de cerimônias). Certamente contarei os detalhes depois. No dia 27, então, tratei de conhecer o centro da cidade. Depois de almoçar num restaurante barato do lado do hotel, tratei de ir direto ao Museu Nacional conhecer um pouco mais da história do lugar. O prédio foi construído em 1887 e completamente renovado em 2006. O aparato tecnológico chama a atenção do visitante mais incauto: Comprei o ticket num terminal e um funcionário me entregou uma espécie de computador de mão que ia me informando dos fatos históricos enquanto caminhava pelas exibições. Um luxo que não vi em nenhum outro museu até hoje.

Em seguida, caminhei em direção centro comercial e financeiro. No caminho, paradas estratégicas para contemplar os preparativos para o então próximo ano novo chinês (o atual ano do rato), a moderna Esplanade (com salas de teatro e concerto), e os belos prédios do governo como o do parlamento e da prefeitura. Cruzei o Rio de Cingapura e finalmente cheguei ao distrito financeiro. Um das principais avenidas vai gradativamente se transformando numa Times Square, tal qual Nova Iorque. Não vi muita graça então segui em frente, rumo à Chinatown.

Lá, vi finalmente uma Chinatown rica culturalmente e vibrante. Uma enorme feira livre parecia abastecer a região de energia. O vai e vem de pessoas era incrível, a gritaria dos vendedores era típica, e os cheiros de frutas, legumes, carnes, incensos, e perfumes era uma mistura sem igual. Depois de ter caminhado uns 10km até ali, não tinha melhor local para sentar e comer o que quer que fosse. Acabei comendo um pastelão recheado de legumes e carne de galinha desfiada. Logo ali, no meio de uma das ruas do mercado, está também o Centro Cultural de Chinatown. O local é imperdível por proporcionar uma visita ao passado da região, mostrando como viviam os primeiros moradores.


360 graus em torno do mercado em Chinatown

Antes de pegar o metrô de volta ao hotel, ainda parei para visitar os templos Buddha Tooth Relic (algo como o Templo da Relíquia do Dente de Buda) e o Thian Hock Keng, mais antigo deste tipo em Cingapura. À noite, fomos a uma pequena ilha ao sul, para assistir a um show de luzes projetadas em jatos de água. A atração chamada de Songs of the Sea (Músicas do Mar) foi lançada em 2007, custou S$ 30 milhões, dura pouco tempo e só me interessou pelos efeitos especiais. Foi um troço bem bobo, devo dizer.

Fotos do dia 27

No dia seguinte voltamos à Sentosa para conhecer as outras atrações. Fomos ao oceanário (incrível passear por “dentro” dele através de tubos), ao forte, ao orquidário, e à torre Carlsberg (110 metros de altura). A ilha é basicamente um parque de diversões com atrações para vários gostos e idades. Saímos de lá direto para o aeroporto onde jantamos pela última vez com o casal recém-casado.


Passeio “dentro” do oceonário

Fotos do dia 28

Quatro dias não foram suficientes para conhecer tudo. Não fui ao bairro indiano (já que conheço a Índia original), nem ao zoológico (um dos maiores do mundo). Também não fiz nenhum dos passeios recomendados nas florestas e ilhas das redondezas. Por outro lado, tive o privilégio de participar de todos os momentos (até os restritos somente a familiares) de um autêntico casamento chinês. Foi de fato mais uma destas viagens inesquecíveis que guardamos no coração.

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6 Responses to “Cingapura, cidade do leão”

  1. So pra ser a primeira….hehehehe depois leio com calma.
    Estou no Rio com Tia Bia e ela manda beijos.
    Muitos meus,
    Mamae

  2. Estou fazendo um curso (casar) e me pediram para falar sobre o casamento de Cingapura.
    Não tinha idéia deste lugar, voce me ajudou muito.
    Mas…. dá para passar detalhes do casamento, tipo cerimonial, trajes, recepção, etc….
    Obrigada.

    Lúcia Borges

  3. Oi Lúcia, espero que meu post recente, exatamente sobre este tema esclareça a questão para você.

    Abraço,
    Ricardo

  4. Olá Ricardo.

    Muito legal este texto escrito por ti.

    Estou interessado em trazer produtos de Cingapura para o Brasil, te pergunto qual o tipo de negócio/produto é confiável por lá?

    Será q dá p/acreditar naquele pessoal?

    Se puderes me ajudar te agradeço.

    Mauricio

  5. Mauricio, te respondi por e-mail mas aqui vai a mesma resposta para todos.

    Sei pouco sobre Cingapura mas o suficiente para dar-lhes um voto de confiança.

    Poucos produtos são produzidos lá. A maioria é apenas ‘gerida’ no país. A produçào vai para paises mais pobres como Vietnã ou Malásia - mais ou menos igual a Nike faz.

    Mas não à toa o país é um dos maiores exportadores e um dos maiores centros financeiros do mundo. É preciso dar-lhes o mérito de um trabalho sério construído ao longo de 50 anos.

    Não tenho conhecimentos específicos para te ajudar mais. Recomendo que você procure a embaixada do Brasil lá ou uma câmara de comércio.

    Abraços,
    Ricardo

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