Parando no tempo em Læsø – Uma ilha no norte da Dinamarca
A Dinamarca tem cerca 5,5 milhões de habitantes. A maior parte deles concentra-se no sul do país. Só a região metropolitana da capital, no sudeste, tem quase 2 milhões. Por isto, via de regra, quanto mais ao norte você viaja, menos gente encontrará.
Moro no norte, em Aalborg. Com pouco mais de 100 mil habitantes, esta é a maior cidade da região. Para chegar a Læsø, a melhor opção de caminho é voar até aqui primeiro. De Aalborg, um trem me levou na última sexta-feira até Frederikshavn, uma cidade ainda mais ao norte e ainda menor; 23 mil habitantes. Frederikshavn é uma cidade portuária com pouco a oferecer além de conexões marítimas para Oslo e Gotenburgo, respectivamente a capital da Noruega e a segunda maior cidade da Suécia. “Havn” significa “porto” em dinamarquês e Frederik VI foi um rei da Dinamarca. Suecos e noruegueses visitam a cidade para se embebedar no barco e comprar cerveja barata na Dinamarca (sim, ela é cara aqui, mas mais barata que nestes outros dois países). É deste porto de nórdicos bêbados e dinamarqueses ainda acordando que sai o primeiro ferry boat para Læsø, as 7:50 da manhã.

A viagem dura 1:30 hora. No trajeto, só há o mar do norte por todos os lados e alguns pássaros provavelmente fazendo a mesma viagem. Só quando o ferry boat estava quase dentro do pequeno porto da ilha é que pude avistá-la em meio à espessa neblina. As poucas casas bem alinhadas no vilarejo de Vesterø Havn não chamam atenção. Mas nada na ilha chama. É tudo muito discreto, como se não se importassem com a presença dos poucos visitantes. Não precisam se importar. Quem visita a ilha não está a procura de grande atrativos ou chamarizes. Quando pisei na ilha, o tempo parou e nem me dei conta.
De bicicleta, rumei sul por uma pequena rua asfaltada margeando, de um lado, a praia e, do outro, pequenas plantações entrecortadas por bosques. Vez ou outra uma casa dava suas caras. Sempre de madeira e em cores vibrantes, muitas estavam a venda. Outras tantas vazias. Foi raro cruzar com pessoas. Minha companhia mais freqüente eram os pássaros. No sul da ilha, um casal de patos e suas crias me apresentaram a uma das praias da região: Um braço de mar protegido por um banco de areia deixava a água cristalina. A ilha como um todo tem 2 mil habitantes. Ali, cerca de 15 km distante da vila mais próxima, eu era um só.
De turismo mesmo, há na região uma salina aberta a visitação, passeios a cavalos, uma pedra que marca o surgimento da ilha, umas casas antigas com telhados feitos de alga, e pratos a base de uma espécie de lagostim local. Mas as praias não são tão belas, o clima quase nunca é quente o suficiente e a infraestrutura não é voltada para o turismo. A ilha é quase toda pensada para os seus moradores, orgulhosos da paz imperturbável que desfrutam. E é isto que a ilha tem de melhor para oferecer.
Em um dos poucos restaurantes abertos no vilarejo de Østerby, conversei um pouco com a proprietária enquanto conhecia uma Porter local, um dos 9 tipos de cervejas produzidos ali perto e que só são vendidos na ilha. Ela me explicou que cresceu lá mas ficou entediada aos 15 anos. Só voltou 20 anos depois quando realmente entendeu o valor de morar ali. Hoje não quer sair mais. Sua vida é simples, o trabalho é pouco, e o dinheiro suficiente. Não há chaves nas suas portas. Seus filhos, ela diz, provavelmente passarão pelo mesmo ciclo. Viver numa ilha isolada é um aprendizado.
O tempo em Læsø pára, mas só lá. Do lado de fora eram quase seis tarde e eu precisa pegar o ferry boat de volta para Frederikshavn.

