Category: Tecnologia da Informação


A Máquina Definitiva (ou mais inútil, dependendo do ponto de vista)

janeiro 4th, 2012 — 2:20pm

Dei de presente a um amigo um protótipo da “Máquina Definitiva”. A máquina surgiu de uma idéia de Marvin Minsky quando este trabalhou com Claude Shannon:

 “Eu trabalhei com Shannon na Bell Labs no verão de 1952. Eu sugeri a máquina, Shannon gostou da idéia, e fez com que a empresa construísse um bocado delas; e deu de presente para vários executivos. Eu pedi que uma patente fosse registrada mas eles disseram não, e eu não fui mais atrás disso.”

O funcionamento da máquina foi muito bem descrito poucos anos depois por Arthur C. Clarke no seu livro “Voice Across the Sea: Telstar and the Laying of the Trans-Atlantic Cable” (tradução minha):

 “Nada poderia ser mais simples. É apenas uma pequena caixa de madeira, no tamanho e na forma de uma caixa de charuto, com um único interruptor numa das faces. Quando você aciona o interruptor, há um zumbido proposital. A tampa sobe lentamente, e debaixo dela emerge uma mão. A mão desce, desliga a chave e recua na caixa. A tampa se fecha, o zumbido cessa e a paz reina mais uma vez. O efeito psicológico, se você não sabe o que esperar, é devastador. Há algo indizivelmente sinistro numa máquina que não faz nada – absolutamente nada – exceto desligar-se.”

Um anúncio antigo da máquina (fonte)

Após vários anos no esquecimento, a máquina começou a se tornar popular recentemente quando Michael criou o site LeaveMeAloneBox em 2008, e publicou nele a história da máquina e um vídeo com a sua versão construída. Dias depois o site (e o vídeo) foi destacado no portal boingboing e logo várias versões da máquina surgiram. No final de 2009 Brett Coulthard foi mais além e publicou instruções detalhadas de como construir sua própria Máquina Definitiva.

O projeto ganhou popularidade devido a simplicidade de construção. Logo Brett passou a receber colaborações para tornar o projeto ainda mais simples e a sua versão acabou se tornando “A Mais Simples Máquina Inútil”. Demorou dois anos mas Brett colocou duas versões de sua máquina à venda no final do ano passado. Em ambas você compra os componentes para montar, você mesmo, a máquina. E foi uma dessas que dei ao meu amigo.

Ele gostou do presente. E publicou um vídeo onde exibe em “fast-motion” todo o processo de montagem, e a máquina funcionando no final. O resultado ficou bacana, confira:

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O Kindle e a Revolução da Leitura

dezembro 29th, 2011 — 8:29am

Em 2010, um artigo de co-autoria minha foi publicado no Manual de Gestão de Tecnologia. Intitulado “Organizational Impacts of Information Technology” (impactos organizacionais da tecnologia da informação), o artigo fala, dentre outras coisas, do mito do “escritório sem papel”. O mito de que no futuro não utilizaríamos mais papel no nosso dia-a-dia surgiu como previsão na década de 70 e até hoje não se concretizou. Pelo contrário, com alguma exceção nos últimos anos, de 70 para cá o que vimos foi um consumo cada vez maior de papel. A previsão do “escritório sem papel” não podia estar mais errada.

Um dos argumentos no artigo para a previsão incorreta é o de que as sensações físicas que obtemos com o papel ainda não são transportadas para o meio digital. Não há cheiro ou sensação de tato que caracteriza, por exemplo, um livro. Hoje, nossas sensações para interagir com o meio digital são reduzidas ao toque com os dedos. Segundo Bret Victor, num excelente discurso sobre o futuro das interfaces, esta é uma redução que ignora um universo de possibilidades que nossas mãos oferecem para sentir e manipular coisas. Sem falar do resto do nosso corpo. Clark, Goodwin, Samuelson e Coker foram além das possibilidades humanas de interação em um estudo publicado em 2008. Para eles, além das limitações que Victor destaca com as interfaces, os atuais dispositivos tem problemas com padrões incompatíveis entre os formatos de livros digitais, com ergonomia, e com a gestão dos direitos digitais (em inglês, DRM).

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Papai Noel foi generoso este ano e me deu um Kindle de presente. Devo ter me comportado bem.

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O Kindle é um leitor de livros digitais. Seu foco é nesta atividade e o dispositivo foi desenvolvido para proporcional ao leitor a experiência mais intuitiva possível entre o leitor e o livro. Nas palavras do Jeff Bezos, Diretor Executivo da Amazon, empresa que criou o Kindle, o dispositivo foi feito para desaparecer nas mãos do leitor ou “sair da frente”. Em outras palavras, o objetivo é fazer com que o leitor esqueça que está lendo algo em um dispositivo digital e embarque na experiência da leitura como faria num livro impresso.

Para mim, em vários aspectos, este objetivo foi atingido.

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Eu acabei de ler meu primeiro livro no Kindle. “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” é um romance criminal de mais de 520 páginas, o primeiro na trilogia escrita pelo autor sueco Stieg Larsson. Uma adaptação do livro para o cinema está em cartaz nos cinemas brasileiros. Ainda não vi o filme. Na história, o jornalista Mikael Blomkvist investiga o desaparecimento de uma jovem na década de 60, herdeira de um império industrial. No desenrolar das descobertas, vamos descobrindo junto com o jornalista os esqueletos no armário da família e o sadismo de alguns de seus membros contra mulheres de maneira geral.

O romance é repleto de clichês previsíveis e os personagens são quase todos maniqueístas. Entretanto, a descrição rica da história da família e sua conexão com o nazismo sueco, além da curiosidade que provoca em torno do mistério, tornam o livro palatável. Em vários momentos parecia que estava lendo O Código DaVinci, de Dan Brown. Os personagens principais de ambos, por exemplo, são parecidos. Mas em poucos momentos me dei conta que estava lendo o livro no Kindle.

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Do que gostei no Kindle:

  • Dicionário integrado e que permite a rápida localização de vocábulos durante a leitura;
  • Formato e peso apropriados e que permitem segurar o Kindle com facilidade em várias posições;
  • Possibilidade de destacar e anotar trechos do livro e navegar ou compartilhá-los no Twitter ou Facebook depois;
  • Preço dos livros é, em geral, mais baixo que o de livros impressos e ainda é possível ler uma infinidade de livros gratuitos;
  • Tela não-reflexiva que realmente se assemelha e muito a um livro impresso.

Do que não gostei:

  • Da ausência de teclado. Escrever qualquer coisa no Kindle é um martírio utilizando apenas os botões direcionais;
  • Relativa dificuldade em navegar pelo livro. O Kindle funciona muito bem com uma leitura em sequência, uma página após a outra. Mas revisitar páginas anteriores e retornar ao ponto em que estava não é sempre prático;
  • Da maneira como o Kindle exibe arquivos em pdf. É praticamente impossível ler textos em pdf formatados em duas colunas, por exemplo;
  • Da perda de identidade dos livros.

Sobre o último ponto, comento um pouco mais. Cada livro é único quando impresso. Não só porque após manuseá-lo ele terá características individuais do leitor marcadas nele mas porque os livros impressos são diferentes uns dos outros. Por exemplo, capa, tamanho, número de páginas e tipografia identificam um livro impresso de maneira que não é possível no Kindle. Nele, cada livro é igual exceto pelo conteúdo. Perde-se no processo o valor de perceber o livro. De vê-lo numa estante ao lado de outros. De mostrá-lo a amigos em sua casa e ler as orelhas. De emprestá-lo.

Sim, embora existam alguns passos no sentido de permitir o empréstimo de livros digitais, isto ainda é praticamente impossível na prática. E mesmo que fosse, o seu amigo precisaria ter um leitor de livros digital também. Com o Kindle, o livro deixa de ser uma entidade independente e passa a ser subserviente de uma máquina. Lê-lo nela, portanto, não é apenas uma transição de meios mas uma revolução na maneira como lidamos com a leitura.

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Eu não acho que o Kindle irá substituir o livro impresso por completo. Acho que o processo de transição (que já dura décadas)  não será (não está sendo) linear. Não acho que o Kindle, hoje, é capaz de substituir o livro didático impresso ou revistas (principalmente as mais gráficas). Estas últimas podem ter uma transição melhor para o iPad, por exemplo. Também acho que o Kindle não irá substituir os livros impressos preferidos de um leitor. Exibir estes numa estante ainda tem um valor forte que nenhum dispositivo digital hoje é capaz de substituir.

Mas o Kindle pode sim ser um bom complemento. Uma maneira adicional (dentre tantas existentes hoje) de ler. Estou gostando muito dele e acho que, como outros já disseram, pode fazer com que eu leia mais. Acho que o Kindle é um candidato forte para substituir o livro de bolso (paperback). Aquele livro impresso mais barato e de qualidade inferior pode muito bem ser lido no Kindle sem muita perda. Eu, por exemplo, sempre comprei este tipo de livro por não me importar com seus aspectos físicos. Queria apenas uma forma barata de ler seu conteúdo. No Kindle, o barato pode até sair de graça e suponho que a qualidade da leitura será melhor.

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Para quem estiver interessado, meu perfil online do Kindle pode ser acessado aqui.

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Steve Jobs, Apple, e a transformação do mundo – Parte 2

novembro 2nd, 2011 — 11:09am

Steve Jobs: “Picasso tinha um ditado – ‘bons artistas copiam, grandes artistas roubam’ – e nós nunca tivemos vergonha de roubar grandes idéias.” (Steve Jobs by Walter Isaacson 2011)

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(Se ainda não leu, a Parte 1 está aqui)

Em 1985, recém demitido da Apple, Steve Jobs deu uma entrevista para a revista Playboy americana. No longo texto, Steve fala de muita coisa, e faz previsões sobre o futuro tecnológico. Previsões estas, hoje revistas, que estavam quase todas erradas. Quando acertou, a previsão era óbvia, e tratava de algo que já estava ocorrendo, como a Internet, por exemplo, introduzida 3 anos antes.

Steve Jobs na Playboy

Jobs errou ao falar que não haveria mais empresas de garagem relacionadas a computadores (três contra-exemplos dentre as grandes incluem Compaq, Lenovo e Dell). Errou sobre a redução do consumo de papel. Errou sobre a AT&T se manter operante (ela não se transformou por vontade própria mas foi forçada a ser desmantelada por causa do monopólio, e fracassou no mercado de computadores). Errou sobre Xerox e RadioShack estarem fora dos negócios (ano passado esta última lucrou mais de USD 4bi). Errou sobre os japoneses (e.g., Sony e Nintendo). E, meu favorito, errou sobre termos hoje melhores políticos.

Errou também ao afirmar que o IBM PC não seria o único padrão de computadores desktop, e ao prever as vendas deles e dos computadores Apple. Aliás, errou feio. Jeremy Reimer publicou no final de 2005 um trabalho de pesquisa impressionante sobre a venda de computadores pessoais entre 1975 e 2005. Segundo ele, foram várias noites viradas comparando os números de publicações antigas, até encontrar fontes que não se contradiziam. O resultado é uma planilha com os números de computadores vendidos por modelo e por ano.

A planilha de Jeremy Reimer. Clique na imagem para ampliar

A planilha mostra que a previsão de Jobs de que a Apple disputaria o mercado junto com a IBM nunca se concretizou. Primeiro, a Apple nunca teve mais do que 22% do mercado de computadores (em 2005 o número foi 2,41%). Com preços sempre mais altos, a empresa nunca conseguiu popularizar seus produtos. Segundo, a IBM também não conseguiu manter sua linha de produtos dominante diante da concorrência com os clones. Na época, a Compaq se transformava no mais forte deles. Steve Jobs errou ao supor que a briga se daria entre Apple e IBM mas teve quem acertaria prevendo o domínio do padrão IBM PC.

Ainda em 1985, Bill Gates escreveu um memorando para a Apple. No texto, ele elogiava o Macintosh por seu design mas alertava para o fato dos computadores da empresa não terem se tornado o padrão de mercado. Bill Gates deduzia corretamente que era o preço baixo dos clones do IBM PC que estavam transformando-o no padrão. Mesmo que estes computadores tivessem deficiências em relação aos produtos da Apple, estas seriam minimizadas pela quantidade de competidores dentro do mesmo padrão capazes de superá-las mais rapidamente.

Dentro deste contexto, o memorando de Bill Gates propunha uma parceria entre a Microsoft e a Apple, onde a Apple licenciaria seu sistema operacional e design de hardware para outras empresas. Segundo Jeremy Reimer, a proposta era genuína visto que a Microsoft, na época, apoiava e promovia o Macintosh. Bill Gates temia que sem computadores compatíveis, a Apple não se tornaria um segundo padrão como previa Jobs.

E Gates estava certo. Jean-Louis Gassée, então diretor executivo da Apple, rejeitou o memorando e decidiu concentrar seus esforços em criar computadores melhores. A estratégia garantiu sobrevida à empresa, mas ela nunca conseguiu chegar perto de dominar o mercado. De 22% em 1984, a fatia da Apple no mercado caiu para 15% no ano seguinte e 12% em 1986. A Apple ia aos poucos se tornando uma empresa de nicho, agradando apenas a profissionais gráficos e entusiastas. Mas seu preço mais alto e incompatibilidade com o PC manteve, até hoje, seu mercado restrito.

Houve na Apple quem tentasse por em prática a proposta de Bill Gates. John Sculley, outro executivo da empresa, viajou os Estados Unidos e conseguiu criar o interesse de licenciar os seus produtos em várias grandes empresas. Mas Gassée era irredutível. Além de achar que a superioridade dos produtos Apple prevaleceria, ele suspeitava das intenções de Bill Gates. Mas até então, a Microsoft lucrava mais com a venda do Word e do MultiPlan (predecessor do Excel) para os usuários da Apple do que com a venda do sistema operacional DOS para computadores no padrão IBM.

Esta era a interface com o usuário do Windows 1.0

O interesse de Gates em ajudar a Apple parecia genuíno. Mas a recusa de Gassée forçou a Microsoft a acelerar o desenvolvimento do Windows. Em Novembro de 1985, Gates anunciava o sofrível Windows 1.0. O produto estava atrasado pelo menos 3 anos em relação a outros no mercado mas já apresentava notáveis semelhanças em relação ao sistema operacional da Apple. As semelhanças, na verdade, estavam em quase todas as interfaces gráficas com o usuário (GUI em inglês) da época, inspiradas na original da Xerox.

É um erro afirmar que a Apple mudou o foco do mercado para as GUIs quando todos ainda pensavam em computadores com interfaces mais rudimentares. Ninguém havia feito antes porque o custo era alto e não por falta visão. A própria Apple lançou seu primeiro computador com uma GUI ao preço de US$ 10 mil e não emplacou. Enquanto isto, outros desenvolviam suas versões. A Microsoft, por exemplo, desenvolvia a sua desde 1983, desde antes do lançamento do Macintosh, e também tinha licenças da Xerox.

O Windows 1.0 era muito ruim. E, por isso, foi um fracasso de vendas. Mas o desenvolvimento acelerado do sistema logo gerou o mais bem sucedido Windows 2.0, lançado em 1987, dois anos depois do primeiro. Em paralelo, Apple e Microsoft continuaram brigando na justiça. A Apple acusava a Microsoft de copiar sua GUI e a Microsoft se defendia com as licenças da Xerox e alegações de desenvolvimento próprio. A Apple, numa única ação, contestava 189 cópias de elementos visuais. O juiz deu ganho de causa para a Microsoft mas a primeira só sossegou quando recebeu US$ 100 milhões da Microsoft em 1997.

Em paralelo a tudo isto, Steve Jobs assumia duas empresas. A pouco conhecida NeXT foi fundada por ele em 1985 com o foco no mercado de computadores para empresas e educação superior. A outra empresa chamava-se Graphics Group quando foi comprada em 1986 por Steve e renomeada Pixar. A primeira acabou por levar Jobs de volta à Apple em 1997. A segunda revolucionou a indústria de longas-metragens animados por computador.

(continua se eu arrumar tempo e disposição para continuar escrevendo sobre o assunto, e depois que eu terminar de ler a biografia de Steve Jobs, por Walter Isaacson)

Referências:

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Steve Jobs, Apple, e a transformação do mundo – Parte 1

outubro 9th, 2011 — 4:33am

Semana passada com o falecimento de Steve Jobs variações dessa frase percorreram os meios de comunicação: “Três maçãs que mudaram o mundo; A de Adão, A de Newton e A de Steve Jobs.”

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Falar de Steve Jobs requer falar da história das tecnologias que compõem seus produtos, começando pelo computador pessoal. A Apple lançou o seu primeiro em 1976. Era isso aqui:

Este pedaço de madeira com botões custava US$666,66. Número suspeito.

A década de 70 viu uma proliferação de “kits” de computadores que, em geral, deveriam ser montados por quem os adquiria. Era um mercado para quem gostava do “hobby”. Antes, computadores eram limitados a máquinas de grande porte, ocupavam uma sala inteira, e que custavam milhares de dólares. Estes computadores também eram limitados a funções específicas que eram acopladas ao hardware (a parte física de um computador). Mesmo uma calculadora daquela época, por exemplo, era limitada às funções de seu hardware. Para modificar o seu software (a parte lógica), por exemplo adicionando uma nova função, era necessário mudá-lo no hardware.

Foi a Intel quem deu um dos primeiros importantes passos em direção ao computador pessoal ao inventar o microprocessador em 1971. Graças a ele, se tornou possível desacoplar o “software” do “hardware” onde o primeiro era executado.Foi também graças a esta separação que o custo para produção do hardware começou a cair drasticamente, permitindo o lançamento de computadores menores e de menor custo. Um dos primeiros foi o francês Micral N, considerado o primeiro computador pessoal a não ser vendido como “kit”.

O Micral N. Sim, isto é um computador.

Dois anos depois, em 1973, o primeiro computador pessoal como o conhecemos hoje foi lançado pela Xerox em um protótipo. Tinha mouse, interface gráfica com usuário, e a metáfora do desktop. Mas o protótipo ficou limitado aos laboratórios da empresa. Enquanto isto, computadores pessoais continuavam a ser lançados por várias empresas. A IBM lançou o seu em 1975 como um computador desktop (o famoso PC seria lançado em 1981) e logo em seguida veio o Altair 8800. Este último é considerado a faísca para a rápida expansão dos computadores pessoais que se seguiu nos anos 80 até hoje.

Mas o primeiro sucesso de vendas foi o do Commodore PET, lançado em 1977, vendendo cerca de 1 milhão de unidades. Um ano antes o primeiro computador da Apple havia sido lançado com o objetivo de obter dinheiro suficiente para a fundação da empresa. O produto vendeu apenas cerca de 200 cópias e foi logo substituído pelo Apple II, este sim um modelo de sucesso. O Apple II foi lançado pouco depois do Commodore PET mas era um produto superior e mais caro. Quem o desenvolveu foi um outro Steve, o Wozniak, outro fundador da Apple. Dentre as inovações do produto estavam o uso de uma interface gráfica com o usuário primitiva (ainda não era o modelo inventado pela Xerox) e a possibilidade de uso de disquetes. Nada do que foi incluído no computador era novidade do ponto de vista tecnológico, já que outros computadores permitiam a aquisição destes itens como expansão. Mas o Apple II foi o primeiro a colocar estes itens juntos e vendê-los como um produto para o consumidor final. Outro recurso que vale destacar no Apple II era a possibilidade de expansão da memória. Esta possibilidade continuou a existir em modelos subseqüentes da Apple apesar da intenção contrária de Steve Jobs.

O Apple II foi considerado pela revista Byte como parte da “Trindade de 1977”, o grupo de três modelos de computadores pessoais a obter o maior sucesso na época. Além dele e do Commodore PET, faz parte do grupo o TRS-80, lançado 2 meses depois do Apple II. O TRS-80 também tinha uma interface gráfica primitiva e a possibilidade de adição de disquetes veio um ano depois. Mas problemas de interferência levaram a sua substituição em 1981. Até então o produto havia vendido 1,5 milhões de unidades, muito mais que o Apple II até então. Este último só foi obter sucesso comercial no começo da década de 80: Até 1985, 2,5 milhões de cópias haviam sido vendidas.

Interface Gráfica da Xerox

 

Foi também no começo de 80 que as invenções da Xerox começaram a ser incorporadas a produtos e copiadas por outras empresas. O primeiro foi um computador da própria Xerox, o Xerox 8010 Information System, lançado em 1981 e sem muito sucesso comercial. Só dois anos depois a Apple lançou o Apple Lisa, batizado com o nome da filha de Jobs e que por dois anos antes ele se recusou a reconhecer a paternidade. Lisa, o primeiro computador a copiar a Xerox, foi um fracasso comercial e um sucesso tecnológico. Mas Steve Jobs não pode ser responsabilizado por nenhum dos dois feitos já que foi forçado a se retirar do projeto um ano antes do lançamento.

Dentre as inovações tecnológicas estavam a proteção de memória, a multi-tarefa, o melhor gerenciamento do sistema operacional no disco rígido, a inclusão do protetor de tela, espaço para expansão do hardware, e uma maior resolução de imagem. Várias destas inovações só seriam incluídas anos mais tarde (em alguns casos, quase dez anos depois) em outros produtos da Apple. Talvez o único trunfo de Jobs no projeto do Lisa foi convencer a Xerox de demonstrar os recursos de sua interface gráfica para a equipe da Apple ainda em 1979. Mas a revista Byte considerou Wayne Rosing como a pessoa mais importante no desenvolvimento do computador.

Embora um sucesso tecnológico, o produto fracassava comercialmente devido ao seu alto custo, cerca de 10 mil dólares. Enquanto isto, Steve Jobs passou a trabalhar no projeto do primeiro Macintosh. Lançado em 1984, ele foi o primeiro produto de sucesso a conter a famosa interface gráfica com a metáfora do desktop que conhecemos hoje e mouse. O idealizador do projeto, ainda no final da década de 70, foi Jef Raskin. Foi ele quem vislumbrou a possibilidade de um computador de baixo custo e fácil de usar pela população em geral. O responsável pelo hardware foi Burrell Smith. Veio dele boa parte das adaptações de design do hardware do Lisa para o Macintosh, mantendo o preço baixo do segundo. Ao longo de todo o projeto, vários conflitos entre Steve Jobs e Jef Raskin (que se retirou do projeto) e, depois, com o então CEO da Apple John Sculley, fizeram com que Steve fosse demitido da empresa em 1985 para só retornar em 1997.

Ao mesmo tempo, o começo da década de 80 viu um número grande de empresas lançando seus próprios designs de hardware para os computadores que lançavam e com sistema operacional incluso. Em 1981 a IBM era uma destas empresas mas com uma diferença: O seu IBM PC vendia o sistema operacional MS-DOS do então desconhecido Bill Gates em separado. O design do hardware do IBM PC também era relativamente padronizado e não patenteado. Isto permitiu que várias outras empresas começassem a copiar os designs da IBM e a vender computadores compatíveis, onde o sistema operacional DOS da Microsoft podia ser instalado sem problemas. A IBM, sem querer, e sem lucrar, estabelecia ali o padrão de mercado para os computadores pessoais que persiste até hoje. E que quase levou a Apple a falência.

(clique aqui para ver a Parte 2)

Referências:

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O poder das mídias sociais

maio 13th, 2010 — 4:50pm

Esta semana escrevi como autor convidado no portal ReadWriteWeb Brasil. Confira abaixo um trecho do meu artigo “Atenção, Pessoas Instáveis Emocionalmente Tendem a Participar mais Ativamente na Internet“, que trata do poder cada vez maior das mídias sociais:

Ao mesmo tempo em que a Internet vai ficando mais social, nossa vida, tanto em seus aspectos positivos quanto negativos, passa a acontecer mais nela também. Principalmente nos sites e serviços que favorecem a interação social e, assim, conquistam mais a nossa atenção. Conquista-a porque nossos amigos e família estão lá, e queremos fazer parte do mesmo grupo que eles. Ou porque pessoas que respeitamos estão lá e queremos nos aproximar delas.

O co-fundador do Facebook disse ano passado em entrevista que uma mensagem que você recebe é menos importante do que quem a envia. Reputação conta. Não nos interessa a opinião de todo mundo. Nossa racionalidade é limitada porque não temos a capacidade de processar toda a informação disponível. Por isto, a informação dada por pessoas em quem confiamos e/ou respeitamos tende a ser muito mais valorizada.

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Software livre não é solução

abril 28th, 2010 — 10:38am

Num post anterior falei de quatro problemas do software livre. Inerentes a eles está o aspecto social do desenvolvimento de qualquer software, e principalmente de sistemas de informação. Muitas pessoas ainda não se dão conta que todas as etapas de desenvolvimento, da sua concepção enquanto idéia, até o seu uso se dá de forma social e, mais importante, com a participação do usuário. Pelo menos deveria ser assim para todo sistema de informação, já que este tipo de software é uma construção inerentemente social e tem por objetivo atender a uma demanda social (Brooks 1995). Pense em um sistema de controle de estoque, educacional, de controle bancário, de uma loja,  etc. e fica fácil perceber que estes ficam sempre no meio de alguma interação social. Por isto, o desenvolvimento de um sistema para uma empresa sem a contribuição de seus potenciais usuários é um sistema fadado ao fracasso já na sua concepção.

No caso do software livre este aspecto social é ainda mais importante pelas características da equipe de desenvolvimento (Weber 2004). Elas são, em geral, dispersas geograficamente e possuem programadores trabalhando por uma motivação pessoal, às vezes sem nenhum tipo de compensação financeira. Por este motivo, os programadores precisam ser e estar motivados para trabalhar num projeto de software livre. Motivação esta que está diretamente atrelada a dois componentes do software: 1) o desafio técnico que ele oferece e 2) a grande base de usuários que terá acesso a seu código e usará o sistema, formando uma comunidade ativa de pessoas discutindo o mesmo. Pense em todos os softwares livre de sucesso: WordPress, Linux, Firefox, Apache, etc. São todos aplicativos de complexidade mais alta e de aplicação mais genérica, multi-uso, com uma comunidade ativa de usuários e desenvolvedores.

Este tipo de software motiva os melhores programadores do mundo inteiro. É exatamente o oposto de trabalhar num software para, digamos, uma loja no Brasil. Construir um software destes é relativamente simples e está restrito apenas aos usuários brasileiros; porque o conjunto de regras aqui é diferente das de outros países para este tipo de software. Assim,  como os melhores programadores brasileiros dedicam seus tempos livres a projetos como o Linux, sobram para estes projetos específicos os programadores pagos pelo governo ou empresas, ou aqueles despreparados e que não conseguem contribuir em projetos mais desafiadores.

Não estou dizendo com tudo isto que sou contra o software livre. Também não o acho uma alternativa melhor ou pior que outras formas de desenvolvimento (e.g., software customizado ou produto) sem levar em conta o contexto. Ele é, para mim, apenas mais uma opção a ser considerada, com seus prós e contras. Não acho, por exemplo, que o governo brasileiro está errado em adquirir software livre. Acho que ele está errado em fazer este tipo de aquisição quando o faz porque o software é livre. É preciso sempre ponderar qual é a melhor solução para as necessidades de uso, sendo o tipo de licença do software e a forma de produzi-lo variáveis no processo.

A diretriz arbitrária do governo brasileiro de sempre optar por software livre é ruim para ele, para a população e para a indústria. De maneira análoga, o governo poderia também arbitrariamente decidir por comprar software brasileiro em detrimento de software de outros países. Fazendo isto, ele deixa de fazer a aquisição considerando o mais importante, a compra do software com o melhor potencial de atendê-lo em suas necessidades. A analogia é importante porque a indústria de tecnologia no Brasil era exatamente protegida desta forma até o começo da década de 90. O resultado foi um atraso tecnológico pelo qual até hoje pagamos o preço.

Note que adotar software proprietário não significa adotar padrões fechados ou bloquear o acesso à informação. É perfeitamente possível, comum até, utilizar um software proprietário com padrões abertos e que torne a informação mais acessível e disponível para todos. Basta lembrar que a base da Internet, o conjunto de protocolos TCP/IP, não nasceu aberto, muito pelo contrário, foi desenvolvido pelos militares americanos e com o objetivo de uso exclusivo. Mesmo hoje, o principal conjunto de protocolos e padrões da Internet são mantidos por uma organização americana patrocinada pela gigante VeriSign e pela Agência Nacional de Segurança dos EUA. É uma questão política complexa mas, simplificando, a Internet só é livre hoje porque os EUA deixa. (Sobre este assunto, recomendo o excelente conjunto de visualizações mostrando a geopolítica da Internet – em francês)

Concluindo, software livre não é solução de problemas por ser livre. Aliás, software livre, em si, não é solução de nada. Do ponto de vista do desenvolvimento, ele pode ser visto como uma modalidade de criação do software. Uma muito mais apropriada para alguns tipos de projeto, aqueles com potencial de atrair uma comunidade de desenvolvedores abrangente. Do ponto de vista do usuário final, é apenas mais uma variável a ser considerada no processo de aquisição. E uma que não deveria se sobrepor às suas necessidades de uso.

Num post anterior falei de quatro problemas do software livre. Inerentes a eles está o aspecto social do desenvolvimento de qualquer software, e principalmente de sistemas de informação. Muitas pessoas ainda não se dão conta que todas as etapas de desenvolvimento, da sua concepção enquanto idéia, até o seu uso se dá de forma social e, mais importante, com a participação do usuário. Pelo menos deveria ser assim para todo sistema de informação, já que este tipo de software é uma construção inerentemente social e tem por objetivo atender a uma demanda social (Brooks 1995). Pense em um sistema de controle de estoque, educacional, de controle bancário, de uma loja, etc. e fica fácil perceber que estes ficam sempre no meio de alguma interação social. Por isto, o desenvolvimento de um sistema para uma empresa sem a contribuição de seus potenciais usuários é um sistema fadado ao fracasso já na sua concepção.

No caso do software livre este aspecto social é ainda mais importante pelas características da equipe de desenvolvimento (Weber 2004). Elas são, em geral, dispersas geograficamente e possuem programadores trabalhando por uma motivação pessoal, às vezes sem nenhum tipo de compensação financeira. Por este motivo, os programadores precisam ser e estar motivados para trabalhar num projeto de software livre. Motivação esta que está diretamente atrelada a dois componentes do software: 1) o desafio técnico que ele oferece e 2) a grande base de usuários que terá acesso ao seu código e usará o sistema, formando uma comunidade ativa de pessoas discutindo o mesmo. Pense em todos os softwares livre de sucesso: WordPress, Linux, Firefox, Apache, etc. São todos aplicativos de complexidade mais alta e de aplicação mais genérica, multi-uso, com uma comunidade ativa de usuários e desenvolvedores.

Este tipo de software motiva os melhores programadores do mundo inteiro. É exatamente o oposto de trabalhar num software para, digamos, uma loja no Brasil. Construir um software destes é relativamente simples e está restrito apenas aos usuários brasileiros; porque o conjunto de regras aqui é diferente das de outros países para este tipo de software. Assim, como os melhores programadores brasileiros dedicam seus tempos livres a projetos como o Linux, sobram para estes projetos específicos os programadores pagos pelo governo ou empresas, ou aqueles despreparados e que não conseguem contribuir em projetos mais desafiadores.

Não estou dizendo com tudo isto que sou contra o software livre. Também não o acho uma alternativa melhor ou pior a outras formas de desenvolvimento (e.g., software customizado ou produto) sem levar em conta o contexto. Ele é, para mim, apenas mais uma opção a ser considerada, com seus prós (que quase todo mundo conhece) e contras (dos quais falei aqui). Não acho, por exemplo, que o governo brasileiro está errado em adquirir software livre. Acho que ele está errado em fazer este tipo de aquisição quando o faz porque o software é livre, sem considerar exatamente seus prós e contras e os de outras opções. É preciso sempre ponderar qual é a melhor solução para as necessidades de uso, sendo o tipo de licença do software e a forma de produzi-lo variáveis no processo.

A diretriz arbitrária do governo brasileiro de sempre optar por software livre é ruim para ele, para a população e para a indústria. De maneira análoga, o governo poderia também arbitrariamente decidir por comprar software brasileiro em detrimento de software de outros países quando houver a opção. Fazendo isto, ele deixa de fazer a aquisição considerando o mais importante, a compra do software com o melhor potencial de atendê-lo em suas necessidades. A analogia é importante porque a indústria de tecnologia no Brasil era exatamente protegida desta forma até o começo da década de 90. O resultado foi um atraso tecnológico pelo qual até hoje pagamos o preço.

Note que adotar software proprietário não significa adotar padrões fechados ou bloquear o acesso à informação. É perfeitamente possível, comum até, utilizar um software proprietário com padrões abertos e que torne a informação mais acessível e disponível para todos. Basta lembrar que a base da Internet, o conjunto de protocolos TCP/IP, não nasceu aberto, muito pelo contrário, foi desenvolvido pelos militares americanos e com o objetivo de uso exclusivo. Mesmo hoje, o principal conjunto de protocolos e padrões da Internet são mantidos por uma organização americana patrocinada pela gigante VeriSign e pela Agência Nacional de Segurança dos EUA. É uma questão política complexa mas, simplificando, a Internet só é livre hoje porque os EUA deixa.

(Sobre este assunto, recomendo o excelente conjunto de visualizações mostrando a geopolítica da Internet: http://www.arte.tv/fr/Comprendre-le-monde/le-dessous-des-cartes/392,CmC=396,view=maps.html – em francês)

Concluindo, software livre não é solução de problemas por ser livre. Aliás, software livre, em si, não é solução de nada. Do ponto de vista do desenvolvimento, ele pode ser visto como uma modalidade de criação do software. Uma muito mais apropriada para alguns tipos de projeto, aqueles com potencial de atrair uma comunidade de desenvolvedores abrangente. Do ponto de vista do usuário final, é apenas mais uma variável a ser considerada no processo de aquisição. E uma que não deveria se sobrepor às suas necessidades de uso.

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Não compre software à toa

abril 21st, 2010 — 1:20pm

Os cerca de 4.500 dabbawallas (literalmente, pessoa com uma caixa) de Mumbai entregam mais de 175.000 refeições diariamente na cidade. Cada um faz aproximadamente 40 entregas numa das cidades mais caóticas e populosas do mundo. Não há meios de transporte adequados, não há planejamento urbano, não existem ciclovias, e não há espaço para tanta gente junta na cidade. Mais, as entregas são controladas com um sistema de anotações coloridas nas caixas de entrega. Não há software para registrar os pedidos, nem GPS para controlar os tempos de entrega.  Mesmo assim, eles cometem apenas um erro a cada 16 milhões de entregas.

Entregando comidas. Alguém vê alguma tecnologia moderna aí? (fonte)

Quando morei na Índia, em Bangalore, um sujeito batia na minha porta toda semana para levar minhas roupas para a lavanderia. Anotava os itens a lápis num caderninho amarelado pelo tempo. Fazia o mesmo com todos os demais moradores do prédio e saía de lá com dois sacos enormes de roupas presos em cada lado de sua pequena lambreta. Na semana seguinte voltava com as roupas limpas, sem misturá-las com a dos demais moradores. Não havia software nem smartphone para fazer os registros de seus clientes.

Em São Paulo existe uma rádio exclusivamente dedicada a alertar os ouvintes dos problemas de tráfego na cidade. Por mais triste que seja uma cidade precisar de um serviço como este, o mesmo ajuda bastante. Ele funciona baseado no feedback dos ouvintes via telefone ou SMS. Não é necessário que os carros da cidade possuam GPS para informar sua posição à rádio, nem software para processar em tempo real as informações recebidas.

Nos EUA, a venda de livros em 2009 totalizou US$23,9 bilhões. Livros como os conhecemos hoje começaram a surgir no começo do século XVIII mas sua história acompanha a origem da escrita, 5.000 anos atrás. O livro é uma das tecnologias em uso em larga escala mais antigas. Não precisa de fonte de energia, não quebra se cair no chão, permite anotações e marcações em qualquer lugar e pode durar centenas de anos. Os recentes ebooks, mesmo com todos os benefícios pregoados para alavancar suas vendas, venderam nos EUA cerca de US$313 milhões ou módicos 1,3% do total.

(fonte: Wikipédia)

O que todos estes exemplos têm em comum? Eles utilizam nenhuma ou quase nenhuma tecnologia moderna para realizar tarefas complexas como monitorar o tráfego de São Paulo ou lavar as roupas de milhares de pessoas em Bangalore. E não há software em uso em nenhum dos exemplos acima. Não há demanda para ele nestes casos porque as tecnologias mais, digamos, arcaícas como o lápis e o caderno são mais baratas e garantem a eficiência desejada.

Software deve atender a uma demanda social. Do contrário, não tem valor. Em linhas gerais, software bom é aquele que facilita nosso trabalho. De que adianta investir milhões em uma solução se é possível fazer o mesmo sem ela? Ou com uma muito mais barata? Tomemos o caso da rádio em São Paulo. A mesma poderia investir em GPSs para uma amostragem de carros e em um software que recebesse os dados das posições dos carros e processasse-os, permitindo a divulgação da informação do tráfego em tempo real. Mas com o feedback dos motoristas a informação que chega é quase em tempo real, sem nenhum dos custos com software ou GPS.

Desperdiça-se muito dinheiro com softwares desnecessários. Em órgãos públicos no Brasil, por exemplo, compra-se software porque é livre ou porque o dinheiro está disponível e será perdido no final do ano se nada for feito (volta para a União). Em empresas, compra-se software com a esperança de que os negócios melhorarão quando na verdade os processos internos é que estão ruins e precisam melhorar.

Por isto, atender a uma demanda social significa também rearranjar as práticas atuais que o software pretende melhorar. Uma nova solução de software, por si só, não trará ganhos para uma organização. Ao contrário, pode trazer prejuízos. A adoção de software, quando necessária, exige mudanças organizacionais. É preciso se adaptar aos benefícios que um software oferece.

Em muitos casos, o uso de softwares (ou outras tecnologias modernas) é hoje essencial para um negócio. Mas estes se tornam cada vez mais pré-requisitos e não diferenciais competitivos. Os diferenciais não estão nas tecnologias em si mas na maneira como são utilizadas. Repare que as entregas feitas pelos dabbawallas em Mumbai ocorrem sem o uso de nenhum tipo de tecnologia moderna. E se apesar disto eles recebem tanta atenção de acadêmicos e jornalistas é porque a forma como  uma organização se estrutura é mais crucial para o seu sucesso que tecnologia pura e simples.

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Telefonia ruim no Brasil – Mais qualidade e desagregação, por favor

abril 7th, 2010 — 1:30pm

No caso da telefonia, suponho que existam dois problemas institucionais graves. E quem deu boas pistas foi o engenheiro eletrônico Virgílio Freire em entrevista para a Revista do IDEC. Primeiro, as empresas de telefonia priorizam incentivos para novos clientes em detrimento dos clientes que já possui. Segundo, os governos FHC e Lula, desde a privatização, criaram e mantiveram regras para o setor que favorece os monopólios, dificulta a entrada de novas empresas, e não pune corretamente  as infrações.

Sempre que entramos em uma loja de telefonia celular, as  promoções são tentadoras. Agora com a portabilidade elas ficaram melhores ainda. Afinal, com a facilidade de trocar de operadora mantendo o número, quem não quer aproveitar uma barganha? Por outro lado, quase não ouvimos falar de promoções ou prêmios para clientes que continuam com a operadora por mais tempo.

Posso citar dois exemplos recentes próximos a mim. Minha foi cliente da Oi por mais de duas décadas. A empresa se chamava TELEST antes da privatização, depois passou a se chamar Telemar e, agora, Oi. Nunca ligaram para minha mãe para oferecer a ela algum tipo de benefício.  De forma similar, trabalhei numa empresa que tinha um plano empresa e dezenas de linhas com a TIM. Eu só ouvia falar da TIM quando alguém tinha algum problema. Nunca eles ligaram para oferecer qualquer benefício adicional à empresa ou aos usuários das linhas.

Se você, cliente, quer aproveitar algum benefício de uma operadora, normalmente precisa ligar e pedir. Não há benefícios especiais ou exclusivos para alguns tipos de clientes. Pelo menos não que eu saiba ou tenha ouvido falar. Estou errado? Aí, preocupadas apenas com números, as empresas parecem não se preocupar com a qualidade do serviço, só com a qualidade das propagandas, como se cliente conquistado fosse cliente garantido. Nas palavras do Virgílio Freire:

“Essas empresas acham que sua importância é medida pelo número de usuários, e por isso investem na venda do pré-pago, que faz sucesso nas camadas mais pobres da população. Só que com isso o lucro é pequeno ou negativo, pois, por ele ser mais usado para receber ligações, a conta média costuma ser em torno de R$ 26 por usuário. Se eu fosse presidente de uma empresa de celular, eu não iria me preocupar com o número de clientes.”

Parecem não se preocupar com qualidade provavelmente por outro motivo também. Virgílio Freire não afirma, até porque se houvesse provas as empresas seriam punidas, mas levanta suspeitas sobre a prática de colusão entre as empresas de telefonia. Segundo ele, elas podem estar combinando os mercados em que atuam:

“Não tenho provas, mas é possível que esteja havendo uma combinação entre as empresas, que dividiram o território brasileiro. Há uma divisão de mercado que elas mais ou menos assumem, há uma estratégia suicida por parte de todas elas, na qual entraram e da qual não estão sabendo sair. Por exemplo, a Oi não entra em São Paulo e a Vivo não entra no Rio de Janeiro, mas elas poderiam entrar.”

Mais do que suspeitas porém, há um potencial muito grande para a formação de oligopólios prejudiciais aos clientes porque cada empresa possui sua própria infraestrutura de rede para funcionar ou precisa acordar o uso da infraestrutura de uma dessas empresas. Para uma nova empresa de telecomunicações entrar, ou investe em cabos e torres de transmissão pelo país todo ou paga o preço de uma das empresas já no mercado.

Em um cenário ideal, na chamada desagregação das redes de telecomunicações, uma única empresa, pública ou privada, teria o controle de toda a infraestrutura de rede do país e as demais pagariam o mesmo preço para utilizá-las. Uma das propostas de reativação da Telebrás é a de justamente colocá-la como esta empresa de controle da infraestrutura. Desta forma, as empresas que prestam serviço ao consumidor final teriam que competir mais pela qualidade dos serviços prestados utilizando a infraestrutura disponível do que pelo preço.

Mas tais mudanças passam por mudanças também na forma de punir as empresas infratoras. Hoje parece ser praticamente impossível para um cliente obter um bom atendimento de uma reclamação sem reclamar com a ANATEL logo em seguida. Com um protocolo da ANATEL, a empresa tem um prazo de 5 dias úteis para responder ao cliente. Só que a ANATEL só resolve os casos dos clientes que reclamam. A agência não pune as empresas pelo conjunto de danos causados, por exemplo.

Outro problema da agência é que ela não possui independência como, por exemplo, o Banco Central. Segundo Virgílio Freire:

“A solução seria despolitizar e desvincular a Anatel do governo, criar algum tipo de proteção na lei que impedisse o Executivo de interferir, além de colocar só profissionais, como no FCC [Federal Communications Commission – agência análoga nos EUA]. O senador Fernando Collor de Mello sugeriu que se exigisse do profissional que quisesse trabalhar num órgão regulador pelo menos 10 anos de experiência na área. O resultado seria uma Anatel independente e competente.”

Temos, portanto, problemas na forma como serviços são ofertados, na qualidade dos mesmos, e na regulamentação do setor. O mais triste é que este deveria ser um dos setores mais estratégicos do país. E logo nele parece que ainda estamos engatinhando atrás de países muito mais pobres e atrasados economicamente.

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Telefonia ruim no Brasil – O problema dos incentivos errados

março 31st, 2010 — 1:30pm

Fico me perguntando porque a telefonia no Brasil é tão ruim assim. E quando digo ruim, digo muito ruim mesmo. Não é por acaso que praticamente todas as empresas de telefonia celular e fixa no Brasil estão no topo de rankings de reclamação do Procon ou de sites como o Reclame Aqui. E como se não bastasse serem as piores prestadoras de serviço do  Brasil, estes serviços são também um dos mais caros do mundo!

Em um relatório [pdf em inglês] divulgado no dia 23 de fevereiro de 2010 pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), uma tabela lista o ranking de países de acordo com o custo da banda larga, e telefonia fixa e móvel em relação à paridade de poder de compra per capita da população. Nesta lista, o Brasil amarga a posição 87 de um total de 161 países avaliados. Temos serviços de telefonia e banda larga mais baratos apenas que os mais pobres países da África, da América do Sul e Central, e do leste europeu (Mais informações em português).

É caro e ruim, pois. Mas por que? Para mim tem a ver com os incentivos econômicos que definem, de fato, as atuais regras do jogo. Os incentivos das operadoras para os clientes moldam a maneira como estes últimos adquirem serviços de telefonia. E os incentivos (ou desincentivos) do governo definem como as operadoras se portam no mercado, e a maneira como elas oferecem os incentivos aos clientes.

Estou vendo o problema sob a ótica de um arcabouço institucional. Instituições, aqui, não são propriamente empresas ou o governo mas as “regras do jogo” [inglês] . Instituições formais são aquelas em forma de leis, por exemplo, e as informais são as regras implícitas de uma sociedade, como códigos de conduta. Sem perceber, somos o tempo todo movidos por estas instituições. No trânsito, por exemplo, há regras formais nos dizendo como conduzir o veículo (as leis de trânsito) mas também as informais como evitar a buzina, ter a cortesia de dar a passagem, etc.

Assim, através de instituições, é possível alterar a maneira como nos comportamos em sociedade. Por exemplo, aumentar os impostos para carros e baratear o transporte público pode fazer com que as pessoas deixem seus carros em casa com mais frequência, e campanhas de educação no trânsito podem torná-lo mais agradável. De maneira formal ou informal, o governo pode trabalhar para mudar as regras do jogo no trânsito.

Como no caso do trânsito, instituições definem a maneira como mercados funcionam. Mas não é tão simples quanto parece entendê-las ou modelá-las, seja qual for o objetivo. Primeiro que as instituições informais nem sempre são tão óbvias e variam de uma sociedade para outra. Assim uma mesma regra formalmente definida pode não funcionar em todas as sociedades por conta das regras informais. Segundo que não é possível criar regras infalíveis. Como já citei antes aqui no blog,

“(…) até nos casos onde o arcabouço institucional contribui para capturar mais ganhos com comércio em relação a frameworks passados, ainda assim vão existir incentivos para trapaças, passageiros clandestinos, etc. que contribuirão para as imperfeições do mercado. Dadas as características comportamentais dos seres humanos, simplesmente não há nenhuma forma de se elaborar instituições capazes de resolver os complexos problemas inerentes às transações e ao mesmo tempo se ver livre de incentivos incompatíveis.” Douglass North (1990, p. 108)

Por isto, os incentivos em prática no mercado de telefonia devem ser revistos com cuidado. Na próxima e última parte desta série trato de algumas possibilidades.

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Os problemas do software livre

março 24th, 2010 — 12:30pm

O software livre também tem a sua fatia de problemas exclusivos, que não são encontrados no software proprietário. Existem pelo menos quatro deles que precisam ser destacados para que produtores e consumidores possam se beneficiar mais e melhor dos softwares que, respectivamente, produzem e usam. Isto porque software livre, por si só, não é solução para nada. Para o desenvolvedor, ele precisa ser entendido como uma modalidade de desenvolvimento, e para o usuário como uma alternativa para aquisição.

Primeiro, software livre não te dá, necessariamente, livre acesso ao código fonte. Nem mesmo para vê-lo. Muitas vezes você precisa ser parte da comunidade de desenvolvedores de uma organização para poder ter acesso ao código. E mesmo que você seja um membro da equipe de desenvolvimento do, digamos, Firefox, isto não te dará o direito de mudar o código ao seu bel prazer. Software livre não significa desenvolvimento livre.

Muito pelo contrário, a maioria dos grandes e mais interessantes projetos possui toda uma hierarquia definida na equipe e modularização do código. Se por um lado esta divisão e controle garante maior eficiência ao desenvolvimento, por outro, torna o processo mais rígido e menos prazeroso, obrigando programadores a muitas vezes trabalhar em tarefas que não gostariam. Veja, por exemplo, a história de Con Kolivas, ex-desenvolver do núcleo do Linux e que parou de contribuir porque cansou de ter suas contribuições rejeitadas. Como consequência, todo software livre possui sempre o risco potencial de se dividir, o chamado ‘fork’. Em outras palavras, um mesmo projeto pode se transformar em dois ou três porque alguns programadores não estão satisfeitos e preferem criar uma nova continuação do projeto a suas maneiras.

Outro problema deste tipo de controle é a estratégia de algumas empresas em iniciar um projeto de software livre para atrair desenvolvedores e baratear seu custo de desenvolvimento. Depois, com um software um pouco mais robusto e bem acabado, esta mesma empresa fecha o projeto e torna-o proprietário. Nem sempre é possível reaver o código fonte depois que isto ocorre e os programadores que haviam contribuído para o código ficam a ver navios. Assim, seja  porque um grupo de programadores dividiu o projeto ou porque uma empresa fechou seu código, os usuários de software livre correm sempre o risco de ficarem desamparados da noite para o dia.

Segundo, software livre não é software gratuito. Este é um erro muito comum mas que pode ter graves consequências. O Google, por exemplo, tem um discurso muito bonito de uso de software livre. Mas a maioria de seus principais produtos e serviços não são livres, são gratuitos. O conceito de livre é uma questão de liberdade. Deve ser pensado como em “liberdade de expressão”, não em “cerveja grátis”.

Não é possível nem ao menos ver o código fonte do Gmail, do Google Reader, Google Docs, do mecanismo de busca, dentre tantos outros produtos da empresa. Não temos esta liberdade. Pior, os dados dos usuários ficam nos servidores do Google e não nos computadores dos usuários. Para Richard Stallman [en], fundador da Free Software Foundation (Fundação para o Software Livre), “a computação na nuvem é uma armadilha (…) O conceito de usar programas na web como o Gmail do Google é pior que a estupidez.” Isto porque, em tese, não dá para simplesmente copiar os seus e-mails do Gmail de uma pasta para outra como você faria se estivesse usando um programa instalado no seu computador. É preciso toda uma sequência de passos para que você possa mover os seus e-mails para outro provedor. E, pior, você não tem como saber de fato o que uma empresa como o Google está realmente fazendo com seus dados.

Ter a liberdade de fazer o que quiser com o código-fonte de um software não significa que será possível usufruí-la. A maioria dos usuários não o faz (nem se importa) e apenas usa o software livre que também é grátis. Para ter a liberdade de alterar o código é preciso entendê-lo e/ou custear uma equipe ou uma empresa terceira para mantê-lo atualizado e em sintonia com seus interesses (ou da sua empresa).

Terceiro, software livre não é necessariamente melhor para o usuário final. Michelle Levesque, por exemplo, discute em um artigo científico seu (publicado no periódico First Monday – de acesso gratuito ao conteúdo) cinco potenciais problemas do software livre neste sentido: 1) A frequente falta de investimentos no desenvolvimento da interface com o usuário, 2) a pouca documentação disponível, 3) a falta de foco em tornar o software mais robuto, 4) a falta de foco também no desenvolvimento de recursos para o usuário final e, finalmente, 5) muitas vezes por teimosia, a recusa de alguns programadores em aprender com o software proprietário e a usar inovações destes no software livre que desenvolvem.

A comparação entre a qualidade de software livre e proprietário é tema de muita discussão. Em geral, pode-se dizer que na média o software livre tem menos erros que os proprietários. Isto ocorre porque o software livre depende de sua qualidade para sobreviver já que não investe praticamente nada em marketing. Entretanto, um estudo publicado na Business Week em 2006 afirma que dentre os melhores softwares de cada um dos 15 mercados analisados, o software proprietário está na frente em 11. Em outras palavras, há muito mais software proprietário ruim que livre mas os melhores softwares proprietários são muito melhores que os melhores livres.

Quarto, software livre nem sempre é mais barato como a ilusão da palavra “livre” faz parecer.  Afinal, os produtores dele também precisam ganhar dinheiro de alguma forma. Mas é difícil medir os custos de software de maneira agregada. Cada implantação tem suas particularidades e custos específicos, o que prejudica a medição precisa. Assim, sites que defendem o software proprietário publicam estudos a seu favor, da mesma forma que sites a favor do software livre o fazem com estudos a favor do software livre. Sobra para o usuário negociar o seu caso com as opções disponíveis.

Por exemplo, por conta da competição com o software livre empresas de software proprietário estão cada vez mais dispostas a baixar seus preços tornando-as uma opção mais barata – se já não a são. Mais ainda se os usuários que usarão o sistema proprietário já estiverem familiarizado com ele e se ele for, de fato, melhor. Mudar de software (independente da licença) significa arcar com os custos da mudança (os chamados “switching costs”), o que pode significar altos custos na troca do servidor, no treinamento dos usuários, e na migração dos dados.

Em outro cenário, ao optar por desenvolver um software livre que não existe, com o objetivo de substituir um software proprietário, muito dinheiro vai para o ralo por um motivo muito simples: Para a maioria dos projetos, pode não haver adesão de desenvolvedores voluntários o suficiente. Aí, no meio do caminho o projeto corre o risco de ser interrompido. E, neste caso, todos os esforços e recursos usados até aquele momento irão para o ralo também. Veja, por exemplo, os relatos de quem trabalha em projetos de software livre do governo federal:

“(…) Realmente falta massa. É um tanto difícil criar uma comunidade, um ecossistema de colaboração, já observado em projetos como Drupal e WordPress. No desenvolvimento do i-Educar, no qual participo, basicamente essa tarefa tem sido feita por 2 pessoas, num universo de 5.500 pessoas cadastradas na comunidade do projeto.

A missão é difícil. Muitos prestadores de serviços nesses softwares são despreparados e não possuem ainda a consciência de que é necessário contribuir aos projetos, nem que sejam pequenas contribuições.”

Demais comentários na discussão em torno dos projetos do governo também contém reclamações da burocracia para participação e da baixa qualidade atual dos mesmos. A iniciativa do governo é louvável mas é preciso a ele perceber que não é qualquer projeto que dará certo no modelo de desenvolvimento do software livre.

Na próxima semana: porque estes problemas são inerentes ao atual paradigma de desenvolvimento de software livre.

PS: As imagens que ilustram este texto são de Phillip Torrone e fazem parte do guia de 2009 da revista Make para hardwares desenvolvidos de forma aberta e livre.

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