O Kindle e a Revolução da Leitura
Em 2010, um artigo de co-autoria minha foi publicado no Manual de Gestão de Tecnologia. Intitulado “Organizational Impacts of Information Technology” (impactos organizacionais da tecnologia da informação), o artigo fala, dentre outras coisas, do mito do “escritório sem papel”. O mito de que no futuro não utilizaríamos mais papel no nosso dia-a-dia surgiu como previsão na década de 70 e até hoje não se concretizou. Pelo contrário, com alguma exceção nos últimos anos, de 70 para cá o que vimos foi um consumo cada vez maior de papel. A previsão do “escritório sem papel” não podia estar mais errada.
Um dos argumentos no artigo para a previsão incorreta é o de que as sensações físicas que obtemos com o papel ainda não são transportadas para o meio digital. Não há cheiro ou sensação de tato que caracteriza, por exemplo, um livro. Hoje, nossas sensações para interagir com o meio digital são reduzidas ao toque com os dedos. Segundo Bret Victor, num excelente discurso sobre o futuro das interfaces, esta é uma redução que ignora um universo de possibilidades que nossas mãos oferecem para sentir e manipular coisas. Sem falar do resto do nosso corpo. Clark, Goodwin, Samuelson e Coker foram além das possibilidades humanas de interação em um estudo publicado em 2008. Para eles, além das limitações que Victor destaca com as interfaces, os atuais dispositivos tem problemas com padrões incompatíveis entre os formatos de livros digitais, com ergonomia, e com a gestão dos direitos digitais (em inglês, DRM).
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Papai Noel foi generoso este ano e me deu um Kindle de presente. Devo ter me comportado bem.
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O Kindle é um leitor de livros digitais. Seu foco é nesta atividade e o dispositivo foi desenvolvido para proporcional ao leitor a experiência mais intuitiva possível entre o leitor e o livro. Nas palavras do Jeff Bezos, Diretor Executivo da Amazon, empresa que criou o Kindle, o dispositivo foi feito para desaparecer nas mãos do leitor ou “sair da frente”. Em outras palavras, o objetivo é fazer com que o leitor esqueça que está lendo algo em um dispositivo digital e embarque na experiência da leitura como faria num livro impresso.
Para mim, em vários aspectos, este objetivo foi atingido.
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Eu acabei de ler meu primeiro livro no Kindle. “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” é um romance criminal de mais de 520 páginas, o primeiro na trilogia escrita pelo autor sueco Stieg Larsson. Uma adaptação do livro para o cinema está em cartaz nos cinemas brasileiros. Ainda não vi o filme. Na história, o jornalista Mikael Blomkvist investiga o desaparecimento de uma jovem na década de 60, herdeira de um império industrial. No desenrolar das descobertas, vamos descobrindo junto com o jornalista os esqueletos no armário da família e o sadismo de alguns de seus membros contra mulheres de maneira geral.
O romance é repleto de clichês previsíveis e os personagens são quase todos maniqueístas. Entretanto, a descrição rica da história da família e sua conexão com o nazismo sueco, além da curiosidade que provoca em torno do mistério, tornam o livro palatável. Em vários momentos parecia que estava lendo O Código DaVinci, de Dan Brown. Os personagens principais de ambos, por exemplo, são parecidos. Mas em poucos momentos me dei conta que estava lendo o livro no Kindle.
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Do que gostei no Kindle:
- Dicionário integrado e que permite a rápida localização de vocábulos durante a leitura;
- Formato e peso apropriados e que permitem segurar o Kindle com facilidade em várias posições;
- Possibilidade de destacar e anotar trechos do livro e navegar ou compartilhá-los no Twitter ou Facebook depois;
- Preço dos livros é, em geral, mais baixo que o de livros impressos e ainda é possível ler uma infinidade de livros gratuitos;
- Tela não-reflexiva que realmente se assemelha e muito a um livro impresso.
Do que não gostei:
- Da ausência de teclado. Escrever qualquer coisa no Kindle é um martírio utilizando apenas os botões direcionais;
- Relativa dificuldade em navegar pelo livro. O Kindle funciona muito bem com uma leitura em sequência, uma página após a outra. Mas revisitar páginas anteriores e retornar ao ponto em que estava não é sempre prático;
- Da maneira como o Kindle exibe arquivos em pdf. É praticamente impossível ler textos em pdf formatados em duas colunas, por exemplo;
- Da perda de identidade dos livros.
Sobre o último ponto, comento um pouco mais. Cada livro é único quando impresso. Não só porque após manuseá-lo ele terá características individuais do leitor marcadas nele mas porque os livros impressos são diferentes uns dos outros. Por exemplo, capa, tamanho, número de páginas e tipografia identificam um livro impresso de maneira que não é possível no Kindle. Nele, cada livro é igual exceto pelo conteúdo. Perde-se no processo o valor de perceber o livro. De vê-lo numa estante ao lado de outros. De mostrá-lo a amigos em sua casa e ler as orelhas. De emprestá-lo.
Sim, embora existam alguns passos no sentido de permitir o empréstimo de livros digitais, isto ainda é praticamente impossível na prática. E mesmo que fosse, o seu amigo precisaria ter um leitor de livros digital também. Com o Kindle, o livro deixa de ser uma entidade independente e passa a ser subserviente de uma máquina. Lê-lo nela, portanto, não é apenas uma transição de meios mas uma revolução na maneira como lidamos com a leitura.
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Eu não acho que o Kindle irá substituir o livro impresso por completo. Acho que o processo de transição (que já dura décadas) não será (não está sendo) linear. Não acho que o Kindle, hoje, é capaz de substituir o livro didático impresso ou revistas (principalmente as mais gráficas). Estas últimas podem ter uma transição melhor para o iPad, por exemplo. Também acho que o Kindle não irá substituir os livros impressos preferidos de um leitor. Exibir estes numa estante ainda tem um valor forte que nenhum dispositivo digital hoje é capaz de substituir.
Mas o Kindle pode sim ser um bom complemento. Uma maneira adicional (dentre tantas existentes hoje) de ler. Estou gostando muito dele e acho que, como outros já disseram, pode fazer com que eu leia mais. Acho que o Kindle é um candidato forte para substituir o livro de bolso (paperback). Aquele livro impresso mais barato e de qualidade inferior pode muito bem ser lido no Kindle sem muita perda. Eu, por exemplo, sempre comprei este tipo de livro por não me importar com seus aspectos físicos. Queria apenas uma forma barata de ler seu conteúdo. No Kindle, o barato pode até sair de graça e suponho que a qualidade da leitura será melhor.
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Para quem estiver interessado, meu perfil online do Kindle pode ser acessado aqui.