Category: Viagens


Correio Braziliense – Uma história da História do Brasil

maio 4th, 2012 — 1:33pm

O Brasileiro em Coimbra não foi o único a protestar a favor da independência do Brasil durante o processo. O Correio Braziliense também surgiu com esse objetivo. Fundado em 1808, o jornal era remetido cladestinamente ao Brasil defendendo idéias como uma monarquia constitucional e o fim da escravidão. O jornal circulou até 1822, quando deixou de fazer sentido após a indenpendência de fato.

Na exposicão que visitei na Biblioteca Joanina em Coimbra, Portugal, um exemplar do jornal era destacado por tratar de nossa capital, Brasília. Eu não tinha idéia (ou pelo menos não lembrava) que a proposta de mudança da capital para o interior era tão antiga. O primeiro a propô-la foi o Marquês de Pombal, em 1761. Depois, a primeira evidência mais forte da proposta veio justamente do jornalista fundador do Correio Braziliense, Hipólito da Costa.

A edição de marco de 1813 trazia o seguinte texto :

« O Rio-de-Janeiro, naõ possue nenhua das qualidades, que se requerem, na cidade que se destina a ser a capital do Imperio do Brazil ; e se os cortezães que para ali fôram de Lisboa, tivessem assaz patriotismo, e agradecimento pelo paiz, que os acolheo, nos tempos de seus trabalhos, fariam um genereso sacrificio das commodidades, e tal qual luxo, que podiam gozar no Rio de Janeiro, e se iriam estabelecer em um paiz do interior, central, e immediato ás cabeceiras dos grandes rios ; edificariam ali uma nova cidade, commecariam por abrir estradas que se dirigissem a todos os portos de mar, e removerîam os obstaculos naturaes que tem os differentes rios navegaveis, e lancariam assim os fundamentos ao mais extenso, ligado, bem defendido, e poderoso imperio, que he possivel que exista na superficie do Globo, no estado actual das nacoens que o povôam. »

Para Hipólito, a permanência dos governantes no Rio era por pura conveniência da infraestrutura que lá já existia. Preguiça mesmo. Até mesmo os obstáculos à construcão de uma cidade no interior eram minimizadas por ele como “meros subterfúgios”. O Brasil, segundo ele, deveria se espelhar no exemplo de expansão dos EUA, e estimular a vinda de estrangeiros para ocupar o interior.

É, caro Hipólito, demorou quase 150 anos, mas finalmente a capital que você propôs foi construída em 1960.

PS1: Não confundir o atual jornal Correio Braziliense fundado junto com Brasília em 1960 com o primeiro, de 1808. O nome do atual foi inspirado no primeiro mas não há nenhuma outra relação entre os dois.

PS2: Todas as edições do primeiro Correio Braziliense podem ser lidas gratuitamente no portal Brasiliana da USP

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O Brasileiro em Coimbra, Portugal – Uma história da História do Brasil

abril 19th, 2012 — 12:49pm

Estive em Lisboa, Sintra e Coimbra com meu irmão no começo de março. Adorei conhecer Portugal pela primeira vez. Acho que, para nós Brasileiros, o país tem um sabor próprio dada a história que compartilhamos. Na visita à fantástica Biblioteca Joanina na Universidade de Coimbra, uma exposicão chamou mais a minha atenção  neste sentido.

A mesma exibia exemplares antigos de livros tratando de assuntos ligados ao Brasil. Estavam expostos lá, por exemplo, o primeiro livro publicado no Brasil (em 1747) e o primeiro dicionário Português-Tupi. Haviam obras raríssimas também. O livro “Uma das mais belas obras ilustradas sobre o Brasil”, encomendado pelo Conde de Nassau e publicado em 1647, não produz nenhum resultado no Google. Aparentemente não há nada sobre a obra na Internet, uma que retrata o Brasil da época em diversas ilustrações.

Outra obra rara é o primeiro e único número do periódico “O Brasileiro em Coimbra” publicado em 1823 pelo Brasileiro Cândido Ladislau Japiassú de Figueiredo e Mello (Isso é que é nome, o resto é conversa). Em um ano onde Portugal ainda não reconhecia a independência do Brasil, Cândido publicava, em Portugal, textos defendendo-a fortemente. Também não achei o texto completo da edição em nenhum canto da Internet mas num blog um tanto obscuro, um post continha apenas a imagem da parte superior da primeira página. Segue a transcrição:

“O Brasileiro em Coimbra, Anno 1823, Quinta-feira 3 de Abril
Ora pois, meus Compatriotas, disponho-me (quem diria!) a escrever para o Publico! Teremos tambem o Nosso papel, para di-(o texto é cortado aqui) nam so do Brasil; mas até de Portugal.-Cumpre-Nos por tanto, nam so diser ao Brasil o que se passa em Portugal ; porém ainda diser a Portugal o que se passa no Brasil. – O Portuguez sabendo com exactidam as forças, e os progressos do Governo Brasilico, nam quererá arriscar os seus soldados, (o texto é cortado aqui)”

 

Uma pena o restante não estar disponível. Segundo esta fonte (em inglês), a publicação causou alvoroço em Coimbra e problemas para os brasileiros que lá residiam. Cópias do texto foram confiscadas, a sua publicação foi suspensa, e seu editor foi detido. O texto original que explica esse episódio é de autoria de Bernardo de Serpa Saraiva Machado com o título “Representação documentada, que a real presença de Sua Magestade fez subir em 30 de Junho de 1823″. Infelizmente também não consegui achar nenhum link para o texto completo. O Brasileiro em Coimbra, pelo visto, continua detido nos arquivos portugueses.

Clique aqui para ler a segunda parte.

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Viajando pelo interior da Dinamarca

outubro 12th, 2011 — 2:44pm

Eduardo Maia, do jornal O Globo, viajou a convite do Visit Denmark pelo interior da Dinamarca:

Num reino muito distante, crianças passeiam como gigantes por uma cidade em miniatura, onde palácios e até animais são feitos de blocos coloridos; “homens do passado” encenam guerras e danças observados por “homens do futuro”, e uma ilha ainda festeja, em placas e praças, o nome de seu filho mais ilustre, um menino desengonçado, filho de um humilde sapateiro, que venceu a pobreza e a feiúra para conquistar a simpatia do rei e se tornar o mais famoso entre seus compatriotas. No interior da Dinamarca, de onde Hans Christian Andersen tirou a inspiração para tantas histórias infantis, como “A pequena sereia” e “O patinho feio”, cenários dignos de contos de fadas convidam o turista a deixar um pouco de lado a cosmopolita Copenhague. E virar criança na Legoland. E voltar ao passado em Odense, onde nasceu Andersen, e Ribe, a mais antiga cidade dinamarquesa.

Texto completo no site do jornal.

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Preikestolen – Primeiras impressões da Noruega

julho 6th, 2011 — 1:41pm

Na terça-feira da semana passada fui à Preikestolen, na Noruega. O nome, que significa “Rocha do Púlpito”, faz referência a uma falésia de 604 metros de altura localizada no belo fiorde de Lyse, no sudoeste da Noruega. No Brasil o local é relativamente famoso por conta de uma apresentação do PowerPoint sobre a região que vez ou outra circula por nossas caixas postais. Foi, aliás, como fiquei sabendo do lugar.

Para se chegar lá, o mais rápido é voar até a cidade de Stavanger, que por si só vale uma visita curta. No meu caso, estando no norte da Dinamarca, chegar até lá é um pouco mais complicado. Primeiro, peguei um trem até Hirtshals, uma cidade portuária no extremo norte da Dinamarca. De lá, uma balsa nos leva até Kristiansand, na Noruega. De Kristiansand chega-se a Stavanger depois de 3 horas de trem num percurso belíssimo entre fiordes, lagoas, cachoeiras e florestas. Todos entrecortados por montanhas, claro.

Estando em Stavanger, dá para ir e voltar à Preikestolen em um dia. O tempo total é estimado em 8 horas. Eu preferi ficar no hotel/albergue Preikestolhytta que fica no pé da falésia, num vale presenteado por uma grande lagoa e pequenas cachoeiras. Para iniciar a subida, você precisa ir até ali de qualquer maneira. Para chegar lá, uma balsa te leva até Tau, do outro lado do canal, em uns 40 minutos. Um ônibus te espera na saída da balsa e te deixa na porta do hotel em outros 40 minutos. Se decidir hospedar-se no hotel e o tempo estiver bom (você vai precisar de sorte), curta o visual e a paz que a região no entorno oferece. Deixe para subir a falésia no dia seguinte.

A subida dura em média 2 horas (e a descida só um pouco menos). É relativamente fácil mas requer um pouco de preparo físico. Calçados apropriados são recomendados. Eu senti falta deles em alguns pontos onde a subida é mais íngreme. O trajeto por si só é belo, novamente repleto de cachoeiras, lagoas e belas vistas. Placas e marcas nas pedras sinalizam o caminho então é bem fácil chegar. Uma vez lá, prepare-se para ficar boquiaberto.

A falésia parece um bloco de concreto que foi colado no penhasco que margeia o fiorde. É uma protuberância natural que proporciona uma visão espetacular do entorno e vertigens ao chegar perto das bordas. Vou parar aqui e deixar as fotos falarem por mim. Este passeio foi uma excelente primeira impressão da Noruega mas prepare o bolso. É tudo muito caro por lá.

Preikestolen


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Um ano fora do Brasil

maio 2nd, 2011 — 12:09pm

Uma nota curta para registro: No último dia 14 de Abril completei um ano sem retornar ao Brasil. Ontem, dia 1 de Maio, completei um ano morando em Aalborg, Dinamarca. É o período mais longo que já fiquei fora do Brasil. Antes havia sido na Finlândia em 2002, quando morei em Oulu por 9 meses.

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Parando no tempo em Læsø – Uma ilha no norte da Dinamarca

abril 27th, 2011 — 2:44pm

A Dinamarca tem cerca 5,5 milhões de habitantes. A maior parte deles concentra-se no sul do país. Só a região metropolitana da capital, no sudeste, tem quase 2 milhões. Por isto, via de regra, quanto mais ao norte você viaja, menos gente encontrará.

Moro no norte, em Aalborg. Com pouco mais de 100 mil habitantes, esta é a maior cidade da região. Para chegar a Læsø, a melhor opção de caminho é voar até aqui primeiro. De Aalborg, um trem me levou na última sexta-feira até Frederikshavn, uma cidade ainda mais ao norte e ainda menor; 23 mil habitantes. Frederikshavn é uma cidade portuária com pouco a oferecer além de conexões marítimas para Oslo e Gotenburgo, respectivamente a capital da Noruega e a segunda maior cidade da Suécia. “Havn” significa “porto” em dinamarquês e Frederik VI foi um rei da Dinamarca. Suecos e noruegueses visitam a cidade para se embebedar no barco e comprar cerveja barata na Dinamarca (sim, ela é cara aqui, mas mais barata que nestes outros dois países). É deste porto de nórdicos bêbados e dinamarqueses ainda acordando que sai o primeiro ferry boat para Læsø, as 7:50 da manhã.


A viagem dura 1:30 hora. No trajeto, só há o mar do norte por todos os lados e alguns pássaros provavelmente fazendo a mesma viagem. Só quando o ferry boat estava quase dentro do pequeno porto da ilha é que pude avistá-la em meio à espessa neblina. As poucas casas bem alinhadas no vilarejo de Vesterø Havn não chamam atenção. Mas nada na ilha chama. É tudo muito discreto, como se não se importassem com a presença dos poucos visitantes. Não precisam se importar. Quem visita a ilha não está a procura de grande atrativos ou chamarizes. Quando pisei na ilha, o tempo parou e nem me dei conta.

De bicicleta, rumei sul por uma pequena rua asfaltada margeando, de um lado, a praia e, do outro, pequenas plantações entrecortadas por bosques. Vez ou outra uma casa dava suas caras. Sempre de madeira e em cores vibrantes, muitas estavam a venda. Outras tantas vazias. Foi raro cruzar com pessoas. Minha companhia mais freqüente eram os pássaros. No sul da ilha, um casal de patos e suas crias me apresentaram a uma das praias da região: Um braço de mar protegido por um banco de areia deixava a água cristalina. A ilha como um todo tem 2 mil habitantes. Ali, cerca de 15 km distante da vila mais próxima, eu era um só.

De turismo mesmo, há na região uma salina aberta a visitação, passeios a cavalos, uma pedra que marca o surgimento da ilha, umas casas antigas com telhados feitos de alga, e pratos a base de uma espécie de lagostim local. Mas as praias não são tão belas, o clima quase nunca é quente o suficiente e a infraestrutura não é voltada para o turismo. A ilha é quase toda pensada para os seus moradores, orgulhosos da paz imperturbável que desfrutam. E é isto que a ilha tem de melhor para oferecer.

Em um dos poucos restaurantes abertos no vilarejo de Østerby, conversei um pouco com a proprietária enquanto conhecia uma Porter local, um dos 9 tipos de cervejas produzidos ali perto e que só são vendidos na ilha. Ela me explicou que cresceu lá mas ficou entediada aos 15 anos. Só voltou 20 anos depois quando realmente entendeu o valor de morar ali. Hoje não quer sair mais. Sua vida é simples, o trabalho é pouco, e o dinheiro suficiente. Não há chaves nas suas portas. Seus filhos, ela diz, provavelmente passarão pelo mesmo ciclo. Viver numa ilha isolada é um aprendizado.

O tempo em Læsø pára, mas só lá. Do lado de fora eram quase seis tarde e eu precisa pegar o ferry boat de volta para Frederikshavn.

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A importância da eleição de Dilma

agosto 18th, 2010 — 6:56am

Eu escrevi este texto originalmente para um amigo mas quero compartilhá-lo com todo mundo que venha eventualmente ler este blog. Porque o primeiro programa de Dilma na TV ontem me emocionou e acho que tem importância histórica. Porque penso que muitas pessoas mais ricas no Brasil não têm a real noção do significado do governo Lula e da importância de eleger Dilma. Estas pessoas, felizmente para elas, não sabem o que é pobreza. Mas pelo menos deveriam ser capaz de imaginar o que é viver com menos de US$ 1/dia.

Eu só fui ver este tipo de pobreza na Índia e chorei na primeira vez que vi uma cidade inteira de pessoas cagando na rua, vivendo em barracos de chão de terra batida e telhado e paredes de plástico, e comendo restos ao lado de ratos e outros bichos. Sei que ainda existe isto em várias partes do Brasil. Mas no Brasil de Lula, mais de 30 milhões de pessoas  passaram a viver com mais dignidade! É meia França ou quase uma Argentina inteira. Neste Brasil, educação deixou de ser sucateada, e crédito passou a ser acessível a todos. É um Brasil que desafiou preconceitos, quebrando forças conservadoras elitistas. Eu posso continuar listando fatos mas acho que todos os conhecem ou deveriam.

O Serra, ao contrário, não fez quase nada por São Paulo. É um estado infinitamente mais rico que qualquer outro mas suas políticas ficaram meramente no âmbito das obras públicas e dos investimentos no básico de educação e saúde. Este é o básico que todo governo deveria fazer. Mas São Paulo pode muito mais (aliás, não é este o slogan do candidato?) e ninguém
ainda fez isto pelo estado, na minha opinião.

E por que não? Eu tenho uma teoria. São Paulo é o estado mais rico e também um dos mais conservadores. É onde está a maior concentração de classe média que mais me envergonha no país. Esta que quer tirar vantagem em tudo, que acha que carro é o melhor meio de transporte, que não quer um metrô na porta de sua casa, que tem vergonha de pobre, etc. Esta classe média vota em Serra (e agora em Alckmin) porque não quer perder seus privilégios. Quer manter as coisas como estão. É de um egoísmo e uma mesquinhez que só vejo precedente na história de nossas altas classes de origem portuguesa (leia Ubaldo Ribeiro, por exemplo).

Então eu me emociono mesmo quando vejo que o povo está se beneficiando tanto de um governo e percebe isto, e não se deixa enganar. Vocês viram o jingle de Serra tentando se mostrar como continuidade de Lula, e se associando indevidamente ao atual presidente? Viram ele usando uma favela de mentira em seu programa? Que vergonha alheia do Serra que eu tenho. É um candidato que não tem projeto, nem identidade. E felizmente isto está ficando claro para cada vez mais gente. Eu fico feliz de ver o Real se valorizando, os números em geral infinitamente melhores que do governo anterior, e mais pessoas se beneficiando disto.

E por tudo isto, este governo do Lula não pode ser só um espirro. Sabe, não pode ser só um governo de esquerda, exceção na nossa recente história democrática. Tem que haver continuidade para deixá-lo marcado! Para que ninguém se esqueça, para que estes ricos egoístas e preconceituosos tomem mais um tapa de luva. E para que estes mesmos ricos tenham que engolir cada vez mais pessoas humildes em aeroportos, comprando carro, viajando e fazendo parte cada vez maior das riquezas do nosso Brasil. Os mais humildes merecem muito isto e finalmente estão tendo! Tem que continuar assim.

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Verão, sol, calor e… bicicleta! Na Dinamarca tem

julho 15th, 2010 — 3:14pm

Um dos argumentos que mais escuto no Brasil para as pessoas não usarem bicicleta é que faz muito calor e ninguém quer suar antes de chegar no trabalho, supermercado, shopping, etc. Mas eis que me deparo com o verão Dinamarquês. Faz calor também, tem dia que bate 35 graus. O sol é forte e nem sempre o tão incômodo vento gélido do norte resolve colaborar justamente nestes poucos momentos que precisamos dele. Mesmo assim, ao invés de diminuir o número de ciclistas na rua, eles aumentam! Incrível, não!?

aaÉ verão, faz calor? Então use menos roupas! (fonte)

Em outras palavras, para mim, no Brasil, quem goza de saúde plena, mora a menos de 5km do trabalho e não usa bicicleta para se deslocar é muito provavelmente acomodado. Preguiçoso mesmo! Porque não há nada mais que explique o sujeito pegar um carro para percorrer míseros 5km. É preguiça de mexer as pernas um pouco por no máximo 30 minutos. É muito mais conveniente (e ao mesmo tempo egoísta, claro) sentar a bunda no carro, ligar o ar condicionado e ignorar os problemas do mundo na sua bolha particular. Se não por isto, então há outra razão. E talvez as duas andem bem juntas neste caso. Status! O sujeito quer se exibir, aí bota o terno para ir ao trabalho e diz que se não fosse de carro, suaria muito.

aaComo assim ir para a praia de carro? A galera aqui na Dinamarca vai de bicicleta em massa. (fonte)

No Brasil, distinção de classe está justamente no suor. O pensamento desta elite preconceituosa segue a seguinte linha: Quem sua é pobre que faz trabalho braçal e não pode bancar ar condicionado. Rico trabalha menos e não pode se sujeitar as mesmas condições de transporte e que geram suor. Imagina suar no terno Armani novo! Aqui em Aalborg, ao contrário, vi ontem o chefe do departamento de Ciência da Computação da Universidade indo trabalhar de bermuda e camiseta. Foi de bicicleta, claro. Imagina uma coisa dessas no Brasil?! Quem é que admitiria um empregado indo trabalhar de bermuda e camiseta? Não pode, tá errado. Não pode ir de bicicleta também porque tem que mostrar que é bem de vida. Vejam neste exemplo uma explicação histórica (daqui):

“No século XIX, entre o meio industrial inglês, surgiu o colarinho branco como marca da estratificação social. Apenas os que ocupavam altos cargos nas empresas poderiam ostentar o colarinho alvejado, pois nos postos mais baixos o contato com a fuligem fazia qualquer peça de roupa branca enegrecer em poucos minutos. A essa mesma época, as próprias necessidades do trabalho impuseram o abandono do uso da casaca em prol de uma vestimenta que era um aperfeiçoamento das roupas dos trabalhadores rurais: o terno.

Se antes as calças vinham apenas até o joelho, Lord Brummel lançou a moda das calças compridas, como aquelas usadas pelos limpadores de chaminé. Mas claro, estas calças de limpador de cahminé combinavam-se com botas polidas com champagne, com paletós negros e camisas brancas com elaborados nós de gravata. Brummel, o pai do dandismo, morre em 1840, mas deixa fincadas as raízes do uso do terno como distinção de classe, como foram as unhas compridas na antiga China: o trabalhador braçal, de baixa renda, de classe baixa, não pode usar colarinhos brancos, nem manter as unhas compridas, senão não trabalha, não come, não sobrevive.

No Brasil, a distinção se faz pelo suor. Somos a última nação ocidental pretensamente civilizada a abolir o trabalho escravo. Isso há pouco mais de 100 anos. O escravo era os pés e as mãos do seu senhor. Seus braços e pernas. São conhecidas as gravuras do período colonial em que vemos escravos carregando o senhor em sua liteira, vestido como se europeu fosse, abanando-se ou sendo abanado. Acaso estivesse esse senhor andando pelas próprias pernas, suportaria o calor em sua casaca de veludo?

[Atualmente, ]Vai embora a casaca mas em seu lugar fica o terno (…)”

Mas não adianta argumentar que pedalando devagar você sua muito pouco ou que podemos (devemos) usar roupas mais leves no dia-a-dia. Não adianta um texto longo como este e provas de que o uso de bicicletas funciona em outros lugares. Sabe o que adianta? Mexer no bolso destas pessoas. Quando usar carro passar a se tornar algo extremamente caro, aí elas passarão a procurar alternativas. E também cobrar por infraestrutura para as bicicletas. Alguém aí acha que é possível de outra forma?

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Na Dinamarca… E a Copa do Mundo

julho 7th, 2010 — 2:39pm

No dia seguinte à derrota da Dinamarca na copa, chego ao escritório para cumprimentar um colega dinamarquês:
- Poxa cara, que pena a Dinamarca ter perdido, estava torcendo para que pelo menos fosse para as oitavas…
- Perdeu? No quê?
- Na Copa, ontem, perdeu o jogo para o Japão…
- Ah, nem tava sabendo… Perdeu é? Paciência, não tínhamos um time tão bom mesmo…

***

Os dinamarqueses parecem levar uma vida pacata. Não querem enriquecer e comprar tudo como os americanos, não querem construir robôs como os japoneses, não querem morar nos EUA como os indianos e mexicanos, e não querem ganhar a copa do mundo como nós brasileiros. Não, eles parecem não se importar.

Para eles importa cumprir suas 7 horas diárias de trabalho e depois ir para casa ficar com a família. No verão, tiram férias, no inverno, bem, no inverno não sei ainda… E o tempo que sobra eles gastam pagando impostos.

***

Mas nem todos os dinamarqueses estavam ignorando a copa. A praça central de Aalborg deve ter reunido umas duas ou três centenas de pessoas, quase todas torcendo para o time da casa. Alguns gritavam vez ou outra mas o clima era sereno.

A não ser no jogo contra a Holanda, o primeiro deles. Assistir aos jogos de dois países europeus aqui é como assistir a um jogo do campeonato brasileiro no Brasil. Há provocações de todos os tipos e o clima pode ser resumido numa ótima frase de um amigo meu: “A copa do mundo é uma ocasião onde podemos ser preconceituosos sem sermos mal vistos por isto.”

***

Assisto aos jogos num bar no centro que projeta a imagem em um telão tipo cinema. Vou para lá de bicicleta e chego em 10 minutos. É fácil andar de bicicleta aqui. Não porque a infraestrutura seja melhor que no Brasil mas porque as pessoas respeitam os ciclistas.

Mas, tudo bem, a infraestrutura também é muito melhor. O país tem 12 ciclovias nacionais, tipo auto-estrada mesmo, além de centenas de ciclovias regionais e locais, com semáforos exclusivos e tudo mais.

***

Mas com tanto imposto, não dava para ser diferente. O mínimo que se paga é 32% e o máximo chega a algo em torno de 56%. Até o ano passado passava dos 60% mas eles reduziram a carga. Isto sem contar o imposto embutido nos produtos que pagamos, em torno de 25%, um dos mais altos do mundo.

Em compensação, temos tudo. Cidades bem cuidadas, plano de saúde, rodovias, educação, e por aí vai. Ah, bibliotecas! Que maravilha as bibliotecas daqui. Posso pegar qualquer livro, CD, DVD, jogos para PC, Wii, PlayStation, Xbox, de graça por até 30 dias. E mais, consulto tudo online e posso pedir um item de qualquer biblioteca pública da Dinamarca. Eles entregam na biblioteca mais próxima sem cobrar nada extra pelo serviço.

***

Hoje tem Alemanha e Espanha. Vou assistir com amigos alemães e espanhóis. Não vou torcer em especial para nenhum dos dois mas me divirto com o drama alheio. É a única vantagem de ter o Brasil fora da copa: assistir tranqüilo aos jogos que restam. Tal qual a maioria dos dinamarqueses desde o início da copa, mesmo quando ainda estavam jogando.

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Dicas para conhecer o sudoeste da França

fevereiro 8th, 2010 — 5:12pm

Continuando o passeio pelo sudoeste da França, ainda na região metropolitana de Toulouse (tema do post anterior), principalmente se você é um aficionado por aviões, é imperdível fazer um tour pelas fábricas da Airbus, inclusive a que fabrica o gigante A380. Dá para visitar e conhecer também um pouco mais do antigo Concorde. A visita é guiada (francês ou inglês) e, atenção, deve ser agendada com no mínimo 2 dias de antecedência. Você pode escolher dentre algumas opções de visita e pagar de acordo com sua escolha. O site específico para as visitas dá mais detalhes.

Depois é partir para um dos destinos nas redondezas. O mais perto e um dos mais interessantes é talvez a cidade medieval de Carcassone que, aliás, dá nome ao jogo de tabuleiro. O centro da cidade ainda preserva as fortificações construídas ao longo dos séculos XI e XIII. Carcassone tem aeroporto e vôos da Ryan Air mas não recomendo ficar na cidade. De Toulouse é fácil e barato ir de trem ou agendar passeios de um dia. Em Toulouse também é possível agendar passeios pelo Canal do Meio-Dia. Ele é o canal mais antigo em funcionamento na Europa e permite a navegação entre o Mediterrâneo e o Atlântico.

Dentre os destinos um pouco mais distantes, nos Pirineus ao sul há estações de ski, parques naturais, e cidadelas medievais. Ao norte de Toulouse, no Vale do Lot há vinícolas, mais parques naturais e cidades medievais. À oeste há a cidade de Bordeaux, praias, dunas, turismo de aventura, tantos outros parques naturais e outras e numerosas vinícolas na região de St. Emilion. Para todas estas regiões, no entanto, é preciso um pouco mais de tempo. Vale a pena reservar pelo menos 2 ou 3 noites em cada uma delas.

Cada um destes destinos serão destrinchados em próximos posts.

Dicas para toda a viagem

  • Com exceção de Bordeaux cuja ida de trem é apropriada e de regiões bem próximas de Toulouse onde é possível agendar passeios diários, é recomendável que você alugue um carro para conhecer o interior do Sudoeste da França. As pequenas cidadelas medievais, as vinícolas e as belas paisagens naturais nos trajetos entre uma cidade e outra não estão nos pacotes de agências e não têm estação de trem. Mas você vai querer parar para conhecê-las.
  • Reserve tempo na sua viagem para surpreender-se. É comum descobrir pequenas vilas, marcos históricos, belas paisagens, restaurantes, vinícolas, dentre outras atrações pouco conhecidas e que não estavam no seu roteiro. Não ter tempo para apreciar estas descobertas é arrependimento garantido.
  • Considere a visita na baixa estação. As cidades pequenas do interior costumam ficar entupidas de turistas e os hotéis ficam caros e lotados. Na baixa estação é possível reservar quartos em simpáticos hotéis 2 estrelas por cerca de EUR 40 e visitar tudo com calma.
  • Coma os queijos e tome os vinhos da região. Procure se informar com moradores e lojistas a especialidade de cada cidade.
  • Se você gosta de Jazz, fique ligado nas datas do Festival Internacional de Jazz que ocorre todo verão em Marciac, uma minúscula cidade com pouco mais de 1.100 habitantes distante 130km de Toulouse.

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