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O hinduísmo e o tratamento dado a clientes e turistas na Índia

abril 8th, 2009 — 1:04pm

Muito da cultura e da conduta dos Indianos é fundamentada nos ensinamentos do Hinduísmo, passados de geração em geração, e que deram origem aos Vedas [en]. Os Vedas são uma das primeiras formas de literatura em sânscrito, estão entre os textos sagrados mais antigos (algo entre 1500 AC e 500 AC), e certamente são os mais antigos do Hinduísmo. Os textos formam volumes extensos de livros e tratam das divindades e seus diversos aspectos, práticas religiosas, lendas, e tradições da época. Muitos defendem que o hinduísmo não é uma religião na definição atribuída ao Catolicismo, Islamismo, e Judaísmo, as três maiores e mais influentes religiões monoteístas. E de fato, o hinduísmo é muito mais governado por códigos de conduta (tendo as divindades como exemplos) do que pela adoração a um deus onipotente e onipresente.

Neste sentido, faz parte desta tradição o respeito aos hóspedes ou clientes. No Taittiriya Upanishad, um dos mais antigos Upanishad (escrituras Hindus do Vedanta [en], uma reinterpretação dos Vedas), um verso [en] em particular trata do respeito à família e aos hóspedes: “Matru devo bhava, Pitru devo bhava, Acharya devo bhava, Atithi devo bhava” (tradução literal minha, do Inglês: Uma pessoa deve respeitar Mãe, Pai, Professor, e Hóspedes como respeitam Deus).  “Atithi” significa literalmente hóspede (“um visitante que não possui data fixa de chegada ou partida” já que o termo “hóspede” não existia) e “devo” significa deus em sânscrito.

De fato, nos círculos familiares é impressionante o respeito e o cuidado com que os Indianos tratam uns aos outros. Fora destes, entretanto, a falta de educação impera: Não há respeito à propriedade pública nem às pessoas desconhecidas, principalmente estrangeiras. Ao contrário, o que mais se vê são abusos de todos os tipos contra os turistas. Ciente deste problema, o governo Indiano lançou uma campanha em 2005, intitulada “Atithi Devo Bhavah” [en], para incrementar o turismo no país e melhorar a sua imagem com os visitantes (ou “hóspedes” e “clientes” de seu país).

Segundo a campanha, a Índia recebeu 3,3 milhões de turistas estrangeiros em 2004 enquanto Singapura, Tailândia e Malásia receberam respectivamente 6,6, 9,6 e 11,5 milhões de turistas no mesmo ano. Para o governo, a Índia perdeu o senso de hospitalidade pelo qual sempre foi famosa e a campanha tenta reverter este quadro, alertando a sociedade para que sejam mais respeitosos, íntegros, amigáveis e honestos com os turistas. E para mostrar que não está brincando, recentemente o governo convocou um dos atores mais famosos e carismáticos da Índia, Aamir Khan, para ser embaixador da campanha [en].

Entretanto, se os números de 2006 [pdf en] e a minha experiência aqui na Índia até o momento servem de indicativo, os resultados não têm sido tão expressivos assim como o governo gostaria.  Naquele ano a Índia recebeu 4,4 milhões de turistas, um aumento de 33% em relação a 2004. Em comparação, Singapura, Tailândia e Malásia receberam em 2006 respectivamente 7,6, 13,9, e 17,5 milhões de turistas. Um aumento de 15%, 44% e 52% respectivamente. Apenas Singapura teve um crescimento menor. A distância entre as intenções do governo e a atitude do povo Indiano ainda continua muito grande.

Até mesmo Gandhi falava disto desde o século XIX e hoje uma de suas frases estampa quadros em agências bancárias [en], hotéis, e outros tipos de estabelecimentos, quase como um objeto de arte ficcional já que a realidade ainda é bem diferente. Dizia ele num discurso em 1890 (embora muitos sites, inclusive do governo Indiano, atribuam este texto à Gandhi, a fonte não pôde ser comprovada):

“A customer is the most important visitor on our premises. He is not dependent on us. We are dependent on him. He is not an interruption of our work. He is the purpose of it. He is not an outsider to our business. He is part of it. We are not doing him a favour by serving him. He is doing us a favour by giving us the opportunity to do so.”

Tradução livre minha:

“Um cliente é o mais importante visitante em nossas premissas. Ele não é dependente de nós. Nós somos dependentes dele. Ele não é uma interrupção de nosso trabalho. Ele é o propósito dele. Ele não é um intruso nos nossos negócios. Ele é parte dele. Nós não estamos fazendo um favor ao servi-lo. Ele está nos fazendo um favor ao nos dar a oportunidade para tal.”

É uma pena pois o potencial turístico da Índia é enorme [en] mas muitos ainda não se dão conta disto. Eles continuam tentando explorar os turistas (e clientes de todas as formas e de maneira geral) como se todas as pessoas de fora de seus respectivos círculos familiares fossem enormes carteiras de dinheiro ambulantes.

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Aniversário de Gandhi e um esclarecimento sobre a independência da Índia

setembro 26th, 2008 — 10:37am

Na próxima quinta-feira, dia 2 de Outubro, Mahatma Gandhi estaria completando 139 anos. Aproveitando a data, quero esclarecer um momento delicado da história Indiana e que contou com a participação direta deste ser humano iluminado. Trata-se do período de transição do governo, durante a independência do país, nas décadas de 30 e 40.

Ao contrário do que li em um dos blogs em português mais antigos sobre a Índia, Gandhi não foi o “o culpado pela divisão da Índia em Hindustão e Paquistão.” Tão pouco foi ele “quem aceitou dividir o território Indiano e assim acabou por causar uma guerra civil entre hindus e muçulmanos onde centenas morreram.” Ao contrário, é graças ao trabalho de Gandhi e daqueles que acreditavam em seu ideal que o país não se fragmentou por completo, fazendo com que países surgissem onde antes já existiam principados relativamente autônomos mas que se sujeitavam ao domínio inglês.

Gandhi era a favor da união de toda Índia, e era abertamente a favor do entendimento entre hindus e mulçumanos. Em uma de suas frases mais citadas, ele afirmava que “liberdade é para toda Índia e não para o congresso”, clamando para que diferenças fossem postas de lado na formação do congresso. Em toda sua vida, Gandhi foi defensor voraz da paz através dos princípios da não-violência e da não-cooperação. Era com eles que Gandhi lutava para que todos os povos da Índia vivessem em harmonia, cooperando uns com os outros para uma Índia forte e unida.

Por que então tantos conflitos surgiram, resultando na divisão do país e conseqüente formação do Paquistão? São três causas que se inter-relacionam: Primeiro, as lideranças do congresso subestimaram a importância de Muhammad Ali Jinnah, líder da Liga Mulçumana (um partido Indiano) e primeiro Governador-General do Paquistão, e dos mulçumanos no país, relevando para o segundo plano seus interesses. Isto obviamente reforçou a impressão de que o país seria governado para os hindus apenas. Segundo, Jinnah também tem uma grande parcela de culpa ao liderar o movimento separatista a qualquer preço, independente das perdas humanas. Jinnah tinha uma ambição pessoal que se sobrepunha a qualquer outro interesse. Por último, como não podia deixar de ser, os Ingleses também contribuíram muito para a separação e, pior, fizeram questão disto. Para os Ingleses as animosidades entre hindus e mulçumanos era bem vinda já que enfraquecia o movimento de independência e a soberania da região.

Gandhi, uma das figuras mais emblemáticas no governo, infelizmente também tem sua parcela de culpa. Embora não tenha sido O culpado e tão pouco tenha agido intencionalmente em prol da separação, suas ações para que todos os povos da Índia vivessem em harmonia subestimaram os interesses mulçumanos e, paradoxalmente, geraram divergências. É que Gandhi trouxe à tona sentimentos de ódio e vingança que antes eram suprimidos pelo convívio de gerações. Ele sonhava que a paz seria absoluta se estes mesmos sentimentos se extinguissem: Ao trazê-los à tona, ele esperava que o outro lado os compreendesse e os respeitasse por completo. A realidade se mostrou muito mais bruta.

Gandhi foi assassinado no dia 30 de Janeiro de 1948 por um Indiano hindu.  Pior, o assassino, Nathuram Godse, era um Brahmin, classe de educadores e sacerdotes do hinduísmo. Sentenciado à morte, seu discurso foi assustador: “As atitudes de Gandhi em favor dos mulçumanos eram constantes e consistentes, culminando em seu último jejum pró-mulçumano, o que me incitou a concluir que Gandhi deveria deixar de existir imediatamente.” Tal motivação existe até hoje e é principalmente por estas pessoas que Gandhi é odiado. São os mesmos hindus fundamentalistas que massacram ou apóiam massacres não só a mulçumanos mas também a demais minorias religiosas que tentam viver em paz neste país tão intricado e diverso.

O legado de Gandhi é referência até hoje no mundo todo. Capa de muitas revistas, objeto de estudos, livros e filmes, referência certa em muitos discursos políticos, nome de rua em muitas cidades (as famosas M.G. Road aqui na Índia em referência as suas iniciais), homenagem em estátuas, nas cédulas Indianas, e em museus e memoriais, e notável ausência dentre os vencedores do Nobel da Paz, Gandhi merece mesmo ser celebrado e lembrado! Não é por acaso, portanto, que um dos três únicos feriados nacionais da Índia é em homenagem a ele.

Para os interessados, recomendo o artigo e as referências disponíveis na Enciclopédia Britannica, além da leitura dos livros:

Fecho este post com um poema raro, que não encontrei na íntegra em nenhum site da Internet. Seu autor é Venibhai Purohit (1918-1981), poeta de Gujarat, estado no oeste Indiano onde Gandhi nasceu. Este poema é exibido em seu memorial em Delhi e é citado como um de seus favoritos: Era declamado por ele toda manhã antes de iniciar suas atividades quase como um mantra.

Whether weary or unweary, O Man, do not rest
Do not cease your single-handed struggle.
Go on, and do not rest,

You will follow confused and tangled pathways,
And you will save only a few, sorrowful lives.
O Man, do not lose faith, do not rest.

Your own life will be exhausting and crippling,
And there will be growing dangers on the journey.
O Man, bear all these burdens, do not rest.

Leap over your troubles though they are high as mountains,
And though there are only dry and harren fields beyond.
O Man, till those fields, do not rest.

The world will be dark and you shall shed light on it,
And you shall dispel all the darkness around.
O Man, though life deserts you, do not rest.

O Man, take no rest for thyself,
O Man, give rest unto others.

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