O governo do estado de Kerala, no litoral sudoeste da Índia, se define assim: “God’s own country” (literalmente, “O próprio país de Deus” ou simplesmente “paraíso de Deus”), uma referência às belezas naturais e à riqueza cultural da região. Mas há muitas inconsistências nesta definição. Embora os indicadores sociais do estado sejam um dos melhores da Índia, a região também sofre com os males da pobreza e das diferenças religiosas. Paraíso de Deus? Primeiro é preciso determinar a qual deus o slogan se refere já que além do hinduísmo, catolicismo, islamismo e até mesmo judaísmo possuem influências históricas por lá.
Bem vindo à Kerala. Placa em má conservação na divisa do estado dá uma idéia da qualidade da rodovia
Estive em Kerala em maio mas só agora encontro tempo para contar o passeio, minha primeira viagem no sul da Índia. Como tudo foi decidido em cima da hora, não tivemos outra opção senão alugar um carro. No total, foram 5 dias entre os vários destinos visitados e uma experiência muito boa. O estado pode não ser um paraíso mas não deixa de ter seus encantos e uma identidade própria forte e marcante. Danças, festivais, culinária, e artesanato típicos se misturam às influências européias e ao único regime estadual de extrema esquerda da Índia, tornando Kerala um caldeirão cultural, como toda Índia, mas com tempero exclusivo.
Neste post conto como foram as viagens de ida e volta ao estado, partindo de Bangalore. Nos próximos dois, conto respectivamente como foram as paradas em Alleppey e Cochin, as principais cidades que visitamos.
Estrada na Índia é sinônimo de estresse. À noite então tudo fica ainda pior. A menos que você esteja no trajeto entre duas grandes cidades, as chances são grandes de a rodovia ser praticamente toda esburacada, sem nenhuma sinalização, e com um trânsito de ônibus e caminhões ensandecidos de fazer qualquer um considerar as rodovias brasileiras perfeitas. O trajeto de Bangalore até Cochin possui cerca de 540 km. Só que demora umas 14 horas… Fez as contas? Isto mesmo, a média de velocidade é 40 km/h!!!
Menino vendendo repolhos
O que compensa são as atrações da beira da estrada. Ao cruzar as divisas de estados, por exemplo, vendedores ambulantes tentam atrair nossa atenção com macacos e cobras. Fomos obrigados a fechar o vidro pois tenho certeza que um daqueles macacos safados iria entrar no carro e roubar alguma coisa. Além disto, os ônibus e caminhões são uma alegoria interminável de velharias coloridas e iluminadas. Em geral, eles não passam de um latão quadrado com rodas e, no caso dos ônibus, estão sempre lotados, com gente até no teto. E as ultrapassagens dão emoção à viagem. Perdi a conta do número de vezes que nosso motorista foi obrigado a parar no acostamento por conta de um caminhão tentando passar outro ao mesmo tempo em que um carro ultrapassava os dois. Ah! E claro, o pneu furou! O pneu sempre fura nestas viagens. Já vi carro aqui com dois pneus sobressalentes porque às vezes o segundo pneu fura antes de encontrarmos uma borracharia para consertar o primeiro.
Na volta, entretanto, não tivemos tantos problemas. Ao contrário, passamos o dia inteiro, mais que as 14 horas da ida, aproveitando as belezas da nova rota escolhida, parando aqui e ali para fotos. É que escolhemos uma estrada menos freqüentada, recomendação de amigos, mas que corta um dos melhores e mais bem cuidados parques nacionais da Índia, o Nagarhole. A rota também passa por uma região muito bonita de Kerala chamada Wayanad, ponto turístico para quem gosta de trekking e demais atividades em contato com a natureza.
Por lá vimos macacos, veados, e elefantes selvagens. Há tigres na região também mas para vê-los é preciso se embrenhar floresta a dentro. Foi de fato um trajeto muito bonito, com algumas paisagens de tirar o fôlego (para quem conhece, a subida da serra lembra muito o trajeto Vitória à Pedra Azul) e muito menos trânsito. Ali estava um pedacinho de paraíso.
Subindo a serra
Finalmente, pouco antes de chegarmos à Bangalore. Ainda paramos em Mysore para contemplarmos o seu belíssimo palácio construído em 1912 para abrigar a então família real da região. Uma pena que já era noite quando chegamos e não pudemos entrar naquele dia. Mysore tem muitas outras atrações e certamente será assunto aqui no blog no futuro.
Palácio de Mysore
No próximo post, Alleppey e suas famosas águas represadas.
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Tags: Animais, Estradas, Florestas, Kerala, Mysore, Palácio, tráfego





Dezembro 21st, 2008 at 17:25
Ricardo parabéns pelo seu trabalho na Índia.Tenho um amigo daí.Ele trabalha em Dubai.Gostei dos seus comentários.Desejo muita sorte pra você.Mas queria saber se não há protestantismo em Kerala.Há pessoas muito pobres?