O dilema da geração de energia no mundo e a polêmica nuclear
Estou muito longe de ser um especialista na área de energia. Dito isso, tenho conversado como leigo com amigos e colegas que entendem do assunto por conta dos recentes eventos no Japão e a polêmica que eles estão causando no uso de energia nuclear. A polêmica é justificada porque a energia nuclear é mesmo controversa. Apesar de ser uma das fontes de energia mais limpas e baratas que existem, o potencial para problemas pode não justificar os benefícios. Os riscos de explosões iminentes nas usinas japonesas estão aí para nos lembrar disto.
Seth Godin mostra em seu blog um gráfico onde as mortes por tipo de energia gerada é infinitamente menor para energia nuclear do que para de carvão. É mais ou menos o que ocorre na comparação com acidentes de carro e avião. Não damos tanta importância aos primeiros porque os segundos são muito mais impactantes, apesar do avião em geral ser muito mais seguro. O impacto direto da usina termoelétrica (à carvão) pode ser maior mas o potencial de danos de uma usina nuclear é infinitamente superior. Principalmente em regiões instáveis onde o solo é frágil (Angra) ou onde há abalos sísmicos (Japão). É preciso botar isto na conta.
É preciso levar em conta os efeitos de longo prazo da energia nuclear. Os impactos indiretos da contaminação após um vazamento podem durar centenas de anos e é praticamente impossível calculá-los. Em Chernobyl, por exemplo, 800.000 mil pessoas estiveram envolvidas no processo de limpeza da região. Quantos morreram por conta de contaminação é difícil dizer. Por causa do mesmo acidente, até hoje certas regiões da Europa tem problemas. No sul da Alemanha é proibido comer carne de animais selvagens sem antes inspecioná-los por radiação. Quantos morrem ou tem problemas de saúde na região sem saber que estão contaminados?
Pior, ninguém sabe o que fazer com o lixo radioativo a longo prazo. Enquanto este tipo de lixo pode demorar milhares de anos para se decompor, os materiais que o protegem duram apenas algumas centenas de anos. Daqui alguns séculos, podemos começar a ter problemas de toda sorte por causa de contaminação. Carvão mata muito mas basta desativar a usina para os problemas que ela causa sumirem também. Uma usina nuclear demora pelo menos 25 anos para ser completamente desativada.
Mas o dilema continuará persistindo porque, ao contrário do que muita gente pensa (inclusive eu pensava), outras alternativas como a energia eólica tem ainda muitos problemas que dificultam seu uso em larga escala. O mais óbvio deles é a variação na geração de energia porque o vento nunca é constante. Outros problemas sabidos são o impacto ambiental por conta da área necessária para as turbinas e, pelo mesmo motivo, a poluição visual.
Há ainda pelo menos outros dois problemas. Primeiro, o ruído das turbinas é alto e pode incomodar muito. Já estive perto de uma e, acredite em mim, não chega a ser um trio elétrico mas escutar uma turbina o tempo todo deve incomodar pacas. Segundo, existe o problema de sombras. Imagine você morar numa casa com sobra intermitente por conta da rotação das imensas pás várias horas de todos os dias? Tudo isto exige controle, investimento em pesquisa, adequação do espaço de instalação, dentre outros pré-requisitos que tornam este tipo de energia ainda bastante caro e instável. Energia solar é ainda mais cara.
Assim, França, por exemplo, chega hoje ao extremo de ter mais de 70% de sua energia oriunda de fontes nucleares. A Itália tentou mudar este quadro e aboliu o uso de energia nuclear no século passado mas hoje, por falta de alternativa, compra muita energia logo da França (!). E paga mais caro por isso. Alemanha e Japão usam pouco menos de 30% de energia nuclear mas ainda dependem muito de termoelétrica. A própria Dinamarca, famosa por suas turbinas de vento, usa em média apenas 20% deste tipo de energia.
É provável, pois, que passado o sensacionalismo causado pela mídia, a energia nuclear continue a ser usada ainda por muitos anos em países onde não há outra opção.
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Category: Energia 3 comments »
março 23rd, 2011 at 08:34
Preocupante!!! Penso que é imperioso rever o que se quer… aonde nos levará este desenvolvimento e tanta tecnologia… Abraços!!!
março 23rd, 2011 at 10:15
Ola Ric
Voce esta com uma analise bem objetiva do problema energético atual, tenho acompanhado alguns debates aqui no Brasil e a sua abordagem bate com a deles, que exaltaram em todos os debates a nossa fartura de potencial hidorelétrico,(que vc não comentou) mas os impactos ambientais que elas causam, como alagamento de florestas, aprodecimento da madeira submersa, gerandos gazes que alimentam a destruição da camada de ozonio, etc..
tambem são foram parametros de pesos que justificaram implantações de usinas nucleares aqui no Basil, existe plano de mais sete, estão repensando, ainda bem.
Quanto a segurança a ruptura de uma barragem pode causar milhares de mortes, mas por outro lado a curto prazo é possivel recuperar-se.
Bem filho, gostei da sua explanação, parabens.
março 23rd, 2011 at 11:21
Estou esperando acontecer uma descoberta de supercondutores viáveis, que vai mudar tudo de cabeça pra baixo.