De corrupção, exemplos pontuais, e dados manipulados
Este final de semana tive uma longa e interessante discussão sobre, dentre outros assuntos, política. Mais especificamente a política brasileira atual. Foi uma boa conversa mas o resultado, pelo menos neste tópico, não me surpreendeu. Em geral, quando o assunto é política, entro numa roda com este tópico e as opiniões já estão formadas e as defesas preparadas. Mas não quero entrar no mérito deste comportamento. O objetivo aqui é expor três dos argumentos que considero mais comuns e a problemática de suas utilizações.
Começo pela corrupção e a crítica de que o governo atual é corrupto. Quem a faz parece esquecer-se que a corrupção faz parte de todas as sociedades, desde pelo menos Platão. Existe no mundo todo, mesmo entre países ricos e desenvolvidos, entre setores públicos e privados, e entre governos de direita e de esquerda. Além do mais, é difícil dizer se o Brasil é mais ou menos corrupto que outros países. Esta é uma medição tão difícil que até mesmo a organização Transparência Internacional parou de atualizar o seu Índice de Percepção da Corrupção. Por ser tão ubíqua, a corrupção não é, para mim, argumento para criticar ou elogiar um governo.
Não estou dizendo que devemos aceitá-la. Corrupção se previne, combate e pune, claro. Mas mesmo assim ela continuará existindo. Em Teoria de Jogos, a corrupção ocorre, por exemplo, quando os agentes (ou jogadores) conseguem burlar os mecanismos de um jogo e lucrar mais assim. Num jogo cujo objetivo é puramente maximizar os lucros, os jogadores sempre tentarão tomar ações com este objetivo em mente; e se for possível fazê-lo roubando ou mentindo, pouco importa. Na República de Platão (III, 361d), Glauco já se referia a tais possibilidades ao dizer que "não se deve querer ser justo, mas parecê-lo". Glauco também cita a garantia de impunidade como uma das origens da corrupção.
Por isto as teorias se desenvolveram ao longo da história prevendo mecanismos de controle e de outros incentivos que não apenas o lucro. O objetivo era evitar, por exemplo, situações do tipo encontrado em jogos de soma zero, onde para um ganhar o outro tem que perder. Infelizmente, como bem diz o vencedor do Nobel de Economia, Douglass North (1990, p. 108), "(...) até nos casos onde o framework institucional contribui para capturar mais ganhos com comércio em relação a frameworks passados, ainda assim vão existir incentivos para trapaças, passageiros clandestinos, etc. que contribuirão para as imperfeições do mercado. Dadas as características comportamentais dos seres humanos, simplesmente não há nenhuma forma de se elaborar instituições capazes de resolver os complexos problemas inerentes às transações e ao mesmo tempo se ver livre de incentivos incompatíveis."
Assim, não é porque uma organização se envolveu numa atividade ilícita ou que alguns de seus integrantes sejam corruptos que todas as suas qualidades devem ser descartadas. Para trazer um exemplo prático citado na conversa com meus amigos, a Petrobras foi acusada por um deles de realizar despejo programado de lixo de maneira irregular no mar. Ora, ela faz isto porque, voltando à teoria de jogos, ela "ganha" mais assim. Fosse outra empresa, pública ou privada, a história provavelmente seria a mesma. O desmatamento da Amazônia, o despejo de lixo no mar e em rios, a caça e pesca indiscriminada, dentre outros exemplos de violência ao meio-ambiente são cometidos por pessoas físicas e jurídicas de todos os tipos, no Brasil e no mundo inteiro. A Vale, para citar um exemplo de grande empresa privada brasileira, não é nenhuma santa também. Utilizar este argumento para invalidar todas as conquistas da Petrobrás é uma falácia lógica. Uma muito comum, aliás, de "prova por exemplo". No exemplo aqui exposto, tal argumento só pode ser utilizado para afirmar que existe alguém na Petrobrás que age contra as leis ambientais. E, assim, não digo que esta pessoa está certa, pelo contrário, acho tal denúncia séria, deve ser investigada e o(s) envolvido(s) punido(s) para que, aí sim, o trabalho da empresa seja cada vez mais transparente e dentro das leis.
Desta maneira, quando defendo o trabalho e as conquistas do atual governo, não estou citando alguns exemplos isolados ou afirmando a incorruptibilidade do mesmo. E não é também uma defesa ideológica. Refiro-me a dados comparativos e a fatos. Mas daí, quando começo a falar deles, ouço que estatísticas podem ser manipuladas. Ora! Que conveniente, não é mesmo? Agora, quando os números não interessam é porque foram mascarados. Os números do Banco Mundial, da OECD e de órgãos brasileiros de medição que existem desde antes da nossa atual democracia, todos eles agora mascaram números, aparentemente só porque favorecem o atual governo de um único país. Em outras palavras, afirmar manipulação estatística é afirmar que todos os governos anteriores foram idôneos em relação às medições de seus indicadores e o governo atual foi o único a manipular os números para que houvessem as atuais quebras de recordes em séries históricas. Se não esta afirmação, ou seja, se houve manipulação em anos anteriores, o governo atual manipulou tanto a mais assim? Tal distorção não seria percebida pela oposição e imprensa, tão ávidas em refutar as conquistas deste governo?
Estes três argumentos, o da corrupção, o de exemplos isolados e o da manipulação estatística, para justificar uma suposta má qualidade da gestão do governo Lula são fracos. E mais interessante, irônico até, é que os mesmos poderiam facilmente ser aplicados a qualquer um dos lados. Fosse um governo liberal, de direita, que por ventura tivesse tido as mesmas conquistas, as mesmas poderiam ser "invalidadas" por causa da corrupção no governo, exemplos de fracasso, e uma suposta manipulação estatística. Onde está o mérito desta oposição, então? Não há. Na opinião de Rafael Galvão, em um dos blogs que mais me agrada atualmente, a oposição ao atual governo não consegue mostrar uma alternativa superior. O jornalista Pedro Dória também falou disto ao comentar a vitória do novo presidente americano ano passado: "Um dos resultados da eleição de Barack Obama é que a direita brasileira periga ficar órfã e terminar sem argumentos."
Aí, sem saída, muitas pessoas parecem preferir repetir retóricas como as acima a mudar suas convicções.
A inércia brasileira não vai levar o país a lugar nenhum
Se a Índia, que é um país com indicadores de pobreza bem maiores que o nosso, pode por que o Brasil não? Refiro-me ao sistema de educação superior Indiano e os seus diversos Institutos de ensino e pesquisa reconhecidos internacionalmente. Nas palavras de N. R. Narayana Murthy, fundador e mentor chefe da Infosys, a maior empresa de software Indiana, “a excelência dos institutos Indianos se equipara ou até mesmo supera alguns dos mais prestigiados centros de ensino e pesquisa do Japão, da Europa e dos EUA.”
O Sr. Murthy é também presidente do conselho administrativo do IIIT-B, Instituto onde estudo. Ele esteve hoje aqui falando aos estudantes juntamente com o diretor, S. Sadagopan. Nas palavras de cada um, conquistas da educação superior Indiana e a posição privilegiada em que o país se encontra. Falam com o orgulho de quem dedicou a vida toda por uma causa maior que a própria vida e para uma platéia que dá valor a tais esforços e se vê motivada a trilhar caminhos similares.
E por que o Brasil não conquista tanto? Não é óbvio?! Porque não fazemos por merecer. Quase nunca fizemos. Este país foi construído sobre o estigma de que vence quem leva a melhor sobre o outro. O Brasil não consegue entender que para um ganhar, o outro não precisa perder. O foco, portanto, sempre foi no ganho pessoal fácil, tipicamente a partir dos vínculos sociais e da manutenção do poder. O resultado é que nossas instituições (no sentido amplo da palavra) nunca deram importância à educação e nossas famílias seguiram o exemplo. A história é importante para entendermos este processo [1].
“Para a maioria dos viajantes, o brasileiro do século 19 tinha o horror ao trabalho manual, exercido por escravos, e desejava, como os velhos colonos portugueses, o enriquecimento rápido e súbito.” [2]
Fomos colonizados e subjugados. O país nasceu da escória do velho continente e da exploração do novo. Os donos do pedaço, portanto, nunca precisaram ser educados para governar. Tampouco tinham interesse em educar as massas que serviam apenas para alimentar suas riquezas mesquinhas. Somado a isto, tivemos (sempre, até hoje) uma política de imigração restrita e míope.
“No principio do século vinte, Pierre Denis e Bryce assinalaram que a imigração européia renovava a vida rural e que o "Norte" (Nordeste) porque não a recebeu, possuía a mais medíocre população rural do país.” [2]
Além disto, apesar da crença popular, sempre tratamos muito mal nossos imigrantes menos abastados. Atualmente, latino-americanos sofrem com péssimas condições de trabalho e muitos brasileiros ainda acham que eles merecem tal fardo [3]. Não mudamos praticamente nada em pouco mais de 500 anos e não é para menos: Sem influências externas ou mudanças ambientais bruscas, o ser humano tende apenas a reforçar seus velhos hábitos [1]. E com o tempo estes hábitos passam a ser a norma e viram regra do convívio social.
Regras que são convenientemente esquecidas ao copiarmos os modelos de educação e desenvolvimento dos países desenvolvidos. Assim, passamos a dar alguma educação de qualidade e melhores condições para quem já tinha tudo. E sem mudar as regras, o sistema obviamente se molda para se adequar às necessidades desta classe privilegiada. O vestibular e o preconceito velado contra as cotas raciais são dois dos exemplos atuais claros desta manifestação.
Olhar para o próprio umbigo é comum no Brasil.
Eu vejo pessoas próximas a mim, quase todas com boa condição social, falsificando carteiras de estudante para pagarem meia-entrada no cinema e em eventos culturais. Também falo do problema de restringir a profissão de informática aos profissionais da área e recebo críticas de quem quer o comodismo do emprego garantido. Jornalistas têm feito o mesmo. Todos querem o seu naco de ganho pessoal fácil em detrimento do bem coletivo.
Não conseguem enxergar que ganhariam muito mais estimulando a diversidade de idéias e o pensamento coletivo [4] [6]. Nós brasileiros, somos quase todos corporativistas que contribuem para o desenvolvimento do subdesenvolvimento [5]. Para a elite, é mais cômodo dependermos das políticas de países dominantes e nos colocarmos na condição de periferia satélite. Para o resto da população, sem educação, é suficiente a novela diária, a cesta básica na véspera das eleições, o pagode e o churrasco no domingo.
“O povo brasileiro não precisa de muito para ser feliz!” Quantas vezes já ouvi esta frase e me entristeci com a concordância em coro de quem não busca melhorar sua própria condição e também não quer que outros o façam. Reforçam um estado mental de inércia já instalado há séculos no Brasil.
Enquanto isto, a Índia, mesmo com todo legado de pobreza, aprende com os erros e com os sucessos, se move, e muda – para melhor. Já faz parte do seleto grupo de países com programas nucleares e espaciais avançados (a Índia mandou uma nave à lua este ano). Possui oito vencedores do Prêmio Nobel, sem contar centenas de cientistas que receberam outros importantes prêmios internacionais em suas respectivas áreas. E envia para os EUA uma imensa quantidade de profissionais e estudantes qualificados – e que voltam para contribuir para o seu país.
Este e outros exemplos são resultados do trabalho e dedicação de um povo que estuda, estuda muito porque para eles esta é a melhor forma de contribuir para eles próprios, sua família e seu país.
A mitologia Hindu diz o seguinte neste sentido: Se você seguir Sarawasti, deusa do aprendizado e do conhecimento, Lakshmi, deusa da fortuna e da prosperidade, segui-lo-á. Apesar de algumas mudanças positivas em curso no Brasil, é triste estar na Índia e constatar que no nosso país ainda seguimos a deusa errada.
Referências
[1] D. North, Institutions, institutional change, and economic performance, Cambridge University Press, 1990.
[2] J.H. Rodrigues, “As Caracteristicas do Povo Brasileiro,” Journal of Inter-American Studies, vol. 2, Oct. 1960, pp. 355-377.
[3] L. Sakamoto, “Trabalho decente, meio ambiente e questão agrária,” Blog do Sakamoto, Jul. 2009.
[4] A. Pentland, Honest Signals: How They Shape Our World, The MIT Press, 2008.
[5] A. Frank, “The development of underdevelopment,” Monthly Review, vol. 18, 1966.
[6] A. Saxenian, The New Argonauts: Regional Advantage in a Global Economy, Harvard University Press, 2006.
Jim Champy no IIIT-B
O americano James A. Champy ou Jim Champy como ele próprio se apresenta esteve aqui no IIIT-B no dia 12 de fevereiro de 2008. Champy é nada menos que uma das principais cabeças que conceberam a reengenharia na gestão de empresas no começo da década de 90. Seu livro “Reengineering the Corporation: A Manifesto for Business Revolution” escrito em 1993 vendeu mais de 2,5 milhões de cópias.
Aqui, o sujeito veio basicamente divulgar seu novo livro: “Outsmart!: How to Do What Your Competitors Can't”. O burburinho nos corredores é de que ele cobra US$75.000 por uma palestra e como acredito que o IIIT-B certamente não pagou este valor, Champy teve liberdade para falar do que quisesse e como bem entendesse.
O resultado foi medíocre, devo admitir, e espero mesmo que esta palestra não represente sua melhor forma. Perguntas foram muito freqüentes e interrompiam-no o tempo todo, e o conteúdo basicamente limitou-se ao livro, típica auto-ajuda para empresários. Enfim, apesar do currículo, Champy não falou nada de muito diferente do que tantos outros gurus pelo mundo falam.
Entretanto, há sempre o que se extrair de positivo: A propaganda embutida na palestra começou com o conceito fundamental (e óbvio) de que a execução das atividades numa empresa deve fazer parte de sua estratégia. Champy defende que estratégia (e a execução da mesma) deve ser focada nos resultados de longo prazo e deve ser considerada desta maneira, principalmente pensando na sustentabilidade da empresa.
Sustentabilidade foi inclusive uma palavra enfatizada diversas vezes. É comum as empresas se preocuparem com estratégias de curto prazo pensando num resultado imediato de um produto ou campanha de marketing, por exemplo. Só que elas se esquecem que o mercado é dinâmico e está em mudança constante e isto as torna vulneráveis. Por isto as políticas de “offshore” e “outsourcing” (que são a prática aqui na Índia no mercado de TI) foram muito criticadas por Champy na palestra. Segundo ele, este tipo de estratégia focada em baixos custos engessa a empresa num modelo de negócios que a torna incapaz de mudar com agilidade, impedindo que o cliente seja atendido com qualidade. Vide os modelos de “call center” no mundo todo.
Além disto, não há como mudar modelos de negócios sem assumir riscos e realizar investimentos. E ao contrário do que parece, Champy tem visto empresas com bastante dinheiro em caixa e simplesmente não o gastam por medo do atual cenário econômico mundial.
Sobre as características dos líderes, nenhuma novidade: Eles são inspirados e inspiradores, abertos a discussão, transparentes, e aprendem rápido. O outro lado exposto é que eles também são vulneráveis, e erram. Mais importante, no entanto, é que eles estão preparados para errar e possuem uma sensibilidade de “just-do-it” (algo como “simplesmente faça”), tal qual o slogan da Nike.
No livro, as empresas destacadas são todas desconhecidas por mim (e claro, todas americanas): Sonicbids, MinuteClinic (uma proposta de clínica para pequenos atendimentos), Smith & Wesson (uma fábrica de revólveres com uma marca tão forte que seus clientes achavam que eles também fabricavam outros tipos de armas), Shutterfly (serviços fotográficos pela Internet, já não tão inovador assim), S.A. Roberts (uma empresa que ainda faz tudo por conta própria, ou seja é integrada verticalmente e não tem nada de outsourcing, devido ao risco envolvido no negócio), Jibbitz (empresa que teve uma idéia inusitada para enfeites de calçados e a transformou em negócio), PartSearch, e SmartPak Equine.
O que estas empresas têm em comum? Segue a lista de como elas se comportam, no melhor estilo receita de bolo, dada por Champy:
• Ambição importa;
• Intuição reina;
• Foco prevalece (estas empresas nunca desviaram de seus objetivos principais);
• O cliente manda;
• A calma habilita (permite a execução das atividades necessárias);
• Inovação vive;
• Cultura orienta; e
• Todo mundo participa.
Um episódio curioso ocorreu no final. O diretor do IIIT-B, Sowmyanarayanan Sadagopan, esteve presente durante toda a palestra e fez a seguinte pergunta: “Como você se sente ao realizar que muitas empresas fracassaram e perderam muito dinheiro ao adotar suas idéias de reengenharia no passado?” Ao que ele respondeu: “Eu estou tranqüilo quanto a isto. Eu me motivo perturbando o conforto e quero ser responsável por quebra de paradigmas.” Realmente o conforto de muitas pessoas foi perturbado na época, menos o dele..