É a primeira vez que vejo tanta discussão em torno do uso da bicicleta no trânsito. Isto é muito bom e importante para avançarmos o assunto. Mas é muito triste que uma pessoa da classe média-alta paulistana precisasse morrer para que isso acontecesse. Para quem ainda não sabe, o empresário Antonio Bertolucci morreu na última segunda-feira após ser atropelado por um ônibus quando andava de bicicleta em São Paulo.
Sem especular os motivos, o fato é que o caso ganhou (e ainda está ganhando) repercussão nacional. São várias matérias de jornal, rádio e TV que divulgam o fato e discutem a situação das bicicletas no trânsito. Mas quando propõem soluções, quase sempre terminam falando que a principal é educar motoristas e ciclistas para se respeitarem e respeitarem as leis de trânsito para compartilharem a rua com harmonia. Para mim, demonstram com isto que não sabem 1) o que é respeito, 2) o que é educação, e 3) como devem ser nossas cidades para que possamos utilizar nossas bicicletas com segurança.
Argumentar que ciclistas precisam respeitar os motoristas é uma tolice no contexto atual do trânsito brasileiro. Não, ciclistas não têm que respeitar aqueles que não os respeitam. E, historicamente, no Brasil, são os carros que não respeitam ninguém. Ao invés de zelar pelos mais fracos no trânsito, como prevê o código de trânsito (e o bom-senso, é bom dizer), motoristas dirigem como se tivessem o rei na barriga. Estes não respeitam nem os outros carros, como esperar deles respeito às bicicletas? E como exigir que ciclistas respeitem quem age como assassino em potencial o tempo todo? São os motoristas que tem que dar o primeiro passo! Nós, ciclistas, temos é que reinvidicar o nosso espaço e cobrar de todos que a lei seja respeitada. Só então é que aceito que cobrem respeito de nós. Até lá, cobrem isto dos motoristas e das autoridades!
E não adianta falar que educação irá resolver. Não irá, não no curto prazo. Mudar padrões de comportamento em larga escala requer gerações. Não é possível mudar todo um universo de padrões de conduta no trânsito em poucos anos apenas com campanhas de educação. Isto porque nosso cérebro se desenvolve solidificando modelos mentais que se reforçam a medida em que são testados em sociedade. Alterar um modelo mental solidificado requer décadas. Requer o estabelecimento de novos modelos, além das leis. Se fosse simples, as leis atuais já teriam sido suficientes há muito tempo.
A solução mais rápida e eficiente, pois, é implantar uma infraestrutura específica que force a mudança de padrão de comportamento. Fazer campanhas semestrais ou ensinar numa auto-escola como respeitar o ciclista não tem o mesmo efeito de forçar o motorista a fazê-lo todos os dias, porque há uma via segregada em seu caminho e dezenas de ciclistas utilizando-a. Uma via segregada, a famosa ciclovia, aumenta a segurança para ciclistas por dois motivos principais. Primeiro, ela separa o tráfego de ciclistas, evitando um contato direto com carros e aumentando a sensação de segurança. Segundo, ao aumentar a sensação de segurança, ela encoraja mais ciclistas a utilizar a ciclovia e a se deslocarem de bicicleta. E, quanto mais bicicletas nas ruas, maior a segurança para todas elas porque mais motoristas passam a notá-las e são forçados a respeitá-las com mais frequência.
Em todas as cidades onde a bicicleta é utilizada por uma grande parcela da população, há ciclovias como parte integrante e importante do sistema cicloviário. É uma outra tolice afirmar que elas são caras. 1 km de ciclovias custa pelo menos 22 vezes menos que a implantação de 1 km de um sistema de ônibus convencional e é capaz de transportar 60% mais pessoas. É mais barato, mais eficiente e mais rápido implantar ciclovias do que reeducar todos os motoristas.
O exemplo histórico de Curitiba nesse sentido é simbólico: A primeira rua para pedestres do Brasil foi feita de um dia para o outro. Numa noite a rua foi simplesmente fechada para os carros. Motoristas foram então forçados a aprender outros caminhos. A reeducação aconteceu com o processo. Barato, eficiente e rápido.