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Aniversário de Gandhi e um esclarecimento sobre a independência da Índia

setembro 26th, 2008 — 10:37am

Na próxima quinta-feira, dia 2 de Outubro, Mahatma Gandhi estaria completando 139 anos. Aproveitando a data, quero esclarecer um momento delicado da história Indiana e que contou com a participação direta deste ser humano iluminado. Trata-se do período de transição do governo, durante a independência do país, nas décadas de 30 e 40.

Ao contrário do que li em um dos blogs em português mais antigos sobre a Índia, Gandhi não foi o “o culpado pela divisão da Índia em Hindustão e Paquistão.” Tão pouco foi ele “quem aceitou dividir o território Indiano e assim acabou por causar uma guerra civil entre hindus e muçulmanos onde centenas morreram.” Ao contrário, é graças ao trabalho de Gandhi e daqueles que acreditavam em seu ideal que o país não se fragmentou por completo, fazendo com que países surgissem onde antes já existiam principados relativamente autônomos mas que se sujeitavam ao domínio inglês.

Gandhi era a favor da união de toda Índia, e era abertamente a favor do entendimento entre hindus e mulçumanos. Em uma de suas frases mais citadas, ele afirmava que “liberdade é para toda Índia e não para o congresso”, clamando para que diferenças fossem postas de lado na formação do congresso. Em toda sua vida, Gandhi foi defensor voraz da paz através dos princípios da não-violência e da não-cooperação. Era com eles que Gandhi lutava para que todos os povos da Índia vivessem em harmonia, cooperando uns com os outros para uma Índia forte e unida.

Por que então tantos conflitos surgiram, resultando na divisão do país e conseqüente formação do Paquistão? São três causas que se inter-relacionam: Primeiro, as lideranças do congresso subestimaram a importância de Muhammad Ali Jinnah, líder da Liga Mulçumana (um partido Indiano) e primeiro Governador-General do Paquistão, e dos mulçumanos no país, relevando para o segundo plano seus interesses. Isto obviamente reforçou a impressão de que o país seria governado para os hindus apenas. Segundo, Jinnah também tem uma grande parcela de culpa ao liderar o movimento separatista a qualquer preço, independente das perdas humanas. Jinnah tinha uma ambição pessoal que se sobrepunha a qualquer outro interesse. Por último, como não podia deixar de ser, os Ingleses também contribuíram muito para a separação e, pior, fizeram questão disto. Para os Ingleses as animosidades entre hindus e mulçumanos era bem vinda já que enfraquecia o movimento de independência e a soberania da região.

Gandhi, uma das figuras mais emblemáticas no governo, infelizmente também tem sua parcela de culpa. Embora não tenha sido O culpado e tão pouco tenha agido intencionalmente em prol da separação, suas ações para que todos os povos da Índia vivessem em harmonia subestimaram os interesses mulçumanos e, paradoxalmente, geraram divergências. É que Gandhi trouxe à tona sentimentos de ódio e vingança que antes eram suprimidos pelo convívio de gerações. Ele sonhava que a paz seria absoluta se estes mesmos sentimentos se extinguissem: Ao trazê-los à tona, ele esperava que o outro lado os compreendesse e os respeitasse por completo. A realidade se mostrou muito mais bruta.

Gandhi foi assassinado no dia 30 de Janeiro de 1948 por um Indiano hindu.  Pior, o assassino, Nathuram Godse, era um Brahmin, classe de educadores e sacerdotes do hinduísmo. Sentenciado à morte, seu discurso foi assustador: “As atitudes de Gandhi em favor dos mulçumanos eram constantes e consistentes, culminando em seu último jejum pró-mulçumano, o que me incitou a concluir que Gandhi deveria deixar de existir imediatamente.” Tal motivação existe até hoje e é principalmente por estas pessoas que Gandhi é odiado. São os mesmos hindus fundamentalistas que massacram ou apóiam massacres não só a mulçumanos mas também a demais minorias religiosas que tentam viver em paz neste país tão intricado e diverso.

O legado de Gandhi é referência até hoje no mundo todo. Capa de muitas revistas, objeto de estudos, livros e filmes, referência certa em muitos discursos políticos, nome de rua em muitas cidades (as famosas M.G. Road aqui na Índia em referência as suas iniciais), homenagem em estátuas, nas cédulas Indianas, e em museus e memoriais, e notável ausência dentre os vencedores do Nobel da Paz, Gandhi merece mesmo ser celebrado e lembrado! Não é por acaso, portanto, que um dos três únicos feriados nacionais da Índia é em homenagem a ele.

Para os interessados, recomendo o artigo e as referências disponíveis na Enciclopédia Britannica, além da leitura dos livros:

Fecho este post com um poema raro, que não encontrei na íntegra em nenhum site da Internet. Seu autor é Venibhai Purohit (1918-1981), poeta de Gujarat, estado no oeste Indiano onde Gandhi nasceu. Este poema é exibido em seu memorial em Delhi e é citado como um de seus favoritos: Era declamado por ele toda manhã antes de iniciar suas atividades quase como um mantra.

Whether weary or unweary, O Man, do not rest
Do not cease your single-handed struggle.
Go on, and do not rest,

You will follow confused and tangled pathways,
And you will save only a few, sorrowful lives.
O Man, do not lose faith, do not rest.

Your own life will be exhausting and crippling,
And there will be growing dangers on the journey.
O Man, bear all these burdens, do not rest.

Leap over your troubles though they are high as mountains,
And though there are only dry and harren fields beyond.
O Man, till those fields, do not rest.

The world will be dark and you shall shed light on it,
And you shall dispel all the darkness around.
O Man, though life deserts you, do not rest.

O Man, take no rest for thyself,
O Man, give rest unto others.

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Dia da Independência Indiano

agosto 16th, 2007 — 4:20am

Ontem, 15 de agosto, foi celebrado o 60º ano de independência da Índia. Até 1947 a Índia era uma colônia do Reino Unido que incluía também o Paquistão. Tradicionalmente, a data é comemorada com o hasteamento oficial da bandeira e um discurso do primeiro-ministro indiano. Não vou entrar em detalhes sobre a data aqui pois a Wikipédia já está repleto deles. Ao invés disto, registro nos próximos parágrafos as minhas impressões deste dia no centro da cidade de Bangalore.

É inegável o orgulho que este povo sente pelo país. Antes de mesmo de chegar à Índia já tinha esta impressão conversando com alguns indianos. É preciso inclusive cautela pois é comum seus cidadãos enaltecerem o país bem além da realidade.

Durante o dia da independência, este orgulho é externado principalmente através da bandeira: todos parecem querer exibi-la de alguma maneira, em algum lugar. Nos carros, nos postes, nas camisas, nos broches, nos bares e restaurantes… Para onde eu olhava, lá estava a bandeira ou as cores dela representadas.

E como é feriado nacional, o dia é excelente para um passeio em um dos diversos parques da cidade. É claro que não fui o único a ter esta idéia brilhante. E num país com mais de 1 bilhão de pessoas, a palavra multidão é facilmente percebida na prática: Estimativas apontam que mais de 200 mil pessoas estiveram ontem no Lalbagh, o jardim botânico que eu e um amigo resolvemos conhecer.

Gente! E mais gente nesta vista do Jardim Botânico Lalbagh

Apesar da multidão já esperada e a qual já estamos habituados (gente é o que não falta aqui, independente da data, hora ou local), o parque é extremamente agradável e bem cuidado embora falte educação nos hábitos locais – as pessoas simplesmente e naturalmente jogam o lixo no chão, não importa onde estejam.

Ele foi construído em 1760 por Hyder Ali, um governante real da época e tem uma área de 240 acres (971.245m2) onde estão presentes diversos jardins de plantas exóticas do mundo todo. Palco de eventos variados, o parque é um ponto de encontro típico de Bangalore. Ontem, em particular, era o último dia de uma feira/exposição de flores e uma réplica do Taj Mahal feita com rosas era a atração principal.

É tanta gente que é praticamente impossível aparecer na foto. Ao fundo, a réplica do Taj Mahal feita com rosas.

Já próximo do meio-dia, resolvemos procurar um local para almoçar. Fomos então conhecer a M.G. Road, famosa pelo comércio nos seus arredores. É impressionante o luxo que está nascendo ali. Lojas de grife disputam espaço com shoppings e restaurantes mas também com casas mais simples e com o trânsito sempre caótico.

Não foi difícil, portanto, achar um bom restaurante. Fomos ao 20 ft. High (que pode ser traduzido como 20 pés de altura), um restaurante construído numa plataforma de madeira a, obviamente, 20 pés de altura (6 metros), ao ar livre, em frente à entrada de um pequeno shopping. Nossa agradável surpresa, no entanto, foi descobrir que a carne de boi fazia parte do cardápio!

Após 3 semanas sem comer um pedaço sequer de derivados bovinos, optamos por pratos desta seção sem nem pestanejar. Eu comi um suculento filé chateaubriand e meu amigo, mais contido, optou por um estrogonofe (curiosidade que meu amigo contou e que confirmei na Wikipédia: estrogonofe é um prato de origem russa do século XIX). Como o dia estava claro e quente, a cerveja estupidamente gelada (que também nos faltava desde a chegada na Índia) foi a acompanhante escolhida.

Vai um filé aí?

Saciados, ainda demos mais umas voltas pelas ruas comerciais da região antes de retornamos para o campus do Instituto. É claro que, após tanto esforço, um cochilo foi essencial. Afinal, celebrar a independência de um país é um trabalho muito árduo…

P.S.: Só entre nós, sou muito mais o nosso Jardim Botânico no Rio de Janeiro. Muito mais bonito e bem cuidado.

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