Category: Educação


Onde está o aquecimento global?

maio 12th, 2012 — 8:05pm

Primeiro foi um amigo meu que me falou de uma entrevista do Professor da USP, Ricardo Augusto Felício, no Jô Soares. Depois eu vi no Facebook um link para a entrevista com o climatologista Luiz Carlos Molion no programa Roda Viva. Por último, vi no Twitter um outro link para um artigo do Alexandre Garcia reduzindo o aquecimento global a um pum.

Vendo estas referências, parece até que o aquecimento global sumiu ou, melhor, nunca existiu. Essas pessoas afirmam tão categoricamente que o aquecimento atual não passa de um processo natural da terra que muitos começam a acreditar nisso. Mas é difícil brigar com fatos. Repare nos links acima (se tiver paciência de vê-los) como quase não há referências para as afirmações que os negadores do aquecimento global fazem. Reparem também que os entrevistadores não questionam a fundo os seus entrevistados. É tudo muito conveniente.

Não estou aqui suspeitando da índole de ninguém. Mas acho que há muita desinformação que precisa ser esclarecida. Um pouco de pesquisa e questionamentos ajudam a desmentir quase tudo o que foi dito por essas pessoas. E dá para fazer isso ponto por ponto.

Não há aumento de temperaturas na terra desde 1998
Essa é uma das primeiras afirmativas que o Luiz Carlos Molion faz logo começo de sua entrevista. Segundo ele o aquecimento global terminou nesse ano. Mas não é o que diz a NASA. Segundo ela, 2010 foi o ano mais quente de todos os tempos, num empate técnico com 2005. Dos 8 anos mais quentes de todos os tempos, 7 ocorreram nos anos 2000. Apenas 1998 que não. Mas se você não acredita na NASA, existem vários outros estudos que mostram o aumento das temperaturas depois de 1998.

O gráfico acima mostra a variação de temperatura ano a ano desde 1973 e uma linha (em vermelho) de tendência. A figura faz parte de um estudo independente da Universidade Berkeley que também desmistifica a suposta má qualidade e os problemas de medição das estações meteriológicas de todo o mundo. Além deste estudo, o site Skeptical Science mostra (link em português) diversos outros juntamente com inúmeras outros gráficos demonstrando o aumento das temperaturas desde 1998.

O sol é o principal responsável pelo aquecimento no nosso planeta

Todos as três pessoas que citei no começo deste post fazem esta afirmação. Sim, em parte o sol é um dos principais responsáveis pelas temperaturas que experimentamos na Terra. Mas não é ele o responsável pelos aumentos que ocorreram nos últimos 30 anos. Pelo contrário, fosse pelo sol, a Terra deveria ter esfriado um pouco. Novamente mostro um gráfico:

Ele mostra, em vermelho, as mudanças de temperatura ano a ano e, em azul, a irradiação solar total no mesmo ano. Repare que até o final da década de 1970, a similaridade entre as duas curvas é muito grande. Depois, a irradiação solar começa a cair enquanto a variação de temperatura aumenta. O sol e o clima estão, na verdade, caminhando em direção opostasEste link lista quase 20 estudos científicos que mostram que o sol não é o responsável pelo atual aquecimento da Terra.

O CO2 é inocente

Alexandre Garcia ironiza o tema dizendo que agora o “culpado” pelo efeito estufa é o gás metano. Ricardo Augusto vai além e diz que o efeito estufa não existe. Segundo ele essa “é uma física impossível” e que se trata da “maior falácia científica que existe”. Até agora não sei muito o que dizer. Afinal o Ricardo é um climatologista e deve entender do assunto. Mas eu não consigo entender como é que ele pode negar algo que é estudado e confirmado estudo após estudo desde 1824 por Joseph Fourier (um matemático e físico excepcional, por sinal) sem dar nenhuma explicação mais detalhada.

Pesquisando no Google, Ricardo parece negar o efeito estufo em referência aos estudos de John O’Sullivan, que defende o modelo termal alternativo de Postma. Eu não sei detalhes nem nunca ouvi falar deste modelo. Mas este link rebate-o e aponta erros nele de maneira bastante consistente, até onde consegui entender. Neste outro site, JoNova explica como o efeito estufa não invalida a Lei dos Gases (outra afirmação suspeita que o Ricardo Augusto faz na entrevista com o Jô). Neste site, aliás, o tal Joseph Postma responde, e JoNova rebate de volta. A página dela estourou o limite de comentários e eu recomendo que você veja algumas das discussões por lá. Veja também este link para uma discussão semelhante em outro site.

Como funciona o Efeito Estufa. 1. Radiação solar passa pela atmosfera; 2. Terra aquece e emite radiação infravermelha; 3. Radiação infravermelha é absorvida pelos gases do efeito estufa e re-irradiada para todos os lados.

E já que o efeito estufa continua aí e, aliás, sem ele a temperatura média na Terra seria de -18ºC, os gases que mais contribuem com ele são justamente o CO2 e, vejam vocês, o gás metano. A comparação feita em medições de satélite que ocorreram em 1970 e 1996 mostram justamente isso. O gráfico abaixo mostra uma queda significativa de radiação nas faixas em que os gases como CO2 e CH4 (metano) a absorvem, indicando um aumento do efeito estufa.

O artigo continua também com outros argumentos, mas é bem técnico.

O homem contribui muito pouco para as emissões de CO2

Luiz Carlos Molion diz em sua entrevista que o aquecimento global não é produzido pelo homem. Segundo ele, não é o CO2 produzido pelo homem através de combustíveis fósseis que controla o clima. Luiz Carlos cita um artigo da revista Nature de Novembro de 2010 para justificar que em eras glaciais passadas as temperaturas eram mais altas que hoje e a concentração de CO2 era 30% menor.

Eu não sei se eu achei o estudo ao qual ele se referiu. Mas um estudo publicado na revista Nature em 2010 se assemelha bastante. Mas é provável que não seja o mesmo pois ele diz o contrário do que o Luiz afirmou. Segundo o estudo, “períodos interglaciais (…) parecem ser caracterizados por massas continentais de gelo maiores, menor nível do mar, temperaturas mais baixas e concentracões atmosféricas de CO2 menores, em relacão a períodos interglaciais mais recentes.” O estudo indica que há uma relacão entre a concentracão de gases do efeito estufa e as temperaturas nesses períodos: “Este aquecimento surge a partir do aumento da insolação durante o período (…) em conjunto com um aumento da concentração dos gases do efeito estufa na atmosfera.” Este outro texto explica que, de fato, o aumento de CO2 ao longo de milhares de anos foi, na verdade, a causa e o efeito do aumento da temperatura nesses períodos.

E o fato da concentração do CO2 aumentar na atmosfera é importante. Porque, de fato, o CO2 emitido pelo homem é uma fração muito pequena de todo CO2 emitido na terra. Só que esta é a parte que justamente não é absorvida de volta e fica na atmosfera aumentando sua concentração. 40% do CO2 emitido pelo homem não é absorvido.

Da esquerda para direita, quantidade de CO2 em gigatoneladas emitida e absorvida pela 1) queima de combustíveis fósseis, 2) vegetação; 3) oceanos.

 

O nível do mar não está subindo

Ricardo Augusto diz que o nível do mar não está subindo, que o processo natural que ocorre é o de agradação (recuo em relação ao continente, aumentando praias e orlas) e degradação (avanço do mar). Sim, este processo existe mas não quer dizer que o nível do mar continue o mesmo. Um fenômeno não exclui o outro.


Aumento médio do nível dos oceanos de 1870 até 2008

O nível dos oceanos está subindo. Isto é determinado através de vários métodos que levam em consideração, fenômenos naturais, variações da maré, dentre outros aspectos. E não é só que o nível esteja subindo, a taxa de aumento também está aumentando.

Fechando a conta

Há várias outros mitos que são divulgados sem evidência por algumas pessoas, inclusive os três do começo deste texto. Na maioria dos casos, isso ocorre por desconhecimento ou má interpretação de vários níveis sobre como o aquecimento global está ocorrendo. É claro que essa grande massa de estudos que demonstram o aquecimento global e suas consequências, e todas as pessoas que os defendem podem, no futuro, estar erradas. E se, nesse futuro, novos fatos forem descobertos que contradigam teorias atuais, temos sim que revisá-las. Mas atualmente todos os fatos apontam para o aquecimento global. Numa frase que é atribuída ao economista John Keynes, ele diz que “quando os fatos mudam, eu mudo de idéia. O que você faz, senhor?”

Se você não acredita em fatos, lamento, mas você sofre do efeito do “tiro pela culatra factual”. Pelo menos segundo alguns cientistas da Universidade de Michigan. Segundo eles, pessoas com fortes crenças quando confrontadas por fatos que as questionam, tendem a defender e se apegar ainda mais a elas. Pior ainda, elas chegam até a distorcer estes mesmos fatos para adequá-los a suas crenças.

O perigo deste comportamento começa quando as crenças pessoais tem impacto na sociedade. Alexandre Garcia, por exemplo no artigo citado no começo deste texto, acha que o novo Código Florestal não precisa ser vetado. Para ele, isso seria uma tentativa vã de preservar a natureza. Não é o que dizem os fatos, Alexandre. E acho muito difícil brigar com fatos.

5 comments » | Educação, Política, Sociedades

A excelente educação finlandesa; E o Brasil?

abril 14th, 2010 — 8:00am

O Luiz Nassif publicou em seu blog semana passada um link para uma matéria da BBC sobre o sucesso do sistema de educação finlandês [en]. Muita gente nos comentários do blog do Nassif parece que não entendeu a matéria, atribuindo o sucesso deles (e o nosso fracasso) aos altos salários dos professores e os altos investimentos em educação.

Sala de aula na Finlândia (fonte)

Mas não é por isso que a Finlândia obtém os melhores resultados em exames internacionais de avaliação de sua educação. Para começar, a Finlândia nem tem os maiores investimentos nem os maiores salários. Este posto fica com Dinamarca, Islândia, Córeia do Sul, Estados Unidos e Israel, todos gastando mais de 7% do seu PIB com educação; A Finlândia gasta 6,4% [en]; O Brasil 4,5% [pdf - en]. Segundo, os salários em torno de EUR 3000,00 (três mil euros ou R$ 7161,00) não são tão altos assim como o valor absoluto faz parecer. A Finlândia tem um alto custo de vida e uma alta carga tributária. Além disto, os salários lá estão abaixo do valor do PIB per capita do país.

A Finlândia não está tão a frente do Brasil porque investe mais. Está porque investe melhor, o que se traduz numa pedagogia melhor. No vídeo no site da BBC, mesmo que você não entenda inglês, repare na pequena quantidade de alunos em uma sala de aula, na disposição das mesas e cadeiras, nas expressões dos alunos e professores, e nos materiais disponíveis, espalhados pela sala. Dá prazer estudar num ambiente assim.

Estudar, lá, é um conceito mais amplo. Os estudantes finlandeses são os que têm o menor número de horas em sala de aula entre os países desenvolvidos. E eles só começam a estudar a partir dos 7 anos. Mas a educação não pára quando a aula acaba. Ela continua com a comunidade, família, amigos e até mesmo com a escola em atividades extra-curriculares. Este envolvimento das pessoas faz toda a diferença.

Enquanto isto, no Brasil, temos a maior média de alunos por sala de aula, professores mal-qualificados, metodologias de ensino do século XIX, e alunos que saem da escola e vão para frente da TV, para a igreja, ou trabalhar. É como se Paulo Freire nunca tivesse existido (ou como se fosse finlandês). Quase nada do que ele defendeu desde a década de 60 é usado aqui no Brasil. A Finlândia, ao contrário, mudou os seus valores sobre o que significa educação; mudou de paradigma de ensino. É aí que está a grande diferença.

Luiz Flávio

8 comments » | Educação

Entrevistando Candidatos ao Mestrado do IIIT-B

maio 11th, 2009 — 7:48am

Na semana que passou, entrevistei quase 30 candidatos ao mestrado do IIIT-B. As entrevistas fazem parte do processo de coleta de dados da minha tese. O objetivo é entender como a tecnologia da informação (TI) faz parte da educação destes candidatos e de que maneira ela contribui (ou atrapalha).

Sem entrar em detalhes do que trata minha pesquisa, foi interessante entrevistar estes jovens com idade entre 18 e 22 anos. Eles estiveram no IIIT-B para as entrevistas de admissão (de 600, apenas 150 serão selecionados) e aproveitei para abordá-los logo que saíam das mesmas. Praticamente todos tinham o olhar assustado e perdido num futuro ainda incerto que tentavam projetar. Estavam bem arrumados dentro do que permitia a concepção de cada um e foram bem receptivos quando eu pedia 10 minutos para mais algumas perguntas de minha parte.

Praticamente todos buscavam o programa de mestrado para conseguir uma melhor colocação no mercado de trabalho. Os que tinham alguma experiência profissional, ganhavam em torno de R$ 1.000/mês. E todos esperavam ganhar pelo menos o dobro depois que concluíssem o mestrado. Sobre este assunto, aliás, alguns me entrevistavam mais do que eu a eles. Queriam saber como era o programa de colocação em empresas (assunto que já foi tema aqui no blog), quais eram as empresas participantes, o percentual de alunos que entrava, e como estava o processo diante da crise.

A crise é assunto recorrente aqui também. A preocupação é que efeitos de crises passadas se repitam nesta, contribuindo para salários reduzidos por décadas. Segundo alguns estudos, alunos que entram no mercado de trabalho em tempos de crise tendem a ganhar 8% menos no primeiro ano em comparação a alunos formados em anos de fartura. Os efeitos permanecem por décadas e podem chegar a uma diferença de até US$ 100.000 em um período de 18 anos.

Isto explica em parte a tensão no semblante dos candidatos. A outra parte é que muitos têm em mãos não só a possibilidade de estudar no IIIT-B mas também em outros institutos ou de optar por uma oferta de emprego. Pesa muito na decisão de cada um a opinião do pai (a mãe conta pouco nesta sociedade ainda muito machista), e a possibilidade de ganhos no curto prazo. Poucos realmente se importam em fazer o que gostam e estudar por desejar. E não é necessariamente por uma visão míope deles próprios que fazem isto. É porque não há outra opção mesmo.

Tornar-se um profissional de TI reconhecido é provavelmente uma das poucas chances que estes jovens tem de melhorar de vida. E o mestrado em um instituto de prestígio é considerado o único caminho para a maioria deles.

2 comments » | Educação

Back to top