Um pôr-do-sol aos domingos
Agora, todos os domingos, um diferente pôr-do-sol em algum lugar do mundo…

Kuusamo, Finlândia. Um dos principais centros para prática de esportes de inverno no país. Na foto, chalés que abrigam os turistas.
Sobre tecnologia e sociedade
Agora, todos os domingos, um diferente pôr-do-sol em algum lugar do mundo…

Kuusamo, Finlândia. Um dos principais centros para prática de esportes de inverno no país. Na foto, chalés que abrigam os turistas.
Quando planejei esta viagem que fiz à Europa em Dezembro, um dos maiores problemas foi acomodar a agenda apertada às opções em conta de passagens de trem e avião. Em Helsinque, por exemplo, quando vi que a passagem de volta para Frankfurt um dia antes do previsto era cem vezes mais barata (!!!), nem pestanejei: Dormir uma noite no aeroporto seria moleza diante da economia.
E eu já conhecia bem o aeroporto de Frankfurt. Sabia que lá havia duchas disponíveis ao público, Internet sem fio, e sofás confortáveis. Seria mesmo uma barbada e eu não seria o primeiro a realizar tal empreitada: O site Sleeping in Airports coleciona relatos de diversos viajantes avarentos que chegam a passar dias dormindo no mesmo aeroporto enquanto conhecem a sua cidade. Lá há até dicas de como usufruir melhor da experiência e um ranking dos melhores aeroportos.
Pois bem, cheguei cedo ao aeroporto de Helsinque, cedo até demais. Foi só pisar no saguão principal que recebo uma mensagem no meu celular informando que meu vôo estava atrasado em 1 hora. Vejam, entretanto, a diferença entre as empresas aéreas finlandesas e brasileiras: Além do aviso antecipado do atraso, ainda recebi um voucher de EUR 10 para realizar compras no aeroporto. E o atraso durou mesmo só 1 hora!
Cheguei a Frankfurt por volta das 23 horas e meu vôo era às 21 do dia seguinte. Seria bem mais cedo, às 11, se a Varig não tivesse feito o favor de cancelar o meu vôo original, com a promessa de transferir-me para esta opção noturna. Após pegar as malas e guardá-las num depósito monitorado, perambulei um pouco pelos enormes corredores do aeroporto, comi um sanduíche e logo me acomodei em um dos belos sofás no salão principal. De cara notei o primeiro problema: Não há tomadas no aeroporto para que pudesse usar meu laptop! Simplesmente não há. As que existem são de uso administrativo e fui severamente advertido quando tentei usar uma responsável por recarregar as baterias dos carros elétricos da manutenção.
Tentei então comprar um livro, mas de madrugada a única livraria aberta possuía apenas livros chinfrins ou em alemão. Restou-me tentar dormir. Em vão. Durante toda madrugada as luzes permanecem acesas e pessoas não param de circular. Fiquei neste estado letárgico até umas 5 da manhã quando resolvi tomar um banho. Quanta ilusão! A ducha não estava operando desde a semana anterior por conta de um problema qualquer que não me importei. Àquela altura, nada mais importava. Passei a ler o manual de instrução do aeroporto e catálogos de loja, a contar a quantidade de vôos por hora (uns 20 nas primeiras horas daquela manhã), e a me preocupar com a confirmação da transferência do meu vôo. Cheguei a ligar para o Brasil, onde minha sempre eficiente mãe tentou um contato com o escritório brasileiro da Varig, já que na Alemanha ninguém atendia. Infelizmente no Brasil, tal qual a retórica de Lula, ninguém sabia de nada.
O balcão finalmente abriu por volta das 13 horas. Quando chegou minha vez, me senti como na música interpretada por Jimmy Cliff (“I can see clearly now the rain is gone”): A atendente não só se desculpou pelo atraso como também me encaminhou para um excelente hotel com almoço incluso. Eu tinha todo um discurso preparado e nem precisei usar o parágrafo introdutório do mesmo; Será que estamos finalmente melhorando nossos serviços e nos equiparando aos finlandeses?
Depois de comer, tomar um banho excepcional e dormir, não tinha mais como nada dar errado. No dia 18 de dezembro de 2007 cheguei de volta ao Brasil para 30 dias de férias.
***
Um detalhe curioso: Depois de tantas idas e vindas via aeroporto de Frankfurt, esta foi a primeira vez que de fato saí de seus saguões. Não vi muito pois o trajeto até o hotel foi curto. Da janela do quarto onde me hospedei, arranha-céus e muitas árvores decoravam a bela vista.
Estava em Helsinque em Dezembro. Este era meu penúltimo destino antes de retornar ao Brasil. O último era Tallinn na Estônia, do outro lado do Golfo da Finlândia, a 2 horas de barco. Aliás, o trajeto de barco é altamente recomendado. E quem vai visitar Estocolmo (capital Sueca) com um pouco mais de tempo, também pode pernoitar num cruzeiro até Helsinque ou vice-versa. Recomendo as empresas Viking Line e Silja Line, o passeio vale a pena e a passagem custa uns R$ 90,00 (a mais básica, claro).
Pois bem, em Helsinque, desta vez acabei não aproveitando muito. Apesar do bom tempo, o frio estava de doer os ossos: O termômetro registrava -8 ºC pela manhã. O resultado é que visitei apenas os principais pontos turísticos da cidade para relembrar os velhos tempos.
Dentre as paradas obrigatórias estavam a Estação Central construída em 1860 e a Catedral de Helsinque, um dos cartões postais da cidade. Também não dava para deixar de visitar a Praça do Mercado, especialmente na época de Natal. O local estava repleto de comidas típicas e artesanato natalino. Só faltou mesmo a neve…
Catedral de Helsinque num frio de doer
Com o frio insuportável, me restou mesmo procurar um canto para esquentar o corpo antes de retornar à Espoo, onde estava hospedado. Tentei a Stockmann, loja de departamentos preferida da minha mãe, mas o local estava insuportavelmente cheio. Lembrei então da maior livraria que já visitei até hoje e que estava logo ali ao lado. O local tem cinco andares e livros para todos os gostos e em todas as línguas. Vai aí um livro de poesias em finlandês? Hmmm, talvez você prefira cânticos de ninar em russo? Ou que tal um Paulo Coelho em umas sete diferentes línguas? Tá, o Paulo Coelho não conta, até em camelôs aqui em Bangalore encontro os livros dele à venda.
Lá achei logo um local para tomar um bom chocolate quente enquanto tentava relembrar algumas palavras básicas no Helsingin Sanomat, o Jornal de Helsinque que possui uma versão internacional on-line em inglês. Na saída, contemplei por um instante aquela que talvez seja a avenida mais movimentada da cidade. Sabe-se lá quando voltarei ali novamente.
Precisei recontar minha experiência na Finlândia em 2002 para que vocês pudessem entender o contexto do meu retorno àquele país em Dezembro de 2007:
- “Tervetuloa!” – Escutei ao entrar no avião. Como era bom ouvir a língua finlandesa novamente!
A viagem de Varsóvia à Helsinque ocorreu sem contratempos. Cheguei por volta das 3 da tarde e já anoitecia; A temperatura cravava 0 grau no visor do carro. Finalmente esfriara o suficiente para que eu pudesse acreditar que veria neve novamente, nem que fosse pelo menos algum sinal.
Do aeroporto, em Vantaa, região metropolitana de Helsinque, parti direto para Espoo, na casa de meus amigos onde me hospedei. É claro que fui recebido de braços abertos e me senti em casa. Como era bom rever aquele povo tão querido e pelo qual guardo profunda admiração, respeito, e carinho.
Neste mesmo dia, caminhamos pelos arredores de onde estava hospedado enquanto botávamos os assuntos em dia. 5 anos foram suficientes para acumular bastante coisa. Na região pouca coisa mudou: Espoo continuava bela, mesmo no inverno de árvores desfolhadas e dias mais curtos. Entre meus amigos, algumas novidades que vêm com o amadurecimento: Casamento, filhos, melhores empregos, casa própria, essas coisas… Mas não necessariamente nesta ordem.
Acabou que não rolou turismo neste dia. E nem fiz questão mesmo. Estava ali muito mais pelo reencontro do que qualquer outra coisa. Após um saboroso jantar num restaurante local (carne de rena, minha favorita!), nos direcionamos para uma apresentação da Orquestra Senegalesa Baobad, música africana de primeira (com ligeira semelhança aos cubanos do Buena Vista Social Club), num ritmo multicultural que fez até os finlandeses dançarem. Terminamos a noite aos papos num pub. Noite inesquecível!
No próximo post conto os detalhes do passeio pelo Centro de Helsinque e se a neve veio ou não afinal.
Nähdän!
A Finlândia foi o primeiro país que visitei na Europa. Foi também o primeiro lugar onde morei no exterior. Antes, aliás, eu mal conhecia o sudeste do Brasil. Foi só no dia 1 de setembro de 2002, quando pisei em Helsinque, que isto começou a mudar. Graças àquela experiência compreendi o inestimável valor de explorar novos destinos, tudo o que ele oferece, e tudo o que é conseqüência da aventura.
Também naquela época comecei a registrar minhas peripécias. Relatos pessoais do que vinha à cabeça e de como eu lidava com tanta novidade. Naquele final de verão, fiquei apenas um dia na capital finlandesa antes de embarcar para Oulu, no extremo norte, quase acima do Círculo Polar Ártico. Foi quando escrevi, em tom quase infantil, estapafúrdio:
“A cidade [Helsinque] é linda, muito bem estruturada e cheia de árvores. Nas partes em que andei, no centro, pude perceber que as construções são parecidas e o povo é bem prestativo. Conheci os amigos de minha mãe e seu companheiro e eles foram super atenciosos. Foram no aeroporto me buscar, me convidaram para almoçar, fizeram um tour pela cidade comigo e me mostraram os monumentos históricos, os navios, o mercado, a prefeitura e o palácio da presidente (sim, uma mulher é a presidenta da Finlândia).
Como fiquei só 1 dia em Helsinki não posso falar muito mais, mas a primeira impressão foi muito boa.”
Dois dias depois, já estabelecido em Oulu, o tom do relato foi similar:
“A cidade é um pouco parecida com a de Helsinki mas o bem menor (115.000 habitantes enquanto Helsinki tem mais 500.000). A universidade fica a 5 km do centro e é bem grande.
Meu apartamento fica de frente para ela, a uma distância de uns 300m. Atrás, a uma distância também de uns 300m, existem lojas, uma vídeo locadora e um supermercado.
Tenho uma cama, um armário, uma mesa grande, um criado-mudo e duas cadeiras. O quarto deve ter uns 9m² e o apartamento todo uns 22m². Este tamanho todo porque tem outro quarto do lado do meu onde outro estudante está hospedado. A cozinha e o banheiro são comuns a nós dois.
Já estou aqui há 2 dias e as coisas estão caminhando bem apesar da dificuldade da língua. Apesar do curso ser em inglês (ainda não assisti nenhuma aula para comentar o curso) poucas pessoas o falam por aqui. Até na universidade tudo está escrito em Finlandês. Isto está sendo a grande dificuldade mas já estou conseguindo me virar. Acho que a medida que o tempo vai pansando vou melhorando minha fluência no inglês e também vou aprendendo algumas palavras em Finlandês.
Outro fator de dificuldade é o frio mas este vai ser mais fácil. É impressionante (pelo menos para mim está sendo) mas lá fora a temperatura fica em torno de 15ºC (parece não estar frio mas venta muito por aqui) enquanto dentro do meu quarto é de 25ºC, sem ligar o aquecedor. Ou seja, o frio só existe do lado de fora e como só vou sair para comprar coisas e ir a Universidade, vai ser mole!!”
Notem que preservo os textos originais da época, inclusive os erros de português. Os erros, de fato, não importavam muito desde que eu extravasasse as emoções que sentia. Incrível como a mais singela e pueril experiência faz toda a diferença quando vivenciada pela primeira vez, não? Parece que voltamos a ser crianças e que nada mais importa…
Só quatro meses depois, em pleno inverno, é que retornei à Helsinque. O frio era negativo, a paisagem branca, e a luz do dia durava três ou quatro horas. Somado a isto, a distância da família e dos amigos em pleno Natal tornava aquele momento um tanto depressivo. Depois de tanto tempo, afinal me dava conta que morar tão distante do Brasil não era tão mole assim como pensei nos primeiros dias.
“Dezembro e janeiro foram frio, escuro e entediante. Não por vontade própria mas pela falta de opções. É impressionante como o pessoal se desanima por aqui quando lá fora a temperatura fica abaixo dos –20 graus. Dá para ver na face o desânimo, a vontade de ficar em casa, de esperar o frio passar.”
O norte da Finlândia no inverno é pra lá de muito frio
Mais cinco meses e lá estava eu retornando pela terceira e última vez à capital pela qual me apaixonei. E Helsinque na primavera era radiante, principalmente tendo como vizinha a cidade de Espoo e suas imensas áreas arborizadas onde moravam grandes amigos que conheci nove meses antes.
Um parque em Helsinque em pleno dia primaveril
Foi difícil deixar a Finlândia e foi muito bom retornar ao Brasil. Não encontrava lógica para explicar aquele paradoxo, mas lembro-me como se fosse hoje do desembarque em Vitória: O dia estava ensolarado e ventava bastante. Propositalmente, eu fui o último a sair do avião. Lágrimas escorriam de felicidade num olho e de tristeza no outro. Caminhei lentamente enquanto tentava colocar aquele turbilhão de emoções em ordem. Naquele momento, não podia imaginar que cinco anos depois retornaria àquele país que um dia chamei de lar.
Mais algumas fotos de 2002 e 2003: