Steve Jobs, Apple, e a transformação do mundo – Parte 2
Steve Jobs: “Picasso tinha um ditado – ‘bons artistas copiam, grandes artistas roubam’ – e nós nunca tivemos vergonha de roubar grandes idéias.” (Steve Jobs by Walter Isaacson 2011)
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(Se ainda não leu, a Parte 1 está aqui)
Em 1985, recém demitido da Apple, Steve Jobs deu uma entrevista para a revista Playboy americana. No longo texto, Steve fala de muita coisa, e faz previsões sobre o futuro tecnológico. Previsões estas, hoje revistas, que estavam quase todas erradas. Quando acertou, a previsão era óbvia, e tratava de algo que já estava ocorrendo, como a Internet, por exemplo, introduzida 3 anos antes.
Jobs errou ao falar que não haveria mais empresas de garagem relacionadas a computadores (três contra-exemplos dentre as grandes incluem Compaq, Lenovo e Dell). Errou sobre a redução do consumo de papel. Errou sobre a AT&T se manter operante (ela não se transformou por vontade própria mas foi forçada a ser desmantelada por causa do monopólio, e fracassou no mercado de computadores). Errou sobre Xerox e RadioShack estarem fora dos negócios (ano passado esta última lucrou mais de USD 4bi). Errou sobre os japoneses (e.g., Sony e Nintendo). E, meu favorito, errou sobre termos hoje melhores políticos.
Errou também ao afirmar que o IBM PC não seria o único padrão de computadores desktop, e ao prever as vendas deles e dos computadores Apple. Aliás, errou feio. Jeremy Reimer publicou no final de 2005 um trabalho de pesquisa impressionante sobre a venda de computadores pessoais entre 1975 e 2005. Segundo ele, foram várias noites viradas comparando os números de publicações antigas, até encontrar fontes que não se contradiziam. O resultado é uma planilha com os números de computadores vendidos por modelo e por ano.
A planilha de Jeremy Reimer. Clique na imagem para ampliar
A planilha mostra que a previsão de Jobs de que a Apple disputaria o mercado junto com a IBM nunca se concretizou. Primeiro, a Apple nunca teve mais do que 22% do mercado de computadores (em 2005 o número foi 2,41%). Com preços sempre mais altos, a empresa nunca conseguiu popularizar seus produtos. Segundo, a IBM também não conseguiu manter sua linha de produtos dominante diante da concorrência com os clones. Na época, a Compaq se transformava no mais forte deles. Steve Jobs errou ao supor que a briga se daria entre Apple e IBM mas teve quem acertaria prevendo o domínio do padrão IBM PC.
Ainda em 1985, Bill Gates escreveu um memorando para a Apple. No texto, ele elogiava o Macintosh por seu design mas alertava para o fato dos computadores da empresa não terem se tornado o padrão de mercado. Bill Gates deduzia corretamente que era o preço baixo dos clones do IBM PC que estavam transformando-o no padrão. Mesmo que estes computadores tivessem deficiências em relação aos produtos da Apple, estas seriam minimizadas pela quantidade de competidores dentro do mesmo padrão capazes de superá-las mais rapidamente.
Dentro deste contexto, o memorando de Bill Gates propunha uma parceria entre a Microsoft e a Apple, onde a Apple licenciaria seu sistema operacional e design de hardware para outras empresas. Segundo Jeremy Reimer, a proposta era genuína visto que a Microsoft, na época, apoiava e promovia o Macintosh. Bill Gates temia que sem computadores compatíveis, a Apple não se tornaria um segundo padrão como previa Jobs.
E Gates estava certo. Jean-Louis Gassée, então diretor executivo da Apple, rejeitou o memorando e decidiu concentrar seus esforços em criar computadores melhores. A estratégia garantiu sobrevida à empresa, mas ela nunca conseguiu chegar perto de dominar o mercado. De 22% em 1984, a fatia da Apple no mercado caiu para 15% no ano seguinte e 12% em 1986. A Apple ia aos poucos se tornando uma empresa de nicho, agradando apenas a profissionais gráficos e entusiastas. Mas seu preço mais alto e incompatibilidade com o PC manteve, até hoje, seu mercado restrito.
Houve na Apple quem tentasse por em prática a proposta de Bill Gates. John Sculley, outro executivo da empresa, viajou os Estados Unidos e conseguiu criar o interesse de licenciar os seus produtos em várias grandes empresas. Mas Gassée era irredutível. Além de achar que a superioridade dos produtos Apple prevaleceria, ele suspeitava das intenções de Bill Gates. Mas até então, a Microsoft lucrava mais com a venda do Word e do MultiPlan (predecessor do Excel) para os usuários da Apple do que com a venda do sistema operacional DOS para computadores no padrão IBM.
Esta era a interface com o usuário do Windows 1.0
O interesse de Gates em ajudar a Apple parecia genuíno. Mas a recusa de Gassée forçou a Microsoft a acelerar o desenvolvimento do Windows. Em Novembro de 1985, Gates anunciava o sofrível Windows 1.0. O produto estava atrasado pelo menos 3 anos em relação a outros no mercado mas já apresentava notáveis semelhanças em relação ao sistema operacional da Apple. As semelhanças, na verdade, estavam em quase todas as interfaces gráficas com o usuário (GUI em inglês) da época, inspiradas na original da Xerox.
É um erro afirmar que a Apple mudou o foco do mercado para as GUIs quando todos ainda pensavam em computadores com interfaces mais rudimentares. Ninguém havia feito antes porque o custo era alto e não por falta visão. A própria Apple lançou seu primeiro computador com uma GUI ao preço de US$ 10 mil e não emplacou. Enquanto isto, outros desenvolviam suas versões. A Microsoft, por exemplo, desenvolvia a sua desde 1983, desde antes do lançamento do Macintosh, e também tinha licenças da Xerox.
O Windows 1.0 era muito ruim. E, por isso, foi um fracasso de vendas. Mas o desenvolvimento acelerado do sistema logo gerou o mais bem sucedido Windows 2.0, lançado em 1987, dois anos depois do primeiro. Em paralelo, Apple e Microsoft continuaram brigando na justiça. A Apple acusava a Microsoft de copiar sua GUI e a Microsoft se defendia com as licenças da Xerox e alegações de desenvolvimento próprio. A Apple, numa única ação, contestava 189 cópias de elementos visuais. O juiz deu ganho de causa para a Microsoft mas a primeira só sossegou quando recebeu US$ 100 milhões da Microsoft em 1997.
Em paralelo a tudo isto, Steve Jobs assumia duas empresas. A pouco conhecida NeXT foi fundada por ele em 1985 com o foco no mercado de computadores para empresas e educação superior. A outra empresa chamava-se Graphics Group quando foi comprada em 1986 por Steve e renomeada Pixar. A primeira acabou por levar Jobs de volta à Apple em 1997. A segunda revolucionou a indústria de longas-metragens animados por computador.
(continua se eu arrumar tempo e disposição para continuar escrevendo sobre o assunto, e depois que eu terminar de ler a biografia de Steve Jobs, por Walter Isaacson)
Referências:
