Um dos argumentos que mais escuto no Brasil para as pessoas não usarem bicicleta é que faz muito calor e ninguém quer suar antes de chegar no trabalho, supermercado, shopping, etc. Mas eis que me deparo com o verão Dinamarquês. Faz calor também, tem dia que bate 35 graus. O sol é forte e nem sempre o tão incômodo vento gélido do norte resolve colaborar justamente nestes poucos momentos que precisamos dele. Mesmo assim, ao invés de diminuir o número de ciclistas na rua, eles aumentam! Incrível, não!?
É verão, faz calor? Então use menos roupas! (fonte)
Em outras palavras, para mim, no Brasil, quem goza de saúde plena, mora a menos de 5km do trabalho e não usa bicicleta para se deslocar é muito provavelmente acomodado. Preguiçoso mesmo! Porque não há nada mais que explique o sujeito pegar um carro para percorrer míseros 5km. É preguiça de mexer as pernas um pouco por no máximo 30 minutos. É muito mais conveniente (e ao mesmo tempo egoísta, claro) sentar a bunda no carro, ligar o ar condicionado e ignorar os problemas do mundo na sua bolha particular. Se não por isto, então há outra razão. E talvez as duas andem bem juntas neste caso. Status! O sujeito quer se exibir, aí bota o terno para ir ao trabalho e diz que se não fosse de carro, suaria muito.
Como assim ir para a praia de carro? A galera aqui na Dinamarca vai de bicicleta em massa. (fonte)
No Brasil, distinção de classe está justamente no suor. O pensamento desta elite preconceituosa segue a seguinte linha: Quem sua é pobre que faz trabalho braçal e não pode bancar ar condicionado. Rico trabalha menos e não pode se sujeitar as mesmas condições de transporte e que geram suor. Imagina suar no terno Armani novo! Aqui em Aalborg, ao contrário, vi ontem o chefe do departamento de Ciência da Computação da Universidade indo trabalhar de bermuda e camiseta. Foi de bicicleta, claro. Imagina uma coisa dessas no Brasil?! Quem é que admitiria um empregado indo trabalhar de bermuda e camiseta? Não pode, tá errado. Não pode ir de bicicleta também porque tem que mostrar que é bem de vida. Vejam neste exemplo uma explicação histórica (daqui):
“No século XIX, entre o meio industrial inglês, surgiu o colarinho branco como marca da estratificação social. Apenas os que ocupavam altos cargos nas empresas poderiam ostentar o colarinho alvejado, pois nos postos mais baixos o contato com a fuligem fazia qualquer peça de roupa branca enegrecer em poucos minutos. A essa mesma época, as próprias necessidades do trabalho impuseram o abandono do uso da casaca em prol de uma vestimenta que era um aperfeiçoamento das roupas dos trabalhadores rurais: o terno.
Se antes as calças vinham apenas até o joelho, Lord Brummel lançou a moda das calças compridas, como aquelas usadas pelos limpadores de chaminé. Mas claro, estas calças de limpador de cahminé combinavam-se com botas polidas com champagne, com paletós negros e camisas brancas com elaborados nós de gravata. Brummel, o pai do dandismo, morre em 1840, mas deixa fincadas as raízes do uso do terno como distinção de classe, como foram as unhas compridas na antiga China: o trabalhador braçal, de baixa renda, de classe baixa, não pode usar colarinhos brancos, nem manter as unhas compridas, senão não trabalha, não come, não sobrevive.
No Brasil, a distinção se faz pelo suor. Somos a última nação ocidental pretensamente civilizada a abolir o trabalho escravo. Isso há pouco mais de 100 anos. O escravo era os pés e as mãos do seu senhor. Seus braços e pernas. São conhecidas as gravuras do período colonial em que vemos escravos carregando o senhor em sua liteira, vestido como se europeu fosse, abanando-se ou sendo abanado. Acaso estivesse esse senhor andando pelas próprias pernas, suportaria o calor em sua casaca de veludo?
[Atualmente, ]Vai embora a casaca mas em seu lugar fica o terno (…)”
Mas não adianta argumentar que pedalando devagar você sua muito pouco ou que podemos (devemos) usar roupas mais leves no dia-a-dia. Não adianta um texto longo como este e provas de que o uso de bicicletas funciona em outros lugares. Sabe o que adianta? Mexer no bolso destas pessoas. Quando usar carro passar a se tornar algo extremamente caro, aí elas passarão a procurar alternativas. E também cobrar por infraestrutura para as bicicletas. Alguém aí acha que é possível de outra forma?