Desvendando o Grupo dos Ciclistas Assassinos
O Brasil é o único país que conheco onde ciclistas tentam atropelar carros. Esses verdadeiros guerreiros desafiam todas as leis para lutar contra os carros e seus motoristas, estes últimos, os cidadãos de bem. Cidadãos de bem para os quais as ruas brasileiras foram feitas. Tudo ia muito bem para eles neste sentido enquanto viviam felizes engarrafados no trânsito que era só deles. Mas aos poucos um grupo secreto começou a se formar. Aos poucos, as tais bicicletas, antes parte apenas do imaginário coletivo, começaram a dividir o mesmo espaço.
No começo elas fingiam querer apenas o convívio pacífico. Ciclistas afirmavam estarem satisfeitos em ficarem espremidos entre carros, e em não terem segurança e respeito. Para os carros e seus motoristas, então, a presença dessa minoria não importava. Afinal, tudo continuava a melhorar: Mais carros nas ruas, mais poluição e mais trânsito eram os sinais óbvios. Mas aos poucos, começava-se a ouvir aqui e ali que ciclistas estavam morrendo.
E quanto mais se ouvia, mais ficava evidente o plano deste grupo. O trânsito brasileiro para eles é uma guerra e o inimigo são os carros. Neste tempo todo, os ciclistas estavam, na verdade, fazendo sua parte bravamente: morrendo tentando atropelar carros. É uma missão difícil que requer bastante coragem mas que até agora vem sendo muito bem executada.
Eu nunca vi tanta dedicação em guerra. Os ciclistas parecem treinar todos os dias, em várias cidades do país. Como ninjas, escolhem seus alvos com cuidado e atacam quando menos se espera. É tudo tão impressionante que eu não sei como exércitos do mundo todo ainda não entrataram em contato com os líderes responsáveis por preparar estes bravos guerreiros.
Vejam o exemplo de Wanderson Pereira dos Santos, morto em combate nesta segunda-feira. Wanderson conseguiu com sucesso atingir sua vítima, Thor Batista, filho do empresário Eike Batista, homem mais rico do Brasil. Para conseguir tal façanha, Wanderson treinou com vários outros colegas. Thor, bom observador, já percebia esta movimentação no local do ataque como você pode ver em uma de suas mensagens no Twitter. Ele disse que presenciou 6 tentativas de ataques no último ano.
Thor, então, ficou mais esperto. À noite, passou a usar todos os seus faróis para ter certeza de poder observar tudo. Farol alto, farol de neblina e até o farol de milha foram utilizados. Tudo para evitar um possível ataque àquela hora da noite. Mas Wanderson foi melhor. De súbito, camuflado para que as luzes não o iluminassem, Wanderson partiu para cima com todas as suas forças. Foram anos de treinamento, sempre naquele trecho da rodovia, tudo pensado para aquele momento.
Infelizmente Wanderson foi ousado demais. O seu alvo era feito de material muito resistente. Thor, experiente motorista, com mais de 50 pontos na carteira, sabia disso. Ele afirmou que mesmo que o carro estivesse em baixa velocidade, Wanderson não teria chance de sobreviver. Mas Thor talvez não esperasse que seu carro fosse ficar tão danificado. Wanderson não conseguiu que o airbag do veículo fosse ativado mas pelo menos destruiu o pára-brisa e arranhou parte da lataria do carro que vai de 0 a 100 km/h em menos de 4 segundos.
O tamanho dos danos fez com que a morte de Wanderson fosse digna de ficar para a história do Grupo de Ciclistas Assassinos. Uma que agora declara abertamente a guerra. O grupo já tem até seguidores internacionais. O último foi um belga que morreu utilizando a mesma tática de Wanderson. Em Campos dos Goytacazes, também no estado do Rio, o ciclista tentou atropelar um carro em um cruzamento. A vítima disse que estava a 50km/h mas mesmo assim não conseguiu fugir do ataque do ciclista.
É uma pena que ela tenha sido atingida. Ataques como este assustam os motoristas atingidos e também os demais, já cientes de que podem ser as próximas vítimas. Mas motoristas, não se preocupem! Vocês estão amparados pelo governo e pela mídia que dá a vocês todo o apoio possível. Além do mais, nesta guerra, só um lado morre.



