Archive for agosto 2011


Jorge Pontual, sua nova bicicleta e o direito de usar o carro

agosto 31st, 2011 — 11:15am

Jorge Pontual, jornalista, correspondente internacional da Rede Globo em Nova Iorque, é mais um a adotar a bicicleta no seu dia-a-dia. Ele deu uma entrevista ao blog Ir e Vir de Bike onde conta empolgado sua experiência. Acho bacana. Mas no final, a resposta para a pergunta “Porque no Brasil ainda existe resistência do poder público para incentivar o uso das bicicletas nas grandes cidades?” expõe um problema no seu discurso em favor das bicicletas (grifos meus):

“Não acompanho a situação no Brasil mas gostaria de saber mais a respeito. Acho que o nível insustentável de congestionamento do trânsito nas nossas grandes cidades vai levar o poder público e, espero, a população, a adotar medidas que restrinjam o uso dos veículos motorizados e incentivem o uso da bicicleta. É inevitável. O que a gente vê, uma nova classe média no Brasil que aproveita seu recém-conquistado padrão de vida para adquirir um carro para cada membro da família, é insustentável. Vamos acabar tendo que aceitar que o excesso de veículos torna o trânsito inviável, e que a bicicleta é uma boa alternativa, se houver investimento em ciclovias e educação de motoristas e pedestres.”

Quer dizer, agora que os mais pobres estão finalmente conquistando um padrão melhor de vida, vem um sujeito que sempre se beneficiou deles dizer que não pode. Indiretamente, acusa essas pessoas de causar os problemas que as grandes cidades enfrentam no trânsito há pelo menos uma década.

Esta é a mesma forma de acusação que vários meios de comunicação utilizam para culpar China e Índia pelo crescimento insustentável do consumo no mundo. Durante décadas os países desenvolvidos abusaram do planeta, com uma proporção de consumo muito maior do que a dos países mais pobres. Agora que alguns destes últimos ameaçam ter um padrão similar, os ricos são os primeiros a apontar o dedo: Não pode, é insustentável.

Bicicletas e carros podem viver perfeitamente bem e em harmonia no trânsito. O que é preciso para isto é aumentar e melhorar a infraestrutura para bicicletas. Mas isto não quer dizer, necessariamente, reduzir o espaço dos carros. Há um bom exemplo em andamento nesse sentido que torço para que seja aprovado. Refiro-me ao projeto de lei do deputado Jaime Martins que propõe destinar 15% do valor arrecado com multas no trânsito para:

  • apoiar Estados e municípios na instalação de bicicletários públicos e construção de ciclovias e ciclofaixas;
  • promover a integração das bicicletas ao sistema de transporte público coletivo;
  • promover campanhas de divulgação dos benefícios do uso da bicicleta como meio de transporte econômico, saudável e ambientalmente adequado.

É um projeto que garante uma verba exclusiva de infraestrutura para bicicletas e não afeta os motoristas que se comportam dentro das leis de trânsito. Além disso, não rotula de “insustentável” as atitudes dos mais pobres que finalmente estão podendo realizar o sonho de comprar o carro próprio. Ao contrário, o projeto cria incentivos para que mais pessoas passem a utilizar a bicicleta, porque, como eu, acham que andar de carro nas cidades é um pesadelo.

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O problema de medir só tempo e não a distância de locomoção nas cidades

agosto 18th, 2011 — 6:35am

A pesquisa Retratos da sociedade Brasileira: Locomoção Urbana [arquivo pdf] divulgada pelo CNI/Ibope esta semana tem um problema em sua concepção: Ela mostra o tempo gasto pela população em seus deslocamentos pela cidade entre sua residência e o local de sua atividade rotineira, mas não a distância. Segundo a pesquisa, 43% dos brasileiros gastam até 30 minutos por dia em seus deslocamentos. Este tempo leva em conta os trajetos de ida e volta, mais o tempo de espera. Outros 27% gastam entre 30 minutos e 1 hora. O gráfico abaixo, retirado da pesquisa, mostra todos os tempos.

O problema é que esta é uma visão geral de todos os brasileiros, considerando pessoas no interior, na periferia e em grandes centros, e desconsiderando as distâncias de deslocamento. O tempo deveria ser relativo às distâncias percorridas. Por exemplo, 30 minutos por dia para se deslocar em uma cidade com 30 mil habitantes pode ser considerado muito se comparado ao mesmo tempo em uma cidade com milhões de habitantes.

O mesmo vale para o tipo de deslocamento. Segundo a pesquisa, 31% da população utiliza algum tipo de transporte individual motorizado (carro, carona, taxi, motocicleta ou van) como principal meio de transporte. Isto significa que cerca de 13% da população utiliza um transporte individual como principal meio de transporte e gasta até 30 minutos por dia em deslocamentos com ele. Se considerarmos os 15km/h de velocidade média do trânsito de São Paulo, isto significa que estes 13% da população percorrem até 7,5km por dia, incluindo todos os seus deslocamentos. Outros 8,4% gastam entre 30 minutos e 1 hora, ou percorrem entre 7,5km e 15km por dia.

Mas a pesquisa não informa as distâncias então o exemplo do parágrafo anterior serve apenas como suposição. Sem saber as distâncias, não dá para medir a eficiência dos diferentes tipos de transportes utilizados. Também não dá para saber os tipos de deslocamentos realizados pela população. Por exemplo, no Canadá, de acordo com o Censo de 2006, a média de distância entre a residência e o local de trabalho da população foi 7,6km. Mais de 50% de todos que fazem este tipo de deslocamento por lá percorrem menos de 10km.

Eu adoraria ver este número no Brasil. Pois eu suspeito que não seria muito diferente aqui. Mesmo em São Paulo, acredito que a maioria das pessoas se desloca em média menos de 10km por trajeto. 10km numa bicicleta, a uma velocidade baixa, por exemplo 15km/h, significa percorrer o trajeto em 40min. É um tempo em uma distância perfeitamente viáveis para este tipo de transporte. Mas no Brasil não vinga porque a bicicleta ainda é vista por muitos como uso esportivo ou transporte “para pobre” e o carro é considerado um item de status, conforto e segurança. A própria pesquisa divulgada pelo CNI/Ibope mostra um pouco disto: Quanto maior a renda, maior é o uso do carro, e maior é a justificativa de seu uso por conta do conforto.

No caso das bicicletas, a solução para a melhorar a mobilidade urbana a curto prazo com seu uso, para mim, é construir ciclovias e encarecer o custo de se ter um automóvel nas cidades. Por exemplo, mais impostos locais, mais taxas de estacionamento, mais multas. A construção de ciclovias aumento o conforto e a segurança de quem opta pela bicicleta. O aumento do custo para se ter um carro diminui, de certa forma, o seu conforto, criando um desincentivo para o seu uso.

Mas sem termos os dados das distâncias e principais percursos das pessoas numa cidade para saber onde construir as ciclovias, fica um pouco mais difícil argumentar a favor delas.

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