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Em Kerala, conhecendo Alappuzha

fevereiro 2nd, 2009 — 6:21am
Esta é a parte 2 de 2 da série Estado de Kerala, Índia

Alleppey ou em seu nome indiano, Alappuzha, fica no litoral sul do estado de Kerala, o que significa estar localizada no extremo sudoeste do país. A viagem até lá passa por Kochi, a maior cidade do estado, e segue margeando o litoral. De Kochi são aproximadamente 2 horas de viagem carro e belas vistas do mar e de águas represadas características da região. Alleppey é famosa por elas.

A chegada, entretanto, não impressiona muito. Principalmente se você ouvir antes de algum indiano orgulhoso que Alleppey é a Veneza do Oriente, título atribuído pelo lorde Inglês George Curzon. Nunca fui a Veneza mas sei o suficiente para afirmar aqui que, excetuando-se os canais que cortam a cidade, as duas cidades não parecem possuir nenhuma outra similaridade. Alleppey em muitos aspectos se parece na verdade com qualquer outra cidade indiana pequena: casas simples e com aparência de pouco cuidado, ruas de terra batida, muitos carros e riquixás, muita gente nas ruas, e muita sujeira. Os canais dentro da cidade, aliás, mais parecem esgotos correndo a céu aberto.

Só que não íamos exatamente ficar em Allepey. E na medida em que íamos nos afastando da cidade, mais a paisagem mudava; e para melhor. Ainda nos arredores da cidade, íamos nos enfiando em ruas cada vez menores. As casas, um misto de arquitetura hindu e ocidental, ficavam cada vez mais charmosas, e a vegetação nos avisava que a Índia urbana e caótica estava ficando para trás. Finalmente, entramos numa rua onde apenas o nosso carro, com os retrovisores dobrados, passava. Dois muros altos impossibilitavam até que saíssemos dali. Não tínhamos alternativa senão seguirmos em frente, cercados pelos paredões intermináveis, na rua agora de lama e esburacada.

Até que finalmente chegamos ao nosso destino! Um imenso rio se mostrava imponente a nossa frente; Do outro lado, uma típica vegetação tropical encerrava por completo qualquer traço de civilização; E no rio, um barco-casa tipicamente denominado de Kettuvallam nos recebia de portas abertas. O danado era muito grande, com um quarto com ar condicionado, um banheiro completo, cozinha, sala e varanda! Tudo feito de cascos de madeira trançados, num trabalho artesanal muito bem feito e bonito, repetido ao longo de centenas de anos. Não faltou nada e o final de semana a bordo do barco prometia ser muito bom.

Como dito no começo, a região de Alleppey é famosa por estas suas águas represadas. Os canais cortam não só a cidade mas diversas partes do estado de Kerala, conectando outras cidades, se misturando a lagos e rios, e servindo como um importante recurso econômico da região como meio de transporte e para a agricultura. A região alagada é tão grande que se perde no horizonte em alguns momentos. Em outros, os canais são artificialmente cercados, protegendo áreas secas de plantação ou onde pequenas vilas são estabelecidas. O único acesso a estes locais é feito através de barcos de todos os tipos.

Toda uma cultura típica se desenvolveu em torno desta formação hidrográfica.  Há barcos que funcionam como ônibus (inclusive escolares), a maioria das casas, escolas, igrejas, templos, etc. costeiam as margens de algum canal, a comida da região é praticamente toda baseada nos peixes e crustáceos locais, diversos festivais ocorrem nos barcos, e uma centenária corrida de barcos ainda ocorre todo ano. Estes últimos, chamados de cobras devido ao seu formato fino e alongado, abrigam até 150 pessoas, e se multiplicam às centenas durante os campeonatos. Até Nehru, o primeiro Primeiro Ministro (sic) da Índia atendeu a um destes eventos em 1957.

Já passava do meio-dia quando partimos. Na cozinha, os dois Indianos responsáveis pela viagem terminavam de preparar o nosso almoço. Que bela surpresa descobrir a culinária de Kerala! Rica em peixes e em pratos à base de leite de coco, seus pratos são bem menos apimentados e mais saborosos que pratos de outras regiões da Índia. Almoçamos, jantamos e tomamos café da manhã no dia seguinte em pleno barco.  Por todos os lados víamos pássaros de todos os tipos, florestas, e pequenas vilas isoladas. Passamos a noite em algum canal da região e fomos presenteados por uma bela tempestade de relâmpagos e trovões. Ali, o espetáculo da natureza estava completo.

Voltamos no dia seguinte recarregados para a próxima parada: a cidade histórica de Kochi.

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Índia: Choque cultural

julho 31st, 2007 — 2:39pm

Chegar à Índia pela primeira vez sozinho e de madrugada pode não ser a melhor das experiências. Primeiro que o acesso aos aeroportos aqui é restrito às pessoas que possuem passagem aérea, assim, quem desembarca é obrigado primeiro a sair do aeroporto se quiser ou precisar entrar novamente.

Foi este o meu caso. Em Mumbai o aeroporto doméstico é separado do Internacional. Já sabia que teria que encarar um táxi na madrugada para trocar de aeroporto. O que eu não sabia é que seria abordado por um funcionário (pelo menos estava vestido como tal) com a informação de que havia uma ameaça de bomba no aeroporto doméstico e que o mesmo estava fechado.

É claro que desconfiei e perguntei a outras pessoas que também confirmaram a informação. Fui então para o hotel indicado pelo funcionário, paguei US$ 100 mas pude pelo menos tomar um bom banho e descansar um pouco. Não sei se fui vítima de um golpe pois li na internet que ele existe no aeroporto de Mumbai; se foi o caso, o golpe é muito bem aplicado.

3 horas depois já estava novamente no microônibus do hotel rumo ao aeroporto doméstico. No caminho, agora durante o dia, pude perceber a pobreza que já é nossa conhecida nas periferias das grandes cidades brasileiras. Nada a reclamar ou elogiar por enquanto, estou apenas registrando constatações.

Sem mais problemas, embarquei para Bangalore, minha cidade destino. Lá, a primeira surpresa foi agradável. A temperatura aqui é muito boa, fica sempre entre 20 e 30 graus, ao contrário de Mumbai onde o calor e a umidade na madrugada já eram insuportáveis (quem foi a Manaus conhece bem a sensação).

Fui bem recebido por um funcionário do Instituto que me transportou direto para meu apartamento. O local é distante do centro da cidade e do aeroporto. O trajeto, portanto, me permitiu conhecer um pouco da cidade. É visível que a mesma está vivendo um processo de modernização. O contraste da sujeira e do caos no trânsito com as avenidas largas em construção e prédios suntuosos é nítido e um pouco assustador. Parecem que aos poucos modernidade começa a brotar aqui e ali, diante de tamanha desorganização.

A outra agradável surpresa veio quando entrei no distrito onde fica o Instituto. Ele é chamado de Electronics City (Cidade Eletrônica) e é basicamente uma região de indústrias de software. Todo o local é arborizado, limpo e repleto de grandes empresas (no caminho vi prédios da HP, Siemes, Wipro e Infosys). O Instituto, claro, não podia ser diferente: excelente infra-estrutura e excelentes professores.

Passados dois dias aqui, o que ainda realmente me incomoda são a comida e o inglês de alguns indianos. A primeira, para mim, é muito (mas muito mesmo) apimentada e desprovida de qualquer outro sabor. É sempre uma variação de um caldo vegetariano com o mesmo tempero e alguns acompanhamentos, principalmente arroz e uma espécie de panqueca sem recheio.

Já o idioma muitas vezes é uma mistura de alguma das outras 16 línguas faladas na Índia (ou seus inúmeros dialetos) com um inglês quase impronunciável. É o caso, claro, principalmente daqueles que tiveram menos acesso a educação de qualidade como os seguranças e alguns funcionários.

Tirando estas primeiras impressões, ainda posso falar pouco. Tive apenas uma aula ontem e ainda estou conhecendo as pessoas. Já conheci um outro estudante estrangeiro (um sueco) que é bacana mas que também está se adaptando a todo este choque cultural que a Índia proporciona.

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