Lá e de Volta Sobre tecnologia e sociedade

22out/098

Quem não conhece a Índia só vê seus extremos

Li um post sobre "curiosidades" da Índia e respondi a um amigo que era contra as afirmações do texto. Disse-lhe que aquele era um "texto típico de quem acabou de chegar na Índia pela primeira vez e não entende nada do país ainda." Como meu amigo perguntou o porquê de estar tudo errado no texto lido, trago a resposta para o blog para estimular uma discussão:

Não é que esteja tudo errado com o post mas as afirmações jogadas ali soltas ficam fora de contexto.

Quem chega a Índia pela primeira vez  sem saber nada, fala o que vê, e esquece de perceber as entrelinhas. A Índia é um país de muitos contrastes e extremos então não há uma verdade sobre o país. Vamos a alguns exemplos pontuais do texto do sujeito da moça:

Em Bangalore, 3a. maior cidade da India, não tem calçadas! As pessoas andam se amontoando na beira da estrada/rua/avenida mesmo junto com os carros, onibus, caminhões, auto-rickshaws, vacas , cachorros, e outros animais!

É claro que há calçadas! E em muitos lugares elas são melhores que muitas calçadas brasileiras. Em outros elas não existem mesmo. E não há um monte de gente, vaca, etc. em todos os lugares. As vacas, por exemplo, estão em grande parte apenas nas periferias da cidade.

Todos os lagos da cidade servem como cagódromo/ mijódromo, sem exceção, de dia ou de noite! Os muros também tem a mesma serventia, especialmente para os homens, claro!

Não são todos. No Lal Bagh, um jardim botânico, há um lago grande e muito limpo. Ninguém defeca ou urina ali. E muitos muros também são respeitados. Depende do tipo de pessoa que frequenta o lugar e da aparência/conservação do muro.

os bares/restaurantes/discos fecham as 11:30 da noite (desligam a musica e as pessoas são convidadas a se retirarem...)!

A maioria dos bares fecha mesmo às 11:30, alguns burlam a lei (subornam alguém) e conseguem fechar 2, 3 da manhã. Mas, independente disto, as festas/diversões não acabam 11:30 como o texto faz parecer. Sempre há um amigo com uma festa em algum lugar particular para prolongar a noite de quem quiser.

E por aí vai. Não vejo hoje, maniqueísmo na Índia como marinheiros de primeira viagem (inclusive eu, dois anos atrás) vêem. A Índia não é só o luxo da novela da Globo ou a miséria do filme "Quem Quer Ser um Milionário?". Ao contrário, é um país de muitas dimensões e variações dentro destes extremos.

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Comentários (8) Trackbacks (0)
  1. Ahn… esqueci de comentar:

    O Brasil “sofre” do mesmo problema… as pessoas veem os contrastes e não se dão conta de quanto ele é parecido com outros países. Até as olimpíadas do Rio, esperemos ver muitos absurdos sobre isso aqui escritos por gente de fora.

  2. Opa, texto devidamente corrigido, obrigado Osias.

    No caso do Brasil, acho que o problema é menor porque os extremos são menores – exceção feita à violência, claro.

  3. Alias, este post me deu uma idéia para outros dois. Um sobre o extremo pobre e outro sobre o extremo rico da Índia.

  4. #Eba! Vou cobrar!

  5. Wow nice post!loved the way a Brazilian understood India in such short span..Thanks :)

  6. Oi Ricardo e leitores do blog,
    legal esta troca de impressões, e obrigada pelo “menina”‘…
    Acho que vc tem razão em apontar as exceções às regras – realmente as exceções fazem toda a diferença se tratando da India e do Brasil!
    Eu moro aqui há 10 meses e escrevo o que me impressiona, positiva ou negativamente. Por diversas vezes me perguntei se estaria sendo míope ao escrever sobre as coisas negativas, mas acho que deixaria de ser autentica se mascarasse alguns fatos que são, na minha opinião, muito gritantes.
    E sim, existem calçadas em Bangalore, mas com exceção dos lugares nobres tipo MG Road e arredores do Cubbon Park, são blocos de cimento colocados lado a lado normalmente com uma vala onde corre esgoto, agua da chuva e lixo – os chamados drains, onde cianças caem dia sim dia não.
    O fato deles usarem os lagos e muros pra defecar por exemplo – e é louvável que ninguem o faria dentro do Lalbagh – Jardim botânico, mas não vi durante todo o tempo que estamos aqui outra exceção a não ser estes lagos onde há algum tipo de vigilância tipo o Sankey Tank/ Ulsoor Lake. Se isso acontece no Brasil tbém, não creio que aconteça na terceira maior cidade do país, se respeitadas as proporções.
    Quanto as festas, eu me refiro sim a lugares públicos, não a festas particulares.
    Gostaria que vc tivesse mencionado/opinado sobre a questão das mulheres que ao meu ver é bem mais triste do que o restante exposto por mim.Acho que nós, brasileiros estamos bem mais preparados para tratar as mulheres como seres humanos, desde as crianças mulheres – que não são mortas pelo fato de nascerem mulheres, até as adultas, que não pagam dote pra casar nem morrem por causa dele.
    Eu não julgo a India por ser como é, só não concordo com o que vejo, e não pretendo endossar a imagem de que aqui se encontra a espiritualidade, o desapego aos bens materiais, etc…
    Creio que isso se encontra dentro da gente, num ambiente em que as pessoas são respeitadas pelo que elas são e não pelo que tem, onde oportunidades são oferecidas a homens, mulheres e crianças.
    O Brasil pode não ser este lugar para todos os brasileiros, assim como a India não é para a maioria dos indianos, mas é um país mais bonito, mais rico, mais limpo e mais educado.
    Nos consideramos super-privilegiados (as vezes até constrangidos) em ter carro, uma boa casa, empregada e poder proporcionar uma boa escola pras nossas crianças aqui. Mas a nossa “mordomia” não nos deixa entorpecidos perante as desigualdades, só nos faz ficar mais desacreditados da imagem que fazíamos da India até virmos pra cá.
    Estamos aprendendo com a experiência e acima de tudo, amamos mais o Brasil agora e vamos fazer mais por ele quando voltarmos,com certeza. Essa tem sido a grande lição aprendida.
    Espero que mantenhamos contato.
    Atenciosamente, Giliane.

  7. Giliane,

    Obrigado pela resposta. Morei aí em Bangalore por 2 anos. Saí agora em agosto mas ainda existe a possibilidade de volta.

    No meu post, não falei de exceções ao que você chama de “regras”. Não acho que estas regras existam. Quis mostrar que a Índia possui várias gradações dentro dos seus vários extremos. A Índia é pobre? Claro que é. 26% da população vive abaixo da linha de pobreza. Mas também é muito rica. Alguns dos maiores bilionários do mundo são Indianos (2 ou 3, não lembro, só entre os 10 mais) enquanto o Brasil tem apenas 1 ou 2 entre os 100 mais, só lá no final da lista.

    Falta investimento em tecnologia? Claro que falta, mas há também dinheiro suficiente para que o país fosse capaz de lançar um satélite à Lua. Mesmo não tendo chegado lá, o lançamento foi um sucesso e todo desenvolvido com tecnologia própria que o Brasil ainda não tem. Aliás, o Brasil também não tem ganhores do prêmio Nobel como a Índia.

    A lista continua… Não se trata, portanto, de mascarar os fatos, mas de contextualizá-los. É impossível generalizar um país com tanta diversidade socioeconomica como a Índia. Daí a origem da minha crítica ao seu texto. E poderia usar todos os seus pontos como exemplos.

    Sobre as mulheres, já que mencionou, todos os meus amigos Indianos que lá conheci tratam muito bem suas amigas, parentes mulheres, esposas e/ou namoradas. Tratam-nas melhor que muito homem no Brasil. E lembrando que a Índia já teve Primeira Ministra e presidente mulher. É claro que é triste o que acontece com tantas outras maltratadas brutalmente no país. Mas estes maustratos não são praticados por todos. Reconhecer estas diferenças é entender este país incrível com muitos problemas, muitas conquistas, e muita coisa entre estes extremos. Muitas vezes sem regras e sem exceções.


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