Category: Índia


Riquixás: diversidade nas cores, apetrechos e modelos

fevereiro 5th, 2009 — 10:03am

As riquixás surgiram na Ásia como meio de transporte das elites. Originalmente eram uma espécie de carroça puxadas por pessoas. Gradativamente, no entanto, este tipo foi sendo substituído pelas bicicletas e pelas riquixás motorizadas, as famosas autoriquixás ou, no termo mais carinhoso, tuk tuk.

Na Índia estes veículos são encapetados. Além de pequenos, o que lhes proporciona uma agilidade impressionante, seus motoristas não são exatamente um exemplo de cautela no trânsito. Muito pelo contrário, eles fazem questão de se enfiarem nos menores espaços, fazendo movimentos bruscos e ousados, buzinando aos ventos por qualquer motivo, e esbravejando palavras de ordem aos outros motoristas enquanto eles mesmos não respeitam nada!

Já tratei das riquixás em outras oportunidades aqui no blog, por exemplo, ao falar do trânsito de Bangalore. O que faltou destacar aqui é a diversidade com que elas se apresentam em diferentes cidades Indianas. Cada uma tem um modelo de riquixá diferente, como se fosse uma marca registrada. Confira abaixo nas fotos:

Shashin Error: unable to retrieve album photos.

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Em Kerala, conhecendo Alappuzha

fevereiro 2nd, 2009 — 6:21am
Esta é a parte 2 de 2 da série Estado de Kerala, Índia

Alleppey ou em seu nome indiano, Alappuzha, fica no litoral sul do estado de Kerala, o que significa estar localizada no extremo sudoeste do país. A viagem até lá passa por Kochi, a maior cidade do estado, e segue margeando o litoral. De Kochi são aproximadamente 2 horas de viagem carro e belas vistas do mar e de águas represadas características da região. Alleppey é famosa por elas.

A chegada, entretanto, não impressiona muito. Principalmente se você ouvir antes de algum indiano orgulhoso que Alleppey é a Veneza do Oriente, título atribuído pelo lorde Inglês George Curzon. Nunca fui a Veneza mas sei o suficiente para afirmar aqui que, excetuando-se os canais que cortam a cidade, as duas cidades não parecem possuir nenhuma outra similaridade. Alleppey em muitos aspectos se parece na verdade com qualquer outra cidade indiana pequena: casas simples e com aparência de pouco cuidado, ruas de terra batida, muitos carros e riquixás, muita gente nas ruas, e muita sujeira. Os canais dentro da cidade, aliás, mais parecem esgotos correndo a céu aberto.

Só que não íamos exatamente ficar em Allepey. E na medida em que íamos nos afastando da cidade, mais a paisagem mudava; e para melhor. Ainda nos arredores da cidade, íamos nos enfiando em ruas cada vez menores. As casas, um misto de arquitetura hindu e ocidental, ficavam cada vez mais charmosas, e a vegetação nos avisava que a Índia urbana e caótica estava ficando para trás. Finalmente, entramos numa rua onde apenas o nosso carro, com os retrovisores dobrados, passava. Dois muros altos impossibilitavam até que saíssemos dali. Não tínhamos alternativa senão seguirmos em frente, cercados pelos paredões intermináveis, na rua agora de lama e esburacada.

Até que finalmente chegamos ao nosso destino! Um imenso rio se mostrava imponente a nossa frente; Do outro lado, uma típica vegetação tropical encerrava por completo qualquer traço de civilização; E no rio, um barco-casa tipicamente denominado de Kettuvallam nos recebia de portas abertas. O danado era muito grande, com um quarto com ar condicionado, um banheiro completo, cozinha, sala e varanda! Tudo feito de cascos de madeira trançados, num trabalho artesanal muito bem feito e bonito, repetido ao longo de centenas de anos. Não faltou nada e o final de semana a bordo do barco prometia ser muito bom.

Como dito no começo, a região de Alleppey é famosa por estas suas águas represadas. Os canais cortam não só a cidade mas diversas partes do estado de Kerala, conectando outras cidades, se misturando a lagos e rios, e servindo como um importante recurso econômico da região como meio de transporte e para a agricultura. A região alagada é tão grande que se perde no horizonte em alguns momentos. Em outros, os canais são artificialmente cercados, protegendo áreas secas de plantação ou onde pequenas vilas são estabelecidas. O único acesso a estes locais é feito através de barcos de todos os tipos.

Toda uma cultura típica se desenvolveu em torno desta formação hidrográfica.  Há barcos que funcionam como ônibus (inclusive escolares), a maioria das casas, escolas, igrejas, templos, etc. costeiam as margens de algum canal, a comida da região é praticamente toda baseada nos peixes e crustáceos locais, diversos festivais ocorrem nos barcos, e uma centenária corrida de barcos ainda ocorre todo ano. Estes últimos, chamados de cobras devido ao seu formato fino e alongado, abrigam até 150 pessoas, e se multiplicam às centenas durante os campeonatos. Até Nehru, o primeiro Primeiro Ministro (sic) da Índia atendeu a um destes eventos em 1957.

Já passava do meio-dia quando partimos. Na cozinha, os dois Indianos responsáveis pela viagem terminavam de preparar o nosso almoço. Que bela surpresa descobrir a culinária de Kerala! Rica em peixes e em pratos à base de leite de coco, seus pratos são bem menos apimentados e mais saborosos que pratos de outras regiões da Índia. Almoçamos, jantamos e tomamos café da manhã no dia seguinte em pleno barco.  Por todos os lados víamos pássaros de todos os tipos, florestas, e pequenas vilas isoladas. Passamos a noite em algum canal da região e fomos presenteados por uma bela tempestade de relâmpagos e trovões. Ali, o espetáculo da natureza estava completo.

Voltamos no dia seguinte recarregados para a próxima parada: a cidade histórica de Kochi.

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Nota Mental

janeiro 12th, 2009 — 3:14am

Nunca, em nenhuma hipótese, realizar uma longa viagem sem levar o laptop. As possibilidades de atrasos entre conexões e paradas em estações de trem/ônibus e aeroportos são muito grandes, proporcionando um estado de tremendo tédio sem um laptop com filmes, jogos, músicas e/ou acesso à Internet.

A propósito, cá estou de volta em Bangalore depois de vários atrasos…

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Exemplo Indiano

dezembro 23rd, 2008 — 8:28am

A Newsweek da semana que passou traz dois exemplos contundentes de um assunto que venho falando aqui recentemente: o contraste da violência na Índia e no Brasil. Em uma das reportagens, ela analisa os protestos pacíficos do povo Indiano após o ataque terrorista à Mumbai, direcionados principalmente ao governo. Até o momento não há sentimento de vingança ou de retaliação ao vizinho paquistão, e não houve escalada de violência. Pelo contrário, o povo clama pela cooperação de ambos os países e cobra do governo mais rigor na prevenção e no combate ao terrorismo.

Em contraste, uma notinha na seção “Periscope” da mesma revista mostra a realidade brasileira: O país possui uma das 5 maiores taxas de assassinato do mundo, atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Venezuela, e Guatemala. O número médio da América Latina (37 assassinatos para 100.000 pessoas) é 17 vezes maior que a média asiática. Segundo a revista, o número assustador de nossa região é devido à formação de gangues e ao crescimento acelerado do tráfico de drogas.

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Um relato de expatriado

dezembro 5th, 2008 — 12:30am

Dei uma entrevista para o blog Expatriados esta semana. Para os interessados, falo um pouco da vida aqui, curiosidades, e problemas. Para quem acessa este blog desde o começo, não há nada de muito novo, trata-se apenas de um resumão do que rolou neste ano e meio de vida aqui em Bangalore.

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Mumbai em Guerra, tudo bem em Bangalore

novembro 28th, 2008 — 1:01am

Foi sem dúvida o pior ataque terrorista recente ocorrido aqui na Índia. Até o momento, a CNN conta mais de 125 mortos e vários feridos. O que contribuiu para o choque foi  a natureza do ataque: desta vez muito mais organizado que os demais, direcionado a estrangeiros em hotéis de luxo, e envolvendo sequestros em massa. Ataques anteriores eram em geral feitos apenas com bombas de pequena escala.

Pedro Dória conta com detalhes o que anda acontecendo e os possíveis desdobramentos em três posts, um na manhã após o início dos ataques na última quarta-feira, um 24 horas depois, e outro agora pela manhã aqui na Índia, depois de mais de 36 horas de violência continuada.Vale a pena a leitura dos comentários de cada um deles também.

Pouco depois de ter chegado aqui ano passado, também escrevi um post no blog do Pedro, contanto como era o cotidiano na Índia mas não falei do terrorismo por desconhecê-lo. Desta vez, na caixa de comentários dele, toquei no assunto e reproduzo-o aqui:

“Os ataques de 2007 foram mínimos em termos de exposição na mídia se comparados com estes de agora, principalmente este de Mumbai.

Ataques terroristas fazem parte da rotina do país desde muito antes do mesmo se tornar país em 1947. Aliás, o próprio movimento de independência foi marcado por muita violência, com a morte de centena de milhares. Em geral, pode-se dizer que a briga é entre extremistas hindus e muçulmanos mas isto explica pouco. Além dos conflitos na Caxemira (por si só um bocado intrincado), há movimentos separatistas dentro da própria Índia (entre povos hindus mesmo), atentados contra católicos, e conflitos no Sri Lanka e na fronteira com Bangladesh e Nepal.

Não é, portanto, o primeiro caso, nem será o último. A Índia sofre de muitos males relacionados a intolerância religiosa e cultural e isto fica evidente até na política. Há, por exemplo, uma fragmentação partidária muito forte no país motivada por interesses de grupos minoritários divergentes. O país está entrando num ciclo vicioso e se engessa cada vez mais.

Entretanto, ainda há problemas sociais muito maiores. A violência por atentados já foi muito maior em anos recentes anteriores. Só a morte causada pelos Maoístas Extremistas chega a 1500 entre 2006 e 2007. Em 2007 foram mais de 2.500 mortes por ataques terroristas e este ano até agora pouco mais de 600. A violência em geral também é baixa se considerarmos o total de habitantes do país.

46.660 foi o número de assassinatos no Brasil em 2006 e 32.719 foi o número Indiano. Se dividirmos isto pelo total da população, temos aprox. 0,23 assassinatos para cada 1000 habitantes no Brasil e ínfimos 0,02 assassinatos para cada 1000 habitantes na Índia. Mesmo se duplicarmos o número Indiano (reconhecidamente subestimado dada a corrupção da polícia), o número por 1000 habitantes continua muito menor.

É claro que o efeito moral destes ataques aqui na Índia são devastadores e é de fato uma atrocidade que espero nunca experimentar. Só que a repercussão praticamente nunca o é e as preucações só são tomadas nos meses imediatamente após o atentado. Este agora ganha tanta exposição por conta dos alvos visados – turistas americanos e ingleses.

Um outro número, entretanto, serve de exemplo para problemas que são muito maiores aqui: Mais de 100.000 pessoas morreram e cerca de 2 milhões ficaram seriamente feridas em 2006 por conta de acidentes de trânsito. A Índia encabeça a lista de mortes no trânsito, a frente até da China.”

 

Enquanto Mumbai sofre, aqui em Bangalore, tudo bem. Nenhum dos meus amigos que moram por lá se feriram também – nem estavam perto. Como de praxe, entretanto, a segurança foi reforçada em todos os locais. Sempre ocorre da mesma forma após um ataque. E uma semana depois tudo volta ao normal, como se nada tivesse acontecido. Ontem fui praticamente impedido de sair do Instituto e os mesmos seguranças que me conhecem desde 2007 me pararam para revistar minha bolsa. Tive que fazer graça da coisa toda e eles, que bom, também caíram na gargalhada.

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Chegando em Kerala, litoral sudoeste da Índia

novembro 7th, 2008 — 10:53pm
Esta é a parte 1 de 2 da série Estado de Kerala, Índia

O governo do estado de Kerala, no litoral sudoeste da Índia, se define assim: “God’s own country” (literalmente, “O próprio país de Deus” ou simplesmente “paraíso de Deus”), uma referência às belezas naturais e à riqueza cultural da região. Mas há muitas inconsistências nesta definição. Embora os indicadores sociais do estado sejam um dos melhores da Índia, a região também sofre com os males da pobreza e das diferenças religiosas. Paraíso de Deus? Primeiro é preciso determinar a qual deus o slogan se refere já que além do hinduísmo, catolicismo, islamismo e até mesmo judaísmo possuem influências históricas por lá.

Bem vindo à Kerala
Bem vindo à Kerala. Placa em má conservação na divisa do estado dá uma idéia da qualidade da rodovia

Estive em Kerala em maio mas só agora encontro tempo para contar o passeio, minha primeira viagem no sul da Índia. Como tudo foi decidido em cima da hora, não tivemos outra opção senão alugar um carro. No total, foram 5 dias entre os vários destinos visitados e uma experiência muito boa. O estado pode não ser um paraíso mas não deixa de ter seus encantos e uma identidade própria forte e marcante. Danças, festivais, culinária, e artesanato típicos se misturam às influências européias e ao único regime estadual de extrema esquerda da Índia, tornando Kerala um caldeirão cultural, como toda Índia, mas com tempero exclusivo.

Neste post conto como foram as viagens de ida e volta ao estado, partindo de Bangalore. Nos próximos dois, conto respectivamente como foram as paradas em Alleppey e Cochin, as principais cidades que visitamos.

Estrada na Índia é sinônimo de estresse. À noite então tudo fica ainda pior. A menos que você esteja no trajeto entre duas grandes cidades, as chances são grandes de a rodovia ser praticamente toda esburacada, sem nenhuma sinalização, e com um trânsito de ônibus e caminhões ensandecidos de fazer qualquer um considerar as rodovias brasileiras perfeitas. O trajeto de Bangalore até Cochin possui cerca de 540 km. Só que demora umas 14 horas… Fez as contas? Isto mesmo, a média de velocidade é 40 km/h!!!

Menino vendendo repolhos
Menino vendendo repolhos

O que compensa são as atrações da beira da estrada. Ao cruzar as divisas de estados, por exemplo, vendedores ambulantes tentam atrair nossa atenção com macacos e cobras. Fomos obrigados a fechar o vidro pois tenho certeza que um daqueles macacos safados iria entrar no carro e roubar alguma coisa. Além disto, os ônibus e caminhões são uma alegoria interminável de velharias coloridas e iluminadas. Em geral, eles não passam de um latão quadrado com rodas e, no caso dos ônibus, estão sempre lotados, com gente até no teto. E as ultrapassagens dão emoção à viagem. Perdi a conta do número de vezes que nosso motorista foi obrigado a parar no acostamento por conta de um caminhão tentando passar outro ao mesmo tempo em que um carro ultrapassava os dois. Ah! E claro, o pneu furou! O pneu sempre fura nestas viagens. Já vi carro aqui com dois pneus sobressalentes porque às vezes o segundo pneu fura antes de encontrarmos uma borracharia para consertar o primeiro.

Na volta, entretanto, não tivemos tantos problemas. Ao contrário, passamos o dia inteiro, mais que as 14 horas da ida, aproveitando as belezas da nova rota escolhida, parando aqui e ali para fotos. É que escolhemos uma estrada menos freqüentada, recomendação de amigos, mas que corta um dos melhores e mais bem cuidados parques nacionais da Índia, o Nagarhole. A rota também passa por uma região muito bonita de Kerala chamada Wayanad, ponto turístico para quem gosta de trekking e demais atividades em contato com a natureza.

Por lá vimos macacos, veados, e elefantes selvagens. Há tigres na região também mas para vê-los é preciso se embrenhar floresta a dentro. Foi de fato um trajeto muito bonito, com algumas paisagens de tirar o fôlego (para quem conhece, a subida da serra lembra muito o trajeto Vitória à Pedra Azul) e muito menos trânsito. Ali estava um pedacinho de paraíso.

Subindo a serra
Subindo a serra

Finalmente, pouco antes de chegarmos à Bangalore. Ainda paramos em Mysore para contemplarmos o seu belíssimo palácio construído em 1912 para abrigar a então família real da região. Uma pena que já era noite quando chegamos e não pudemos entrar naquele dia. Mysore tem muitas outras atrações e certamente será assunto aqui no blog no futuro.

Palácio de Mysore
Palácio de Mysore

No próximo post, Alleppey e suas famosas águas represadas.

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Feliz Diwali!!

outubro 28th, 2008 — 12:27pm

Diwali é um festival difícil de explicar. Até para os indianos. Por isto mesmo ele é comumente sintetizado como a Festa das Luzes. O significado metafórico é o da iluminação da alma e da mente, para que todo mal e ignorância sejam banidos. Na prática isto se traduz em muitas luzes, fogos de artifício e barulho. O tempo todo. Por toda Índia.

Este ano a festa começou domingo e vai até amanhã. Varia porque as datas seguem um calendário lunar. A tradição é soltar fogos. Funciona quase como um ano novo prolongado e de fato a data marca o ano novo de acordo com o calendário Vikrama, usado na Índia e oficial no Nepal.

Mas o Diwali significa mais. Para muitos indianos, principalmente no norte, a data marca o retorno vitorioso de Rama após a batalha com Ravana, o demônio que seqüestrou sua mulher. Rama é uma divindade popular na Índia e representa um modelo de razão, virtudes, e atitudes corretas.

Além de outros significados, Diwali também é festejado em outras religiões como Jainismo, Sikhismo, e Budismo e em outros países, como Nepal. Com tantos significados, Diwali une os povos e se torna uma festa alegre e feliz – para todos! Portanto, Feliz Diwali Pessoal!

Diwali
Imagem recebida por e-mail de um amigo Indiano

PS: Mais informações (em inglês) aqui

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Conversa no Táxi

outubro 23rd, 2008 — 4:39am

Se num táxi/riquixá o motorista possuir um mínimo de conhecimento de Inglês, uma típica conversa durante o trajeto acontece assim quando você é ou aparenta ser um turista estrangeiro:

- Olá senhor, tudo bem? Vai para onde?
- Tudo! Vou para XYZ, por favor.

(Alguns minutos de silêncio depois)

- Senhor, você é de que país?
- Brasil.
- “Brésiu”? Onde fica este “Brésiu”?
- Fica na América do Sul. Brasil! Futebol, Ronaldinho, Samba…
- América! Ah! Já tive muitos passageiros dos EUA. De que estad…
- Não, Brasil é o país, fica na América do Sul!
- Ah! Muito bom! Muito bom! – Responde fingindo entender. Em geral, você pode falar que é de praticamente qualquer país que eles vão pretender conhecê-lo sorrindo, tentando serem simpáticos. Certa vez respondi que era da África do Sul e que o país ficava ao sul da Alemanha. O sujeito achou que eu era europeu, claro. – E o que você faz aqui na Índia?
- Faço um mestrado aqui.
- O que? – Ele não entende a palavra mestrado. Não dá para ser nem um pouco específico nestas conversas e as frases precisam ser lacônicas:
- Estudo! Estudo!
- Ah! Entendi. Estudo. Aonde?
- No IIIT-B. Electronic City.
- E você ganha alguma coisa? – É incrível a necessidade deles de saber quanto você ganha. Esta é sempre uma das primeiras perguntas num encontro como este. Normalmente eu desvio do assunto e pergunto a ele algo:
- E você é de onde?
- Sou de Umlugaraípuram (ou Seilápur). – Responde fazendo questão de ser bem específico quanto a sua cidade de origem.
- Bacana! – Finjo saber de onde ele é.

(Mais alguns minutos de silêncio, agora quase chegando ao destino)

- Senhor, seu nome é? – Curiosamente, o nome só costuma ser perguntado depois.
- Ri-car-do. – Digo pausadamente.
- “Richardo”?
- Isso, “Richardo” (outra variação comum é “Ricado” sem o erre).
- “Richardo”, aqui o meu cartão – Recebo seu cartão de visitas com um sorriso largo, como se nos conhecêssemos há vários dias. – Me liga da próxima vez que for sair, ok?
- Pode deixar! – Respondo colocando o cartão no bolso, ao lado de vários outros colecionados ao longo do tempo aqui. – Até logo.
- Obrigado senhor

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Aniversário de Gandhi e um esclarecimento sobre a independência da Índia

setembro 26th, 2008 — 10:37am

Na próxima quinta-feira, dia 2 de Outubro, Mahatma Gandhi estaria completando 139 anos. Aproveitando a data, quero esclarecer um momento delicado da história Indiana e que contou com a participação direta deste ser humano iluminado. Trata-se do período de transição do governo, durante a independência do país, nas décadas de 30 e 40.

Ao contrário do que li em um dos blogs em português mais antigos sobre a Índia, Gandhi não foi o “o culpado pela divisão da Índia em Hindustão e Paquistão.” Tão pouco foi ele “quem aceitou dividir o território Indiano e assim acabou por causar uma guerra civil entre hindus e muçulmanos onde centenas morreram.” Ao contrário, é graças ao trabalho de Gandhi e daqueles que acreditavam em seu ideal que o país não se fragmentou por completo, fazendo com que países surgissem onde antes já existiam principados relativamente autônomos mas que se sujeitavam ao domínio inglês.

Gandhi era a favor da união de toda Índia, e era abertamente a favor do entendimento entre hindus e mulçumanos. Em uma de suas frases mais citadas, ele afirmava que “liberdade é para toda Índia e não para o congresso”, clamando para que diferenças fossem postas de lado na formação do congresso. Em toda sua vida, Gandhi foi defensor voraz da paz através dos princípios da não-violência e da não-cooperação. Era com eles que Gandhi lutava para que todos os povos da Índia vivessem em harmonia, cooperando uns com os outros para uma Índia forte e unida.

Por que então tantos conflitos surgiram, resultando na divisão do país e conseqüente formação do Paquistão? São três causas que se inter-relacionam: Primeiro, as lideranças do congresso subestimaram a importância de Muhammad Ali Jinnah, líder da Liga Mulçumana (um partido Indiano) e primeiro Governador-General do Paquistão, e dos mulçumanos no país, relevando para o segundo plano seus interesses. Isto obviamente reforçou a impressão de que o país seria governado para os hindus apenas. Segundo, Jinnah também tem uma grande parcela de culpa ao liderar o movimento separatista a qualquer preço, independente das perdas humanas. Jinnah tinha uma ambição pessoal que se sobrepunha a qualquer outro interesse. Por último, como não podia deixar de ser, os Ingleses também contribuíram muito para a separação e, pior, fizeram questão disto. Para os Ingleses as animosidades entre hindus e mulçumanos era bem vinda já que enfraquecia o movimento de independência e a soberania da região.

Gandhi, uma das figuras mais emblemáticas no governo, infelizmente também tem sua parcela de culpa. Embora não tenha sido O culpado e tão pouco tenha agido intencionalmente em prol da separação, suas ações para que todos os povos da Índia vivessem em harmonia subestimaram os interesses mulçumanos e, paradoxalmente, geraram divergências. É que Gandhi trouxe à tona sentimentos de ódio e vingança que antes eram suprimidos pelo convívio de gerações. Ele sonhava que a paz seria absoluta se estes mesmos sentimentos se extinguissem: Ao trazê-los à tona, ele esperava que o outro lado os compreendesse e os respeitasse por completo. A realidade se mostrou muito mais bruta.

Gandhi foi assassinado no dia 30 de Janeiro de 1948 por um Indiano hindu.  Pior, o assassino, Nathuram Godse, era um Brahmin, classe de educadores e sacerdotes do hinduísmo. Sentenciado à morte, seu discurso foi assustador: “As atitudes de Gandhi em favor dos mulçumanos eram constantes e consistentes, culminando em seu último jejum pró-mulçumano, o que me incitou a concluir que Gandhi deveria deixar de existir imediatamente.” Tal motivação existe até hoje e é principalmente por estas pessoas que Gandhi é odiado. São os mesmos hindus fundamentalistas que massacram ou apóiam massacres não só a mulçumanos mas também a demais minorias religiosas que tentam viver em paz neste país tão intricado e diverso.

O legado de Gandhi é referência até hoje no mundo todo. Capa de muitas revistas, objeto de estudos, livros e filmes, referência certa em muitos discursos políticos, nome de rua em muitas cidades (as famosas M.G. Road aqui na Índia em referência as suas iniciais), homenagem em estátuas, nas cédulas Indianas, e em museus e memoriais, e notável ausência dentre os vencedores do Nobel da Paz, Gandhi merece mesmo ser celebrado e lembrado! Não é por acaso, portanto, que um dos três únicos feriados nacionais da Índia é em homenagem a ele.

Para os interessados, recomendo o artigo e as referências disponíveis na Enciclopédia Britannica, além da leitura dos livros:

Fecho este post com um poema raro, que não encontrei na íntegra em nenhum site da Internet. Seu autor é Venibhai Purohit (1918-1981), poeta de Gujarat, estado no oeste Indiano onde Gandhi nasceu. Este poema é exibido em seu memorial em Delhi e é citado como um de seus favoritos: Era declamado por ele toda manhã antes de iniciar suas atividades quase como um mantra.

Whether weary or unweary, O Man, do not rest
Do not cease your single-handed struggle.
Go on, and do not rest,

You will follow confused and tangled pathways,
And you will save only a few, sorrowful lives.
O Man, do not lose faith, do not rest.

Your own life will be exhausting and crippling,
And there will be growing dangers on the journey.
O Man, bear all these burdens, do not rest.

Leap over your troubles though they are high as mountains,
And though there are only dry and harren fields beyond.
O Man, till those fields, do not rest.

The world will be dark and you shall shed light on it,
And you shall dispel all the darkness around.
O Man, though life deserts you, do not rest.

O Man, take no rest for thyself,
O Man, give rest unto others.

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