Jorge Pontual, sua nova bicicleta e o direito de usar o carro
Jorge Pontual, jornalista, correspondente internacional da Rede Globo em Nova Iorque, é mais um a adotar a bicicleta no seu dia-a-dia. Ele deu uma entrevista ao blog Ir e Vir de Bike onde conta empolgado sua experiência. Acho bacana. Mas no final, a resposta para a pergunta “Porque no Brasil ainda existe resistência do poder público para incentivar o uso das bicicletas nas grandes cidades?” expõe um problema no seu discurso em favor das bicicletas (grifos meus):
“Não acompanho a situação no Brasil mas gostaria de saber mais a respeito. Acho que o nível insustentável de congestionamento do trânsito nas nossas grandes cidades vai levar o poder público e, espero, a população, a adotar medidas que restrinjam o uso dos veículos motorizados e incentivem o uso da bicicleta. É inevitável. O que a gente vê, uma nova classe média no Brasil que aproveita seu recém-conquistado padrão de vida para adquirir um carro para cada membro da família, é insustentável. Vamos acabar tendo que aceitar que o excesso de veículos torna o trânsito inviável, e que a bicicleta é uma boa alternativa, se houver investimento em ciclovias e educação de motoristas e pedestres.”
Quer dizer, agora que os mais pobres estão finalmente conquistando um padrão melhor de vida, vem um sujeito que sempre se beneficiou deles dizer que não pode. Indiretamente, acusa essas pessoas de causar os problemas que as grandes cidades enfrentam no trânsito há pelo menos uma década.
Esta é a mesma forma de acusação que vários meios de comunicação utilizam para culpar China e Índia pelo crescimento insustentável do consumo no mundo. Durante décadas os países desenvolvidos abusaram do planeta, com uma proporção de consumo muito maior do que a dos países mais pobres. Agora que alguns destes últimos ameaçam ter um padrão similar, os ricos são os primeiros a apontar o dedo: Não pode, é insustentável.
Bicicletas e carros podem viver perfeitamente bem e em harmonia no trânsito. O que é preciso para isto é aumentar e melhorar a infraestrutura para bicicletas. Mas isto não quer dizer, necessariamente, reduzir o espaço dos carros. Há um bom exemplo em andamento nesse sentido que torço para que seja aprovado. Refiro-me ao projeto de lei do deputado Jaime Martins que propõe destinar 15% do valor arrecado com multas no trânsito para:
- apoiar Estados e municípios na instalação de bicicletários públicos e construção de ciclovias e ciclofaixas;
- promover a integração das bicicletas ao sistema de transporte público coletivo;
- promover campanhas de divulgação dos benefícios do uso da bicicleta como meio de transporte econômico, saudável e ambientalmente adequado.
É um projeto que garante uma verba exclusiva de infraestrutura para bicicletas e não afeta os motoristas que se comportam dentro das leis de trânsito. Além disso, não rotula de “insustentável” as atitudes dos mais pobres que finalmente estão podendo realizar o sonho de comprar o carro próprio. Ao contrário, o projeto cria incentivos para que mais pessoas passem a utilizar a bicicleta, porque, como eu, acham que andar de carro nas cidades é um pesadelo.
