Lá e de Volta Sobre tecnologia e sociedade

19mai/084

O BIAL daqui é outro…

...mas está me dando muito mais dor de cabeça que ser forçado a assistir à versão brasileira no BBB. Em Bangalore, BIAL (Bangalore International Airport Ltd.) é a sigla do consórcio responsável pelo novo aeroporto da cidade. A construção, ao contrário do que todos e principalmente o governo Indiano esperavam, ficou pronta no prazo previsto, 31 de março de 2008. O resultado é que a cidade passou a ter um novo aeroporto moderníssimo mas sem meios de chegar até ele. Simplesmente não havia infra-estrutura rodoviária ou ferroviária e sua abertura teve que ser adiada.

Agora, o que eu não esperava é que a danada da inauguração fosse transferida exatamente para o dia do meu embarque ao Brasil, próxima sexta-feira, 23 de maio. Justamente no dia em que tudo é novidade e ninguém possui a mínima experiência em lidar com os eventuais problemas que certamente estarão presentes no primeiro dia. Maldita Lei de Murphy!!!

Como se não bastasse, o novo aeroporto fica no lado oposto da cidade. Para todos no centro, já fica bem distante, pouco mais de 40 km. Para mim, está a 66 (mais um 6 aí e já viu, né?). A distância parece relativamente pequena mas lembrem-se que o tráfego indiano não é exatamente o mesmo do brasileiro (talvez a única exceção seja São Paulo). Não à toa, a duração prevista da “viagem” no trajeto é de praticamente 3 horas.

A novela não acaba aí. A população (com apoio de poderosos empresários) está pressionando o governo a manter o aeroporto atual aberto. O consórcio do novo aeroporto não aceita e alega que estava previsto nos termos do contrato a desativação do atual. E o governo, com eleições se aproximando, fica em cima do muro. Declarou que, por hora, o aeroporto atual fica fechado.

Acho que sexta-feira vou chegar com umas 10 horas de antecedência para o embarque...

PS: Mais detalhes (em inglês) aqui e aqui.

14mai/082

Jim Champy no IIIT-B

O americano James A. Champy ou Jim Champy como ele próprio se apresenta esteve aqui no IIIT-B no dia 12 de fevereiro de 2008. Champy é nada menos que uma das principais cabeças que conceberam a reengenharia na gestão de empresas no começo da década de 90. Seu livro “Reengineering the Corporation: A Manifesto for Business Revolution” escrito em 1993 vendeu mais de 2,5 milhões de cópias.

Aqui, o sujeito veio basicamente divulgar seu novo livro: “Outsmart!: How to Do What Your Competitors Can't”. O burburinho nos corredores é de que ele cobra US$75.000 por uma palestra e como acredito que o IIIT-B certamente não pagou este valor, Champy teve liberdade para falar do que quisesse e como bem entendesse.

O resultado foi medíocre, devo admitir, e espero mesmo que esta palestra não represente sua melhor forma. Perguntas foram muito freqüentes e interrompiam-no o tempo todo, e o conteúdo basicamente limitou-se ao livro, típica auto-ajuda para empresários. Enfim, apesar do currículo, Champy não falou nada de muito diferente do que tantos outros gurus pelo mundo falam.

Entretanto, há sempre o que se extrair de positivo: A propaganda embutida na palestra começou com o conceito fundamental (e óbvio) de que a execução das atividades numa empresa deve fazer parte de sua estratégia. Champy defende  que estratégia (e a execução da mesma) deve ser focada nos resultados de longo prazo e deve ser considerada desta maneira, principalmente pensando na sustentabilidade da empresa.

Sustentabilidade foi inclusive uma palavra enfatizada diversas vezes. É comum as empresas se preocuparem com estratégias de curto prazo pensando num resultado imediato de um produto ou campanha de marketing, por exemplo. Só que elas se esquecem que o mercado é dinâmico e está em mudança constante e isto as torna vulneráveis. Por isto as políticas de “offshore” e “outsourcing” (que são a prática aqui na Índia no mercado de TI) foram muito criticadas por Champy na palestra. Segundo ele, este tipo de estratégia focada em baixos custos engessa a empresa num modelo de negócios que a torna incapaz de mudar com agilidade, impedindo que o cliente seja atendido com qualidade. Vide os modelos de “call center” no mundo todo.

Além disto, não há como mudar modelos de negócios sem assumir riscos e realizar investimentos. E ao contrário do que parece, Champy tem visto empresas com bastante dinheiro em caixa e simplesmente não o gastam por medo do atual cenário econômico mundial.

Sobre as características dos líderes, nenhuma novidade: Eles são inspirados e inspiradores, abertos a discussão, transparentes, e aprendem rápido. O outro lado exposto é que eles também são vulneráveis, e erram. Mais importante, no entanto, é que eles estão preparados para errar e possuem uma sensibilidade de “just-do-it” (algo como “simplesmente faça”), tal qual o slogan da Nike.

No livro, as empresas destacadas são todas desconhecidas por mim (e claro, todas americanas): Sonicbids, MinuteClinic (uma proposta de clínica para pequenos atendimentos), Smith & Wesson (uma fábrica de revólveres com uma marca tão forte que seus clientes achavam que eles também fabricavam outros tipos de armas), Shutterfly (serviços fotográficos pela Internet, já não tão inovador assim), S.A. Roberts (uma empresa que ainda faz tudo por conta própria, ou seja é integrada verticalmente e não tem nada de outsourcing, devido ao risco envolvido no negócio), Jibbitz (empresa que teve uma idéia inusitada para enfeites de calçados e a transformou em negócio), PartSearch, e SmartPak Equine.

O que estas empresas têm em comum? Segue a lista de como elas se comportam, no melhor estilo receita de bolo, dada por Champy:
•    Ambição importa;
•    Intuição reina;
•    Foco prevalece (estas empresas nunca desviaram de seus objetivos principais);
•    O cliente manda;
•    A calma habilita (permite a execução das atividades necessárias);
•    Inovação vive;
•    Cultura orienta; e
•    Todo mundo participa.

Um episódio curioso ocorreu no final. O diretor do IIIT-B, Sowmyanarayanan Sadagopan, esteve presente durante toda a palestra e fez a seguinte pergunta: “Como você se sente ao realizar que muitas empresas fracassaram e perderam muito dinheiro ao adotar suas idéias de reengenharia no passado?” Ao que ele respondeu: “Eu estou tranqüilo quanto a isto. Eu me motivo perturbando o conforto e quero ser responsável por quebra de paradigmas.” Realmente o conforto de muitas pessoas foi perturbado na época, menos o dele..

10mai/081

Um casamento em Cingapura

Acordei às 6 da manhã. Um chinês falava um inglês carregado pelo telefone, informando-me que já era a hora solicitada no dia anterior. No dia anterior, fui dormir às 2 da manhã, exausto de tanto andar por Cingapura, o país-cidade que visitei em janeiro e que estava devendo contar os detalhes do casamento, motivo pelo qual lá estive.

Conto agora. Acordei cedo pois o pai da noiva iria nos pegar (eu e meu amigo alemão) às 7 para o primeiro momento da cerimônia - a danada aparentemente iria durar o dia todo, e vararia a noite. Pois bem, às 7, lá estava o pai da noiva pontualíssimo (se fosse aqui na Índia, eu poderia acordar as 7 sem problemas, já que os atrasos é que são pontuais). Percorremos ruas mais distantes do centro turístico em direção ao seu apartamento mas no caminho a paisagem não mudava. Belos prédios e casas, ruas arborizadas, e bastantes parques e jardins. Cingapura estava impecável!

***

Mas abro um parêntese para um aviso. O país e “seus povos” misturam-se pouco. Descendentes de Indianos, Malaios, e Chineses vivem em bairros próprios e tiveram papéis diferentes na história da região. Os dois primeiros foram (e ainda são, em muitos casos) a mão-de-obra barata do país. Consequentemente foram também menos favorecidos no acesso à educação e na participação política. O resultado é que os bairros mais pobres, embora uma minoria, formam comunidades de indianos ou malaios, distantes dos chineses. Além disto, e pelo mesmo motivo, relato aqui um casamento de origem chinesa. Certamente malaios e indianos possuem outras tradições.

***

Ainda bocejava incontrolavelmente quando chegamos ao condomínio onde moravam a noiva (minha amiga) e seus pais. Ela estava com a mãe, vestida e sendo fotografada e filmada. O pai logo se juntou à trupe atarefada. Falei pouco com a noiva o dia inteiro, pois. Era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, já que a programação era apertada: haveria um café da manhã e uma espécie de encenação pela manhã, almoço e rituais religiosos no começo da tarde, na casa do noivo, mais um almoço na casa da noiva e, só então, a cerimônia religiosa e a festa à noite.

Noiva com os pais, logo quando cheguei à casa deles
Noiva com os pais, logo quando cheguei à casa deles

É difícil explicar todos os detalhes pois tudo era novidade para mim, com poucos paralelos em experiências anteriores que tive. Dentro do possível eu perguntava mas respostas individuais podem não ser representativas da realidade do país, apenas daquelas famílias. Além do mais, não falo mandarim então boa parte dos rituais milenares foram incompreensíveis para mim. O restante fluiu bem pois os cingaporeanos mais jovem falam inglês praticamente o tempo todo.

A encenação programada para a manhã era uma espécie de conjunto de prendas que o noivo teria que pagar para “conquistar” a noiva. No seu quarto, ela pretenderia se mostrar desinteressada pelo amor do noivo até que ele realmente provasse para ela do que era capaz de fazer por este amor. A proposta era bem humorada e servia para congregar padrinhos e madrinhas.

O noivo chegou de Rolls-Royce, acompanhado dos padrinhos, a maioria amigos dos tempos da faculdade. Logo eles foram recepcionados pelas madrinhas, gritando do alto da varanda do apartamento a primeira prenda para que fossem autorizados a subir. Teriam que cantar uma música ridícula, bem alto, para todo o condomínio ouvir. Em seguida, na porta do apartamento, mais prendas. Os padrinhos foram obrigados a comer pimenta e, já na sala, a rebolar com um coração enfeitando seus traseiros (veja o vídeo). Após toda a humilhação, o noivo ainda teve que ler e concordar com um “contrato de casamento” completamente parcial. Dentre os termos, alguns bem conhecidos por nós brasileiros:

  • Prometo lavar o banheiro todos os dias, sem nenhum tipo de reclamação;
  • Se houver qualquer diferença de opinião, a palavra final é da esposa;
  • Meu dinheiro é seu dinheiro; mas seu dinheiro é SEU dinheiro;

E por aí vai, até que finalmente a noiva se rende “às provas de amor” do noivo e os dois se encontram e se beijam. O casamento agora é oficial! (Tá, antes também já era só que o noivo ainda não tinha passado pelo ridículo necessário).


Vídeo do noivo e os padrinhos numa dança ridícula

A brincadeira durou umas 3 horas e já estava quase na hora do almoço. Partimos pois para a casa do noivo. Este trajeto, tradicionalmente, era marcado por uma procissão onde a família da noiva literalmente a carregava até a casa do noivo. Amuletos, fogos de artifício e outros apetrechos eram usados para espantar o mal e o azar. No nosso caso, fomos todos de carro mesmo.

Lá, a noiva trocou de roupa pela segunda vez (trocaria mais umas três vezes ao longo do dia). Usava agora um lindo vestido vermelho com gravuras de dragões e fênix bordados. O vermelho traz boa sorte e os animais representam o equilíbrio entre a força do masculino e do feminino. Nestes trajes, noiva e noivo eram abençoados por todas as gerações dos pais do noivo, numa tal de “Cerimônia do Chá”. Nela, a noiva servia chá a todos os familiares, dando preferência aos mais velhos, com algum propósito que não entendi muito bem.

Noivos e tal cerimônia do chá
Noivos e tal cerimônia do chá

E aí vieram os almoços. Primeiro na casa do noivo e logo depois, da noiva. Comi muito e até aquele momento não havia nenhuma surpresa no cardápio. Parecia a comida chinesa a qual estava habituado no Brasil. Após o segundo almoço, partimos para o hotel onde ocorreria a troca de votos de casamento e a recepção. (Reparou que não tem igreja?) No ínterim, algumas horas de descanso nos foram dada. Também ficaríamos no hotel a convite dos noivos mas eu não tinha idéia de quão luxuoso ele era. E o Raffles Town Club era um verdadeiro palácio. Meu quarto, o mais simples, tinha dois ambientes e uma banheira de hidromassagem. Claro que aproveitei tudo e, claro, acabei perdendo a hora.

Quando cheguei, a cerimônia religiosa de casamento (restrita apenas aos familiares) estava acabando. Praticamente ouvi apenas o “Eu os declaro marido e mulher” e um show de purpurina que veio em seguida. Mas não deu tempo nem de me arrepender pelo atraso pois os convidados para a recepção já começavam a chegar. Praticamente nada de especial aqui. Aliás, nossas cerimônias no Brasil são muito mais animadas. Eu fiquei sentado praticamente o tempo todo, numa mesa com outras dez pessoas que conheci ao longo do dia e meu amigo alemão. A cerimônia se resumiu a um banquete com oito refeições (oito é um número de sorte para chineses), uma celebração com espumante, e um vídeo mostrando fotos antigas do casal e os eventos do dia que antecederam à cerimônia. Um detalhe só, dentre os pratos do jantar, comi pepinos-do-mar e águas-vivas. Ambos igualmente gosmentos e um tanto sem gosto. Não sei como eles conseguem gostar tanto...

Tudo acabou por volta da 1 da manhã. Despedi-me dos noivos, agradecendo-os por tudo e voltei para o meu luxuoso quarto. Dormi até o último minuto permitido, meio-dia, quando tive que deixar o hotel. Continuei em Cingapura por outros dois dias e já contei os detalhes no post anterior.

PS: Mais detalhes sobre casamentos chineses disponíveis (em inglês) aqui e aqui.