Category: Política


Onde está o aquecimento global?

maio 12th, 2012 — 8:05pm

Primeiro foi um amigo meu que me falou de uma entrevista do Professor da USP, Ricardo Augusto Felício, no Jô Soares. Depois eu vi no Facebook um link para a entrevista com o climatologista Luiz Carlos Molion no programa Roda Viva. Por último, vi no Twitter um outro link para um artigo do Alexandre Garcia reduzindo o aquecimento global a um pum.

Vendo estas referências, parece até que o aquecimento global sumiu ou, melhor, nunca existiu. Essas pessoas afirmam tão categoricamente que o aquecimento atual não passa de um processo natural da terra que muitos começam a acreditar nisso. Mas é difícil brigar com fatos. Repare nos links acima (se tiver paciência de vê-los) como quase não há referências para as afirmações que os negadores do aquecimento global fazem. Reparem também que os entrevistadores não questionam a fundo os seus entrevistados. É tudo muito conveniente.

Não estou aqui suspeitando da índole de ninguém. Mas acho que há muita desinformação que precisa ser esclarecida. Um pouco de pesquisa e questionamentos ajudam a desmentir quase tudo o que foi dito por essas pessoas. E dá para fazer isso ponto por ponto.

Não há aumento de temperaturas na terra desde 1998
Essa é uma das primeiras afirmativas que o Luiz Carlos Molion faz logo começo de sua entrevista. Segundo ele o aquecimento global terminou nesse ano. Mas não é o que diz a NASA. Segundo ela, 2010 foi o ano mais quente de todos os tempos, num empate técnico com 2005. Dos 8 anos mais quentes de todos os tempos, 7 ocorreram nos anos 2000. Apenas 1998 que não. Mas se você não acredita na NASA, existem vários outros estudos que mostram o aumento das temperaturas depois de 1998.

O gráfico acima mostra a variação de temperatura ano a ano desde 1973 e uma linha (em vermelho) de tendência. A figura faz parte de um estudo independente da Universidade Berkeley que também desmistifica a suposta má qualidade e os problemas de medição das estações meteriológicas de todo o mundo. Além deste estudo, o site Skeptical Science mostra (link em português) diversos outros juntamente com inúmeras outros gráficos demonstrando o aumento das temperaturas desde 1998.

O sol é o principal responsável pelo aquecimento no nosso planeta

Todos as três pessoas que citei no começo deste post fazem esta afirmação. Sim, em parte o sol é um dos principais responsáveis pelas temperaturas que experimentamos na Terra. Mas não é ele o responsável pelos aumentos que ocorreram nos últimos 30 anos. Pelo contrário, fosse pelo sol, a Terra deveria ter esfriado um pouco. Novamente mostro um gráfico:

Ele mostra, em vermelho, as mudanças de temperatura ano a ano e, em azul, a irradiação solar total no mesmo ano. Repare que até o final da década de 1970, a similaridade entre as duas curvas é muito grande. Depois, a irradiação solar começa a cair enquanto a variação de temperatura aumenta. O sol e o clima estão, na verdade, caminhando em direção opostasEste link lista quase 20 estudos científicos que mostram que o sol não é o responsável pelo atual aquecimento da Terra.

O CO2 é inocente

Alexandre Garcia ironiza o tema dizendo que agora o “culpado” pelo efeito estufa é o gás metano. Ricardo Augusto vai além e diz que o efeito estufa não existe. Segundo ele essa “é uma física impossível” e que se trata da “maior falácia científica que existe”. Até agora não sei muito o que dizer. Afinal o Ricardo é um climatologista e deve entender do assunto. Mas eu não consigo entender como é que ele pode negar algo que é estudado e confirmado estudo após estudo desde 1824 por Joseph Fourier (um matemático e físico excepcional, por sinal) sem dar nenhuma explicação mais detalhada.

Pesquisando no Google, Ricardo parece negar o efeito estufo em referência aos estudos de John O’Sullivan, que defende o modelo termal alternativo de Postma. Eu não sei detalhes nem nunca ouvi falar deste modelo. Mas este link rebate-o e aponta erros nele de maneira bastante consistente, até onde consegui entender. Neste outro site, JoNova explica como o efeito estufa não invalida a Lei dos Gases (outra afirmação suspeita que o Ricardo Augusto faz na entrevista com o Jô). Neste site, aliás, o tal Joseph Postma responde, e JoNova rebate de volta. A página dela estourou o limite de comentários e eu recomendo que você veja algumas das discussões por lá. Veja também este link para uma discussão semelhante em outro site.

Como funciona o Efeito Estufa. 1. Radiação solar passa pela atmosfera; 2. Terra aquece e emite radiação infravermelha; 3. Radiação infravermelha é absorvida pelos gases do efeito estufa e re-irradiada para todos os lados.

E já que o efeito estufa continua aí e, aliás, sem ele a temperatura média na Terra seria de -18ºC, os gases que mais contribuem com ele são justamente o CO2 e, vejam vocês, o gás metano. A comparação feita em medições de satélite que ocorreram em 1970 e 1996 mostram justamente isso. O gráfico abaixo mostra uma queda significativa de radiação nas faixas em que os gases como CO2 e CH4 (metano) a absorvem, indicando um aumento do efeito estufa.

O artigo continua também com outros argumentos, mas é bem técnico.

O homem contribui muito pouco para as emissões de CO2

Luiz Carlos Molion diz em sua entrevista que o aquecimento global não é produzido pelo homem. Segundo ele, não é o CO2 produzido pelo homem através de combustíveis fósseis que controla o clima. Luiz Carlos cita um artigo da revista Nature de Novembro de 2010 para justificar que em eras glaciais passadas as temperaturas eram mais altas que hoje e a concentração de CO2 era 30% menor.

Eu não sei se eu achei o estudo ao qual ele se referiu. Mas um estudo publicado na revista Nature em 2010 se assemelha bastante. Mas é provável que não seja o mesmo pois ele diz o contrário do que o Luiz afirmou. Segundo o estudo, “períodos interglaciais (…) parecem ser caracterizados por massas continentais de gelo maiores, menor nível do mar, temperaturas mais baixas e concentracões atmosféricas de CO2 menores, em relacão a períodos interglaciais mais recentes.” O estudo indica que há uma relacão entre a concentracão de gases do efeito estufa e as temperaturas nesses períodos: “Este aquecimento surge a partir do aumento da insolação durante o período (…) em conjunto com um aumento da concentração dos gases do efeito estufa na atmosfera.” Este outro texto explica que, de fato, o aumento de CO2 ao longo de milhares de anos foi, na verdade, a causa e o efeito do aumento da temperatura nesses períodos.

E o fato da concentração do CO2 aumentar na atmosfera é importante. Porque, de fato, o CO2 emitido pelo homem é uma fração muito pequena de todo CO2 emitido na terra. Só que esta é a parte que justamente não é absorvida de volta e fica na atmosfera aumentando sua concentração. 40% do CO2 emitido pelo homem não é absorvido.

Da esquerda para direita, quantidade de CO2 em gigatoneladas emitida e absorvida pela 1) queima de combustíveis fósseis, 2) vegetação; 3) oceanos.

 

O nível do mar não está subindo

Ricardo Augusto diz que o nível do mar não está subindo, que o processo natural que ocorre é o de agradação (recuo em relação ao continente, aumentando praias e orlas) e degradação (avanço do mar). Sim, este processo existe mas não quer dizer que o nível do mar continue o mesmo. Um fenômeno não exclui o outro.


Aumento médio do nível dos oceanos de 1870 até 2008

O nível dos oceanos está subindo. Isto é determinado através de vários métodos que levam em consideração, fenômenos naturais, variações da maré, dentre outros aspectos. E não é só que o nível esteja subindo, a taxa de aumento também está aumentando.

Fechando a conta

Há várias outros mitos que são divulgados sem evidência por algumas pessoas, inclusive os três do começo deste texto. Na maioria dos casos, isso ocorre por desconhecimento ou má interpretação de vários níveis sobre como o aquecimento global está ocorrendo. É claro que essa grande massa de estudos que demonstram o aquecimento global e suas consequências, e todas as pessoas que os defendem podem, no futuro, estar erradas. E se, nesse futuro, novos fatos forem descobertos que contradigam teorias atuais, temos sim que revisá-las. Mas atualmente todos os fatos apontam para o aquecimento global. Numa frase que é atribuída ao economista John Keynes, ele diz que “quando os fatos mudam, eu mudo de idéia. O que você faz, senhor?”

Se você não acredita em fatos, lamento, mas você sofre do efeito do “tiro pela culatra factual”. Pelo menos segundo alguns cientistas da Universidade de Michigan. Segundo eles, pessoas com fortes crenças quando confrontadas por fatos que as questionam, tendem a defender e se apegar ainda mais a elas. Pior ainda, elas chegam até a distorcer estes mesmos fatos para adequá-los a suas crenças.

O perigo deste comportamento começa quando as crenças pessoais tem impacto na sociedade. Alexandre Garcia, por exemplo no artigo citado no começo deste texto, acha que o novo Código Florestal não precisa ser vetado. Para ele, isso seria uma tentativa vã de preservar a natureza. Não é o que dizem os fatos, Alexandre. E acho muito difícil brigar com fatos.

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Links do pós-eleição de nossa primeira presidenta, Dilma Rousseff

novembro 3rd, 2010 — 8:07pm

Lamentável o episódio de preconceito contra o Nordeste que ocorreu no Twitter logo após o anúncio da vitória de Dilma. Importante registrar que a OAB-PE reagiu e está entrando com uma representação contra a estudante de direito Mayara Petruso, acusada de ter iniciado os ataques. Quem também reagiu foi o jornal Diário de Pernambuco com uma capa muito boa.

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Episódios de racismo, preconceito, dentre outros crimes existem aos montes na Internet e você pode denunciá-los. O link é este aqui.

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O mais impressionante é que Dilma teria vencido as eleições mesmo sem o Nordeste. O excelente mapa do Estadão de votos por município deixa bem claro que não houve divisão entre Sul/Sudeste e Norte/Nordeste nos votos. Mas se “ver” não é o suficiente pra você, o Idelber desmistifica com clareza o assunto. Outra boa análise é feita no blog Politicando.

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Importante lembrar também que não houve divisão dos votos por classe social. Não achei dados das pesquisas propriamente dita mas este blog do insuspeito Estadão destaca:

“A petista se distancia do tucano em praticamente todos os segmentos importantes de renda, escolaridade e faixa etária. Nas maiores regiões, ela consolidou a proporção de 2 votos para 1 no Nordeste, e aumentou para dez pontos sua diferença no maior colégio eleitoral, o Sudeste.”

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Sobre a eleição propriamente dita, recomendo o excelente artigo de Vladimir Safatle, publicado na Folha. Nele o professor afirma que Lula venceu:

“Por enquanto, fica óbvio que ao menos duas características fundamentais do governo Lula foram decisivas para seu sucesso eleitoral. Primeiro, Lula compreendeu claramente que programas de assistência social não são apenas programas de assistência social. (…) Segundo, Lula conseguiu, de uma certa forma, transplantar os conflitos sociais para dentro do Estado.”

Também recomendo uma entrevista do FHC e um infográfico do UOL mostrando quem ganha e quem perde com o resultado destas eleições. E, claro, é sempre bom ficar de olho nas promessas que a Dilma fez durante a campanha.

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Por fim, vale a pena assistir do começo ao fim a entrevista que José Dirceu deu ao programa Roda Viva da TV Cultura no dia 01/11. A equipe que o entrevista (na verdade é quase um interrogatório) é fraca e o tal do Augusto Nunes chega a dar nojo mas Dirceu responde a tudo. Ele é uma figura no mínimo controversa mas sai fortalecido.

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José Serra errou muito, insistiu nos erros e atrasou o país – estes erros devem ficar registrados

outubro 31st, 2010 — 7:40pm

Este post é uma tentativa de registrar todos os erros de Serra nesta campanha em ordem cronológica. Serra é um político experiente e tem lá seus méritos mas, como Lula afirmou, “sai menor” destas eleições. Sai muito menor. Muitos dos erros cometidos por ele foram intencionais. Pior, alguns são erros de ordem ideológica que contribuíram para atrasar os debates políticos no país. E, ao mesmo tempo, ficou evidente o preconceito do candidato em diversas instâncias. É por conta desta contribuição negativa para o crescimento do país que faço questão de deixar registrado aqui o quão baixa foi a campanha deste candidato.

A lista abaixo está sujeita mudanças e revisões que serão devidamente marcadas. Sugestões, críticas, correções, etc. são obviamente bem vindas:

- (05/07/2010) Ao registrar sua campanha, Serra não entrega programa de governo mas dois discursos. Incrivelmente, o programa de governo foi formalmente anunciado apenas no dia 29/10, 2 dias antes das eleições para o segundo turno!

- (16/07/2010) O candidato a vice-presidente na chapa de José Serra, Índio da Costa, afirma o seguinte em entrevista: “”Todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc, ligado ao narcotráfico, ligado ao que há de pior. Não tenho dúvida nenhuma disso”.  No dia 21/07 o PT entra com ação idenizatória contra Índio e PSDB e ganha direito de resposta no dia seguinte.

- (13/08/2010) Reportagem da IstoÉ afirma que Paulo Preto arrecadou R$ 4 milhões e não os entregou para o caixa de campanha. A matéria e o caso só voltam a repercutir dois meses depois quando Dilma, em um debate, acusa o Serra de envolvimento no episódio. Serra diz que não conhece Paulo Preto e, no dia seguinte, o defende. A mudança súbita de posição do candidato leva a IstoÉ a publicar o tema mais uma vez em sua capa. A reportagem começa com o seguinte título: “Acusado pelo PSDB de dar sumiço em R$ 4 milhões da campanha tucana, ele faz ameaças e passa a ser defendido por Serra”.

- (16/08/2010) Em programa eleitoral, Serra utiliza uma favela cenográfica. No dia seguinte, em debate, Marina faz dura crítica ao candidato. Veja aqui o vídeo com a favela.

- (19/08/2010) O PSDB, que sempre fez oposição ao governo Lula, começa a campanha do Serra tentando atrelar sua imagem a do presidente. Um dos primeiros jingles diz “Sai o Silva e entra o Zé”.

- Neste mesmo período, em agosto, Serra come ele, a mãe dele, o André… Enfim, come todo mundo.

- (01/09/2010) Desde o começo de junho são divulgadas quebras de sigilo de dados da receita de pessoas ligadas ao PSDB. No dia 01/09 a imprensa divulga que os dados da filha do Serra também foram quebrados. O episódio teve vários desdobramentos. No dia 31/08 o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) afirmou que este é um “Crime horroroso dos governistas aloprados”. No dia seguinte, Serra diz, dentre outros descalábros: “Usar a filha dos outros para ganhar eleição… Agora a turma da Dilma está fazendo isso”. O PSDB aproveita e entra com uma ação no TSE para tentar impugnar a candidatura de Dilma por conta do episódio. Depois, no dia 06/09, Serra ainda deu alfinetada na Polícia Federal: “A Polícia Federal deveria ouvir muita gente, deveria ouvir o secretario da receita, deveria ouvir os dirigentes da campanha da Dilma, devia ouvir muita gente. Eles são realmente admiráveis na capacidade de negar, de culpar vítima, e de querer distrair dos fatos principais”. No dia 13/09 a Carta Capital publica uma matéria onde afirma que a mesma filha do Serra havia quebrado o sigilo de quase 60 milhões de brasileiros em 2001. Ao mesmo tempo, uma matéria do SBT mostra que Serra sabia desde de 2009 da existência de uma máfia em São Paulo que vendia dados da receita. Veja o vídeo. Finalmente, em meados de Outubro a Polícia Federal divulga informações de sua investigação que vincula a quebra de sigilo indiretamente à Aécio Neves. Segundo a Carta Capital, “(…) inquérito da Polícia Federal segundo o qual o jornalista Amaury Ribeiro Jr. agia em nome do Estado de Minas – interessado em produzir uma reportagem contra José Serra, que, por seu lado, havia colocado o deputado federal Marcelo Itagiba no encalço de Aécio Neves. À época, os dois tucanos disputavam a indicação do partido à candidatura presidencial.”

- (14/09/2010) Mulher de Serra, Mônica, entra na campanha e numa tarde em Nova Iguaçu diz a um ambulante que Dilma “é a favor de matar as criancinhas”. Pouco mais de um mês depois, uma ex-aluna sua afirma que ela própria havia cometido aborto na década de 70. A polêmica em torno do aborto acaba por ser apontada por alguns como motivo para ida de Serra para o segundo turno.

- (21/09/2010) Serra, que era contra o Bolsa Família, diz que vai criar o 13o. do Bolsa Família caso eleito. Promete também salário mínimo de R$ 600,00. O Ministro do Trabalho e Emprego, porém, desmente o candidato e afirma que promessa é falsa porque, por lei, reajuste é feito com base no PIB do país.

- (16/10/2010) O PT entra com um mandado de busca e apreensão de um material apócrifo contra a campanha de Dilma, tentando colar nela a imagem de “abortista”. A Polícia Federal então apreende 20 milhões de panfletos. Detalhe esperado mas importante, sócia da gráfica é filiada ao PSDB. Estas investidas do PSDB na questão religiosa ganha força mas não apoio absoluto. No Ceará, por exemplo, o candidato gera tumulto em missa que foi gravado em áudio e divulgado pela CBN.

- (20/10/2010) Serra é supostamente atingido por um objeto pesado e, dizendo-se atordoado e machucado, interrompe caminhada e vai fazer exames. Nos desdobramentos do episódio, reportagem do SBT mostra Serra sendo atingido por uma bolinha de papel. Até hoje não há nenhuma referência explícita que prove que Serra tenha sido realmente atingido por algo capaz de causar sequer um arranhão.

- (26/10/2010) Um blog da campanha do Serra publica o vídeo Dilma 2012 – o fim está próximo (veja aqui no YouTube por sua conta e risco). Depois que a informação do vídeo saiu na imprensa, o blog foi desvinculado da campanha oficial.

- (26/10/2010) Também no dia 26, o jornal Folha de S. Paulo revela que sabia 6 meses antes quem seriam os vencedores da concorrência pública para ampliação das linhas do metrô de São Paulo. O esquema de corrupção pode ter gerado o desvio de R$ 4 bilhões. Procurado para comentar o assunto, Serra disse que o fato é “extremamente secundário”.

- (28/10/2010) Em um último episódio, Serra pede em comício que meninas bonitas conquistem 15 votos cada para ele, inaugurando a cafetinagem política.

Updates

01/11/2010 – Fiz duas adições, incluindo dois erros da Campanha de Serra ocorridos no dia 26/10. Obrigado ao leitor Rabuja pelas lembranças.

Este post é uma tentativa de registrar todos os erros de Serra nesta campanha em ordem cronológica. Serra é um político experiente e tem lá seus méritos mas, como Lula afirmou, “sai menor” destas eleições (http://blogs.estadao.com.br/radar-politico/2010/10/31/br-serra-sai-menor-desta-eleicao-diz-lula-apos-votar-em-sao-bernardo-do-campo/). Sai muito menor. Muitos dos erros cometidos por ele foram intencionais. Pior, alguns são erros de ordem ideológica que contribuíram para atrasar os debates políticos no país. E, ao mesmo tempo, ficou evidente o preconceito do candidato em diversas instâncias. É por conta desta contribuição negativa para o crescimento do país que faço questão de deixar registrado aqui o quão baixa foi a campanha deste candidato.

A lista abaixo está sujeita mudanças e revisões que serão devidamente marcadas. Sugestões, críticas, correções, etc. são obviamente bem vindas:

- (05/07/2010) Ao registrar sua campanha, Serra não entrega programa de governo mas dois discursos (http://g1.globo.com/especiais/eleicoes-2010/noticia/2010/07/serra-protocola-discursos-no-tse-para-apresentar-suas-propostas.html) Incrivelmente, o programa de governo foi formalmente anunciado apenas no dia 29/10, 2 dias antes das eleições para o segundo turno! (http://oglobo.globo.com/pais/eleicoes2010/mat/2010/10/29/a-dois-dias-das-eleicoes-serra-apresenta-programa-de-governo-922910727.asp)

- (16/07/2010) O candidato a vice-presidente na chapa de José Serra, Índio da Costa, afirma o seguinte em entrevista: “”Todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc, ligado ao narcotráfico, ligado ao que há de pior. Não tenho dúvida nenhuma disso” (http://www1.folha.uol.com.br/poder/768528-vice-de-serra-indio-da-costa-liga-pt-a-narcotrafico-e-guerrilha.shtml).  No dia 21/07 o PT entra com ação idenizatória contra Índio e PSDB (http://www.band.com.br/jornalismo/eleicoes2010/conteudo.asp?ID=332364&origem=rss&utm_source=rss&utm_medium=jornalismo) e ganha direito de resposta no dia seguinte (http://www.redebomdia.com.br/Noticias/Politica/25662/TSE+condena+PSDB+por+ataques+de+Indio+da+Costa+e+da+direito+de+resposta+ao+PT).

- (13/08/2010) Reportagem da IstoÉ afirma que Paulo Preto arrecadou R$ 4 milhões e não os entregou para o caixa de campanha (http://www.istoe.com.br/reportagens/95231_UM+TUCANO+BOM+DE+BICO?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage). A matéria e o caso só voltam a repercutir dois meses depois quando Dilma, em um debate, acusa o Serra de envolvimento no episódio. Serra diz que não conhece Paulo Preto e, no dia seguinte, o defende. A mudança súbita de posição do candidato leva a IstoÉ a publicar o tema mais uma vez em sua capa. A reportagem começa com o seguinte título: “Acusado pelo PSDB de dar sumiço em R$ 4 milhões da campanha tucana, ele faz ameaças e passa a ser defendido por Serra”. (http://www.istoe.com.br/reportagens/106182_O+PODEROSO+PAULO+PRETO+PARTE+1?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage).

- (16/08/2010) Em programa eleitoral, Serra utiliza uma favela cenográfica. No dia seguinte, em debate, Marina faz dura crítica ao candidato (http://noticias.terra.com.br/eleicoes/2010/noticias/0,,OI4629523-EI15315,00-Marina+ataca+Serra+por+uso+de+favela+cenografica+na+televisao.html) Veja aqui o vídeo com a favela (http://www.youtube.com/watch?v=EtGr2aHj6I8).

- (19/08/2010) O PSDB, que sempre fez oposição ao governo Lula, começa a campanha do Serra tentando atrelar sua imagem a do presidente (http://noticias.r7.com/eleicoes-2010/noticias/propaganda-de-serra-usa-imagem-de-lula-e-foca-no-combate-ao-crack-20100819.html). Um dos primeiros jingles diz “Sai o Silva e entra o Zé” (http://veja.abril.com.br/blog/eleicoes/veja-acompanha-jose-serra/sai-o-silva-e-entra-o-ze-diz-jingle-de-tucano/).

- Neste mesmo período, em agosto, Serra come ele, a mãe dele, o André… Enfim, come todo mundo. (http://www.youtube.com/watch?v=5rqc6NCIQik)

- (01/09/2010) Desde o começo de junho são divulgadas quebras de sigilo de dados da receita de pessoas ligadas ao PSDB. No dia 01/09 a imprensa divulga que os dados da filha do Serra também foram quebrados (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100901/not_imp603395,0.php). O episódio teve vários desdobramentos. Dia 31/08 o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) afirmou que este é um “Crime horroroso dos governistas aloprados” (http://noticias.terra.com.br/eleicoes/2010/noticias/0,,OI4653469-EI15311,00-Alvaro+Dias+quebra+de+sigilo+de+familia+Serra+e+crime+horroroso.html). No dia seguinte, Serra diz, dentre outros descalábros: “Usar a filha dos outros para ganhar eleição… Agora a turma da Dilma está fazendo isso” (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2010/09/01/serra-fala-sobre-quebra-de-sigilo-fiscal-da-filha-320739.asp). O PSDB aproveita e entra com uma ação no TSE para tentar impugnar a candidatura de Dilma por conta do episódio (http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/eleicoes-2010/serra-entra-no-tse-contra-dilma-por-quebra-de-sigilo/). Depois, no dia 06/09, Serra ainda deu alfinetada na Polícia Federal: “A Polícia Federal deveria ouvir muita gente, deveria ouvir o secretario da receita, deveria ouvir os dirigentes da campanha da Dilma, devia ouvir muita gente. Eles são realmente admiráveis na capacidade de negar, de culpar vítima, e de querer distrair dos fatos principais” (http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2010/09/serra-faz-campanha-em-minas-e-comenta-quebra-do-sigilo-fiscal-de-pessoas-ligadas-ao-psdb.html). No dia 13/09 a Carta Capital publica uma matéria onde afirma que a mesma filha do Serra havia quebrado o sigilo de quase 60 milhões de brasileiros em 2001 (http://www.cartacapital.com.br/politica/sinais-trocados). Ao mesmo tempo, uma matéria do SBT mostra que Serra sabia desde de 2009 da existência de uma máfia em São Paulo que vendia dados da receita. Veja o vídeo. (http://www.youtube.com/watch?v=pIKDfaN5K5A&feature=player_embedded) Finalmente, em meados de Outubro a Polícia Federal divulga informações de sua investigação que vincula a quebra de sigilo indiretamente à Aécio Neves. Segundo a Carta Capital, “(…) inquérito da Polícia Federal segundo o qual o jornalista Amaury Ribeiro Jr. agia em nome do Estado de Minas – interessado em produzir uma reportagem contra José Serra, que, por seu lado, havia colocado o deputado federal Marcelo Itagiba no encalço de Aécio Neves. À época, os dois tucanos disputavam a indicação do partido à candidatura presidencial.” (http://www.cartacapital.com.br/politica/quebra-do-sigilo-fiscal-ribeiro-jr-agia-em-nome-do-jornal-estado-de-minas)

- (14/09/2010) Mulher de Serra, Mônica, entra na campanha e numa tarde em Nova Iguaçu diz a um ambulante que Dilma “é a favor de matar as criancinhas”. (http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,mulher-de-serra-faz-campanha-no-rio-e-ataca-dilma,609885,0.htm). Pouco mais de um mês depois, uma ex-aluna sua afirma que ela própria havia cometido aborto na década de 70. (http://noticias.terra.com.br/eleicoes/2010/noticias/0,,OI4738104-EI15315,00-Monica+Serra+contou+ter+feito+aborto+diz+exaluna.html). A polêmica em torno do aborto acaba por ser apontada por alguns como motivo para ida de Serra para o segundo turno (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101004/not_imp619942,0.php).

- (21/09/2010) Serra, que era contra o Bolsa Família (http://www.cesarrocha.com.br/?p=4031), diz que vai criar o 13o. do Bolsa Família caso eleito. (http://br.reuters.com/article/topNews/idBRSPE68K02220100921). Promete também salário mínimo de R$ 600,00 (http://veja.abril.com.br/blog/eleicoes/veja-acompanha-jose-serra/serra-promete-minimo-de-600-reais-em-2011/). O Ministro do Trabalho e Emprego, porém, desmente o candidato e afirma que promessa é falsa porque, por lei, reajuste é feito com base no PIB do país (http://veja.abril.com.br/noticia/economia/lupi-critica-promessa-de-salario-minimo-de-600-reais).

- (16/10/2010) O PT entra com um mandado de busca e apreensão de um material apócrifo contra a campanha de Dilma, tentando colar nela a imagem de “abortista”(http://www.revistaforum.com.br/blog/2010/10/16/policia-em-grafica-que-imprimia-panfletos-apocrifos-contra-dilma/). A Polícia Federal então apreende 20 milhões de panfletos. Detalhe esperado mas importante, sócia da gráfica é filiada ao PSDB (http://blogs.estadao.com.br/radar-politico/2010/10/18/estamos-levando-a-politica-para-o-submundo-diz-pt-sobre-panfletos-anti-dilma/). Estas investidas do PSDB na questão religiosa ganha força mas não apoio absoluto. No Ceará, por exemplo, o candidato gera tumulto em missa que foi gravado em áudio e divulgado pela CBN (http://marciliomoreira.blogspot.com/2010/10/audio-da-radio-cbn-do-tumulto-provocado.html).

- (20/10/2010) Serra é supostamente atingido por um objeto pesado e, dizendo-se atordoado e machucado, interrompe caminhada e vai fazer exames. Nos desdobramentos do episódio, reportagem do SBT mostra Serra sendo atingido por uma bolinha de papel. Até hoje não há nenhuma referência explícita que prove que Serra tenha sido realmente atingido por algo capaz de causar sequer um arranhão. (http://www.cartacapital.com.br/politica/serra-foi-atingido-por-bolinha-de-papel-mostra-o-sbt)

- (28/10/2010) Em um último episódio, Serra pede em comício que meninas bonitas conquistem 15 votos para ele, inaugurando a cafetinagem política. (http://www1.folha.uol.com.br/poder/821939-serra-pede-que-meninas-bonitas-consigam-votos-de-pretendentes.shtml).

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Corrupção – parem com este falso moralismo

outubro 6th, 2010 — 2:09am

Já falei de corrupção no blog aqui e aqui, e também vez ou outra escrevo no meu Twitter. Resumindo, corrupção se combate e pune mas mesmo assim continuará existindo. É inevitável, independente do partido, governo, região, classe social, cor, etc. É inevitável mas, segundo a organização Transparency International, que produz um ranking bastante duvidoso e com bastante crítica externa é bom dizer, o Brasil melhorou um pouco de 2002 para cá neste quesito. Em 2002 sua pontuação foi 4.0 (posição 45 de 92 países analisados) e em 2009 foi 3.7 (posição 75 de 180). É ruim? Claro que é mas até nisto estamos melhorando neste governo.

O pior, entretanto, não é a corrupção. O pior é o falso moralismo de parte da classe média e alta. São tão revoltados que se unem constantemente para protestar… no Twitter! Fica ainda pior quando nos damos conta do teor dos protestos. O preconceito e ódio é tão evidente nestas pessoas que chega a ser assustador. E você pode ver isto por conta própria: Ontem o Twitter ficou cheio de mensagens com o assunto (a tal hashtag) #dilmaNão. Vejam alguns exemplos (dentre milhares só entre ontem e hoje):

Olhem as mãos do Lula, ele quer 4 e 5! #DilmaNão vote#Serra45 (fonte)

Um Foda – se Pra Voce que Vai Votar na Dilma dia 31 #DilmaNão (fonte)

Votou no Tiririca pensando que pior não fica? Rá, vote na Dilma pra você ver. (fonte)

Dia 31 de outubro é Halloween, mande a Bruxa Dilma de volta para o inferno.” #dilmaNÃO #dilma (fonte)

31 de outubro dia das bruxas, dia de eleição, dia de chutar o Dilmão (fonte)

Esse é o discurso do Lula, muito bonito, não me engana. O lula passa a mão na sua bunda e você sorri feliz! #DilmaNao (fonte)

É isto mesmo. Esta classe média que se diz indignada com a corrupção (que foi pior no Governo FHC, candidato no qual algumas delas provavelmente votaram) chama a Dilma de abortista, bruxa, corrupta, e daí ladeira a baixo. Este grupo aproveita e detona também todo mundo que vota na Dilma. Chamam-nos de cegos, burros, vagabundos e daí também ladeira abaixo. Também no Twitter um usuário relatou, triste, que sua filha de 9 anos sofreu bullying na escola porque ele havia votado na Dilma. É um relato forte, que coloco em sequência abaixo, a partir do primeiro tweet até um publicado 5 horas atrás:

Pessoal boa noite tenho algo mto grave para falar nos próximos post, q nos sirva de alerta: #BulliyngEleitoral numa escola infantil cristã. MInha filha de 9 anos estuda numa escola cristã classe média de SP,hj foi vítima de bulliyng pesado pq defende Dilma. Ela foi importunado por coleguinhas cujos pais votaram no serra.Começaram zoando q Dilma perdeu. Depois q ela disse q tinha mais eleição,eles começaram a gritar “Dilma Assassina”, q ela foi presa,roubava. minha filha tentando fugir e sendo caçada,levou soco,chutaram a mochila,pisaram em cima e ñ paravam de gritar. Estou assustado com este ódio,esta campanha q os pais EDUCADOS curso superior,ensinam q DIlma é BANDIDA, onde vamos? Nem 1989 Collor ousou pregar o ódio.No meio das coisas diziam q DIlma ia matar crianças c/ aborto. PORRA estou assustado,é verdade,minha filha tem 9 anos,perseguida no fim da aula por eles apenas pq diz q é Dilma. Imagem desoladora,vontade de chorar diante deste ódio.Amanhã vou à escola ñ podemos aceitar isto gente.

Isto mostra o tipo de governo que essas pessoas querem. Porque a campanha do Serra está fazendo o mesmo. Atacou consistentemente a Dilma, tentou até impugnar a candidatura dela sem ter prova alguma, e se se fazia de vítima de quebra de sigilo enquanto sua filha havia quebrado o sigilo de 60 milhões de brasileiros. É o governo que escolheram para São Paulo – um governo medíocre que evita fazer metrô perto de bairros ricos, que prioriza rodovias e cobra pedágios para evitar que os pobres a utilizem, que está se lixando para obras contra alagamentos nos bairros pobres, e que quer todo mundo cheiroso.

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Por que votarei em Dilma Rousseff

setembro 30th, 2010 — 5:53am

Devidamente autorizado pelo autor, reproduzo abaixo o texto do sociólogo Celso Barros. Eu assino embaixo de todos os motivos para se votar em Dilma apresentados por ele.

Segue o texto:

Os três principais candidatos nessa eleição presidencial são muito bons. A terceira colocada deve ser Marina Silva, e Marina Silva seria melhor presidente que 90% dos presidentes do mundo. Levando em conta só os competitivos, nos últimos dezesseis anos só Garotinho (que a The Economist traduzia como “Little Kid”) avacalhou nosso currículo, onde, na minha modesta opinião, devemos ter orgulho de ostentar Lula e FHC.

Mas é preciso escolher, e, no que se segue, argumentarei que a melhor opção para o Brasil no momento é uma ex-guerrilheira nerd.

1.
Um bom governo, na minha opinião, deve (a) ser democrático, (b) não avacalhar a estabilidade econômica, e (c) combater a pobreza e a desigualdade. Por esses critérios, o governo Lula foi indiscutivelmente bom.

O governo Lula, tanto quanto o governo FHC, foi um governo democrático. Quem lê jornal no Brasil não apenas percebe que é permitido falar mal do governo, mas pode mesmo ser desculpado por suspeitar que falar mal do governo é obrigatório por lei. Os partidos de oposição atuam com plena liberdade, os movimentos sociais, idem, e, aliás, eu também. O Olavo de Carvalho se mandou para os Estados Unidos, dizem que com medo de ser perseguido politicamente, mas, se tiver sido por isso, foi só frescura. De qualquer modo, nunca antes nesse país exportamos tantos Olavos de Carvalho.

A economia foi muito bem gerida durante a Era Lula, a despeito do que falam muitos petistas (talvez preocupados com a falta de oposição competente). Companheiros, deixemos de falar besteira: a política econômica foi um sucesso. Mantivemos o bom sistema de metas de inflação implantado por Armínio Fraga no (bom) segundo governo FHC, e acrescentamos a isso: uma preocupação quase obsessiva por acumular reservas internacionais, a excelente ideia de comprar de volta nossa dívida em dólar, e medidas de incentivo fiscal quando foi necessário. A dívida como proporção do PIB caiu consideravelmente, e só voltou a subir quando foi necessário combater a crise. Certamente voltará a cair já agora.

Por essas e outras, fomos os últimos a entrar e os primeiros a sair da maior crise econômica desde 1929. Os tucanos se consideravam uma espécie de Keynes coletivo por terem sobrevivido à crise do México. Com muito menos custo, sobrevivemos à crise dos EUA. E isso se deu porque a economia durante a Era Lula foi muito mais bem administrada do que durante o primeiro governo FHC. No segundo governo FHC, aí sim, a economia foi bem gerida, e Lula fez muito bem em copiar seus métodos de gestão.

E, na área social, o Lula realmente se destaca na história brasileira, e na conjuntura econômica mundial. FHC não merece nada além de parabéns por ter copiado o Bolsa-Escola do governo petista do Distrito Federal (cujo governador havia idealizado o programa ainda na década de 80), e o PT merece críticas por ter atrasado sua adoção insistindo no confuso “Fome Zero” por tempo demais; mas, uma vez re-estabelecida a sanidade, o programa foi implementado com imenso sucesso, e, associado à política de recuperação do salário mínimo, e à boa gestão da economia, geraram resultados que não estavam nas projeções do mais otimista dos petistas em 2002. Para ser honesto, eu sempre votei no Lula, mas nunca achei que fosse dar tão certo.

A pobreza caiu algo como 43%. Vou dizer com palavras, para não dizerem que sou cabeça-de-planilha: a pobreza no Brasil caiu quase pela metade. Rodrigo Maia, escreva essa frase no quadro cem vezes. Mais de 30 milhões de pessoas (meia França, não muito menos que uma Argentina inteira) subiram às classes ABC. Cortamos a pobreza extrema pela metade (mas ainda é, claro, vergonhoso que tenhamos pobreza extrema). A desigualdade de renda caiu consideravelmente: a renda dos 10% mais ricos cresceu à taxa de 3 e poucos % na Era Lula, enquanto a renda dos mais pobres cresceu mais ou menos 10% ao ano, as famosas taxas chinesas. E tem uns manés que acham que os pobres votam no Lula porque são ignorantes ou mais tolerantes com a corrupção. Dê essas taxas à nossa elite e o Leblon inteiro tatua a cara do Zé Dirceu.

Não é à toa que o economista Marcelo Neri, um dos mais respeitados estudiosos da pobreza no Brasil, fala no período de 2003-2010 como “A Pequena Grande Década”. Tanto quanto sei, Neri não é petista.

Por outro lado, há algumas semanas, o sociólogo Demétrio Magnoli escreveu um balanço crítico do governo Lula, que considera um desastre. O artigo praticamente não tem nenhum número. I rest my case.

2.
Seria idiota dizer que isso não é, em nenhum grau, motivo para votar na Dilma. Dilma participou ativamente disso tudo, e, no mínimo, apoiou isso tudo. Marina Silva, é verdade, apoiou quase tudo isso. José Serra não o fez, e muitos de seus simpatizantes continuam convictos de que os últimos oito anos, em que a renda dos brasileiros mais pobres cresceu no ritmo da economia chinesa, foi uma era das trevas da qual a nossa elite bem pensante (hehehe) acordará em breve, chorando de felicidade porque era só um pesadelo.

Mas, até aí, eu considero que a Era FHC também foi boa para o país, por outros motivos, e mesmo assim foi bom que Lula fosse eleito em 2002 (como irrefutavelmente provado acima). Por que não seria esse o caso, agora?

Em primeiro lugar, porque não acho que será bom para o Brasil se o governo Lula tiver sido só um intervalo. Se Serra ganhar a eleição, eis o que se tornará a versão oficial sobre esse período: uns caras com diploma governavam muito bem o Brasil por muitas décadas, aí surgiu um paraíba muito carismático que acabou % ganhando a eleição, mas não fez nada demais, por isso eventualmente a turma do diploma retomou o controle da coisa toda. Coloquei um sinal de porcentagem no meio da frase para que ela tivesse pelo menos um erro que não fosse também papo furado.

É importante compreender que os novos atores que compõem o PT vieram para ficar, pois são sócios-fundadores de nossa democracia, e que, de agora em diante, o Brasil é um país com uma esquerda que sabe ser governo. Isso quer dizer que agora a direita, para vencer eleições, precisa apresentar boas candidaturas (de preferência sem roubar nossos sociólogos, ou economistas heterodoxos) e, o mais crucial de tudo, apresentar propostas para os mais pobres, que acabam de descobrir que podem melhorar imensamente suas vidas com o voto. A direita brasileira ainda não fez esse trabalho: continua pensando como se fosse um direito natural seu governar o país, e esperando que algum movimento legitimista re-estabeleça a ordem nesta budega.

Enquanto a justiça eleitoral não fizer o voto do Reinaldo Azevedo ter peso 50 milhões, a estratégia de fingir que o governo Lula não desmoralizou os anteriores, diminuindo a pobreza sem desestabilizar a economia, não vai ganhar eleição. Enquanto não tiver um projeto para o país (o que, diga-se, o Plano Real foi), a oposição não merece voltar ao governo. Como o PT dos anos 90, por exemplo, não merecia ganhar a presidência, pois seu programa era o que, no jargão sociológico, era conhecido como “nhenhenhém”. O PT venceu quando reconheceu que o papo agora era outro, e era preciso partir das conquistas já alcançadas. Não há sinal que consciência semelhante exista na oposição como bloco político, embora, sem dúvida, o candidato Serra o tenha compreendido.

3.
Mas esse tampouco é o melhor motivo para se votar na Dilma. O melhor motivo para se votar na Dilma é a Dilma.

Dilma tem uma trajetória política muito singular, como, aliás, tinham FHC e Lula. Quem tiver lido seu perfil recente na revista Piauí pode notar que há tantos fatos interessantes na sua vida que o jornalista mal teve espaço para falar dela, como pessoa. Dilma foi guerrilheira, foi torturada, e, durante a democratização, entrou para o PDT. Quando visitou, recentemente, o túmulo de Tancredo, a turma de sempre reclamou que o PT não o havia apoiado no Colégio Eleitoral. Bem, Dilma, como o PDT, apoiou Tancredo. Eventualmente, foi parar no PT, onde cresceu fulminantemente, e foi beneficiada pela decisão da oposição de queimar um por um dos quadros petistas mais famosos, algo pelo que, suspeito, já começam agora a se arrepender. Estariam pior agora se o candidato do Lula fosse, digamos, o Dirceu?

Tem gente que, com temor ou esperança, acha que Dilma mudará o rumo da economia. Eu posso estar errado, mas, baseado no que vi até agora, acho o seguinte: Dilma está singularmente posicionada para fazer com que, sob essa mesma política econômica, e com o mesmo compromisso com a justiça social, o país comece a crescer bem mais rápido do que cresceu nos últimos dezesseis anos.

Eu gosto de dizer o seguinte sobre política econômica: é verdade, o Banco Central desacelera o crescimento quando mantém os juros altos (e segura a inflação). Mas, a essa altura, o crescimento econômico já levou uma surra; antes de chegar no Banco Central, o carro do crescimento já tomou batidas da nossa falta de política de inovação, da baixíssima capacidade de investimento do Estado, da pobreza (que diminuiu, mas, para nossa vergonha, ainda está aí), do nosso abissal nível de qualificação educacional, dos entraves inacreditáveis para se abrir ou fechar um negócio, dos problemas gravíssimos da nossa urbanização. Essa desacelerada que o Banco Central dá é porque, depois de tomar tanta batida, ou nosso carro desacelera ou ele desmonta na pista.

Nossa visão deve ser a seguinte: queremos ter produção tecnológica como a Índia, mas com muito mais preocupação com a justiça social, e queremos ter o crescimento da China, mas com a mais absoluta democracia e com as garantias ambientais necessárias. Se esses limites nos atrasarem um pouco, paciência, somos, em nossos melhores momentos, um país que leva essas coisas a sério. O que não é admissível é que qualquer coisa que não nossos princípios atrase nosso progresso.

Muita gente diz que Lula entregou a candidatura à Dilma de mão-beijada, mas, aproveito para advertir, muita calma nessa hora, meu povo. Lula também lhe entregou uma roubada incrível, que foi também um teste. Quando Dilma foi colocada na direção do PAC, experimentou em primeira mão o quão ineficiente é nosso Estado como indutor do investimento: uma legião de entraves burocráticos, pressões políticas e uma história de más prioridades tornaram nosso Estado incapaz de investir e de oferecer infra-estrutura (tanto física quanto legal quanto humana) para o investimento privado.

A beleza da coisa é que Dilma é uma c.d.f. obcecada por políticas públicas. Quem leu sua entrevista no livro organizado pelo Marco Aurélio Garcia e pelo Emir Sader não pode ter deixado de se divertir com a diferença entre as coisas que os entrevistadores querem perguntar e as coisas que ela quer responder: os caras lá falando do liberalismo, de não sei o que mais, e ela animadona com um jeito de furar poço de petróleo, com um jeito qualquer de administrar hospital. Respeito muito o Marco Aurélio, que foi meu professor, mas a Dilma sai da entrevista muito melhor que ele e o Sader.

Me anima especialmente que, em vários momentos, tenha visto Dilma puxando o assunto das políticas de inovação. O Brasil não vai dar um salto qualitativo em termos de desenvolvimento enquanto não produzir tecnologia. Tecnologia é o tipo de coisa que depende de bons arranjos entre governo e setor privado, e, a crer nos relatos até agora a respeito de sua passagem pelo ministério de Minas e Energia, Dilma tem uma postura pragmática saudável nessas questões.

Lula deu ao capitalismo brasileiro milhões de novos consumidores, e essa descendência política exigirá de Dilma compromisso forte com a inclusão social. Mas agora é hora de dar ao capitalismo brasileiro a competitividade necessária para que ele gere os empregos de que precisam os novos ex-miseráveis, os formandos do ProUni, ou das novas Universidades Federais, inclusive; é hora de montar um Estado que entregue aos cidadãos as cidades necessárias à boa fruição da vida moderna, e montar um sistema de inovação tecnológica que tire da direita o monopólio do discurso moderno.

Por conhecer melhor do que ninguém o tamanho desse déficit, e pelo que se depreende de sua postura até agora diante desses problemas, Dilma Rousseff é a melhor opção para a presidência do Brasil nos próximos oito anos.

Até porque, contará com um recurso que só o PT tem: uma imprensa tão hostil que o sujeito realmente, realmente tem que prestar atenção para não fazer besteira. Superego é uma coisa útil, senão você trava.

4.
Certo, mas deve ter gente pensando, ah, mas ela é só uma tecnocrata, vai ser engolida pelos políticos (o bom é que essa mesma turma dizia que o Lula, por não ser um tecnocrata, ia ser engolido pelos políticos). Deve ter gente, à direita e à esquerda, com esperança de manipular a Dilma. A Dilma, no caso, é aquela menina que, aos vinte e poucos anos, inspirava respeito até nos caras do Doi-Codi, como se depreende dos documentos da época. Se quiser ir tentar manipular essa dona aí, rapaz, boa sorte, vai lá. Depois você conta pra gente como é que foi.

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Uma análise computacional do conteúdo do jornal O Globo nestas eleições presidenciais

setembro 8th, 2010 — 2:56am

Eu vivo falando que os grandes grupos de mídia no Brasil são parciais e defendem o quanto podem os governos de direita, historicamente mais favoráveis aos seus interesses elitistas. Neste sentido eu concordo com diversos outros blogueiros, entre eles Idelber, Nassif, e Miguel do Rosário. Concordo também com o jornalista Mário Prata quando diz que “a imprensa brasileira está podre. Os grandes jornais, as coisas que são consideradas grande imprensa no Brasil como Folha de S. Paulo, Globo, Estadão, Jornal Nacional, Veja, para mim são piadas.”

Pois bem, decidi que precisava testar de maneira computacional estas afirmações. Estes testes, basicamente análises textuais, são uma idéia antiga minha mas que nunca pude colocar em prática por pura falta de tempo. Foram os últimos abusos da imprensa que me motivaram a retomar a idéia e colocá-la em prática.

O que segue é uma análise de palavras vizinhas dentro do conteúdo do jornal O Globo. Uma palavra é definida como vizinha de outra quando as duas ocorrem próximas uma da outra. Por exemplo, na frase “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”, as palavras vizinhas de “vencedor” são “compaixão”, “ao”, “as” e “batatas”. Isto quando consideramos apenas 2 vizinhas antes e 2 depois.

Assim, o que fiz foi analisar as palavras vizinhas de “dilma” e “serra” nos 100 primeiros documentos retornados em uma busca no Yahoo por estes dois termos (os nomes dos candidatos) individualmente e, depois, em conjunto. Ou seja, obtive 300 documentos: 100 documentos para os resultados da busca por “dilma”, outros 100 para os resultados da busca por “serra” e mais 100 para busca “dilma serra”.

Para cada documento encontrado, eu processei as 8 palavras vizinhas de cada ocorrência de “dilma” e “serra”, antes e depois delas. Ou seja, 16 palavras vizinhas para cada ocorrência em cada documento. Artigos, números, dentre outras palavras que não contribuem para a análise (o termo técnico para elas é “stop words”) foram removidas da lista. No final deste post você pode ver a lista completa de palavras removidas. Após esta remoção, sobraram 2645 palavras vizinhas de “serra” e 2772 vizinhas de “dilma” n’O Globo.

Estas palavras vizinhas foram então contadas para que eu pudesse medir a frequência de cada uma. Também calculei a distância média da palavra vizinha atribuindo um peso que varia de 8 (para a palavra vizinha que ocorre imediatamente antes ou depois de “serra” ou “dilma”) a 1 (para a palavra vizinha que está separada de “dilma” ou “serra” por outras 7 palavras antes ou depois). Em outras palavras, quanto mais perto de 8 o peso estiver, mais vezes a palavra vizinha ocorre próxima de “dilma” ou “serra”.

Resultados

As 20 palavras vizinhas de “serra” mais frequentes são:

Palavra Vizinha Peso N. Ocorrências
josé 8 103
não 4.41429 70
psdb 5.24638 69
alckmin 3.44068 59
se 3.96154 52
disse 6.625 48
frente 7.6087 46
pontos 3.97778 45
kassab 3.22222 45
dilma 1.2564 42
governo 2.7561 41
serra 1.46154 39
mais 3.26471 34
candidato 3.12903 31
pesquisa 4.16129 31
governador 4.53333 30
lula 3.8 30
2010 4.33333 30
foi 4.68966 29
são 3.2963 27

Dentre as 5 primeiras, destaque para a palavra “não”, que ocorre 70 vezes. Mais para baixo, repare que “dilma” e “lula” ocorrem com certa frequência próximas da palavra “serra”. Dentre as demais palavras, nada de muito especial. Quase todas estão relacionadas ao partido ou à pessoas próximas do candidato. Note porém que a palavra “fhc” não está nesta lista.

Agora veja as 20 palavras vizinhas de “dilma” mais frequentes:

Palavra Vizinha Peso N. Ocorrências
rousseff 7.90714 140
lula 3.60417 96
não 3.65591 93
ministra 6.85526 76
se 3.2459 61
dilma 1.55556 54
diz 6.98113 53
governo 2.96154 52
disse 6.41176 51
civil 7.58 50
foi 4.4375 48
enquete 7.77273 44
mais 2.47222 36
campanha 5.125 32
tem 3.25806 31
presidente 2.54839 31
pt 2.96429 28
candidata 3.88462 26
candidatura 5.65385 26
ser 3.28 25

A primeira coisa que salta aos olhos é que a palavra “lula” é mencionada 96 vezes mas não ocorre tão próxima assim de “dilma”. O peso de “lula” com “serra” é maior do que com “dilma”. Outro destaque é a quantidade de vezes 37% maior com que a palavra “não” é mencionada perto de “dilma”. Mais, a palavra “pt” como vizinha de “dilma”, ao contrário, ocorre muito menos que a palavra “psdb” como vizinha de “serra”. As demais palavras, como no caso de “serra”, ocorrem dentro do que eu esperava.

Outro ponto para análise é verificar quais palavras são vizinhas de “serra” mas não de “dilma” e vice-versa. Veja primeiro a lista das palavras mais frequentes vizinhas apenas de “serra”:

Palavra Vizinha Peso N. Ocorrências
josé 8 103
alckmin 3.44068 59
kassab 3.22222 45
candidato 3.12903 31
governador 4.53333 30
depender 8 25
aécio 5.63636 22
critica 6.64706 17
erra 2.21429 14
prefeito 4.75 12
anuncia 8 11
próprio 5.11111 9
tucano 1.66667 9
secretários 1.77778 9
garante 8 8
gabeira 2.25 8
tucanos 1.375 8
datafolha 5.25 8
terá 5.66667 6
forma 3.5 6

A palavra “erra” é a única que poderia ser interpretada como negativa ao candidato. Quase todas as outras estão relacionadas ao trabalho do ex-governador, ao partido ou à pessoas ligadas a ele.

Já no caso de “dilma”, a lista é a seguinte:

Palavra Vizinha Peso N. Ocorrências
rousseff 7.90714 140
ministra 6.85526 76
pdt 2 13
lobao 4 12
apagão 3 10
defende 7.2 10
mulheres 2.66667 9
roussef 8 9
deixa 7 8
regulatório 2.625 8
conversado 3.75 8
hospital 3.5 8
cabral 2.25 8
continuidade 3.5 8
companheira 8 7
duvido 6 7
tentar 3.57143 7
deixa 8 7
collor 2.33333 6
quimioterapia 5.83333 6

Reparem a quantidade maior de palavras que podem ser interpretadas de maneira negativa à candidata como ”apagão”, ”duvido” e ”collor”. Reparem também as palavras associadas à saúde da candidata. Muito menos palavras podem ser associadas positivamente a ela.

Conclusão

Acho que é cedo para fazer qualquer tipo de afirmação. Primeiro, a freqüência das palavras podem estar fora de contexto é só a sua quantidade próxima de uma palavra não pode necessariamente significar mais ou menos crítica a esta palavra. Segundo, os 300 documentos analisados são aqueles mais populares numa busca do Yahoo. Não representam, portanto, uma amostragem estatística de todos os documentos do jornal. Terceiro, as tabelas analisam apenas as 20 palavras vizinhas mais freqüentes. Elas não representam, portanto, uma amostragem estatística de todas as palavras vizinhas processadas.

Mesmo assim, os resultados podem servir como indicativo de diferença de tratamento entre uma palavra, “serra”, e outra, “dilma”. Há claramente diferenças nos textos analisados entre as palavras vizinhas a dos candidatos. Por isto, os próximos passos seriam dois. Primeiro, analisar uma quantidade maior de documentos deste jornal e de outros. Folha e Estadão também deve servir como ótimos exemplos. Segundo, uma análise do sentimento do conteúdo (sim, existe algoritmo para isto) pode revelar o contexto e ajudar a determinar se as palavras vizinhas são mais ou menos críticas a cada candidato.

Infelizmente, tudo isto toma um bocado de tempo e não sei se dará para continuar antes das eleições. Uma grande ajuda seria ter acesso a uma base de dados maior de cada jornal. Alguém aí poderia me fornecer estes dados?

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A importância da eleição de Dilma

agosto 18th, 2010 — 6:56am

Eu escrevi este texto originalmente para um amigo mas quero compartilhá-lo com todo mundo que venha eventualmente ler este blog. Porque o primeiro programa de Dilma na TV ontem me emocionou e acho que tem importância histórica. Porque penso que muitas pessoas mais ricas no Brasil não têm a real noção do significado do governo Lula e da importância de eleger Dilma. Estas pessoas, felizmente para elas, não sabem o que é pobreza. Mas pelo menos deveriam ser capaz de imaginar o que é viver com menos de US$ 1/dia.

Eu só fui ver este tipo de pobreza na Índia e chorei na primeira vez que vi uma cidade inteira de pessoas cagando na rua, vivendo em barracos de chão de terra batida e telhado e paredes de plástico, e comendo restos ao lado de ratos e outros bichos. Sei que ainda existe isto em várias partes do Brasil. Mas no Brasil de Lula, mais de 30 milhões de pessoas  passaram a viver com mais dignidade! É meia França ou quase uma Argentina inteira. Neste Brasil, educação deixou de ser sucateada, e crédito passou a ser acessível a todos. É um Brasil que desafiou preconceitos, quebrando forças conservadoras elitistas. Eu posso continuar listando fatos mas acho que todos os conhecem ou deveriam.

O Serra, ao contrário, não fez quase nada por São Paulo. É um estado infinitamente mais rico que qualquer outro mas suas políticas ficaram meramente no âmbito das obras públicas e dos investimentos no básico de educação e saúde. Este é o básico que todo governo deveria fazer. Mas São Paulo pode muito mais (aliás, não é este o slogan do candidato?) e ninguém
ainda fez isto pelo estado, na minha opinião.

E por que não? Eu tenho uma teoria. São Paulo é o estado mais rico e também um dos mais conservadores. É onde está a maior concentração de classe média que mais me envergonha no país. Esta que quer tirar vantagem em tudo, que acha que carro é o melhor meio de transporte, que não quer um metrô na porta de sua casa, que tem vergonha de pobre, etc. Esta classe média vota em Serra (e agora em Alckmin) porque não quer perder seus privilégios. Quer manter as coisas como estão. É de um egoísmo e uma mesquinhez que só vejo precedente na história de nossas altas classes de origem portuguesa (leia Ubaldo Ribeiro, por exemplo).

Então eu me emociono mesmo quando vejo que o povo está se beneficiando tanto de um governo e percebe isto, e não se deixa enganar. Vocês viram o jingle de Serra tentando se mostrar como continuidade de Lula, e se associando indevidamente ao atual presidente? Viram ele usando uma favela de mentira em seu programa? Que vergonha alheia do Serra que eu tenho. É um candidato que não tem projeto, nem identidade. E felizmente isto está ficando claro para cada vez mais gente. Eu fico feliz de ver o Real se valorizando, os números em geral infinitamente melhores que do governo anterior, e mais pessoas se beneficiando disto.

E por tudo isto, este governo do Lula não pode ser só um espirro. Sabe, não pode ser só um governo de esquerda, exceção na nossa recente história democrática. Tem que haver continuidade para deixá-lo marcado! Para que ninguém se esqueça, para que estes ricos egoístas e preconceituosos tomem mais um tapa de luva. E para que estes mesmos ricos tenham que engolir cada vez mais pessoas humildes em aeroportos, comprando carro, viajando e fazendo parte cada vez maior das riquezas do nosso Brasil. Os mais humildes merecem muito isto e finalmente estão tendo! Tem que continuar assim.

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Quão justa (ou democrática) é uma eleição

junho 30th, 2010 — 5:35pm

Na última eleição para prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab foi eleito com 46% dos votos no segundo turno (60% dos votos válidos). Isto significa que mais da metade dos eleitores de São Paulo não quiseram Kassab como prefeito. Ou seja, mesmo no segundo turno, com apenas dois candidatos disputando, ele não representa o desejo da maioria. E mesmo que ele tivesse, digamos, 50% mais 1 voto, ainda assim, mais de 4 milhões de eleitores não estariam sendo representados por sua vitória. É justo, portanto, um sistema que deixa tanta gente insatisfeita?

A pergunta é pertinente porque a forma como votamos no Brasil pode ser simples mas não é a mais justa do ponto de vista teórico. Não quero aqui discutir, no caso específico do Brasil, os potenciais de fraude das urnas eletrônicas e, de maneira mais geral, a racionalidade limitada e temporal dos seres humanos, passível de manipulação pela mídia, independente do grau de instrução. Ambas são questões sensíveis das quais precisamos nos informar mas que precisariam de outro post para serem minimamente resumidas. Neste post, então, trato especificamente de como eleições (independente do propósito) podem ser estruturadas.

Para conhecermos duas outras opções de eleições, tomemos as preferências de 12 eleitores em relação a 3 candidatos, C1, C2 e C3. 5 eleitores preferem votar primeiro no candidato C1 (votariam nele primeiro), depois no candidato C2, e por último no candidato C3 (ou 5 preferem C1 > C2 > C3). 4 eleitores preferem votar primeiro em C3, depois em C2, e por último em C1 (ou 4 preferem C3 > C2 > C1). E, finalmente, 3 eleitores preferem votar primeiro em C2, depois em C3 e por último em C1 (ou 3 preferem C2 > C3 > C1). A tabela abaixo resume as preferências de cada grupo de eleitores:

Qtde. Eleitores

Ordem de preferência por candidatos

5

C1 > C2 > C3

4

C3 > C2 > C1

3

C2 > C3 > C1

Neste cenário, se a eleição fosse direta com apenas um turno, o candidato C1 venceria com 5 votos. Mas se a mesma eleição tivesse dois turnos, o resultado seria diferente. C1 e C3 iriam para o segundo turno, o primeiro com 5 e o segundo com 4 votos, respectivamente. Assim, com o candidato C2 eliminado, as preferências dos eleitores para o segundo turno ficariam da seguinte forma:

Qtde. Eleitores

Ordem de preferência por candidatos

5

C1 > C3

4

C3 > C1

3

C3 > C1

Ou seja, C3 ganharia a eleição neste caso com 7 votos, 2 a mais que C1, no segundo turno. Numa terceira forma de realizar a mesma eleição, dadas as mesmas preferências dos eleitores pelos 3 candidatos citados acima, C2 se consagraria vencedor. Trata-se de uma eleição comparando os pares de preferências. Nela, teríamos o resultado descrito abaixo.

Comparando apenas C1 com C2, 7 eleitores preferem C2 e 5 preferem C1, então C2 ganha 1 voto. Comparando C1 com C3, 7 eleitores preferem C3 e 5 preferem C1, então C3 também ganha 1 voto. Finalmente, comparando C2 com C3, 8 eleitores preferem C2 e 4 preferem C3 então C2 ganha mais um voto, ganhando este tipo de eleição com 2 votos.

Repare que em 3 métodos eleitorais diferentes, 3 candidatos diferentes ganharam, mesmo com as mesmas preferências dos eleitores! E isto em um cenário bem simples com 12 eleitores e 3 candidatos. A Wikipédia (em inglês) detalha mais de 10 métodos diferentes para a realização de uma eleição, cada um com suas vantagens e desvantagens em relação a outros métodos.

Sim, as nossas eleições no Brasil, de voto direto em dois turnos, possuem problemas. Mas são mais baratas e rápidas, e mais simples de serem compreendidas. Em outras palavras, enquanto não conseguimos conceber alternativas ao mesmo tempo melhores e viáveis, continuamos deixando um bocado de gente insatisfeita ao final de cada pleito.

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De corrupção, exemplos pontuais, e dados manipulados

outubro 12th, 2009 — 7:19pm

Este final de semana tive uma longa e interessante discussão sobre, dentre outros assuntos, política. Mais especificamente a política brasileira atual. Foi uma boa conversa mas o resultado, pelo menos neste tópico, não me surpreendeu. Em geral, quando o assunto é política, entro numa roda com este tópico e as opiniões já estão formadas e as defesas preparadas. Mas não quero entrar no mérito deste comportamento. O objetivo aqui é expor três dos argumentos que considero mais comuns e a problemática de suas utilizações.

Começo pela corrupção e a crítica de que o governo atual é corrupto. Quem a faz parece esquecer-se que a corrupção faz parte de todas as sociedades, desde pelo menos Platão. Existe no mundo todo, mesmo entre países ricos e desenvolvidos, entre setores públicos e privados, e entre governos de direita e de esquerda. Além do mais, é difícil dizer se o Brasil é mais ou menos corrupto que outros países. Esta é uma medição tão difícil que até mesmo a organização Transparência Internacional parou de atualizar o seu Índice de Percepção da Corrupção. Por ser tão ubíqua, a corrupção não é, para mim, argumento para criticar ou elogiar um governo.

Não estou dizendo que devemos aceitá-la. Corrupção se previne, combate e pune, claro. Mas mesmo assim ela continuará existindo. Em Teoria de Jogos, a corrupção ocorre, por exemplo, quando os agentes (ou jogadores) conseguem burlar os mecanismos de um jogo e lucrar mais assim. Num jogo cujo objetivo é puramente maximizar os lucros, os jogadores sempre tentarão tomar ações com este objetivo em mente; e se for possível fazê-lo roubando ou mentindo, pouco importa. Na República de Platão (III, 361d), Glauco já se referia a tais possibilidades ao dizer que “não se deve querer ser justo, mas parecê-lo”. Glauco também cita a garantia de impunidade como uma das origens da corrupção.

Por isto as teorias se desenvolveram ao longo da história prevendo mecanismos de controle e de outros incentivos que não apenas o lucro. O objetivo era evitar, por exemplo, situações do tipo encontrado em jogos de soma zero, onde para um ganhar o outro tem que perder. Infelizmente, como bem diz o vencedor do Nobel de Economia, Douglass North (1990, p. 108), “(…) até nos casos onde o framework institucional contribui para capturar mais ganhos com comércio em relação a frameworks passados, ainda assim vão existir incentivos para trapaças, passageiros clandestinos, etc. que contribuirão para as imperfeições do mercado. Dadas as características comportamentais dos seres humanos, simplesmente não há nenhuma forma de se elaborar instituições capazes de resolver os complexos problemas inerentes às transações e ao mesmo tempo se ver livre de incentivos incompatíveis.”

Assim, não é porque uma organização se envolveu numa atividade ilícita ou que alguns de seus integrantes sejam corruptos que todas as suas qualidades devem ser descartadas. Para trazer um exemplo prático citado na conversa com meus amigos, a Petrobras foi acusada por um deles de realizar despejo programado de lixo de maneira irregular no mar. Ora, ela faz isto porque, voltando à teoria de jogos, ela “ganha” mais assim. Fosse outra empresa, pública ou privada, a história provavelmente seria a mesma. O desmatamento da Amazônia, o despejo de lixo no mar e em rios, a caça e pesca indiscriminada, dentre outros exemplos de violência ao meio-ambiente são cometidos por pessoas físicas e jurídicas de todos os tipos, no Brasil e no mundo inteiro. A Vale, para citar um exemplo de grande empresa privada brasileira, não é nenhuma santa também. Utilizar este argumento para invalidar todas as conquistas da Petrobrás é uma falácia lógica. Uma muito comum, aliás, de “prova por exemplo”. No exemplo aqui exposto, tal argumento só pode ser utilizado para afirmar que existe alguém na Petrobrás que age contra as leis ambientais. E, assim, não digo que esta pessoa está certa, pelo contrário, acho tal denúncia séria, deve ser investigada e o(s) envolvido(s) punido(s) para que, aí sim, o trabalho da empresa seja cada vez mais transparente e dentro das leis.

Desta maneira, quando defendo o trabalho e as conquistas do atual governo, não estou citando alguns exemplos isolados ou afirmando a incorruptibilidade do mesmo. E não é também uma defesa ideológica. Refiro-me a dados comparativos e a fatos. Mas daí, quando começo a falar deles, ouço que estatísticas podem ser manipuladas. Ora! Que conveniente, não é mesmo? Agora, quando os números não interessam é porque foram mascarados. Os números do Banco Mundial, da OECD e de órgãos brasileiros de medição que existem desde antes da nossa atual democracia, todos eles agora mascaram números, aparentemente só porque favorecem o atual governo de um único país. Em outras palavras, afirmar manipulação estatística é afirmar que todos os governos anteriores foram idôneos em relação às medições de seus indicadores e o governo atual foi o único a manipular os números para que houvessem as atuais quebras de recordes em séries históricas. Se não esta afirmação, ou seja, se houve manipulação em anos anteriores, o governo atual manipulou tanto a mais assim? Tal distorção não seria percebida pela oposição e imprensa, tão ávidas em refutar as conquistas deste governo?

Estes três argumentos, o da corrupção, o de exemplos isolados e o da manipulação estatística, para justificar uma suposta má qualidade da gestão do governo Lula são fracos. E mais interessante, irônico até, é que os mesmos poderiam facilmente ser aplicados a qualquer um dos lados. Fosse um governo liberal, de direita, que por ventura tivesse tido as mesmas conquistas, as mesmas poderiam ser “invalidadas” por causa da corrupção no governo, exemplos de fracasso, e uma suposta manipulação estatística. Onde está o mérito desta oposição, então? Não há. Na opinião de Rafael Galvão, em um dos blogs que mais me agrada atualmente, a oposição ao atual governo não consegue mostrar uma alternativa superior. O jornalista Pedro Dória também falou disto ao comentar a vitória do novo presidente americano ano passado: “Um dos resultados da eleição de Barack Obama é que a direita brasileira periga ficar órfã e terminar sem argumentos.”

Aí, sem saída, muitas pessoas parecem preferir repetir retóricas como as acima a mudar suas convicções.

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