Category: Sociedades


Comentando o ataque terrorista em Oslo

julho 29th, 2011 — 4:42am

Meses atrás um dinamarquês bem humorado se aproximou de mim e um amigo no bar. Visivelmente embriagado (o que talvez explique sua súbita aproximação extrovertida), o sujeito soltava algumas piadas desconexas entre um gole e outro de cerveja. Mas em certo ponto da conversa começou a falar da Alemanha e, em seguida, de Hitler. Foi quando profeciou a frase: “O único problema de Hitler foi não ter terminado o serviço”.

Saímos da mesa na mesma hora. Foi um choque ter ouvido aquilo. É muito triste saber que existem pessoas que pensam desta forma.

***

Para mim, a Escandinávia (principalmente Suécia, Noruega e Finlândia) tem sérios problemas em seus processos de integracão multi-cultural e étnico. Eles todos estavam acostumados a uma população uniforme. Praticamente todos compartilhavam a mesma origem, a mesma história. Foi só nas últimas décadas que a imigracão começou a aumentar – por necessidade deles, diga-se. Mas nem todos os escandinavos aceitam bem isso. Há muito racismo e muita xenofobia latente aqui mas poucos se dão conta.  Não é a toa que um movimento de extrema direita discretamente começa a ganhar força.

Mas há muita intolerância religiosa de nossa parte também na interpretação dos fatos. É fácil ver a Noruega como um país perfeito onde tudo funciona e tratar os seus “problemas” como incidentes isolados. Mas esse atentado em Oslo não foi um fato isolado de um ser humano louco. Foi um ato extremo, claro, mas de uma pessoa entre várias que pensam da mesma forma aqui: Foi um ato planejado e executado com sucesso contra os muçulmanos. Fosse o contrário, não teria tanta gente assim tratando o terrorista cristão como louco. Já vimos este episódio antes.

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Intolerância na Internet

março 11th, 2011 — 3:18pm

Você não vai conseguir mudar a opinião dos outros; Mas você pode mudar a sua se quiser.

Entre no YouTube e escolha um vídeo popular. Qualquer um. Por exemplo, este. Esse vídeo tem mais de 6,7 milhões de acessos e mais de 51 mil pessoas gostaram dele. Por outro lado, pouco mais de 600 pessoas não gostaram. É um número muito baixo, o que indica um consenso quase absoluto.

Navegue agora pelos comentários desse mesmo vídeo. Repare no comentário “603 people? never played mariokart” (tradução literal: 603 pessoas nunca jogaram mario kart). É um comentário popular, aprovado por outros usuários, contra as pessoas que não gostaram do vídeo. E é o mesmo tipo de comentário que você encontrará em praticamente todos os vídeos onde algum tipo de consenso foi alcançado. São comentários de quem não admite que outras pessoas pensam diferente delas.

Na Internet é muito fácil ver o quanto algumas pessoas são intolerantes. Entre em qualquer forum de discussão a favor de um tópico em particular e experimente emitir uma opinião contrária a ele. Argumente, por exemplo, que é contra homeopatia ou ateu, ou que votou na Dilma. Na maioria dos casos o que você mais receberá serão ataques pessoais sem nenhuma referência aos fatos apresentados. Veja aqui, por exemplo, uma listinha de comentários intolerantes que o Blog do Sakamoto recebe.

Não adianta apresentar fatos. Aliás, alguns estudos dizem que é pior apresentá-los. O argumento usado é que quanto mais ideológica a opinião de uma pessoa, mais apegado a ela a pessoa ficará quando confrontada com fatos. Seth Godin, um guru de marketing, também afirma que muitas pessoas não mudarão de opinião nestes casos. Não adianta mostrar números ou provas ou o que for que comprove algo. Se for contra a crença da pessoa, ela não mudará de opinião. Pode até ficar mais apegada a ela, incapaz de admitir que estava errada.

Ninguém pede desculpa na Internet. Ninguém admite que estava errado. Ninguém muda de opinião. O que fazer? Não há muito que você possa fazer por essas pessoas. Muito provavelmente você não conseguirá mudar a opinião de ninguém na Internet. O que você pode fazer é parar de tentar mudar a opinião dos outros. Deixe ela em paz! Você pode mudar a sua opinião se quiser. Mas a dos outros não tem nada a ver com você. Ela não é sua e você provavelmente já tem opiniões demais pra ficar se preocupando com a dos outros.

 

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O Sorriso da Mona Lisa

setembro 2nd, 2010 — 8:23am

Já falei aqui no blog que acho a obra mais famosa de da Vinci extremamente sobrevalorizada. Mas outro dia algo novo me ocorreu sobre esta minha opinião. Porque do nada volto a falar deste assunto com uma novidade é algo que talvez anos de psicanálise possam desvendar. Enfim, o fato é que tenho uma teoria nova para o sorriso misterioso da Mona Lisa.

Acho que o sorriso dela é um sorriso de deboche. Veja bem, no meu último post sobre este assunto no blog, falei de um boato sobre o motivo da obra ter ficado tão famosa. Aparentemente, Leonardo da Vinci, ao terminá-la, saiu às ruas dizendo que aquele era o seu melhor trabalho. Aquilo supostamente acabou por contribuir para que outros argumentos e o boca-a-boca a tornassem uma das obras mais conhecidas e referenciadas em todo mundo. Pois bem. Mas e se Leonardo da Vinci estivesse na verdade pregando uma peça em todo mundo?

Fez lá uma pintura razoável de uma mulher qualquer (até hoje se discute quem seria a tal) e colocou nela o seu próprio sorriso. Uma mistura de deboche e desprezo por quem fica  apreciando obras de arte por sua fama ou pelo que outras pessoas dizem dela, e não pelo que ela realmente é. Neste caso, teríamos hoje no Louvre um monte de gente indo ver a pintura de uma mulher que está lá rindo de todos eles. Debochando de quem pagou caro para vê-la e está agora perdendo seu tempo.

Genial este Leonardo, não?

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Verão, sol, calor e… bicicleta! Na Dinamarca tem

julho 15th, 2010 — 3:14pm

Um dos argumentos que mais escuto no Brasil para as pessoas não usarem bicicleta é que faz muito calor e ninguém quer suar antes de chegar no trabalho, supermercado, shopping, etc. Mas eis que me deparo com o verão Dinamarquês. Faz calor também, tem dia que bate 35 graus. O sol é forte e nem sempre o tão incômodo vento gélido do norte resolve colaborar justamente nestes poucos momentos que precisamos dele. Mesmo assim, ao invés de diminuir o número de ciclistas na rua, eles aumentam! Incrível, não!?

aaÉ verão, faz calor? Então use menos roupas! (fonte)

Em outras palavras, para mim, no Brasil, quem goza de saúde plena, mora a menos de 5km do trabalho e não usa bicicleta para se deslocar é muito provavelmente acomodado. Preguiçoso mesmo! Porque não há nada mais que explique o sujeito pegar um carro para percorrer míseros 5km. É preguiça de mexer as pernas um pouco por no máximo 30 minutos. É muito mais conveniente (e ao mesmo tempo egoísta, claro) sentar a bunda no carro, ligar o ar condicionado e ignorar os problemas do mundo na sua bolha particular. Se não por isto, então há outra razão. E talvez as duas andem bem juntas neste caso. Status! O sujeito quer se exibir, aí bota o terno para ir ao trabalho e diz que se não fosse de carro, suaria muito.

aaComo assim ir para a praia de carro? A galera aqui na Dinamarca vai de bicicleta em massa. (fonte)

No Brasil, distinção de classe está justamente no suor. O pensamento desta elite preconceituosa segue a seguinte linha: Quem sua é pobre que faz trabalho braçal e não pode bancar ar condicionado. Rico trabalha menos e não pode se sujeitar as mesmas condições de transporte e que geram suor. Imagina suar no terno Armani novo! Aqui em Aalborg, ao contrário, vi ontem o chefe do departamento de Ciência da Computação da Universidade indo trabalhar de bermuda e camiseta. Foi de bicicleta, claro. Imagina uma coisa dessas no Brasil?! Quem é que admitiria um empregado indo trabalhar de bermuda e camiseta? Não pode, tá errado. Não pode ir de bicicleta também porque tem que mostrar que é bem de vida. Vejam neste exemplo uma explicação histórica (daqui):

“No século XIX, entre o meio industrial inglês, surgiu o colarinho branco como marca da estratificação social. Apenas os que ocupavam altos cargos nas empresas poderiam ostentar o colarinho alvejado, pois nos postos mais baixos o contato com a fuligem fazia qualquer peça de roupa branca enegrecer em poucos minutos. A essa mesma época, as próprias necessidades do trabalho impuseram o abandono do uso da casaca em prol de uma vestimenta que era um aperfeiçoamento das roupas dos trabalhadores rurais: o terno.

Se antes as calças vinham apenas até o joelho, Lord Brummel lançou a moda das calças compridas, como aquelas usadas pelos limpadores de chaminé. Mas claro, estas calças de limpador de cahminé combinavam-se com botas polidas com champagne, com paletós negros e camisas brancas com elaborados nós de gravata. Brummel, o pai do dandismo, morre em 1840, mas deixa fincadas as raízes do uso do terno como distinção de classe, como foram as unhas compridas na antiga China: o trabalhador braçal, de baixa renda, de classe baixa, não pode usar colarinhos brancos, nem manter as unhas compridas, senão não trabalha, não come, não sobrevive.

No Brasil, a distinção se faz pelo suor. Somos a última nação ocidental pretensamente civilizada a abolir o trabalho escravo. Isso há pouco mais de 100 anos. O escravo era os pés e as mãos do seu senhor. Seus braços e pernas. São conhecidas as gravuras do período colonial em que vemos escravos carregando o senhor em sua liteira, vestido como se europeu fosse, abanando-se ou sendo abanado. Acaso estivesse esse senhor andando pelas próprias pernas, suportaria o calor em sua casaca de veludo?

[Atualmente, ]Vai embora a casaca mas em seu lugar fica o terno (…)”

Mas não adianta argumentar que pedalando devagar você sua muito pouco ou que podemos (devemos) usar roupas mais leves no dia-a-dia. Não adianta um texto longo como este e provas de que o uso de bicicletas funciona em outros lugares. Sabe o que adianta? Mexer no bolso destas pessoas. Quando usar carro passar a se tornar algo extremamente caro, aí elas passarão a procurar alternativas. E também cobrar por infraestrutura para as bicicletas. Alguém aí acha que é possível de outra forma?

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Na Dinamarca… E a Copa do Mundo

julho 7th, 2010 — 2:39pm

No dia seguinte à derrota da Dinamarca na copa, chego ao escritório para cumprimentar um colega dinamarquês:
- Poxa cara, que pena a Dinamarca ter perdido, estava torcendo para que pelo menos fosse para as oitavas…
- Perdeu? No quê?
- Na Copa, ontem, perdeu o jogo para o Japão…
- Ah, nem tava sabendo… Perdeu é? Paciência, não tínhamos um time tão bom mesmo…

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Os dinamarqueses parecem levar uma vida pacata. Não querem enriquecer e comprar tudo como os americanos, não querem construir robôs como os japoneses, não querem morar nos EUA como os indianos e mexicanos, e não querem ganhar a copa do mundo como nós brasileiros. Não, eles parecem não se importar.

Para eles importa cumprir suas 7 horas diárias de trabalho e depois ir para casa ficar com a família. No verão, tiram férias, no inverno, bem, no inverno não sei ainda… E o tempo que sobra eles gastam pagando impostos.

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Mas nem todos os dinamarqueses estavam ignorando a copa. A praça central de Aalborg deve ter reunido umas duas ou três centenas de pessoas, quase todas torcendo para o time da casa. Alguns gritavam vez ou outra mas o clima era sereno.

A não ser no jogo contra a Holanda, o primeiro deles. Assistir aos jogos de dois países europeus aqui é como assistir a um jogo do campeonato brasileiro no Brasil. Há provocações de todos os tipos e o clima pode ser resumido numa ótima frase de um amigo meu: “A copa do mundo é uma ocasião onde podemos ser preconceituosos sem sermos mal vistos por isto.”

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Assisto aos jogos num bar no centro que projeta a imagem em um telão tipo cinema. Vou para lá de bicicleta e chego em 10 minutos. É fácil andar de bicicleta aqui. Não porque a infraestrutura seja melhor que no Brasil mas porque as pessoas respeitam os ciclistas.

Mas, tudo bem, a infraestrutura também é muito melhor. O país tem 12 ciclovias nacionais, tipo auto-estrada mesmo, além de centenas de ciclovias regionais e locais, com semáforos exclusivos e tudo mais.

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Mas com tanto imposto, não dava para ser diferente. O mínimo que se paga é 32% e o máximo chega a algo em torno de 56%. Até o ano passado passava dos 60% mas eles reduziram a carga. Isto sem contar o imposto embutido nos produtos que pagamos, em torno de 25%, um dos mais altos do mundo.

Em compensação, temos tudo. Cidades bem cuidadas, plano de saúde, rodovias, educação, e por aí vai. Ah, bibliotecas! Que maravilha as bibliotecas daqui. Posso pegar qualquer livro, CD, DVD, jogos para PC, Wii, PlayStation, Xbox, de graça por até 30 dias. E mais, consulto tudo online e posso pedir um item de qualquer biblioteca pública da Dinamarca. Eles entregam na biblioteca mais próxima sem cobrar nada extra pelo serviço.

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Hoje tem Alemanha e Espanha. Vou assistir com amigos alemães e espanhóis. Não vou torcer em especial para nenhum dos dois mas me divirto com o drama alheio. É a única vantagem de ter o Brasil fora da copa: assistir tranqüilo aos jogos que restam. Tal qual a maioria dos dinamarqueses desde o início da copa, mesmo quando ainda estavam jogando.

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Reflexão sobre o Dia Internacional da Mulher

março 8th, 2010 — 1:04pm

Hoje é dia das mulheres receberem “flores murchas” e ouvirem piadas sem graça e machistas: “Por que homem também não tem um dia especial?” É dia delas ouvirem também umas homenagens sem graça e infames. “Mulheres, vocês embelezam o mundo”. Mas poucos vão se dar ao trabalho de sequer procurar saber que as mulheres não têm direitos iguais aos homens. Por isto, o propósito deste dia deveria ser para todos o de reflexão.

Há muitas desigualdades entre os sexos aqui mesmo Brasil, para nem discutirmos a situação de países principalmente da Ásia, África e do Oriente Médio. Mulheres aqui ganham menos que homens ocupando os mesmos cargos.  E elas costumam ocupar cargos inferiores também, tanto nos negócios quanto na política. Mulheres sofrem mais com a violência e, pior, com a sua impunidade. Mulheres sofrem muito mais pressão sobre sua aparência e papel na sociedade: Devem ser submissas, cuidar da casa e dos filhos, trabalhar jornadas duplas e ainda seguirem padrões de beleza impostos.

anúncio criado pela Ag407

Este não é um dia para dar parabéns. Ontem, pela primeira vez, uma mulher ganhou o prêmio de Melhor Diretora na premiação do Oscar. Primeira vez em 82 edições! Com a vitória de ontem, os homens agora têm “apenas” 98,78% dos prêmios de melhor direção. Além disto, basta ver a lista dos demais ganhadores deste ano, praticamente todos homens, para constatar que esta ainda é uma indústria fortemente dominada por eles.

Mais, no Bom Dia Brasil de hoje, na Globo, uma notícia informa que caiu o número de gravidezes na adolescência e que esta é uma boa notícia. O número ainda alto existe, segundo a notícia, por falta de informação para os jovens. Logo em seguida o jornal ainda mostra casos de abandono de crianças por mulheres, como se a culpa fosse inteiramente dela.

Quer se tornar uma diretora? Você está no banheiro errado! (fonte)

Também não se discute o aborto, por exemplo, como forma de minimizar as consequências de uma gravidez indesejada. As mulheres no Brasil não tem o direito sobre o próprio corpo e, acreditando ou não, todas elas são obrigadas a seguir a doutrina da Igreja Católica que praticamente legisla sobre a questão. Mesmo sendo o Brasil um país laico.

É, portanto, um dia para se refletir. E para começar agir. Um mundo melhor para as mulheres começa pelo respeito. Para que tenham melhores salários, cargos e condições de trabalho, sem as imposições de beleza e de padrões de comportamento que não acomete os homens. Para que sejam amparadas contra a violência e sua impunidade. E para que não precisem mais ouvir piadas sem graça todo dia 8 de março, porque todo dia passará a ser dia de todos nós.

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Quem não conhece a Índia só vê seus extremos

outubro 22nd, 2009 — 6:10am

Li um post sobre “curiosidades” da Índia e respondi a um amigo que era contra as afirmações do texto. Disse-lhe que aquele era um “texto típico de quem acabou de chegar na Índia pela primeira vez e não entende nada do país ainda.” Como meu amigo perguntou o porquê de estar tudo errado no texto lido, trago a resposta para o blog para estimular uma discussão:

Não é que esteja tudo errado com o post mas as afirmações jogadas ali soltas ficam fora de contexto.

Quem chega a Índia pela primeira vez  sem saber nada, fala o que vê, e esquece de perceber as entrelinhas. A Índia é um país de muitos contrastes e extremos então não há uma verdade sobre o país. Vamos a alguns exemplos pontuais do texto do sujeito da moça:

Em Bangalore, 3a. maior cidade da India, não tem calçadas! As pessoas andam se amontoando na beira da estrada/rua/avenida mesmo junto com os carros, onibus, caminhões, auto-rickshaws, vacas , cachorros, e outros animais!

É claro que há calçadas! E em muitos lugares elas são melhores que muitas calçadas brasileiras. Em outros elas não existem mesmo. E não há um monte de gente, vaca, etc. em todos os lugares. As vacas, por exemplo, estão em grande parte apenas nas periferias da cidade.

Todos os lagos da cidade servem como cagódromo/ mijódromo, sem exceção, de dia ou de noite! Os muros também tem a mesma serventia, especialmente para os homens, claro!

Não são todos. No Lal Bagh, um jardim botânico, há um lago grande e muito limpo. Ninguém defeca ou urina ali. E muitos muros também são respeitados. Depende do tipo de pessoa que frequenta o lugar e da aparência/conservação do muro.

os bares/restaurantes/discos fecham as 11:30 da noite (desligam a musica e as pessoas são convidadas a se retirarem…)!

A maioria dos bares fecha mesmo às 11:30, alguns burlam a lei (subornam alguém) e conseguem fechar 2, 3 da manhã. Mas, independente disto, as festas/diversões não acabam 11:30 como o texto faz parecer. Sempre há um amigo com uma festa em algum lugar particular para prolongar a noite de quem quiser.

E por aí vai. Não vejo hoje, maniqueísmo na Índia como marinheiros de primeira viagem (inclusive eu, dois anos atrás) vêem. A Índia não é só o luxo da novela da Globo ou a miséria do filme “Quem Quer Ser um Milionário?”. Ao contrário, é um país de muitas dimensões e variações dentro destes extremos.

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A inércia brasileira não vai levar o país a lugar nenhum

julho 12th, 2009 — 7:59am

Se a Índia, que é um país com indicadores de pobreza bem maiores que o nosso, pode por que o Brasil não? Refiro-me ao sistema de educação superior Indiano e os seus diversos Institutos de ensino e pesquisa reconhecidos internacionalmente. Nas palavras de N. R. Narayana Murthy, fundador e mentor chefe da Infosys, a maior empresa de software Indiana, “a excelência dos institutos Indianos se equipara ou até mesmo supera alguns dos mais prestigiados centros de ensino e pesquisa do Japão, da Europa e dos EUA.”

O Sr. Murthy é também presidente do conselho administrativo do IIIT-B, Instituto onde estudo. Ele esteve hoje aqui falando aos estudantes  juntamente com o diretor, S. Sadagopan. Nas palavras de cada um, conquistas da educação superior Indiana e a posição privilegiada em que o país se encontra. Falam com o orgulho de quem dedicou a vida toda por uma causa maior que a própria vida e para uma platéia que dá valor a tais esforços e se vê motivada a trilhar caminhos similares.

E por que o Brasil não conquista tanto? Não é óbvio?! Porque não fazemos por merecer. Quase nunca fizemos. Este país foi construído sobre o estigma de que vence quem leva a melhor sobre o outro. O Brasil não consegue entender que para um ganhar, o outro não precisa perder. O foco, portanto, sempre foi no ganho pessoal fácil, tipicamente a partir dos vínculos sociais e da manutenção do poder. O resultado é que nossas instituições (no sentido amplo da palavra) nunca deram importância à educação e nossas famílias seguiram o exemplo. A história é importante para entendermos este processo [1].

“Para a maioria dos viajantes, o brasileiro do século 19 tinha o horror ao trabalho manual, exercido por escravos, e desejava, como os velhos colonos portugueses, o enriquecimento rápido e súbito.” [2]

Fomos colonizados e subjugados. O país nasceu da escória do velho continente e da exploração do novo. Os donos do pedaço, portanto, nunca precisaram ser educados para governar. Tampouco tinham interesse em educar as massas que serviam apenas para alimentar suas riquezas mesquinhas. Somado a isto, tivemos (sempre, até hoje) uma política de imigração restrita e míope.

“No principio do século vinte, Pierre Denis e Bryce assinalaram que a imigração européia renovava a vida rural e que o “Norte” (Nordeste) porque não a recebeu, possuía a mais medíocre população rural do país.”  [2]

Além disto, apesar da crença popular, sempre tratamos muito mal nossos imigrantes menos abastados. Atualmente, latino-americanos sofrem com péssimas condições de trabalho e muitos brasileiros ainda acham que eles merecem tal fardo [3]. Não mudamos praticamente nada em pouco mais de 500 anos e não é para menos: Sem influências externas ou mudanças ambientais bruscas, o ser humano tende apenas a reforçar seus velhos hábitos [1].  E com o tempo estes hábitos passam a ser a norma e viram regra do convívio social.

Regras que são convenientemente esquecidas ao copiarmos os modelos de educação e desenvolvimento dos países desenvolvidos. Assim, passamos a dar alguma educação de qualidade e melhores condições para quem já tinha tudo. E sem mudar as regras, o sistema obviamente se molda para se adequar às necessidades desta classe privilegiada. O vestibular e o preconceito velado contra as cotas raciais são dois dos exemplos atuais claros desta manifestação.

Olhar para o próprio umbigo é comum no Brasil.

Eu vejo pessoas próximas a mim, quase todas com boa condição social, falsificando carteiras de estudante para pagarem meia-entrada no cinema e em eventos culturais. Também falo do problema de restringir a profissão de informática aos profissionais da área e recebo críticas de quem quer o comodismo do emprego garantido. Jornalistas têm feito o mesmo. Todos querem o seu naco de ganho pessoal fácil em detrimento do bem coletivo.

Não conseguem enxergar que ganhariam muito mais estimulando a diversidade de idéias e o pensamento coletivo [4] [6]. Nós brasileiros, somos quase todos corporativistas que contribuem para o desenvolvimento do subdesenvolvimento [5]. Para a elite, é mais cômodo dependermos das políticas de países dominantes e nos colocarmos na condição de periferia satélite. Para o resto da população, sem educação, é suficiente a novela diária, a cesta básica na véspera das eleições, o pagode e o churrasco no domingo.

“O povo brasileiro não precisa de muito para ser feliz!” Quantas vezes já ouvi esta frase e me entristeci com a concordância em coro de quem não busca melhorar sua própria condição e também não quer que outros o façam. Reforçam um estado mental de inércia já instalado há séculos no Brasil.

Enquanto isto, a Índia, mesmo com todo legado de pobreza, aprende com os erros e com os sucessos, se move, e muda – para melhor. Já faz parte do seleto grupo de países com programas nucleares e espaciais avançados (a Índia mandou uma nave à lua este ano).  Possui oito vencedores do Prêmio Nobel, sem contar centenas de cientistas que receberam outros importantes prêmios internacionais em suas respectivas áreas. E envia para os EUA uma imensa quantidade de profissionais e estudantes qualificados – e que voltam para contribuir para o seu país.

Este e outros exemplos são resultados do trabalho e dedicação de um povo que estuda, estuda muito porque para eles esta é a melhor forma de contribuir para eles próprios, sua família e seu país.

A mitologia Hindu diz o seguinte neste sentido: Se você seguir Sarawasti, deusa do aprendizado e do conhecimento, Lakshmi, deusa da fortuna e da prosperidade, segui-lo-á. Apesar de algumas mudanças positivas em curso no Brasil, é triste estar na Índia e constatar que no nosso país ainda seguimos a deusa errada.

Referências
[1]    D. North, Institutions, institutional change, and economic performance, Cambridge University Press, 1990.
[2]    J.H. Rodrigues, “As Caracteristicas do Povo Brasileiro,” Journal of Inter-American Studies,  vol. 2, Oct. 1960, pp. 355-377.
[3]    L. Sakamoto, “Trabalho decente, meio ambiente e questão agrária,” Blog do Sakamoto, Jul. 2009.
[4]    A. Pentland, Honest Signals: How They Shape Our World, The MIT Press, 2008.
[5]    A. Frank, “The development of underdevelopment,” Monthly Review,  vol. 18, 1966.
[6]    A. Saxenian, The New Argonauts: Regional Advantage in a Global Economy, Harvard University Press, 2006.

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