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Onde está o aquecimento global?

maio 12th, 2012 — 8:05pm

Primeiro foi um amigo meu que me falou de uma entrevista do Professor da USP, Ricardo Augusto Felício, no Jô Soares. Depois eu vi no Facebook um link para a entrevista com o climatologista Luiz Carlos Molion no programa Roda Viva. Por último, vi no Twitter um outro link para um artigo do Alexandre Garcia reduzindo o aquecimento global a um pum.

Vendo estas referências, parece até que o aquecimento global sumiu ou, melhor, nunca existiu. Essas pessoas afirmam tão categoricamente que o aquecimento atual não passa de um processo natural da terra que muitos começam a acreditar nisso. Mas é difícil brigar com fatos. Repare nos links acima (se tiver paciência de vê-los) como quase não há referências para as afirmações que os negadores do aquecimento global fazem. Reparem também que os entrevistadores não questionam a fundo os seus entrevistados. É tudo muito conveniente.

Não estou aqui suspeitando da índole de ninguém. Mas acho que há muita desinformação que precisa ser esclarecida. Um pouco de pesquisa e questionamentos ajudam a desmentir quase tudo o que foi dito por essas pessoas. E dá para fazer isso ponto por ponto.

Não há aumento de temperaturas na terra desde 1998
Essa é uma das primeiras afirmativas que o Luiz Carlos Molion faz logo começo de sua entrevista. Segundo ele o aquecimento global terminou nesse ano. Mas não é o que diz a NASA. Segundo ela, 2010 foi o ano mais quente de todos os tempos, num empate técnico com 2005. Dos 8 anos mais quentes de todos os tempos, 7 ocorreram nos anos 2000. Apenas 1998 que não. Mas se você não acredita na NASA, existem vários outros estudos que mostram o aumento das temperaturas depois de 1998.

O gráfico acima mostra a variação de temperatura ano a ano desde 1973 e uma linha (em vermelho) de tendência. A figura faz parte de um estudo independente da Universidade Berkeley que também desmistifica a suposta má qualidade e os problemas de medição das estações meteriológicas de todo o mundo. Além deste estudo, o site Skeptical Science mostra (link em português) diversos outros juntamente com inúmeras outros gráficos demonstrando o aumento das temperaturas desde 1998.

O sol é o principal responsável pelo aquecimento no nosso planeta

Todos as três pessoas que citei no começo deste post fazem esta afirmação. Sim, em parte o sol é um dos principais responsáveis pelas temperaturas que experimentamos na Terra. Mas não é ele o responsável pelos aumentos que ocorreram nos últimos 30 anos. Pelo contrário, fosse pelo sol, a Terra deveria ter esfriado um pouco. Novamente mostro um gráfico:

Ele mostra, em vermelho, as mudanças de temperatura ano a ano e, em azul, a irradiação solar total no mesmo ano. Repare que até o final da década de 1970, a similaridade entre as duas curvas é muito grande. Depois, a irradiação solar começa a cair enquanto a variação de temperatura aumenta. O sol e o clima estão, na verdade, caminhando em direção opostasEste link lista quase 20 estudos científicos que mostram que o sol não é o responsável pelo atual aquecimento da Terra.

O CO2 é inocente

Alexandre Garcia ironiza o tema dizendo que agora o “culpado” pelo efeito estufa é o gás metano. Ricardo Augusto vai além e diz que o efeito estufa não existe. Segundo ele essa “é uma física impossível” e que se trata da “maior falácia científica que existe”. Até agora não sei muito o que dizer. Afinal o Ricardo é um climatologista e deve entender do assunto. Mas eu não consigo entender como é que ele pode negar algo que é estudado e confirmado estudo após estudo desde 1824 por Joseph Fourier (um matemático e físico excepcional, por sinal) sem dar nenhuma explicação mais detalhada.

Pesquisando no Google, Ricardo parece negar o efeito estufo em referência aos estudos de John O’Sullivan, que defende o modelo termal alternativo de Postma. Eu não sei detalhes nem nunca ouvi falar deste modelo. Mas este link rebate-o e aponta erros nele de maneira bastante consistente, até onde consegui entender. Neste outro site, JoNova explica como o efeito estufa não invalida a Lei dos Gases (outra afirmação suspeita que o Ricardo Augusto faz na entrevista com o Jô). Neste site, aliás, o tal Joseph Postma responde, e JoNova rebate de volta. A página dela estourou o limite de comentários e eu recomendo que você veja algumas das discussões por lá. Veja também este link para uma discussão semelhante em outro site.

Como funciona o Efeito Estufa. 1. Radiação solar passa pela atmosfera; 2. Terra aquece e emite radiação infravermelha; 3. Radiação infravermelha é absorvida pelos gases do efeito estufa e re-irradiada para todos os lados.

E já que o efeito estufa continua aí e, aliás, sem ele a temperatura média na Terra seria de -18ºC, os gases que mais contribuem com ele são justamente o CO2 e, vejam vocês, o gás metano. A comparação feita em medições de satélite que ocorreram em 1970 e 1996 mostram justamente isso. O gráfico abaixo mostra uma queda significativa de radiação nas faixas em que os gases como CO2 e CH4 (metano) a absorvem, indicando um aumento do efeito estufa.

O artigo continua também com outros argumentos, mas é bem técnico.

O homem contribui muito pouco para as emissões de CO2

Luiz Carlos Molion diz em sua entrevista que o aquecimento global não é produzido pelo homem. Segundo ele, não é o CO2 produzido pelo homem através de combustíveis fósseis que controla o clima. Luiz Carlos cita um artigo da revista Nature de Novembro de 2010 para justificar que em eras glaciais passadas as temperaturas eram mais altas que hoje e a concentração de CO2 era 30% menor.

Eu não sei se eu achei o estudo ao qual ele se referiu. Mas um estudo publicado na revista Nature em 2010 se assemelha bastante. Mas é provável que não seja o mesmo pois ele diz o contrário do que o Luiz afirmou. Segundo o estudo, “períodos interglaciais (…) parecem ser caracterizados por massas continentais de gelo maiores, menor nível do mar, temperaturas mais baixas e concentracões atmosféricas de CO2 menores, em relacão a períodos interglaciais mais recentes.” O estudo indica que há uma relacão entre a concentracão de gases do efeito estufa e as temperaturas nesses períodos: “Este aquecimento surge a partir do aumento da insolação durante o período (…) em conjunto com um aumento da concentração dos gases do efeito estufa na atmosfera.” Este outro texto explica que, de fato, o aumento de CO2 ao longo de milhares de anos foi, na verdade, a causa e o efeito do aumento da temperatura nesses períodos.

E o fato da concentração do CO2 aumentar na atmosfera é importante. Porque, de fato, o CO2 emitido pelo homem é uma fração muito pequena de todo CO2 emitido na terra. Só que esta é a parte que justamente não é absorvida de volta e fica na atmosfera aumentando sua concentração. 40% do CO2 emitido pelo homem não é absorvido.

Da esquerda para direita, quantidade de CO2 em gigatoneladas emitida e absorvida pela 1) queima de combustíveis fósseis, 2) vegetação; 3) oceanos.

 

O nível do mar não está subindo

Ricardo Augusto diz que o nível do mar não está subindo, que o processo natural que ocorre é o de agradação (recuo em relação ao continente, aumentando praias e orlas) e degradação (avanço do mar). Sim, este processo existe mas não quer dizer que o nível do mar continue o mesmo. Um fenômeno não exclui o outro.


Aumento médio do nível dos oceanos de 1870 até 2008

O nível dos oceanos está subindo. Isto é determinado através de vários métodos que levam em consideração, fenômenos naturais, variações da maré, dentre outros aspectos. E não é só que o nível esteja subindo, a taxa de aumento também está aumentando.

Fechando a conta

Há várias outros mitos que são divulgados sem evidência por algumas pessoas, inclusive os três do começo deste texto. Na maioria dos casos, isso ocorre por desconhecimento ou má interpretação de vários níveis sobre como o aquecimento global está ocorrendo. É claro que essa grande massa de estudos que demonstram o aquecimento global e suas consequências, e todas as pessoas que os defendem podem, no futuro, estar erradas. E se, nesse futuro, novos fatos forem descobertos que contradigam teorias atuais, temos sim que revisá-las. Mas atualmente todos os fatos apontam para o aquecimento global. Numa frase que é atribuída ao economista John Keynes, ele diz que “quando os fatos mudam, eu mudo de idéia. O que você faz, senhor?”

Se você não acredita em fatos, lamento, mas você sofre do efeito do “tiro pela culatra factual”. Pelo menos segundo alguns cientistas da Universidade de Michigan. Segundo eles, pessoas com fortes crenças quando confrontadas por fatos que as questionam, tendem a defender e se apegar ainda mais a elas. Pior ainda, elas chegam até a distorcer estes mesmos fatos para adequá-los a suas crenças.

O perigo deste comportamento começa quando as crenças pessoais tem impacto na sociedade. Alexandre Garcia, por exemplo no artigo citado no começo deste texto, acha que o novo Código Florestal não precisa ser vetado. Para ele, isso seria uma tentativa vã de preservar a natureza. Não é o que dizem os fatos, Alexandre. E acho muito difícil brigar com fatos.

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Correio Braziliense – Uma história da História do Brasil

maio 4th, 2012 — 1:33pm

O Brasileiro em Coimbra não foi o único a protestar a favor da independência do Brasil durante o processo. O Correio Braziliense também surgiu com esse objetivo. Fundado em 1808, o jornal era remetido cladestinamente ao Brasil defendendo idéias como uma monarquia constitucional e o fim da escravidão. O jornal circulou até 1822, quando deixou de fazer sentido após a indenpendência de fato.

Na exposicão que visitei na Biblioteca Joanina em Coimbra, Portugal, um exemplar do jornal era destacado por tratar de nossa capital, Brasília. Eu não tinha idéia (ou pelo menos não lembrava) que a proposta de mudança da capital para o interior era tão antiga. O primeiro a propô-la foi o Marquês de Pombal, em 1761. Depois, a primeira evidência mais forte da proposta veio justamente do jornalista fundador do Correio Braziliense, Hipólito da Costa.

A edição de marco de 1813 trazia o seguinte texto :

« O Rio-de-Janeiro, naõ possue nenhua das qualidades, que se requerem, na cidade que se destina a ser a capital do Imperio do Brazil ; e se os cortezães que para ali fôram de Lisboa, tivessem assaz patriotismo, e agradecimento pelo paiz, que os acolheo, nos tempos de seus trabalhos, fariam um genereso sacrificio das commodidades, e tal qual luxo, que podiam gozar no Rio de Janeiro, e se iriam estabelecer em um paiz do interior, central, e immediato ás cabeceiras dos grandes rios ; edificariam ali uma nova cidade, commecariam por abrir estradas que se dirigissem a todos os portos de mar, e removerîam os obstaculos naturaes que tem os differentes rios navegaveis, e lancariam assim os fundamentos ao mais extenso, ligado, bem defendido, e poderoso imperio, que he possivel que exista na superficie do Globo, no estado actual das nacoens que o povôam. »

Para Hipólito, a permanência dos governantes no Rio era por pura conveniência da infraestrutura que lá já existia. Preguiça mesmo. Até mesmo os obstáculos à construcão de uma cidade no interior eram minimizadas por ele como “meros subterfúgios”. O Brasil, segundo ele, deveria se espelhar no exemplo de expansão dos EUA, e estimular a vinda de estrangeiros para ocupar o interior.

É, caro Hipólito, demorou quase 150 anos, mas finalmente a capital que você propôs foi construída em 1960.

PS1: Não confundir o atual jornal Correio Braziliense fundado junto com Brasília em 1960 com o primeiro, de 1808. O nome do atual foi inspirado no primeiro mas não há nenhuma outra relação entre os dois.

PS2: Todas as edições do primeiro Correio Braziliense podem ser lidas gratuitamente no portal Brasiliana da USP

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O Brasileiro em Coimbra, Portugal – Uma história da História do Brasil

abril 19th, 2012 — 12:49pm

Estive em Lisboa, Sintra e Coimbra com meu irmão no começo de março. Adorei conhecer Portugal pela primeira vez. Acho que, para nós Brasileiros, o país tem um sabor próprio dada a história que compartilhamos. Na visita à fantástica Biblioteca Joanina na Universidade de Coimbra, uma exposicão chamou mais a minha atenção  neste sentido.

A mesma exibia exemplares antigos de livros tratando de assuntos ligados ao Brasil. Estavam expostos lá, por exemplo, o primeiro livro publicado no Brasil (em 1747) e o primeiro dicionário Português-Tupi. Haviam obras raríssimas também. O livro “Uma das mais belas obras ilustradas sobre o Brasil”, encomendado pelo Conde de Nassau e publicado em 1647, não produz nenhum resultado no Google. Aparentemente não há nada sobre a obra na Internet, uma que retrata o Brasil da época em diversas ilustrações.

Outra obra rara é o primeiro e único número do periódico “O Brasileiro em Coimbra” publicado em 1823 pelo Brasileiro Cândido Ladislau Japiassú de Figueiredo e Mello (Isso é que é nome, o resto é conversa). Em um ano onde Portugal ainda não reconhecia a independência do Brasil, Cândido publicava, em Portugal, textos defendendo-a fortemente. Também não achei o texto completo da edição em nenhum canto da Internet mas num blog um tanto obscuro, um post continha apenas a imagem da parte superior da primeira página. Segue a transcrição:

“O Brasileiro em Coimbra, Anno 1823, Quinta-feira 3 de Abril
Ora pois, meus Compatriotas, disponho-me (quem diria!) a escrever para o Publico! Teremos tambem o Nosso papel, para di-(o texto é cortado aqui) nam so do Brasil; mas até de Portugal.-Cumpre-Nos por tanto, nam so diser ao Brasil o que se passa em Portugal ; porém ainda diser a Portugal o que se passa no Brasil. – O Portuguez sabendo com exactidam as forças, e os progressos do Governo Brasilico, nam quererá arriscar os seus soldados, (o texto é cortado aqui)”

 

Uma pena o restante não estar disponível. Segundo esta fonte (em inglês), a publicação causou alvoroço em Coimbra e problemas para os brasileiros que lá residiam. Cópias do texto foram confiscadas, a sua publicação foi suspensa, e seu editor foi detido. O texto original que explica esse episódio é de autoria de Bernardo de Serpa Saraiva Machado com o título “Representação documentada, que a real presença de Sua Magestade fez subir em 30 de Junho de 1823″. Infelizmente também não consegui achar nenhum link para o texto completo. O Brasileiro em Coimbra, pelo visto, continua detido nos arquivos portugueses.

Clique aqui para ler a segunda parte.

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Comentando o ataque terrorista em Oslo

julho 29th, 2011 — 4:42am

Meses atrás um dinamarquês bem humorado se aproximou de mim e um amigo no bar. Visivelmente embriagado (o que talvez explique sua súbita aproximação extrovertida), o sujeito soltava algumas piadas desconexas entre um gole e outro de cerveja. Mas em certo ponto da conversa começou a falar da Alemanha e, em seguida, de Hitler. Foi quando profeciou a frase: “O único problema de Hitler foi não ter terminado o serviço”.

Saímos da mesa na mesma hora. Foi um choque ter ouvido aquilo. É muito triste saber que existem pessoas que pensam desta forma.

***

Para mim, a Escandinávia (principalmente Suécia, Noruega e Finlândia) tem sérios problemas em seus processos de integracão multi-cultural e étnico. Eles todos estavam acostumados a uma população uniforme. Praticamente todos compartilhavam a mesma origem, a mesma história. Foi só nas últimas décadas que a imigracão começou a aumentar – por necessidade deles, diga-se. Mas nem todos os escandinavos aceitam bem isso. Há muito racismo e muita xenofobia latente aqui mas poucos se dão conta.  Não é a toa que um movimento de extrema direita discretamente começa a ganhar força.

Mas há muita intolerância religiosa de nossa parte também na interpretação dos fatos. É fácil ver a Noruega como um país perfeito onde tudo funciona e tratar os seus “problemas” como incidentes isolados. Mas esse atentado em Oslo não foi um fato isolado de um ser humano louco. Foi um ato extremo, claro, mas de uma pessoa entre várias que pensam da mesma forma aqui: Foi um ato planejado e executado com sucesso contra os muçulmanos. Fosse o contrário, não teria tanta gente assim tratando o terrorista cristão como louco. Já vimos este episódio antes.

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Intolerância na Internet

março 11th, 2011 — 3:18pm

Você não vai conseguir mudar a opinião dos outros; Mas você pode mudar a sua se quiser.

Entre no YouTube e escolha um vídeo popular. Qualquer um. Por exemplo, este. Esse vídeo tem mais de 6,7 milhões de acessos e mais de 51 mil pessoas gostaram dele. Por outro lado, pouco mais de 600 pessoas não gostaram. É um número muito baixo, o que indica um consenso quase absoluto.

Navegue agora pelos comentários desse mesmo vídeo. Repare no comentário “603 people? never played mariokart” (tradução literal: 603 pessoas nunca jogaram mario kart). É um comentário popular, aprovado por outros usuários, contra as pessoas que não gostaram do vídeo. E é o mesmo tipo de comentário que você encontrará em praticamente todos os vídeos onde algum tipo de consenso foi alcançado. São comentários de quem não admite que outras pessoas pensam diferente delas.

Na Internet é muito fácil ver o quanto algumas pessoas são intolerantes. Entre em qualquer forum de discussão a favor de um tópico em particular e experimente emitir uma opinião contrária a ele. Argumente, por exemplo, que é contra homeopatia ou ateu, ou que votou na Dilma. Na maioria dos casos o que você mais receberá serão ataques pessoais sem nenhuma referência aos fatos apresentados. Veja aqui, por exemplo, uma listinha de comentários intolerantes que o Blog do Sakamoto recebe.

Não adianta apresentar fatos. Aliás, alguns estudos dizem que é pior apresentá-los. O argumento usado é que quanto mais ideológica a opinião de uma pessoa, mais apegado a ela a pessoa ficará quando confrontada com fatos. Seth Godin, um guru de marketing, também afirma que muitas pessoas não mudarão de opinião nestes casos. Não adianta mostrar números ou provas ou o que for que comprove algo. Se for contra a crença da pessoa, ela não mudará de opinião. Pode até ficar mais apegada a ela, incapaz de admitir que estava errada.

Ninguém pede desculpa na Internet. Ninguém admite que estava errado. Ninguém muda de opinião. O que fazer? Não há muito que você possa fazer por essas pessoas. Muito provavelmente você não conseguirá mudar a opinião de ninguém na Internet. O que você pode fazer é parar de tentar mudar a opinião dos outros. Deixe ela em paz! Você pode mudar a sua opinião se quiser. Mas a dos outros não tem nada a ver com você. Ela não é sua e você provavelmente já tem opiniões demais pra ficar se preocupando com a dos outros.

 

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O Sorriso da Mona Lisa

setembro 2nd, 2010 — 8:23am

Já falei aqui no blog que acho a obra mais famosa de da Vinci extremamente sobrevalorizada. Mas outro dia algo novo me ocorreu sobre esta minha opinião. Porque do nada volto a falar deste assunto com uma novidade é algo que talvez anos de psicanálise possam desvendar. Enfim, o fato é que tenho uma teoria nova para o sorriso misterioso da Mona Lisa.

Acho que o sorriso dela é um sorriso de deboche. Veja bem, no meu último post sobre este assunto no blog, falei de um boato sobre o motivo da obra ter ficado tão famosa. Aparentemente, Leonardo da Vinci, ao terminá-la, saiu às ruas dizendo que aquele era o seu melhor trabalho. Aquilo supostamente acabou por contribuir para que outros argumentos e o boca-a-boca a tornassem uma das obras mais conhecidas e referenciadas em todo mundo. Pois bem. Mas e se Leonardo da Vinci estivesse na verdade pregando uma peça em todo mundo?

Fez lá uma pintura razoável de uma mulher qualquer (até hoje se discute quem seria a tal) e colocou nela o seu próprio sorriso. Uma mistura de deboche e desprezo por quem fica  apreciando obras de arte por sua fama ou pelo que outras pessoas dizem dela, e não pelo que ela realmente é. Neste caso, teríamos hoje no Louvre um monte de gente indo ver a pintura de uma mulher que está lá rindo de todos eles. Debochando de quem pagou caro para vê-la e está agora perdendo seu tempo.

Genial este Leonardo, não?

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Verão, sol, calor e… bicicleta! Na Dinamarca tem

julho 15th, 2010 — 3:14pm

Um dos argumentos que mais escuto no Brasil para as pessoas não usarem bicicleta é que faz muito calor e ninguém quer suar antes de chegar no trabalho, supermercado, shopping, etc. Mas eis que me deparo com o verão Dinamarquês. Faz calor também, tem dia que bate 35 graus. O sol é forte e nem sempre o tão incômodo vento gélido do norte resolve colaborar justamente nestes poucos momentos que precisamos dele. Mesmo assim, ao invés de diminuir o número de ciclistas na rua, eles aumentam! Incrível, não!?

aaÉ verão, faz calor? Então use menos roupas! (fonte)

Em outras palavras, para mim, no Brasil, quem goza de saúde plena, mora a menos de 5km do trabalho e não usa bicicleta para se deslocar é muito provavelmente acomodado. Preguiçoso mesmo! Porque não há nada mais que explique o sujeito pegar um carro para percorrer míseros 5km. É preguiça de mexer as pernas um pouco por no máximo 30 minutos. É muito mais conveniente (e ao mesmo tempo egoísta, claro) sentar a bunda no carro, ligar o ar condicionado e ignorar os problemas do mundo na sua bolha particular. Se não por isto, então há outra razão. E talvez as duas andem bem juntas neste caso. Status! O sujeito quer se exibir, aí bota o terno para ir ao trabalho e diz que se não fosse de carro, suaria muito.

aaComo assim ir para a praia de carro? A galera aqui na Dinamarca vai de bicicleta em massa. (fonte)

No Brasil, distinção de classe está justamente no suor. O pensamento desta elite preconceituosa segue a seguinte linha: Quem sua é pobre que faz trabalho braçal e não pode bancar ar condicionado. Rico trabalha menos e não pode se sujeitar as mesmas condições de transporte e que geram suor. Imagina suar no terno Armani novo! Aqui em Aalborg, ao contrário, vi ontem o chefe do departamento de Ciência da Computação da Universidade indo trabalhar de bermuda e camiseta. Foi de bicicleta, claro. Imagina uma coisa dessas no Brasil?! Quem é que admitiria um empregado indo trabalhar de bermuda e camiseta? Não pode, tá errado. Não pode ir de bicicleta também porque tem que mostrar que é bem de vida. Vejam neste exemplo uma explicação histórica (daqui):

“No século XIX, entre o meio industrial inglês, surgiu o colarinho branco como marca da estratificação social. Apenas os que ocupavam altos cargos nas empresas poderiam ostentar o colarinho alvejado, pois nos postos mais baixos o contato com a fuligem fazia qualquer peça de roupa branca enegrecer em poucos minutos. A essa mesma época, as próprias necessidades do trabalho impuseram o abandono do uso da casaca em prol de uma vestimenta que era um aperfeiçoamento das roupas dos trabalhadores rurais: o terno.

Se antes as calças vinham apenas até o joelho, Lord Brummel lançou a moda das calças compridas, como aquelas usadas pelos limpadores de chaminé. Mas claro, estas calças de limpador de cahminé combinavam-se com botas polidas com champagne, com paletós negros e camisas brancas com elaborados nós de gravata. Brummel, o pai do dandismo, morre em 1840, mas deixa fincadas as raízes do uso do terno como distinção de classe, como foram as unhas compridas na antiga China: o trabalhador braçal, de baixa renda, de classe baixa, não pode usar colarinhos brancos, nem manter as unhas compridas, senão não trabalha, não come, não sobrevive.

No Brasil, a distinção se faz pelo suor. Somos a última nação ocidental pretensamente civilizada a abolir o trabalho escravo. Isso há pouco mais de 100 anos. O escravo era os pés e as mãos do seu senhor. Seus braços e pernas. São conhecidas as gravuras do período colonial em que vemos escravos carregando o senhor em sua liteira, vestido como se europeu fosse, abanando-se ou sendo abanado. Acaso estivesse esse senhor andando pelas próprias pernas, suportaria o calor em sua casaca de veludo?

[Atualmente, ]Vai embora a casaca mas em seu lugar fica o terno (…)”

Mas não adianta argumentar que pedalando devagar você sua muito pouco ou que podemos (devemos) usar roupas mais leves no dia-a-dia. Não adianta um texto longo como este e provas de que o uso de bicicletas funciona em outros lugares. Sabe o que adianta? Mexer no bolso destas pessoas. Quando usar carro passar a se tornar algo extremamente caro, aí elas passarão a procurar alternativas. E também cobrar por infraestrutura para as bicicletas. Alguém aí acha que é possível de outra forma?

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Na Dinamarca… E a Copa do Mundo

julho 7th, 2010 — 2:39pm

No dia seguinte à derrota da Dinamarca na copa, chego ao escritório para cumprimentar um colega dinamarquês:
- Poxa cara, que pena a Dinamarca ter perdido, estava torcendo para que pelo menos fosse para as oitavas…
- Perdeu? No quê?
- Na Copa, ontem, perdeu o jogo para o Japão…
- Ah, nem tava sabendo… Perdeu é? Paciência, não tínhamos um time tão bom mesmo…

***

Os dinamarqueses parecem levar uma vida pacata. Não querem enriquecer e comprar tudo como os americanos, não querem construir robôs como os japoneses, não querem morar nos EUA como os indianos e mexicanos, e não querem ganhar a copa do mundo como nós brasileiros. Não, eles parecem não se importar.

Para eles importa cumprir suas 7 horas diárias de trabalho e depois ir para casa ficar com a família. No verão, tiram férias, no inverno, bem, no inverno não sei ainda… E o tempo que sobra eles gastam pagando impostos.

***

Mas nem todos os dinamarqueses estavam ignorando a copa. A praça central de Aalborg deve ter reunido umas duas ou três centenas de pessoas, quase todas torcendo para o time da casa. Alguns gritavam vez ou outra mas o clima era sereno.

A não ser no jogo contra a Holanda, o primeiro deles. Assistir aos jogos de dois países europeus aqui é como assistir a um jogo do campeonato brasileiro no Brasil. Há provocações de todos os tipos e o clima pode ser resumido numa ótima frase de um amigo meu: “A copa do mundo é uma ocasião onde podemos ser preconceituosos sem sermos mal vistos por isto.”

***

Assisto aos jogos num bar no centro que projeta a imagem em um telão tipo cinema. Vou para lá de bicicleta e chego em 10 minutos. É fácil andar de bicicleta aqui. Não porque a infraestrutura seja melhor que no Brasil mas porque as pessoas respeitam os ciclistas.

Mas, tudo bem, a infraestrutura também é muito melhor. O país tem 12 ciclovias nacionais, tipo auto-estrada mesmo, além de centenas de ciclovias regionais e locais, com semáforos exclusivos e tudo mais.

***

Mas com tanto imposto, não dava para ser diferente. O mínimo que se paga é 32% e o máximo chega a algo em torno de 56%. Até o ano passado passava dos 60% mas eles reduziram a carga. Isto sem contar o imposto embutido nos produtos que pagamos, em torno de 25%, um dos mais altos do mundo.

Em compensação, temos tudo. Cidades bem cuidadas, plano de saúde, rodovias, educação, e por aí vai. Ah, bibliotecas! Que maravilha as bibliotecas daqui. Posso pegar qualquer livro, CD, DVD, jogos para PC, Wii, PlayStation, Xbox, de graça por até 30 dias. E mais, consulto tudo online e posso pedir um item de qualquer biblioteca pública da Dinamarca. Eles entregam na biblioteca mais próxima sem cobrar nada extra pelo serviço.

***

Hoje tem Alemanha e Espanha. Vou assistir com amigos alemães e espanhóis. Não vou torcer em especial para nenhum dos dois mas me divirto com o drama alheio. É a única vantagem de ter o Brasil fora da copa: assistir tranqüilo aos jogos que restam. Tal qual a maioria dos dinamarqueses desde o início da copa, mesmo quando ainda estavam jogando.

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Reflexão sobre o Dia Internacional da Mulher

março 8th, 2010 — 1:04pm

Hoje é dia das mulheres receberem “flores murchas” e ouvirem piadas sem graça e machistas: “Por que homem também não tem um dia especial?” É dia delas ouvirem também umas homenagens sem graça e infames. “Mulheres, vocês embelezam o mundo”. Mas poucos vão se dar ao trabalho de sequer procurar saber que as mulheres não têm direitos iguais aos homens. Por isto, o propósito deste dia deveria ser para todos o de reflexão.

Há muitas desigualdades entre os sexos aqui mesmo Brasil, para nem discutirmos a situação de países principalmente da Ásia, África e do Oriente Médio. Mulheres aqui ganham menos que homens ocupando os mesmos cargos.  E elas costumam ocupar cargos inferiores também, tanto nos negócios quanto na política. Mulheres sofrem mais com a violência e, pior, com a sua impunidade. Mulheres sofrem muito mais pressão sobre sua aparência e papel na sociedade: Devem ser submissas, cuidar da casa e dos filhos, trabalhar jornadas duplas e ainda seguirem padrões de beleza impostos.

anúncio criado pela Ag407

Este não é um dia para dar parabéns. Ontem, pela primeira vez, uma mulher ganhou o prêmio de Melhor Diretora na premiação do Oscar. Primeira vez em 82 edições! Com a vitória de ontem, os homens agora têm “apenas” 98,78% dos prêmios de melhor direção. Além disto, basta ver a lista dos demais ganhadores deste ano, praticamente todos homens, para constatar que esta ainda é uma indústria fortemente dominada por eles.

Mais, no Bom Dia Brasil de hoje, na Globo, uma notícia informa que caiu o número de gravidezes na adolescência e que esta é uma boa notícia. O número ainda alto existe, segundo a notícia, por falta de informação para os jovens. Logo em seguida o jornal ainda mostra casos de abandono de crianças por mulheres, como se a culpa fosse inteiramente dela.

Quer se tornar uma diretora? Você está no banheiro errado! (fonte)

Também não se discute o aborto, por exemplo, como forma de minimizar as consequências de uma gravidez indesejada. As mulheres no Brasil não tem o direito sobre o próprio corpo e, acreditando ou não, todas elas são obrigadas a seguir a doutrina da Igreja Católica que praticamente legisla sobre a questão. Mesmo sendo o Brasil um país laico.

É, portanto, um dia para se refletir. E para começar agir. Um mundo melhor para as mulheres começa pelo respeito. Para que tenham melhores salários, cargos e condições de trabalho, sem as imposições de beleza e de padrões de comportamento que não acomete os homens. Para que sejam amparadas contra a violência e sua impunidade. E para que não precisem mais ouvir piadas sem graça todo dia 8 de março, porque todo dia passará a ser dia de todos nós.

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Quem não conhece a Índia só vê seus extremos

outubro 22nd, 2009 — 6:10am

Li um post sobre “curiosidades” da Índia e respondi a um amigo que era contra as afirmações do texto. Disse-lhe que aquele era um “texto típico de quem acabou de chegar na Índia pela primeira vez e não entende nada do país ainda.” Como meu amigo perguntou o porquê de estar tudo errado no texto lido, trago a resposta para o blog para estimular uma discussão:

Não é que esteja tudo errado com o post mas as afirmações jogadas ali soltas ficam fora de contexto.

Quem chega a Índia pela primeira vez  sem saber nada, fala o que vê, e esquece de perceber as entrelinhas. A Índia é um país de muitos contrastes e extremos então não há uma verdade sobre o país. Vamos a alguns exemplos pontuais do texto do sujeito da moça:

Em Bangalore, 3a. maior cidade da India, não tem calçadas! As pessoas andam se amontoando na beira da estrada/rua/avenida mesmo junto com os carros, onibus, caminhões, auto-rickshaws, vacas , cachorros, e outros animais!

É claro que há calçadas! E em muitos lugares elas são melhores que muitas calçadas brasileiras. Em outros elas não existem mesmo. E não há um monte de gente, vaca, etc. em todos os lugares. As vacas, por exemplo, estão em grande parte apenas nas periferias da cidade.

Todos os lagos da cidade servem como cagódromo/ mijódromo, sem exceção, de dia ou de noite! Os muros também tem a mesma serventia, especialmente para os homens, claro!

Não são todos. No Lal Bagh, um jardim botânico, há um lago grande e muito limpo. Ninguém defeca ou urina ali. E muitos muros também são respeitados. Depende do tipo de pessoa que frequenta o lugar e da aparência/conservação do muro.

os bares/restaurantes/discos fecham as 11:30 da noite (desligam a musica e as pessoas são convidadas a se retirarem…)!

A maioria dos bares fecha mesmo às 11:30, alguns burlam a lei (subornam alguém) e conseguem fechar 2, 3 da manhã. Mas, independente disto, as festas/diversões não acabam 11:30 como o texto faz parecer. Sempre há um amigo com uma festa em algum lugar particular para prolongar a noite de quem quiser.

E por aí vai. Não vejo hoje, maniqueísmo na Índia como marinheiros de primeira viagem (inclusive eu, dois anos atrás) vêem. A Índia não é só o luxo da novela da Globo ou a miséria do filme “Quem Quer Ser um Milionário?”. Ao contrário, é um país de muitas dimensões e variações dentro destes extremos.

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