Bicicletas no trânsito brasileiro – Por que não vinga?
A figura abaixo mostra mais do que simples números comparando o fluxo de pessoas por hora para diferentes tipos de transporte. As proporções evidenciam qual meio é mais eficiente: Bicicletas são capazes de transportar 7 vezes mais pessoas e os trens (ou metrôs) 11 vezes mais que carros.
Mas o melhor da figura é o que ela não mostra; mas nos faz pensar. Embora o trem e o metrô sejam muito mais eficientes do ponto de vista da capacidade de transporte, sua limitação mais óbvia está no custo. Segundo um texto do blog do Ecologia Urbana, um movimento social de São Paulo, cada quilômetro da linha 4 do metrô da capital Paulista custou quase R$ 180 milhões. A média no mundo é de cerca de R$ 200 milhões. Já os espanhóis, ainda segundo o texto, conseguiram reduzir o custo para R$ 71,4 milhões por quilômetro.) As alternativas mais baratas são o metrô de superfície, o sistema de ônibus rápido e o ônibus convencional. Estas custam respectivamente R$ 40 milhões, R$ 11 milhões e R$ 5,5 milhões por quilômetro.
E a bicicleta? Em Londres a implantação de infraestrutura específica para este tipo de transporte custou em média R$ 250 mil reais por quilômetro [pdf em inglês]. Mas Londres é uma cidade complexa e antiga. Em certos pontos onde ciclovias exclusivas foram necessárias em cruzamentos complexos, o custo chegou a R$ 2,5 milhões. Por outro lado, em ruas de pouco movimento, ciclofaixas sinalizadas custaram apenas R$ 30 mil por quilômetro. É uma diferença muito grande em relação ao investimento necessário para qualquer um dos outros tipos de transporte.
O custo por si só já deveria ser motivo para termos infraestrutura específica para bicicletas nas cidades brasileiras. Só que além de serem mais baratas, as bicicletas são mais eficientes! E tem muitos outros benefícios também [pdf em inglês]: elas melhoram a saúde, diminuem o trânsito, contribuem para o meio-ambiente, estimulam o turismo e melhoram a economia. E como já temos um número significante de pessoas usando bicicletas, parece que só o que falta mesmo é a infraestrutura para motivarmos o restante delas a tirar as suas de casa.
Parece simples mas por que está demorando tanto? Pausa para o cafezinho…
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Dias atrás o Estadão publicou uma matéria com uma aberração no título: “Gasolina em SP custa 70% mais que em NY, diz estudo”. Liberal de carteirinha que sempre foi, o jornal, claro, culpa os impostos pelo “preço absurdo” da gasolina no país. Mas o próprio jornal dá pista do contrário. Publica em um de seus blogs um texto com uma tabela comparativa dos preços também em outros países. Dos 17 países listados, o litro de gasolina no Brasil só é mais caro que o de 5 outros países: Canadá, Peru, Estados Unidos, Argentina e México.
Em praticamente todos os países onde o litro é muito mais caro que no Brasil, por exemplo, Noruega, Suécia, Alemanha e Holanda, a infraestrutura de transportes é muito mais multimodal e as cidades, consequentemente, muito mais habitáveis. Nestes países, não é só o litro de gasolina que é mais caro. Estacionamento, compra e manutenção, impostos e pedágios. As prioridades destes países não são os carros, mas as pessoas. Transformações como as que ocorreram em Copenhague, capital da Dinamarca, transformando-a em uma cidade para pedestres e ciclistas são comuns. Os valores, tanto para o governo quanto para as pessoas, são outros.
Quais são os valores no Brasil? Pausa da pausa.
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Assista ao vídeo abaixo:
As prioridades e valores das pessoas entrevistadas não é qualidade de vida ou bem estar. Para elas o que importa é “crescimento da economia”, “geração de empregos” e “mais opções de consumo”. Tudo isto, segundo elas, compensa os problemas que um gigantesco shopping em plena Av. Paulista vão causar para as pessoas que vivem na região ou passam por ela todos os dias.
O trânsito de São Paulo já mata mais que assassinatos. Motoristas e passageiros de carros são os que mais se acidentam. Mas no Brasil a percepção é de que carro é um item de status, conforto e segurança. Não deveria ser. Você corre mais risco de morrer dentro de um carro do que sendo assassinado. Diante de tanta insegurança, pessoas dentro dos carros também deveriam usar capacetes.
Deveriam ter vergonha de andar de carro também. Pois fazem parte do grupo de pessoas no trânsito que mais polui (poluem mais que toda a indústria em São Paulo) e que é mais egoísta. Além de poluir e transportar pouquíssimas pessoas, motoristas ainda por cima desrespeitam a lei a todo instante em benefício próprio. Jogam lixo na rua, cruzam sinal vermelho, desrespeitam o ciclista, transitam no acostamento, e excedem o limite de velocidade. O Sr. Ricardo Neis, por exemplo, que atropelou 17 ciclistas em Porto Alegre mês passado, tinha um histórico grande de multas por infrações no trânsito.
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Não se investe em infraestrutura para bicicletas por causa do risco político. A classe média não quer bicicletas ou mesmo as alternativas por conta de seus valores pessoais incompatíveis. São todos tipos de transporte “para pobre”. Por isso cobram das autoridades melhores condições para seus carros. Os pobres, estigmatizados, querem ter carro para reduzir o estigma. E cobram das autoridades melhores condições para poderem comprar um. E os empresários, claro, querem lucrar com tudo isto. O resultado é o caos do trânsito que se vê no Brasil todos os dias e todo mundo “feliz” em seus mundinhos fechados. Com ar condicionado, é claro.
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Em tempo, São Paulo está “comemorando” a marca de 7 milhões de carros na cidade. 63% da população tem seu próprio carro. São mais veículos por habitante que Japão, EUA e Itália.
