Archive for setembro 2010


Por que votarei em Dilma Rousseff

setembro 30th, 2010 — 5:53am

Devidamente autorizado pelo autor, reproduzo abaixo o texto do sociólogo Celso Barros. Eu assino embaixo de todos os motivos para se votar em Dilma apresentados por ele.

Segue o texto:

Os três principais candidatos nessa eleição presidencial são muito bons. A terceira colocada deve ser Marina Silva, e Marina Silva seria melhor presidente que 90% dos presidentes do mundo. Levando em conta só os competitivos, nos últimos dezesseis anos só Garotinho (que a The Economist traduzia como “Little Kid”) avacalhou nosso currículo, onde, na minha modesta opinião, devemos ter orgulho de ostentar Lula e FHC.

Mas é preciso escolher, e, no que se segue, argumentarei que a melhor opção para o Brasil no momento é uma ex-guerrilheira nerd.

1.
Um bom governo, na minha opinião, deve (a) ser democrático, (b) não avacalhar a estabilidade econômica, e (c) combater a pobreza e a desigualdade. Por esses critérios, o governo Lula foi indiscutivelmente bom.

O governo Lula, tanto quanto o governo FHC, foi um governo democrático. Quem lê jornal no Brasil não apenas percebe que é permitido falar mal do governo, mas pode mesmo ser desculpado por suspeitar que falar mal do governo é obrigatório por lei. Os partidos de oposição atuam com plena liberdade, os movimentos sociais, idem, e, aliás, eu também. O Olavo de Carvalho se mandou para os Estados Unidos, dizem que com medo de ser perseguido politicamente, mas, se tiver sido por isso, foi só frescura. De qualquer modo, nunca antes nesse país exportamos tantos Olavos de Carvalho.

A economia foi muito bem gerida durante a Era Lula, a despeito do que falam muitos petistas (talvez preocupados com a falta de oposição competente). Companheiros, deixemos de falar besteira: a política econômica foi um sucesso. Mantivemos o bom sistema de metas de inflação implantado por Armínio Fraga no (bom) segundo governo FHC, e acrescentamos a isso: uma preocupação quase obsessiva por acumular reservas internacionais, a excelente ideia de comprar de volta nossa dívida em dólar, e medidas de incentivo fiscal quando foi necessário. A dívida como proporção do PIB caiu consideravelmente, e só voltou a subir quando foi necessário combater a crise. Certamente voltará a cair já agora.

Por essas e outras, fomos os últimos a entrar e os primeiros a sair da maior crise econômica desde 1929. Os tucanos se consideravam uma espécie de Keynes coletivo por terem sobrevivido à crise do México. Com muito menos custo, sobrevivemos à crise dos EUA. E isso se deu porque a economia durante a Era Lula foi muito mais bem administrada do que durante o primeiro governo FHC. No segundo governo FHC, aí sim, a economia foi bem gerida, e Lula fez muito bem em copiar seus métodos de gestão.

E, na área social, o Lula realmente se destaca na história brasileira, e na conjuntura econômica mundial. FHC não merece nada além de parabéns por ter copiado o Bolsa-Escola do governo petista do Distrito Federal (cujo governador havia idealizado o programa ainda na década de 80), e o PT merece críticas por ter atrasado sua adoção insistindo no confuso “Fome Zero” por tempo demais; mas, uma vez re-estabelecida a sanidade, o programa foi implementado com imenso sucesso, e, associado à política de recuperação do salário mínimo, e à boa gestão da economia, geraram resultados que não estavam nas projeções do mais otimista dos petistas em 2002. Para ser honesto, eu sempre votei no Lula, mas nunca achei que fosse dar tão certo.

A pobreza caiu algo como 43%. Vou dizer com palavras, para não dizerem que sou cabeça-de-planilha: a pobreza no Brasil caiu quase pela metade. Rodrigo Maia, escreva essa frase no quadro cem vezes. Mais de 30 milhões de pessoas (meia França, não muito menos que uma Argentina inteira) subiram às classes ABC. Cortamos a pobreza extrema pela metade (mas ainda é, claro, vergonhoso que tenhamos pobreza extrema). A desigualdade de renda caiu consideravelmente: a renda dos 10% mais ricos cresceu à taxa de 3 e poucos % na Era Lula, enquanto a renda dos mais pobres cresceu mais ou menos 10% ao ano, as famosas taxas chinesas. E tem uns manés que acham que os pobres votam no Lula porque são ignorantes ou mais tolerantes com a corrupção. Dê essas taxas à nossa elite e o Leblon inteiro tatua a cara do Zé Dirceu.

Não é à toa que o economista Marcelo Neri, um dos mais respeitados estudiosos da pobreza no Brasil, fala no período de 2003-2010 como “A Pequena Grande Década”. Tanto quanto sei, Neri não é petista.

Por outro lado, há algumas semanas, o sociólogo Demétrio Magnoli escreveu um balanço crítico do governo Lula, que considera um desastre. O artigo praticamente não tem nenhum número. I rest my case.

2.
Seria idiota dizer que isso não é, em nenhum grau, motivo para votar na Dilma. Dilma participou ativamente disso tudo, e, no mínimo, apoiou isso tudo. Marina Silva, é verdade, apoiou quase tudo isso. José Serra não o fez, e muitos de seus simpatizantes continuam convictos de que os últimos oito anos, em que a renda dos brasileiros mais pobres cresceu no ritmo da economia chinesa, foi uma era das trevas da qual a nossa elite bem pensante (hehehe) acordará em breve, chorando de felicidade porque era só um pesadelo.

Mas, até aí, eu considero que a Era FHC também foi boa para o país, por outros motivos, e mesmo assim foi bom que Lula fosse eleito em 2002 (como irrefutavelmente provado acima). Por que não seria esse o caso, agora?

Em primeiro lugar, porque não acho que será bom para o Brasil se o governo Lula tiver sido só um intervalo. Se Serra ganhar a eleição, eis o que se tornará a versão oficial sobre esse período: uns caras com diploma governavam muito bem o Brasil por muitas décadas, aí surgiu um paraíba muito carismático que acabou % ganhando a eleição, mas não fez nada demais, por isso eventualmente a turma do diploma retomou o controle da coisa toda. Coloquei um sinal de porcentagem no meio da frase para que ela tivesse pelo menos um erro que não fosse também papo furado.

É importante compreender que os novos atores que compõem o PT vieram para ficar, pois são sócios-fundadores de nossa democracia, e que, de agora em diante, o Brasil é um país com uma esquerda que sabe ser governo. Isso quer dizer que agora a direita, para vencer eleições, precisa apresentar boas candidaturas (de preferência sem roubar nossos sociólogos, ou economistas heterodoxos) e, o mais crucial de tudo, apresentar propostas para os mais pobres, que acabam de descobrir que podem melhorar imensamente suas vidas com o voto. A direita brasileira ainda não fez esse trabalho: continua pensando como se fosse um direito natural seu governar o país, e esperando que algum movimento legitimista re-estabeleça a ordem nesta budega.

Enquanto a justiça eleitoral não fizer o voto do Reinaldo Azevedo ter peso 50 milhões, a estratégia de fingir que o governo Lula não desmoralizou os anteriores, diminuindo a pobreza sem desestabilizar a economia, não vai ganhar eleição. Enquanto não tiver um projeto para o país (o que, diga-se, o Plano Real foi), a oposição não merece voltar ao governo. Como o PT dos anos 90, por exemplo, não merecia ganhar a presidência, pois seu programa era o que, no jargão sociológico, era conhecido como “nhenhenhém”. O PT venceu quando reconheceu que o papo agora era outro, e era preciso partir das conquistas já alcançadas. Não há sinal que consciência semelhante exista na oposição como bloco político, embora, sem dúvida, o candidato Serra o tenha compreendido.

3.
Mas esse tampouco é o melhor motivo para se votar na Dilma. O melhor motivo para se votar na Dilma é a Dilma.

Dilma tem uma trajetória política muito singular, como, aliás, tinham FHC e Lula. Quem tiver lido seu perfil recente na revista Piauí pode notar que há tantos fatos interessantes na sua vida que o jornalista mal teve espaço para falar dela, como pessoa. Dilma foi guerrilheira, foi torturada, e, durante a democratização, entrou para o PDT. Quando visitou, recentemente, o túmulo de Tancredo, a turma de sempre reclamou que o PT não o havia apoiado no Colégio Eleitoral. Bem, Dilma, como o PDT, apoiou Tancredo. Eventualmente, foi parar no PT, onde cresceu fulminantemente, e foi beneficiada pela decisão da oposição de queimar um por um dos quadros petistas mais famosos, algo pelo que, suspeito, já começam agora a se arrepender. Estariam pior agora se o candidato do Lula fosse, digamos, o Dirceu?

Tem gente que, com temor ou esperança, acha que Dilma mudará o rumo da economia. Eu posso estar errado, mas, baseado no que vi até agora, acho o seguinte: Dilma está singularmente posicionada para fazer com que, sob essa mesma política econômica, e com o mesmo compromisso com a justiça social, o país comece a crescer bem mais rápido do que cresceu nos últimos dezesseis anos.

Eu gosto de dizer o seguinte sobre política econômica: é verdade, o Banco Central desacelera o crescimento quando mantém os juros altos (e segura a inflação). Mas, a essa altura, o crescimento econômico já levou uma surra; antes de chegar no Banco Central, o carro do crescimento já tomou batidas da nossa falta de política de inovação, da baixíssima capacidade de investimento do Estado, da pobreza (que diminuiu, mas, para nossa vergonha, ainda está aí), do nosso abissal nível de qualificação educacional, dos entraves inacreditáveis para se abrir ou fechar um negócio, dos problemas gravíssimos da nossa urbanização. Essa desacelerada que o Banco Central dá é porque, depois de tomar tanta batida, ou nosso carro desacelera ou ele desmonta na pista.

Nossa visão deve ser a seguinte: queremos ter produção tecnológica como a Índia, mas com muito mais preocupação com a justiça social, e queremos ter o crescimento da China, mas com a mais absoluta democracia e com as garantias ambientais necessárias. Se esses limites nos atrasarem um pouco, paciência, somos, em nossos melhores momentos, um país que leva essas coisas a sério. O que não é admissível é que qualquer coisa que não nossos princípios atrase nosso progresso.

Muita gente diz que Lula entregou a candidatura à Dilma de mão-beijada, mas, aproveito para advertir, muita calma nessa hora, meu povo. Lula também lhe entregou uma roubada incrível, que foi também um teste. Quando Dilma foi colocada na direção do PAC, experimentou em primeira mão o quão ineficiente é nosso Estado como indutor do investimento: uma legião de entraves burocráticos, pressões políticas e uma história de más prioridades tornaram nosso Estado incapaz de investir e de oferecer infra-estrutura (tanto física quanto legal quanto humana) para o investimento privado.

A beleza da coisa é que Dilma é uma c.d.f. obcecada por políticas públicas. Quem leu sua entrevista no livro organizado pelo Marco Aurélio Garcia e pelo Emir Sader não pode ter deixado de se divertir com a diferença entre as coisas que os entrevistadores querem perguntar e as coisas que ela quer responder: os caras lá falando do liberalismo, de não sei o que mais, e ela animadona com um jeito de furar poço de petróleo, com um jeito qualquer de administrar hospital. Respeito muito o Marco Aurélio, que foi meu professor, mas a Dilma sai da entrevista muito melhor que ele e o Sader.

Me anima especialmente que, em vários momentos, tenha visto Dilma puxando o assunto das políticas de inovação. O Brasil não vai dar um salto qualitativo em termos de desenvolvimento enquanto não produzir tecnologia. Tecnologia é o tipo de coisa que depende de bons arranjos entre governo e setor privado, e, a crer nos relatos até agora a respeito de sua passagem pelo ministério de Minas e Energia, Dilma tem uma postura pragmática saudável nessas questões.

Lula deu ao capitalismo brasileiro milhões de novos consumidores, e essa descendência política exigirá de Dilma compromisso forte com a inclusão social. Mas agora é hora de dar ao capitalismo brasileiro a competitividade necessária para que ele gere os empregos de que precisam os novos ex-miseráveis, os formandos do ProUni, ou das novas Universidades Federais, inclusive; é hora de montar um Estado que entregue aos cidadãos as cidades necessárias à boa fruição da vida moderna, e montar um sistema de inovação tecnológica que tire da direita o monopólio do discurso moderno.

Por conhecer melhor do que ninguém o tamanho desse déficit, e pelo que se depreende de sua postura até agora diante desses problemas, Dilma Rousseff é a melhor opção para a presidência do Brasil nos próximos oito anos.

Até porque, contará com um recurso que só o PT tem: uma imprensa tão hostil que o sujeito realmente, realmente tem que prestar atenção para não fazer besteira. Superego é uma coisa útil, senão você trava.

4.
Certo, mas deve ter gente pensando, ah, mas ela é só uma tecnocrata, vai ser engolida pelos políticos (o bom é que essa mesma turma dizia que o Lula, por não ser um tecnocrata, ia ser engolido pelos políticos). Deve ter gente, à direita e à esquerda, com esperança de manipular a Dilma. A Dilma, no caso, é aquela menina que, aos vinte e poucos anos, inspirava respeito até nos caras do Doi-Codi, como se depreende dos documentos da época. Se quiser ir tentar manipular essa dona aí, rapaz, boa sorte, vai lá. Depois você conta pra gente como é que foi.

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A França se rendeu ao Brasil; Falta só a grande imprensa brasileira

setembro 29th, 2010 — 8:27am

Na França, em muitas bancas de revista, o Brasil estava em destaque semana passada. Foram nada menos que 4 publicações. 3 revistas e um jornal que publicaram matérias especiais sobre o Brasil. Duas revistas do Le Monde: Là où le Brésil va… e Brésil, Un Géant S´impose; uma outra chamada Les inrockuptibles trazia o Lula na capa; e uma matéria de capa do Lula no Le Figaro (o original aqui, para assinantes, e aqui a matéria da BBC Brasil).

Comprei e li boa parte da revista Brésil, Un Géant S´impose. É muito boa e equilibrada. Cobre todas as conquistas do governo atual, fazendo as ressalvas necessárias. Eu planejava detalhar melhor mas o Diego Viana no blog Amálgama fez isto de maneira muito melhor do que eu poderia:

Em Roissy, para esperar a decolagem, comprei o suplemento do Monde dedicado ao Brasil. Não terminei a leitura, mas já pude constatar que é melhor do que o número semelhante do Point, publicado há coisa de três meses, em que pesem números bastante desatualizados e o recurso a fontes pouco confiáveis. Lá estão os inescapáveis elogios ao desempenho econômico do país; uma matéria sobre Eike Batista – parece que os gringos têm fixação pelo “Sr. X”; um arrazoado de opiniões sobre Lula, o indivíduo, não a figura histórica; trechos da carta de Caminha, de Zweig e de Gilberto Freyre; e por aí vai, até o gran finale em que Fernando Henrique Cardoso tenta puxar a sardinha para o seu lado.

Resumindo, é mais uma manifestação internacional do reconhecimento ao momento brasileiro, mas temperada com ressalvas, em geral, muito pertinentes: a recusa em punir os tiranos de 64-84, torturadores em particular; o custo-Brasil, com destaque para a burocracia, simbolizada por excrecências tipicamente nossas, como a “firma reconhecida” e a “cópia autenticada”; a desigualdade persistente, a baixa qualidade da educação básica e, sobretudo, as amarras de uma constituição prolixa. Em todo caso, a conclusão geral é muito positiva. Pinta-se o retrato de um Brasil que encontrou o caminho para enfrentar e debelar seus maiores problemas. No julgamento da equipe francesa, não é uma ascensão fictícia.

Já a revista Les inrockuptibles espalhou cartazes por todas as grandes cidades da França. Em algumas estações de metrô dava para ver um Lula gigante e sorridente. Na mesma revista, uma das matérias pode ser lida online, a “Brésil: Et c’est ainsi que Lula est grand“. Algo como “Brasil: E está tudo tão bem quanto Lula é grande”. A matéria destaca a popularidade de Lula, suas habilidades como governante e líder popular, e algumas das realizações de seu governo.

(Lula no Metrô de Paris. Fonte: Opera Mundi)

Sobre o jornal Le Figaro (de direita, diga-se), o que acrescentar à afirmativa que “Lula foi o presidente que modernizou o Brasil”? Uma pena ter que ver este reconhecimento vindo de fora primeiro e não de nossa grande imprensa de maneira geral. Gostaria muito de ver no Brasil mais análises tão balanceadas como fez o Le Monde. Nossa grande imprensa se recusa a reconhecer de maneira afirmativa as conquistas do governo e quase sempre o faz só quando é destaque lá fora. Uma pena.

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A Sabedoria do Povo

setembro 24th, 2010 — 6:38am

Achei sensacional o comentário que transcrevo abaixo, publicado no blog do Idelber:

Dilma vai ganhar a eleição simplesmente porque o povão não está nem aí pra esse moralismo pequeno burguês. Alienação? Não, sabedoria.

O povo sabe que existe corrupção, que sempre existiu e sempre existirá. Sabe que quem exerce o poder é tentado a tirar proveito próprio desse exercício, e muitos não resistem à tentação. (Na realidade, o povão nunca acreditou no discurso moralista do PT. E com razão, porque confia muito mais no conhecimento empírico que possui da natureza humana do que em discursos cheios de boas intenções.) Está com Lula e seu governo não pela sua retidão moral ou pelos seus austeros métodos de administração, mas pela percepção de que é um governo que lhe proporcionou uma maior participação na distribuição da riqueza do país. Sabe que os defeitos que lhe imputam, verdadeiros ou não, não comprometem essa participação, e são defeitos comuns a todos os governos. Sabe que a perfeição não é coisa desse mundo, e existe apenas na cabeça de idealistas ou no discurso de hipócritas oportunistas. E sabe, por fim, que quem possui qualidades para exibir não se preocupa em inventar defeitos nos outros.

Dilma deve prosseguir exibindo as qualidades do goveno Lula, ignorando olimpicamente o latido da cachorrada. E vai massacrá-los nas urnas.

Depois, o acerto de contas. Temos que tratar de regulamentar o exercício da liberdade de imprensa. Assegurar direito de resposta imediato. Impor indenizações pesadas para os abusos. Garantir o contraditório. Acho que é uma agenda necessária e urgente.

Abraço
Adroaldo

O Adroaldo conseguiu sintetizar de maneira simples e objetiva o que venho dizendo a tempos: Corrupção sempre existiu e sempre existirá, e não deve servir de base para comparar nenhum governo. Nenhum. Escrevi extensamente sobre o tema (embora estou muito longe de achar que o exauri) em um post anterior, do qual transcrevo dois parágrafos:

(…) Não estou dizendo que devemos aceitá-la. Corrupção se previne, combate e pune, claro. Mas mesmo assim ela continuará existindo. Em Teoria de Jogos, a corrupção ocorre, por exemplo, quando os agentes (ou jogadores) conseguem burlar os mecanismos de um jogo e lucrar mais assim. Num jogo cujo objetivo é puramente maximizar os lucros, os jogadores sempre tentarão tomar ações com este objetivo em mente; e se for possível fazê-lo roubando ou mentindo, pouco importa. Na República de Platão (III, 361d), Glauco já se referia a tais possibilidades ao dizer que “não se deve querer ser justo, mas parecê-lo”. Glauco também cita a garantia de impunidade como uma das origens da corrupção.

Por isto as teorias se desenvolveram ao longo da história prevendo mecanismos de controle e de outros incentivos que não apenas o lucro. O objetivo era evitar, por exemplo, situações do tipo encontrado em jogos de soma zero, onde para um ganhar o outro tem que perder. Infelizmente, como bem diz o vencedor do Nobel de Economia, Douglass North (1990, p. 108), “(…) até nos casos onde o framework institucional contribui para capturar mais ganhos com comércio em relação a frameworks passados, ainda assim vão existir incentivos para trapaças, passageiros clandestinos, etc. que contribuirão para as imperfeições do mercado. Dadas as características comportamentais dos seres humanos, simplesmente não há nenhuma forma de se elaborar instituições capazes de resolver os complexos problemas inerentes às transações e ao mesmo tempo se ver livre de incentivos incompatíveis.”

Então por favor parem de falar que não devemos votar no candidato A ou B porque um é mais corrupto que o outro. Estes crimes devem ser punidos na justiça e as realizações e propostas de cada candidato é que devem ter peso maior na hora do voto.

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Mudando a casa do blog

setembro 22nd, 2010 — 6:26am

Mais uma mudança no blog. Agora maior do que as outras. Estou deixando de lado o WordPress e migrando para o Posterous. Pelo menos este é o plano. Como já paguei por um ano de hospedagem, o domínio www.laedevolta.com.br continua. Por isto o blog por enquanto terá posts duplicados, publicados tanto no endereço original quanto no novo, em http://laedevolta.posterous.com/.

Por que escolhi mudar para o Posterous? Eu expliquei detalhadamente em inglês, aqui. Resumindo, é que o Posterous é muito mais fácil de usar e configurar, e não tem a chateação das atualizações que o WordPress e seus plugins exigem o tempo todo.

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Uma análise computacional do conteúdo do jornal O Globo nestas eleições presidenciais

setembro 8th, 2010 — 2:56am

Eu vivo falando que os grandes grupos de mídia no Brasil são parciais e defendem o quanto podem os governos de direita, historicamente mais favoráveis aos seus interesses elitistas. Neste sentido eu concordo com diversos outros blogueiros, entre eles Idelber, Nassif, e Miguel do Rosário. Concordo também com o jornalista Mário Prata quando diz que “a imprensa brasileira está podre. Os grandes jornais, as coisas que são consideradas grande imprensa no Brasil como Folha de S. Paulo, Globo, Estadão, Jornal Nacional, Veja, para mim são piadas.”

Pois bem, decidi que precisava testar de maneira computacional estas afirmações. Estes testes, basicamente análises textuais, são uma idéia antiga minha mas que nunca pude colocar em prática por pura falta de tempo. Foram os últimos abusos da imprensa que me motivaram a retomar a idéia e colocá-la em prática.

O que segue é uma análise de palavras vizinhas dentro do conteúdo do jornal O Globo. Uma palavra é definida como vizinha de outra quando as duas ocorrem próximas uma da outra. Por exemplo, na frase “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”, as palavras vizinhas de “vencedor” são “compaixão”, “ao”, “as” e “batatas”. Isto quando consideramos apenas 2 vizinhas antes e 2 depois.

Assim, o que fiz foi analisar as palavras vizinhas de “dilma” e “serra” nos 100 primeiros documentos retornados em uma busca no Yahoo por estes dois termos (os nomes dos candidatos) individualmente e, depois, em conjunto. Ou seja, obtive 300 documentos: 100 documentos para os resultados da busca por “dilma”, outros 100 para os resultados da busca por “serra” e mais 100 para busca “dilma serra”.

Para cada documento encontrado, eu processei as 8 palavras vizinhas de cada ocorrência de “dilma” e “serra”, antes e depois delas. Ou seja, 16 palavras vizinhas para cada ocorrência em cada documento. Artigos, números, dentre outras palavras que não contribuem para a análise (o termo técnico para elas é “stop words”) foram removidas da lista. No final deste post você pode ver a lista completa de palavras removidas. Após esta remoção, sobraram 2645 palavras vizinhas de “serra” e 2772 vizinhas de “dilma” n’O Globo.

Estas palavras vizinhas foram então contadas para que eu pudesse medir a frequência de cada uma. Também calculei a distância média da palavra vizinha atribuindo um peso que varia de 8 (para a palavra vizinha que ocorre imediatamente antes ou depois de “serra” ou “dilma”) a 1 (para a palavra vizinha que está separada de “dilma” ou “serra” por outras 7 palavras antes ou depois). Em outras palavras, quanto mais perto de 8 o peso estiver, mais vezes a palavra vizinha ocorre próxima de “dilma” ou “serra”.

Resultados

As 20 palavras vizinhas de “serra” mais frequentes são:

Palavra Vizinha Peso N. Ocorrências
josé 8 103
não 4.41429 70
psdb 5.24638 69
alckmin 3.44068 59
se 3.96154 52
disse 6.625 48
frente 7.6087 46
pontos 3.97778 45
kassab 3.22222 45
dilma 1.2564 42
governo 2.7561 41
serra 1.46154 39
mais 3.26471 34
candidato 3.12903 31
pesquisa 4.16129 31
governador 4.53333 30
lula 3.8 30
2010 4.33333 30
foi 4.68966 29
são 3.2963 27

Dentre as 5 primeiras, destaque para a palavra “não”, que ocorre 70 vezes. Mais para baixo, repare que “dilma” e “lula” ocorrem com certa frequência próximas da palavra “serra”. Dentre as demais palavras, nada de muito especial. Quase todas estão relacionadas ao partido ou à pessoas próximas do candidato. Note porém que a palavra “fhc” não está nesta lista.

Agora veja as 20 palavras vizinhas de “dilma” mais frequentes:

Palavra Vizinha Peso N. Ocorrências
rousseff 7.90714 140
lula 3.60417 96
não 3.65591 93
ministra 6.85526 76
se 3.2459 61
dilma 1.55556 54
diz 6.98113 53
governo 2.96154 52
disse 6.41176 51
civil 7.58 50
foi 4.4375 48
enquete 7.77273 44
mais 2.47222 36
campanha 5.125 32
tem 3.25806 31
presidente 2.54839 31
pt 2.96429 28
candidata 3.88462 26
candidatura 5.65385 26
ser 3.28 25

A primeira coisa que salta aos olhos é que a palavra “lula” é mencionada 96 vezes mas não ocorre tão próxima assim de “dilma”. O peso de “lula” com “serra” é maior do que com “dilma”. Outro destaque é a quantidade de vezes 37% maior com que a palavra “não” é mencionada perto de “dilma”. Mais, a palavra “pt” como vizinha de “dilma”, ao contrário, ocorre muito menos que a palavra “psdb” como vizinha de “serra”. As demais palavras, como no caso de “serra”, ocorrem dentro do que eu esperava.

Outro ponto para análise é verificar quais palavras são vizinhas de “serra” mas não de “dilma” e vice-versa. Veja primeiro a lista das palavras mais frequentes vizinhas apenas de “serra”:

Palavra Vizinha Peso N. Ocorrências
josé 8 103
alckmin 3.44068 59
kassab 3.22222 45
candidato 3.12903 31
governador 4.53333 30
depender 8 25
aécio 5.63636 22
critica 6.64706 17
erra 2.21429 14
prefeito 4.75 12
anuncia 8 11
próprio 5.11111 9
tucano 1.66667 9
secretários 1.77778 9
garante 8 8
gabeira 2.25 8
tucanos 1.375 8
datafolha 5.25 8
terá 5.66667 6
forma 3.5 6

A palavra “erra” é a única que poderia ser interpretada como negativa ao candidato. Quase todas as outras estão relacionadas ao trabalho do ex-governador, ao partido ou à pessoas ligadas a ele.

Já no caso de “dilma”, a lista é a seguinte:

Palavra Vizinha Peso N. Ocorrências
rousseff 7.90714 140
ministra 6.85526 76
pdt 2 13
lobao 4 12
apagão 3 10
defende 7.2 10
mulheres 2.66667 9
roussef 8 9
deixa 7 8
regulatório 2.625 8
conversado 3.75 8
hospital 3.5 8
cabral 2.25 8
continuidade 3.5 8
companheira 8 7
duvido 6 7
tentar 3.57143 7
deixa 8 7
collor 2.33333 6
quimioterapia 5.83333 6

Reparem a quantidade maior de palavras que podem ser interpretadas de maneira negativa à candidata como ”apagão”, ”duvido” e ”collor”. Reparem também as palavras associadas à saúde da candidata. Muito menos palavras podem ser associadas positivamente a ela.

Conclusão

Acho que é cedo para fazer qualquer tipo de afirmação. Primeiro, a freqüência das palavras podem estar fora de contexto é só a sua quantidade próxima de uma palavra não pode necessariamente significar mais ou menos crítica a esta palavra. Segundo, os 300 documentos analisados são aqueles mais populares numa busca do Yahoo. Não representam, portanto, uma amostragem estatística de todos os documentos do jornal. Terceiro, as tabelas analisam apenas as 20 palavras vizinhas mais freqüentes. Elas não representam, portanto, uma amostragem estatística de todas as palavras vizinhas processadas.

Mesmo assim, os resultados podem servir como indicativo de diferença de tratamento entre uma palavra, “serra”, e outra, “dilma”. Há claramente diferenças nos textos analisados entre as palavras vizinhas a dos candidatos. Por isto, os próximos passos seriam dois. Primeiro, analisar uma quantidade maior de documentos deste jornal e de outros. Folha e Estadão também deve servir como ótimos exemplos. Segundo, uma análise do sentimento do conteúdo (sim, existe algoritmo para isto) pode revelar o contexto e ajudar a determinar se as palavras vizinhas são mais ou menos críticas a cada candidato.

Infelizmente, tudo isto toma um bocado de tempo e não sei se dará para continuar antes das eleições. Uma grande ajuda seria ter acesso a uma base de dados maior de cada jornal. Alguém aí poderia me fornecer estes dados?

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O Sorriso da Mona Lisa

setembro 2nd, 2010 — 8:23am

Já falei aqui no blog que acho a obra mais famosa de da Vinci extremamente sobrevalorizada. Mas outro dia algo novo me ocorreu sobre esta minha opinião. Porque do nada volto a falar deste assunto com uma novidade é algo que talvez anos de psicanálise possam desvendar. Enfim, o fato é que tenho uma teoria nova para o sorriso misterioso da Mona Lisa.

Acho que o sorriso dela é um sorriso de deboche. Veja bem, no meu último post sobre este assunto no blog, falei de um boato sobre o motivo da obra ter ficado tão famosa. Aparentemente, Leonardo da Vinci, ao terminá-la, saiu às ruas dizendo que aquele era o seu melhor trabalho. Aquilo supostamente acabou por contribuir para que outros argumentos e o boca-a-boca a tornassem uma das obras mais conhecidas e referenciadas em todo mundo. Pois bem. Mas e se Leonardo da Vinci estivesse na verdade pregando uma peça em todo mundo?

Fez lá uma pintura razoável de uma mulher qualquer (até hoje se discute quem seria a tal) e colocou nela o seu próprio sorriso. Uma mistura de deboche e desprezo por quem fica  apreciando obras de arte por sua fama ou pelo que outras pessoas dizem dela, e não pelo que ela realmente é. Neste caso, teríamos hoje no Louvre um monte de gente indo ver a pintura de uma mulher que está lá rindo de todos eles. Debochando de quem pagou caro para vê-la e está agora perdendo seu tempo.

Genial este Leonardo, não?

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