O Sudoeste da França, começando por Toulouse
Toulouse fica no sudoeste da França. É sede da Airbus e portão de entrada para visitar os Pireneus. Está também à meia distância entre o Mediterrâneo e o Oceano Atlântico. Por seu tamanho, atrativos e localização, Toulouse é uma base excelente para quem planeja conhecer diferentes regiões do sudoeste da França. De lá, chega-se em aproximadamente 2 horas à Bordeaux, do lado atlântico, à Narbonne, do lado mediterrâneo, ou em diferentes cidades nas cordilheiras dos Pireneus ao sul ou do vale do Lot ao Norte. Sem contar que a cidade rosa de Toulouse, em si, é charmosa, diversa e com muita história para contar.
Algumas das regiões de destaque no sudoeste da França. Toulouse está marcada com a letra M, ao centro.
Com traços de presença humana desde o século VIII a.C., a cidade viveu intensamente o período romano, e passou por diferentes reinados até o século XI d.C., pela influência Católica na idade média, pela monarquia francesa, até chegar à república. Após a revolução francesa, entretanto, a cidade perdeu sua força de influência na região, sendo “rebaixada” a capital do departamento de Haute-Garrone. Só no século XX ela começou a recuperar seu prestígio e riqueza, primeiro se tornando a capital da região de Midi-Pyrénées (da qual o departamento de Haute-Garrone é hoje uma das subdivisões) e, mais tarde, vencendo a disputa com Bordeaux para receber a sede da Airbus.
Após os massivos investimentos da indústria aeroespacial, a cidade enriqueceu. E suas universidades cresceram junto, fazendo de Toulouse uma das cidades mais jovens da França. A tradução da riqueza e juventude se vê no centro histórico impecavelmente bem conservado, na variedade de entretenimento disponível, e em sua infra-estrutura, um exemplo para outras cidades na França. Exemplos como o sistema de bicicletas públicas Vélo Toulouse são de dar inveja (mas podemos adotar a bicicleta no Brasil também). São 242 estações e milhares de bicicletas espalhadas pela cidade disponíveis para utilização gratuita por 30 min. É tempo mais do que suficiente para ir de uma estação a praticamente qualquer outra na cidade, utilizando bicicletas muito bem equipadas.


À esquerda, um dos pontos para retirada de bicicletas. Basta colocar seu cartão de crédito e escolher o número da magrela desejada. À direita, a fachada frontal do Capitole.
Passear por Toulouse de bicicleta é ótimo. Vale a pena conhecer a cidade assim se estiver com pouco tempo. Em apenas um dia dá para visitar os principais pontos e ainda curtir a noite em agitados bares. A primeira parada na cidade deve ser na praça do Capitole. O Capitole é a sede do governo municipal desde o século XVI e destaca na fachada o rosado característico de toda cidade. O prédio hoje ainda abriga uma Cia. de Ópera e a Orquestra Sinfônica de Toulouse.
De lá, qualquer ruela escolhida será um agradável passeio pela história da cidade. No caminho, placas descrevem o significado e contam a história de casas, fontes, estátuas e igrejas. Recomendo o trajeto do Capitole até a bela Basílica de St. Sernin. Em épocas mais quentes também vale o passeio pelas margens do rio Garonne. No inverno, opte por um dos bons museus da cidade. Eu gostei muito do museu da Fundação Bemberg, na mansão de Assézat. Já vale pela visita à mansão em si, mas ainda fui surpreendido pelo acervo renascentista em exibição.
No próximo post falo dos arredores da cidade e de algumas dicas para conhecer o restante da região. Enquanto isto, veja mais fotos de Toulouse no Álbum de Fotos:
Capitole
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View of the Garonne River - Source: http://www.isae.fr/
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Tram in the new line of Toulouse - Source: http://www.trams-in-france.net/
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Paris, um dos maiores centros culturais do mundo
Em dezembro último, ao reencontrar um amigo em Les Mureaux, um subúrbio parisiense, tirei um dia para visitar o centro da cidade com ele, claro. Não perderia a oportunidade de conhecer Paris. Passeamos pelos principais pontos turísticos, mas sem tempo de parar para apreciá-los: O passeio foi o suficiente para uma excelente primeira impressão.
Começamos pela Boulevard de Clichy [link em francês], rua onde fica o Moulin Rouge [en], no famoso bairro Montmartre. Ali do lado estava a rue Lepic, por onde subimos a colina Montmartre (que dá nome ao bairro) em direção ao Moulin de la Galette [en]. O local ainda preserva um moinho construído em 1622, depois transformado em “guinguette” [en] (uma mistura de bar, restaurante e espaço para apresentação de danças) em 1822, e que hoje abriga um belo restaurante [en], onde se come muito bem (entrada + prato principal + sobremesa) por EUR 50. Em toda sua história, o local deve ter sido muito bem frequentado já que foi referência para Renoir [en], Henri de Toulouse-Lautrec, van Gogh, Picasso, dentre outros pintores.


Moulin de la Galette ao lado de um prédio recente e as pinturas, da esquerda para direita, de van Gogh e Renoir. Fonte das imagens das obras de arte: Wikipédia [1] [2]
De lá, passamos pela estátua do “Homem que Podia Atravessar Paredes”, uma homenagem ao autor francês Marcel Aymé e seu famoso conto “Le Passe-Muraille”. Não conhecia o trabalho do autor mas adorei o conto, disponível na Internet no original [fr] e traduzido para o inglês [en]. A história se passa em Montmartre, onde morava o personagem principal, numa rua bem próxima onde está localizada a estátua, aliás. Este personagem, um homem de 42 anos, por acaso descobre a habilidade inusitada de simplesmente atravessar paredes. Durante algum tempo a tal habilidade é ignorada até que uma sequência de eventos no seu trabalho força-o a utilizar a descoberta para fins um tanto sinistros... Recomendo a leitura!
A estátua foi uma descoberta acidental no nosso caminho para a Place Du Tertre [en] e para a Basílica do Sagrado Coração, no ponto mais alto da cidade. A Place Du Tertre é uma praça de artistas. Pequena mas vibrante, o local dá uma palhinha ao vivo do que representa aquela região em termos de produção artística. Artistas de todos os tipos, utilizando diferentes técnicas, expõem seus trabalhos e trabalham ali mesmo, num verdadeiro atelier público ao ar livre.
Fotos da região de Montmartre
E no ponto mais alto de Paris fica a belíssima e imponente Basílica do Sagrado Coração. Apesar de sua história controversa, marcada por guerras, revoltas, e protestos ocorridos antes, durante, e depois de sua construção, a basílica além de bela, ainda permite uma vista única de toda cidade. Dá para ver quase tudo, basta direcionar o olhar.
Montmartre (veja também o site da associação de artistas da região [en]), pelo visto, foi um dos maiores centros culturais do século XIX e do começo do século XX: Um caldeirão envolto em liberdades (e libertinagens) que a Paris da época não permitia. Uma pena eu não ter tido tempo para visitar o Musée de Montmartre [en] (site oficial em francês), na casa onde em diferentes épocas moraram artistas proeminentes como van Gogh e Renoir, e que conta a história da região.
Com pouco tempo sobrando no dia, restou-nos percorrer ainda mais rapidamente outros pontos da cidade. Entre uma e outra estação de metrô, passamos primeiro pela Galeries Lafayette, uma loja de departamentos famosa em Paris, especialmente lotada e bem decorada poucos dias antes do Natal. Depois, entramos no Centro Georges Pompidou onde fica o Museu Nacional de Arte Moderna. Não deu para visitá-lo, claro, o que foi uma pena. Mas só a sua arquitetura moderna, a entrada e a excelente boutique do museu valeram a curta ida. Já era final de tarde quando saímos de lá e paramos para um café ali perto mesmo, com a vista contrastante daquele prédio em estruturas metálicas arrojadas em meio a uma Paris de construções um bocado mais antigas.
E antes do sol se pôr por completo ainda caminhamos um pouco pela região. Fomos até o Jardin du Forum de Halles onde fica a Igreja Saint-Eustache [en], construída entre 1532 e 1632. No local, um Louis XIV ainda jovem foi batizado no século XVII. Pelo caminho até lá, pequenos parques, jardins, e lojas de todos os tipos e com incrível criatividade na decoração e nos produtos deixavam Paris ainda mais bela e artística. Não há como não se encantar com a cidade.
Terminamos a noite numa Champs-Élysées também toda decorada para o Natal. Não deu para subir no Arco do Triunfo mas o apreciamos de longe, no meio da multidão e do congestionamento naquela hora da noite. Por volta das 20 horas tivemos que partir sem olhar para trás, correndo para pegar o último trem para Les Mureaux. Jantamos na casa do meu amigo uma bela salada acompanhada de fígado de pato.





Fotos do detalhe da escada externa do Pompidou, de sua vista central, da Igreja Saint-Eustache, da Galeries Lafayette, e da Champs-Élysées à noite com o Arco do Triunfo ao fundo. Fontes das fotos de outros autores nos links.
(Próximo post: Uma visita rápida ao Museu do Louvre)
Les Mureaux, uma cidade no subúrbio de Paris
Quando li o texto do meu irmão sobre Paris e o comentário do Fernando criticando a cidade, confesso que fiquei um pouco dividido quanto ao meu planejamento de visitá-la antes do meu retorno ao Brasil em dezembro de 2008. Acabei indo assim mesmo pois, mais do que Paris, estava indo reencontrar amigos. Além do mais, não iria ficar exatamente em Paris mas em uma cidade em seu subúrbio. E no fim das contas, a ida não podia ter sido mais acertada. O pouco que vi de Paris foi espetacular e a cidade de Les Mureaux, embora não tenha nada de turístico a oferecer, é bem cuidada e charmosa.
De fato, como praticamente toda grande cidade, Paris tem seus problemas: Alguma sujeira em excesso em alguns bairros, pedintes nos principais pontos turísticos, greves frequentes nos sistemas de transporte público, congestionamentos, certa escalada na violência, e por aí vai [en]. Mas a Paris de tantos versos está por todos os lados. O olhar precisa ser “generoso e cheio de curiosidade” e não há nada mais precioso que passear por uma cidade num estado de espírito deste. Adorei Paris e repito os adjetivos de meu irmão ao descrevê-la: “bela, envolvente, charmosa, encantadora, sedutora e saborosa”.
Ao desembarcar, fui recebido com um belo sorriso da atendente da imigração. Na saída, meu amigo já me esperava de braços abertos. Por onde passava, era cumprimentado com cortesia e atenção. Do alto do meu francês extremamente limitado, recebia do outro lado atenção e consideração pelo esforço de falar uma língua que está longe de estar “quase extinta” como afirmou Fernando nos comentários do texto do meu irmão. Onde estavam os tão mal falados parisienses naqueles dias em que estive na cidade eu não sei. Talvez sejam só um mito.
Sobre a língua, abro um parêntese: O francês é uma das línguas oficiais das Nações Unidas, está entre as 12 mais faladas do mundo e, se normalizarmos o número estimado de falantes pelo GDP dos países que a declaram como oficial, certamente ela estaria entre as cinco mais importantes. Das línguas mais faladas do mundo, estaria provavelmente atrás apenas do inglês, japonês, e alemão. Quase extinta uma pinóia! Fecha parêntese.
No trajeto do aeroporto a Les Mureaux fui brindado com um excelente sistema de metrô. Um dos melhores que já frequentei em todo mundo (embora não seja o mais limpo). É extremamente abrangente, rápido e interconectado. Através dele, facilmente se chega aos dois aeroportos da cidade, às seis estações de trem, e a todos os pontos turísticos. Todas as estações são extremamente bem sinalizadas e um web site informa todos os horários e rotas do sistema. Chegamos a Les Mureaux mais rápido e gastando menos do que se tivéssemos ido de carro.

Uma estação do metro de Paris. Esta, aliás, bem longe de estar suja. Fonte: Wikipédia
Les Mureaux [link em francês] é uma região administrativa situada 39 km a oeste de Paris. Da estação Saint-Lazare [en] (que estava em reforma e não pôde ser devidamente apreciada por mim) são aproximadamente 40 minutos de trem. Boa parte do trajeto vai margeando o Rio Sena e diferentes zonas industriais. Les Mureaux é hoje essencialmente uma cidade industrial. Mas sua origem medieval à torna uma agradável cidade para se passear durante o dia. Casas antigas, ruas pequenas e alguns parques aqui e ali ditam o tom. Em várias esquinas, lojas de artesanato e produtos de decoração enfeitavam ainda mais o passeio. E as padarias faziam questão de nos deixar com fome o tempo todo. Tirando isto, entretanto, a cidade tem só uma velha igreja (a Saint-Pierre-Saint-Paul) construída em 1896. Claro, só acabei indo lá mesmo por conta do meu amigo. Sua casa fica bem próxima da estação de Les Mureaux e é um aconchegante e bem decorado quarto-e-sala.
A chegada à Les Mureaux com a igreja Saint-Pierre-Saint-Paul ao fundo
E como comem bem os franceses! A casa dele também é repleta de temperos e ingredientes. Pães e queijos estavam disponíveis lá para todos os gostos. Sem falar em mostardas, geléias, patês, outros frios, carnes, dentre outros quitutes, um mais saboroso que o outro. Quando acordei no dia seguinte à minha chegada, me deparei com uma mesa de café da manhã onde mal cabiam os pratos e talheres, tamanha era a variedade. E além de farta e variada, a comida é apreciada. Não só pelos sabores mas pela presença das pessoas. O café da manhã naquele dia foi tão especial quanto qualquer dos outros eventos seguintes. Despreocupados do tempo, conversamos durante umas duas horas antes de sairmos para conhecer pelo menos um pouco do Centro.
Em tempo: Para saborear Paris nos mínimos detalhes, recomendo o excelente blog Conexão Paris.
(Próximo post: Minha visita à Paris)
Quando voltei da Europa em dezembro
Quando voltei da Europa em dezembro, fiquei 30 dias no Brasil antes de retornar à Índia e não saí da região frequentemente intitulada “Grande Vitória e Guarapari”. Vitória, a capital do Espírito Santo, é minha terra natal. Nasci na vizinha Vila Velha mas lá praticamente só vi a maternidade. Meus primeiros 13 anos de vida aconteceram em Vitória, com exceções apenas em viagens esporádicas aqui e ali, durante as férias escolares.
Para uma introdução rápida desta ilha fundada em 1551, recomendo a Wikipédia e o site de turismo da Prefeitura. Para se aprofundar, o acervo da Biblioteca da Universidade Federal do Espírito Santo é um prato cheio e permite pesquisa online. Recomendo temas relacionados aos diversos colégios centenários estabelecidos por lá e, vinculado a isto, à formação do Centro da cidade e sua classe alta; às histórias por trás da estrada de ferro Vitória-Minas; à tradição das paneleiras; à culinária famosa pela moqueca e pela torta capixaba; e à economia da região, fortalecida pelo setor metal-mecânico e recentemente pela descoberta de petróleo em sua costa.
Como não só de livros vive o ser humano, há diversas opções de lazer e conhecimento acontecendo na cidade. Novamente, o site da Prefeitura é um bom ponto partida. Imperdível também são os eventos realizados pelo Centro Cultural Majestic. O local atualmente recebe o Café Literário, evento nacional do SESC com o objetivo de “oferecer um ambiente de diálogo entre o público e aqueles que produzem literatura, ou que possuam atividades diretamente ligadas a ela, como estudantes, professores, jornalistas, críticos ou editores”.
Antes, o Majestic organizou a série “História Viva” com a proposta de resgatar a história do Centro de Vitória sob diversas óticas. O projeto foi composto por mesas redondas formadas por especialistas no tema em pauta, incluindo economia e cultura; música e poesia; manifestações políticas; e educação. Todas as quatro mesas redondas foram gravadas e chegaram a ser transmitidas pela TV Educativa do Espírito Santo. Torço agora para que virem DVD e sejam colocadas à venda para o público em geral.
Há ainda que mencionar o passeio de caravela pela Baía de Vitória. Uma réplica de uma típica embarcação portuguesa do período colonial revisita a história da colonização na região enquanto percorre importantes pontos turísticos da cidade.
Outro aspecto positivo da cidade são as mais variadas opções de restaurantes de qualidade espalhados por quase todos os bairros, para todos os gostos e bolsos. O estado (e consequentemente Vitória) também faz parte do evento Brasil Sabor que este ano acontece entre 9 de abril e 11 de maio. E há ainda o evento Sabor ES que ano passado ocorreu no final de novembro e reuniu os principais chefs do estado sem contar convidados de todo país.
Finalmente, os turistas (moradores ou não) não podem deixar de visitar as principais atrações da cidade, dentre as quais recomendo: A Catedral Metropolitana e demais prédios históricos do Centro (afinal, Vitória é a terceira capital mais antiga do país), a Ilha das Caieiras, o recém-inaugurado Hortomercado, o Parque da Fonte Grande, o Museu Solar Monjardim e o Museu de Artes do Espírito Santo.
Não vou falar dos municípios vizinhos que compõem a região metropolitana e do famoso balneário de Guarapari. Estas regiões sozinhas mereceriam posts como este exclusivo para elas. Limito-me a destacar, em Vila Velha, o Convento da Penha (construído sobre um rochedo a 154 metros de altitude em 1558), o Museu Ferroviário, a Igreja Nossa Senhora do Rosário (quarta mais antiga do país), e o Museu Homero Massena; a bucólica região de Manguinhos na Serra; e todas as belas praias de Guarapari e de seu município vizinho, Anchieta.
Falar de terras capixabas dois meses depois de deixá-la faz aumentar bastante a saudade. Foi muito bom ter descansado por lá ao lado das pessoas mais queridas para mim e que amo tanto, e ter também revisitado muitos destes lugares que fazem parte da minha história.
Alguém aí já ouviu falar de Tallinn?
Tallinn é a capital da Estônia, localizada no sul do Golfo da Finlândia. De Helsinque, onde eu estava, o trajeto de barco durou apenas 2 horas. Para quem nunca ouviu falar do país e sua capital, eu explico um pouco. Mais detalhes, claro, na sempre prestativa Wikipédia que inclusive tem um artigo em português que está em destaque.
A Estônia faz parte dos países bálticos que incluem também a Letônia e a Lituânia. Os três recebem esta denominação por compartilharem uma geografia similar, banhados pelo Mar Báltico, mas também pelo contexto histórico recente: Todos se tornaram independentes da União Soviética em 1920, foram anexados a ela novamente após a Segunda Guerra Mundial (inclusive com aprovação do Reino Unido e dos Estados Unidos) e só se tornaram independentes novamente em 1991, após a queda do regime comunista. Talvez pelo fato de terem uma economia tão fechada durante décadas, a Estônia só passou a fazer parte da União Européia em 2004 e até Dezembro do ano passado ainda fazia o controle alfandegário em suas fronteiras. Eu devo ter recebido um dos últimos carimbos aplicados em passaportes na entrada e saída do país.
Naquele dia 15 de Dezembro de 2007, chegamos cedo eu e mais dois amigos finlandeses. O local, a primeira vista, parece que está chegando do passado agora com construções modernas de grandes multinacionais brotando aqui e ali em meio a uma cidade que certamente ficou parada no tempo por pelo menos 50 anos. Em conversas com meus amigos, também percebo que existe certo preconceito dos finlandeses com os estonianos apesar das semelhanças entre os povos. Estonianos e Finlandeses compartilham o mesmo grupo lingüístico e o primeiro ainda foi fortemente influenciado pelo segundo durante todo o regime comunista. Tallinn, devido a sua proximidade à Helsinque, recebia até os sinais de TV e rádio do país vizinho (ilegalmente, claro), o que garantia um dos poucos contatos com o ocidente na região. Além disto, o país tem atualmente a Finlândia como principal parceiro econômico. Mesmo assim, os gracejos com o “sotaque” estoniano e com os sinais de pobreza que ainda aparecem aqui e ali são comuns.
A Estônia também está se tornando uma potência no setor de Tecnologia da Informação. O país realiza inclusive eleições pela Internet e é considerado o mais conectado à Internet da Europa. Este resultado faz parte de um projeto político com foco em investimentos em educação que começou logo após a independência do país e não parou mais. Para os interessados, recomendo o site oficial do Projeto Tiigrihüpe.
Logo após nossa chegada, fomos direto ao Centro Histórico, construído entre os séculos XV e XVII. Portões e muros, casas, igrejas, bares, lojas, e praças preservam todo o estilo da época. É como andar numa Ouro Preto medieval e bem mais fria. A influência russa também está lá em condomínios sem graça e colados uns aos outros, e na Catedral Alexander Nevsky.
Em seguida fomos ao KUMU, o Museu Nacional de Arte da Estônia. O prédio, moderno e belíssimo, foi projetado pelo arquiteto finlandês Pekka Vapaavuori (eu estava com amigos finlandeses, o que esperava que eu fosse ouvir?) e inaugurado em 2006. Lá dentro, mais inovação e modernidade no leiaute das galerias, na interação com TVs de plasma, e na impecável manutenção dos espaços. Tudo à altura de obras que me surpreenderam por se tratarem principalmente de artistas estonianos que nunca ouvi falar (tá vendo o preconceito?). As que mais me impressionaram mostravam a dura realidade da guerra e do regime comunista. Sobre isto, uma curiosidade triste é que a grande maioria dos artistas morreu durante ou na pós-Segunda Guerra; Certamente eram mais visados que os demais cidadãos por conta dos protestos contundentes em suas obras.
Para terminar o dia, voltamos ao Centro Histórico para jantarmos num restaurante de tema medieval. O Olde Hansa é fantástico em todos os detalhes. Toda a decoração remete a uma taverna na penumbra da luz de velas, com mesas e cadeiras de madeira, jarros e copos em cerâmica, e garçons vestidos a caráter. E, claro, as comidas e bebidas também eram de outrora: uma cerveja de mel acompanhava nossas carnes de urso e javali (que caçamos poucas horas antes com nossos arcos e flechas), patês diversos, salmão defumado e pães variados. Eu comi tanto que chego a ficar sem fome só de pensar.
Voltei à Helsinque mais do que satisfeito com a visita que queria fazer desde 2002. E finalmente a viagem parecia ter chegado ao fim. Mal eu sabia que o retorno ao Brasil seria uma aventura e tanto no aeroporto de Frankfurt...
Fotos:
Em Cracóvia, lendas de dragão e trombeteiro
“Alô pessoal! Aqui é um brasileiro em Varsóvia rumo à Cracóvia, desejando a todos um belo dia e uma viagem segura!” Foi assim que anunciei minha presença (em inglês) num rádio de baixa freqüência no carro de meu amigo. Cracóvia, claro, foi muito mais divertida que Varsóvia.
No dia anterior, nosso amigo alemão retornou à Chemnitz, sua terra natal, por conta da pressão no trabalho. Tinha um projeto de pesquisa para terminar e atrasos não eram muito tolerados. Restou a mim e ao meu amigo polonês acordar bem cedo rumo ao sul do país. Na saída de Varsóvia um tráfego surpreendente foi classificado como rotineiro: Levamos os típicos 30 minutos numa das principais rodovias de acesso à capital. Em seguida, fomos “presenteados” com uma neblina muito espessa praticamente o tempo todo. Não deu para ver a paisagem ou desconcentrar do trânsito até chegarmos ao nosso destino.
Paramos o carro próximo da estação de trem em Cracóvia e seguimos a pé. No caminho, construções antigas (e preservadas!) caracterizavam uma cidade bem diferente da capital. Cracóvia não foi tão bombardeada nem teve uma revolta local tão intensa e duradoura como em Varsóvia durante a Segunda Guerra. Para explicar um pouco, a cidade tem suas origens lá no século VII e chegou a ser capital da Polônia durante 1038 e 1596. Também fez parte do Império Austríaco entre 1846 e 1918 e atualmente é a capital de uma das províncias polonesas no extremo sul do país. Turisticamente a cidade é atrativa pela incrível quantidade de monumentos históricos que preserva e pelas opções de vôos baratos (que só a Europa tem) principalmente oriundos de Londres. Não à toa, a cidade está entupida de britânicos da mesma forma e pelos dois mesmos motivos que Praga.

Praça Central. Do lado direito a Basílica de Santa Maria, no centro o Hall de Drapers, e do lado esquerdo a torre da prefeitura. Fonte da foto: Wikipédia
Tínhamos só um dia na cidade então tivemos que nos contentar apenas com as principais atrações do lugar. Fomos primeiro à Praça Central, local originalmente concebido para mercantes no século XIII. No entorno, não dá para não notar a Basílica de Santa Maria, e suas duas colunas, uma diferente da outra, em estilo gótico. Diz a lenda que, no século XIII, um trombeteiro foi flechado na garganta do alto de uma das torres enquanto soava um alarme para alertar a população da invasão mongol. Até hoje a mesma melodia é tocada de hora em hora e interrompida pela metade simbolizando a fatídica morte do pobre trombeteiro.
Dentro da Basílica, destaque para o Retábulo de Veit Stoss, o maior retábulo em estilo gótico da Europa, esculpido por Veit Stoss entre 1477 and 1489. O danado é gigante, tem mais de 12 metros de altura e 11 metros de largura quando os painéis estão abertos. Ou seja, 132m² de área é maior que muito apartamento no Brasil.
Já era pra lá de meio-dia quando saímos da Basílica e meu estômago roncava. Graças ao meu amigo, fomos a um restaurante típico, que nenhum turista vai. O local era simples mas bem cuidado, não tinha nenhuma decoração ou cardápio ou garçom. Aliás, nem banheiro tinha, era só cozinha e uma sala de uns 30m² onde os clientes se espremiam. E eu nem sei o que comi. Na hora ele me falou o nome mas o diacho do polonês é muito complicado e já absorvi a minha parcela de línguas complicadas com o finlandês. Anyway, saí de lá satisfeito e pronto para seguir em frente.
Retábulo de Veit Stoss. Fonte: Wikipédia
A parada seguinte foi o Castelo de Wawel, referência na Europa Oriental e curiosamente considerado um dos sete chakras do mundo pelos Hindus. Esta última informação eu li lá em Cracóvia e confirmei agora na Wikipédia. No local, tesouros guardados por séculos, e o pátio interno do palácio em estilo renascentista são os destaques. Como na Basílica, ali também há espaço para lendas e folclores. A mais difundida é a do Dragão de Wawel: Nela, um dragão vivia numa gruta no pé da colina onde se encontra o Castelo de Wawel. E ele aterroriza as cidades próximas e deixava rastros de destruição por onde passava. Para evitar mais ataques, uma jovem donzela era deixada todo mês na entrada da gruta para que o dragão a devorasse (sempre as pobres das donzelas são as que sofrem).
Vista externa do castelo
Quando só sobrou a filha do rei, a sua mão foi prometida em casamento a quem matasse o dragão. Após inúmeras tentativas fracassadas, um aprendiz de sapateiro resolveu se arriscar. Mas ao invés do ataque direto, estufou enxofre em um carneiro abatido e ofereceu ao dragão. No dia seguinte, o monstro acordou com uma sede terrível e começou a beber incontrolavelmente a água do rio Vistula. A sede não passava e o dragão bebeu tanta água que explodiu. O aprendiz de sapateiro se tornou o herói da cidade, casou-se com a princesa, e os dois viveram felizes para sempre...
Já anoitecia quando deixamos as Colinas de Wawel. Antes de partimos, porém, ainda fizemos uma parada rápida para um belo chocolate quente. Já no trajeto de volta à Varsóvia, minha cabeça estava no destino seguinte: Finlândia. A possibilidade de rever o país que foi minha casa por um ano entre 2002 e 2003 me deixara ansioso desde quando deixei a Índia. E finalmente o momento chegara.
Detalhe do pátio interno do castelo

