Archive for abril 2011


Parando no tempo em Læsø – Uma ilha no norte da Dinamarca

abril 27th, 2011 — 2:44pm

A Dinamarca tem cerca 5,5 milhões de habitantes. A maior parte deles concentra-se no sul do país. Só a região metropolitana da capital, no sudeste, tem quase 2 milhões. Por isto, via de regra, quanto mais ao norte você viaja, menos gente encontrará.

Moro no norte, em Aalborg. Com pouco mais de 100 mil habitantes, esta é a maior cidade da região. Para chegar a Læsø, a melhor opção de caminho é voar até aqui primeiro. De Aalborg, um trem me levou na última sexta-feira até Frederikshavn, uma cidade ainda mais ao norte e ainda menor; 23 mil habitantes. Frederikshavn é uma cidade portuária com pouco a oferecer além de conexões marítimas para Oslo e Gotenburgo, respectivamente a capital da Noruega e a segunda maior cidade da Suécia. “Havn” significa “porto” em dinamarquês e Frederik VI foi um rei da Dinamarca. Suecos e noruegueses visitam a cidade para se embebedar no barco e comprar cerveja barata na Dinamarca (sim, ela é cara aqui, mas mais barata que nestes outros dois países). É deste porto de nórdicos bêbados e dinamarqueses ainda acordando que sai o primeiro ferry boat para Læsø, as 7:50 da manhã.


A viagem dura 1:30 hora. No trajeto, só há o mar do norte por todos os lados e alguns pássaros provavelmente fazendo a mesma viagem. Só quando o ferry boat estava quase dentro do pequeno porto da ilha é que pude avistá-la em meio à espessa neblina. As poucas casas bem alinhadas no vilarejo de Vesterø Havn não chamam atenção. Mas nada na ilha chama. É tudo muito discreto, como se não se importassem com a presença dos poucos visitantes. Não precisam se importar. Quem visita a ilha não está a procura de grande atrativos ou chamarizes. Quando pisei na ilha, o tempo parou e nem me dei conta.

De bicicleta, rumei sul por uma pequena rua asfaltada margeando, de um lado, a praia e, do outro, pequenas plantações entrecortadas por bosques. Vez ou outra uma casa dava suas caras. Sempre de madeira e em cores vibrantes, muitas estavam a venda. Outras tantas vazias. Foi raro cruzar com pessoas. Minha companhia mais freqüente eram os pássaros. No sul da ilha, um casal de patos e suas crias me apresentaram a uma das praias da região: Um braço de mar protegido por um banco de areia deixava a água cristalina. A ilha como um todo tem 2 mil habitantes. Ali, cerca de 15 km distante da vila mais próxima, eu era um só.

De turismo mesmo, há na região uma salina aberta a visitação, passeios a cavalos, uma pedra que marca o surgimento da ilha, umas casas antigas com telhados feitos de alga, e pratos a base de uma espécie de lagostim local. Mas as praias não são tão belas, o clima quase nunca é quente o suficiente e a infraestrutura não é voltada para o turismo. A ilha é quase toda pensada para os seus moradores, orgulhosos da paz imperturbável que desfrutam. E é isto que a ilha tem de melhor para oferecer.

Em um dos poucos restaurantes abertos no vilarejo de Østerby, conversei um pouco com a proprietária enquanto conhecia uma Porter local, um dos 9 tipos de cervejas produzidos ali perto e que só são vendidos na ilha. Ela me explicou que cresceu lá mas ficou entediada aos 15 anos. Só voltou 20 anos depois quando realmente entendeu o valor de morar ali. Hoje não quer sair mais. Sua vida é simples, o trabalho é pouco, e o dinheiro suficiente. Não há chaves nas suas portas. Seus filhos, ela diz, provavelmente passarão pelo mesmo ciclo. Viver numa ilha isolada é um aprendizado.

O tempo em Læsø pára, mas só lá. Do lado de fora eram quase seis tarde e eu precisa pegar o ferry boat de volta para Frederikshavn.

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Os mitos contra as bicicletas nas cidades brasileiras: Ninguém usa bicicleta como transporte

abril 5th, 2011 — 5:18pm

O argumento de que bicicleta não é vista como meio de transporte no Brasil pode ser facilmente contestado. O povo Brasileiro já usa bicicleta com freqüência, muito obrigado. O país é o terceiro maior fabricante de bicicletas do mundo e o quinto maior mercado consumidor. Metade deste consumo tem por objetivo o transporte e apenas 17% é para lazer. Os dados são da Abraciclo.

A classe média, a que entulha o trânsito de carros por qualquer motivo, não se dá conta que as bicicletas estão nas ruas e tem muita gente em pequenas e grandes cidades utilizando-as como meio de transporte há muito tempo. Aliás, elas chegaram lá primeiro. Mas dentro do carro ninguém consegue reparar muito bem o mundo lá fora. Dentro deles estão todos preocupados em chegar o mais rápido possível ao destino.  Não dá tempo de reparar, por exemplo, as mais de mil bicicletas que passam todos os dias só na Av. Paulista, em São Paulo.

Temos quase tantas bicicletas quanto carros no Brasil no trânsito mas enquanto esses últimos desfrutam de mais de 1,7 milhão de quilômetros só de estradas federais, as bicicletas têm pouco mais de 600km de vias para uso exclusivo em todo Brasil. Mesmo já com tanto uso no dia-a-dia, a bicicleta é praticamente ignorada em obras de expansão e melhoria de infraestrutura viária. Aliás, sequer nos damos conta que existem tantas bicicletas assim no trânsito.

E é um mito afirmar que cidades carecem de infraestrutura específica para bicicletas porque ninguém as usa. No Brasil, o uso já existe.  Falta agora a melhoria no trânsito e a conscientização de motoristas para ampliar este uso, e aumentar a segurança e o conforto de quem já pedala. E para você que só anda de carro, experimente reparar a sua volta o tanto de gente que já usa a bicicleta todos os dias na sua cidade.

Atualição (07/04/2011): Disse anteriormente que havia quase tantas bicicletas quanto carros no Brasil. Esta informação está errada. Temos quase tantas bicicletas quanto carros no trânsito, cerca de 33 milhões! No total de bicicletas (considerando outros usos além do transporte), temos quase o dobro de bicicletas (65 milhões) no país em relação a carros. Motos não chegam nem perto, são apenas 14 milhões. Os dados são do Denatran.

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