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25jan/103

São Paulo faz hoje 456 anos com pouco a comemorar

Visitei São Paulo algumas vezes, o suficiente apenas para conhecer seus principais atrativos e ter uma primeira impressão formada. Gosto da cidade mas vejo-a cada vez mais como peças de Lego desencaixadas: bairros inteiros se voltam para eles próprios e ficam cada vez mais distantes uns dos outros graças aos engarrafamentos que interligam a cidade. Aos poucos, a cidade vai exarcebando suas desigualdades.

“O distrito de Moema, que abriga a Vila Nova Conceição, bairro com o metro quadrado mais caro de São Paulo, possui uma renda per capita média de 5,5 mil reais e um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,961, superior ao de países como Suíça, Dinamarca e Estados Unidos. (...) Com uma população de 124,9 mil habitantes, o distrito [de Jardim Helena] possui uma renda média de 584 reais e um IDH inferior ao de países como Gabão e Sri Lanka.” (Carta Capital, 580, p. 21)

Seria fácil culpar os governantes só pelos problemas que a cidade vem apresentando. No caso das chuvas que castigam a cidade recentemente, há vários indícios de problemas no desassoreamento do rio Tietê, dentre outros que estão longe de ter causa natural ou divina. No trânsito, a cidade teima em priorizar o alargamento e a expansão das ruas e avenidas enquanto a expansão do metrô caminha a passos lentos.  E na periferia há ocupações irregulares por quem não teve outra opção e pouco investimento. O resultado é que 57% dos entrevistados numa pesquisa do IBOPE [pdf] disseram que sairiam da cidade se pudessem e caiu de 46% para 28% os que consideram o governo atual da prefeitura bom/ótimo.

Mas, embora o povo tenha sua parcela de culpa no voto, as eleições possuem uma lógica cruel. Procure no Google por informações sobre como se eleger vereador em São Paulo. A estratégia de quem ganha não passa por planos de melhorar a cidade. Ganha quem gasta mais na campanha e mobiliza (paga) mais cabos eleitorais em diferentes bairros e comunidades. O custo médio para se eleger vereador na capital chega a 1 milhão de reais.

Os governantes são, portanto, no mínimo duas vezes culpados: uma vez pela forma irresponsável com que se elegem e apóiam tal sistema (ao invés da trabalharem para adotar o financiamento público de campanha, por exemplo). Outra pela incompetência de suas gestões públicas. Para Rodrigo Martins, da Carta Capital (Edição número 580), os governos acabam por satisfazer primeiro os interesses de quem os financia. Para o cientista político Leonardo Sakamoto, “se houve melhora na maneira como a administração municipal trata os mais humildes em São Paulo, isso se deve à sua mobilização, pressão e luta e não a bondades de supostos iluminados ou da esmola das classes mais abastadas. Até porque nossos “grandes líderes” naufragam em tempos de chuva.”

São Paulo faz hoje 456 anos com pouco a comemorar.

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Comentários (3) Trackbacks (0)
  1. Pouco a comemorar ?
    Vai ler um pouco mais de economia antes de cuspir merdas na Internet. Segundo relatorio da ONU e varias Consultorias pelo mundo, 2020 SP estará entre as 10 cidades mais importantes do mundo. Hoje está entre as 20.
    É o principal polo economico de TODA a America Latina, e este fenomeno só está crescendo. Mesmo com todos os problemas citados por voce.

  2. Caro Murillo, obrigado pela visita ao blog.

    Discordo de você por achar que crescimento econômico desigual não é motivo para ser comemorado. Os Estados Unidos são o país mais importante (em termos econômicos) do mundo e mesmo assim amargam índices ruins de educação e saúde. Alguns países europeus e asiáticos possuem indicadores relativos à qualidade de vida que são muito melhores.

    Da mesma forma, São Paulo é o retrato de um país ainda muito desigual.
    Mas se esta força econômica é importante para você a qualquer custo, você deve mesmo comemorar. Mas cuidado ao sair às ruas comemorando. Muitos não vai partilhar de sua alegria (vide a insatisfação das pessoas na pesquisa que citei) e a violência, a poluição e os alagamentos ainda podem te pegar de surpresa.

    Grande abraço,
    Ricardo

  3. Em tempo, gostaria que você indicasse os links destes rankings que você citou. Principalmente o da ONU.

    Obrigado,
    Ricardo


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