Um casamento em Cingapura
Acordei às 6 da manhã. Um chinês falava um inglês carregado pelo telefone, informando-me que já era a hora solicitada no dia anterior. No dia anterior, fui dormir às 2 da manhã, exausto de tanto andar por Cingapura, o país-cidade que visitei em janeiro e que estava devendo contar os detalhes do casamento, motivo pelo qual lá estive.
Conto agora. Acordei cedo pois o pai da noiva iria nos pegar (eu e meu amigo alemão) às 7 para o primeiro momento da cerimônia – a danada aparentemente iria durar o dia todo, e vararia a noite. Pois bem, às 7, lá estava o pai da noiva pontualíssimo (se fosse aqui na Índia, eu poderia acordar as 7 sem problemas, já que os atrasos é que são pontuais). Percorremos ruas mais distantes do centro turístico em direção ao seu apartamento mas no caminho a paisagem não mudava. Belos prédios e casas, ruas arborizadas, e bastantes parques e jardins. Cingapura estava impecável!
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Mas abro um parêntese para um aviso. O país e “seus povos” misturam-se pouco. Descendentes de Indianos, Malaios, e Chineses vivem em bairros próprios e tiveram papéis diferentes na história da região. Os dois primeiros foram (e ainda são, em muitos casos) a mão-de-obra barata do país. Consequentemente foram também menos favorecidos no acesso à educação e na participação política. O resultado é que os bairros mais pobres, embora uma minoria, formam comunidades de indianos ou malaios, distantes dos chineses. Além disto, e pelo mesmo motivo, relato aqui um casamento de origem chinesa. Certamente malaios e indianos possuem outras tradições.
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Ainda bocejava incontrolavelmente quando chegamos ao condomínio onde moravam a noiva (minha amiga) e seus pais. Ela estava com a mãe, vestida e sendo fotografada e filmada. O pai logo se juntou à trupe atarefada. Falei pouco com a noiva o dia inteiro, pois. Era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, já que a programação era apertada: haveria um café da manhã e uma espécie de encenação pela manhã, almoço e rituais religiosos no começo da tarde, na casa do noivo, mais um almoço na casa da noiva e, só então, a cerimônia religiosa e a festa à noite.

Noiva com os pais, logo quando cheguei à casa deles
É difícil explicar todos os detalhes pois tudo era novidade para mim, com poucos paralelos em experiências anteriores que tive. Dentro do possível eu perguntava mas respostas individuais podem não ser representativas da realidade do país, apenas daquelas famílias. Além do mais, não falo mandarim então boa parte dos rituais milenares foram incompreensíveis para mim. O restante fluiu bem pois os cingaporeanos mais jovem falam inglês praticamente o tempo todo.
A encenação programada para a manhã era uma espécie de conjunto de prendas que o noivo teria que pagar para “conquistar” a noiva. No seu quarto, ela pretenderia se mostrar desinteressada pelo amor do noivo até que ele realmente provasse para ela do que era capaz de fazer por este amor. A proposta era bem humorada e servia para congregar padrinhos e madrinhas.
O noivo chegou de Rolls-Royce, acompanhado dos padrinhos, a maioria amigos dos tempos da faculdade. Logo eles foram recepcionados pelas madrinhas, gritando do alto da varanda do apartamento a primeira prenda para que fossem autorizados a subir. Teriam que cantar uma música ridícula, bem alto, para todo o condomínio ouvir. Em seguida, na porta do apartamento, mais prendas. Os padrinhos foram obrigados a comer pimenta e, já na sala, a rebolar com um coração enfeitando seus traseiros (veja o vídeo). Após toda a humilhação, o noivo ainda teve que ler e concordar com um “contrato de casamento” completamente parcial. Dentre os termos, alguns bem conhecidos por nós brasileiros:
- Prometo lavar o banheiro todos os dias, sem nenhum tipo de reclamação;
- Se houver qualquer diferença de opinião, a palavra final é da esposa;
- Meu dinheiro é seu dinheiro; mas seu dinheiro é SEU dinheiro;
E por aí vai, até que finalmente a noiva se rende “às provas de amor” do noivo e os dois se encontram e se beijam. O casamento agora é oficial! (Tá, antes também já era só que o noivo ainda não tinha passado pelo ridículo necessário).
Vídeo do noivo e os padrinhos numa dança ridícula
A brincadeira durou umas 3 horas e já estava quase na hora do almoço. Partimos pois para a casa do noivo. Este trajeto, tradicionalmente, era marcado por uma procissão onde a família da noiva literalmente a carregava até a casa do noivo. Amuletos, fogos de artifício e outros apetrechos eram usados para espantar o mal e o azar. No nosso caso, fomos todos de carro mesmo.
Lá, a noiva trocou de roupa pela segunda vez (trocaria mais umas três vezes ao longo do dia). Usava agora um lindo vestido vermelho com gravuras de dragões e fênix bordados. O vermelho traz boa sorte e os animais representam o equilíbrio entre a força do masculino e do feminino. Nestes trajes, noiva e noivo eram abençoados por todas as gerações dos pais do noivo, numa tal de “Cerimônia do Chá”. Nela, a noiva servia chá a todos os familiares, dando preferência aos mais velhos, com algum propósito que não entendi muito bem.

Noivos e tal cerimônia do chá
E aí vieram os almoços. Primeiro na casa do noivo e logo depois, da noiva. Comi muito e até aquele momento não havia nenhuma surpresa no cardápio. Parecia a comida chinesa a qual estava habituado no Brasil. Após o segundo almoço, partimos para o hotel onde ocorreria a troca de votos de casamento e a recepção. (Reparou que não tem igreja?) No ínterim, algumas horas de descanso nos foram dada. Também ficaríamos no hotel a convite dos noivos mas eu não tinha idéia de quão luxuoso ele era. E o Raffles Town Club era um verdadeiro palácio. Meu quarto, o mais simples, tinha dois ambientes e uma banheira de hidromassagem. Claro que aproveitei tudo e, claro, acabei perdendo a hora.
Quando cheguei, a cerimônia religiosa de casamento (restrita apenas aos familiares) estava acabando. Praticamente ouvi apenas o “Eu os declaro marido e mulher” e um show de purpurina que veio em seguida. Mas não deu tempo nem de me arrepender pelo atraso pois os convidados para a recepção já começavam a chegar. Praticamente nada de especial aqui. Aliás, nossas cerimônias no Brasil são muito mais animadas. Eu fiquei sentado praticamente o tempo todo, numa mesa com outras dez pessoas que conheci ao longo do dia e meu amigo alemão. A cerimônia se resumiu a um banquete com oito refeições (oito é um número de sorte para chineses), uma celebração com espumante, e um vídeo mostrando fotos antigas do casal e os eventos do dia que antecederam à cerimônia. Um detalhe só, dentre os pratos do jantar, comi pepinos-do-mar e águas-vivas. Ambos igualmente gosmentos e um tanto sem gosto. Não sei como eles conseguem gostar tanto…
Tudo acabou por volta da 1 da manhã. Despedi-me dos noivos, agradecendo-os por tudo e voltei para o meu luxuoso quarto. Dormi até o último minuto permitido, meio-dia, quando tive que deixar o hotel. Continuei em Cingapura por outros dois dias e já contei os detalhes no post anterior.
PS: Mais detalhes sobre casamentos chineses disponíveis (em inglês) aqui e aqui.
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Category: Cingapura | Tags: casamento, Dragão, Fênix, Hotel, Prendas, Tradição-Chinesa One comment »
maio 10th, 2008 at 08:40
Ei Ric,
Que festa bacana!!!! E você tem tido notícias deles?
Que disposição para tanta festa…e eles não descansaram em tempo algum? O tempo todo acordado e festejando?
Beijos,
Astrid