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Lá ao Brasil e de Volta à Índia 2007-08 (2)

março 29th, 2008 — 12:05am

Após 45 dias, cheguei à Índia para encontrar os mesmos problemas de sempre. Caos no trânsito, falta de educação no comportamento dos indianos no dia-a-dia, poluição, pobreza. Tudo isto se manifesta o tempo todo e de diversas formas no imenso contraste que é a Índia. E não é preciso nem sair do aeroporto para acordar para a realidade do país.

Já escrevi especificamente sobre o trânsito daqui no passado. Recentemente, a realidade indiana também foi tema de um texto de um amigo (brasileiro) que conheci aqui em Bangalore. Ele resume os problemas indianos em categorias: sujeira, má qualidade dos serviços prestados, abuso dos motoristas de riquixás, exploração econômica dos estrangeiros, trânsito insuportável, festas sem graça (e que acabam antes da meia-noite), e a falta de respeito com a mulher. Eu ainda incluiria neste bolo a corrupção que permeia todos os níveis da sociedade indiana, a língua inglesa quase indecifrável de muitos indianos, e a pobreza explícita que denuncia a precariedade dos serviços públicos básicos e o descaso tanto das autoridades quanto de parte da população.

No trajeto de volta ao Instituto (o IIIT-B), tentei adiar tanto quanto possível esta realidade revendo mentalmente todos os incríveis destinos que visitei na viagem que terminara. Foi um passeio inesquecível, em vários atos. Começou na Índia, passou pela Europa e pelo Brasil, terminou na Índia. Lá e de Volta, literalmente.

1. Agra (Taj Mahal)
Por mais que falem do clichê que é visitar este mausoléu, considero a visita à Índia incompleta sem conhecer esta que, para mim, é uma das construções humanas mais bonitas ainda de pé.

2. Delhi
Delhi é uma capital com muita história para contar. Rota de muitos povos entre diferentes regiões por milhares de anos, a cidade se tornou um caldeirão de diferentes culturas e religiões. Visita também imperdível a quem visitar a Índia.

3. Munique, Regensburgo, e Chemnitz
Revisitei a Alemanha em dezembro, após ter passado por lá antes de chegar à Índia pela primeira vez. Adorei o país e todas as cidades que visitei. Foi muito bom também ter reencontrado velhos amigos que não via desde 2003.

4. Praga
Apesar da péssima impressão causada pela estação de trem, Praga – capital da República Tcheca – me surpreendeu positivamente. A cidade preserva mais de 1000 anos de história e exibe orgulhosa todos os principais estilos arquitetônicos que marcaram a Europa desde então.

5. Varsóvia
A capital polonesa foi a que teve menos valor turístico para mim. A cidade mais destruída pelos alemães na Segunda Guerra tem pouco a oferecer. Nem por isto, entretanto, foi menos importante: Com um amigo, revisitei a história de uma das maiores atrocidades da humanidade. Sob este ponto de vista, Varsóvia tem muito a mostrar; as cicatrizes ainda não se fecharam.

6. Cracóvia
Em clima bem mais leve, me diverti bastante com as lendas que recheiam a cultura desta cidade, no sul da Polônia. Até dragões fazem parte do mito popular.

7. Helsinque
A Finlândia (e obviamente sua capital) tem valor especial para mim. Foi minha primeira morada no exterior e onde ganhei amigos para toda a vida. E queria muito visitá-los. O reencontro foi memorável e não podia ter sido melhor.

8. Tallinn
A capital da Estônia é o ponto alto deste país que começa a se destacar na Europa, após décadas sob domínio russo. Fiquei encantado com local e seus atrativos, tanto da velha Tallinn medieval quanto da nova e moderna capital.

9. Vitória
Minha terra natal! Local onde estão as pessoas que mais amo neste mundo! Precisa falar mais?

10. Londres
Com apenas um dia disponível na cidade, tive que me contentar apenas com as principais atrações. Foi uma boa primeira impressão da cidade mas certamente não o suficiente.

De Londres, após uma escala no Bahrein (Oriente Médio), voei direto para Bangalore. O dia amanhecia quando finalmente consegui me desvencilhar do controle alfandegário e da fila para conseguir um táxi. Bangalore não é uma cidade bonita mas não era mesmo por isto que estava ali. Apesar dos seus problemas, a cidade e o país têm também muitas qualidades. Talvez “incrível”, como quer descrever o governo (http://www.incredibleindia.org/), seja mesmo o melhor adjetivo para resumir ambos, qualquer que seja a conotação empregada.

Voltemos agora à programação normal, diretamente da Índia…

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Quando voltei da Europa em dezembro

março 15th, 2008 — 9:36am

Quando voltei da Europa em dezembro, fiquei 30 dias no Brasil antes de retornar à Índia e não saí da região frequentemente intitulada “Grande Vitória e Guarapari”. Vitória, a capital do Espírito Santo, é minha terra natal. Nasci na vizinha Vila Velha mas lá praticamente só vi a maternidade. Meus primeiros 13 anos de vida aconteceram em Vitória, com exceções apenas em viagens esporádicas aqui e ali, durante as férias escolares.

Para uma introdução rápida desta ilha fundada em 1551, recomendo a Wikipédia e o site de turismo da Prefeitura. Para se aprofundar, o acervo da Biblioteca da Universidade Federal do Espírito Santo é um prato cheio e permite pesquisa online. Recomendo temas relacionados aos diversos colégios centenários estabelecidos por lá e, vinculado a isto, à formação do Centro da cidade e sua classe alta; às histórias por trás da estrada de ferro Vitória-Minas; à tradição das paneleiras; à culinária famosa pela moqueca e pela torta capixaba; e à economia da região, fortalecida pelo setor metal-mecânico e recentemente pela descoberta de petróleo em sua costa.

Como não só de livros vive o ser humano, há diversas opções de lazer e conhecimento acontecendo na cidade. Novamente, o site da Prefeitura é um bom ponto partida. Imperdível também são os eventos realizados pelo Centro Cultural Majestic. O local atualmente recebe o Café Literário, evento nacional do SESC com o objetivo de “oferecer um ambiente de diálogo entre o público e aqueles que produzem literatura, ou que possuam atividades diretamente ligadas a ela, como estudantes, professores, jornalistas, críticos ou editores”.

Antes, o Majestic organizou a série “História Viva” com a proposta de resgatar a história do Centro de Vitória sob diversas óticas. O projeto foi composto por mesas redondas formadas por especialistas no tema em pauta, incluindo economia e cultura; música e poesia; manifestações políticas; e educação. Todas as quatro mesas redondas foram gravadas e chegaram a ser transmitidas pela TV Educativa do Espírito Santo. Torço agora para que virem DVD e sejam colocadas à venda para o público em geral.

Há ainda que mencionar o passeio de caravela pela Baía de Vitória. Uma réplica de uma típica embarcação portuguesa do período colonial revisita a história da colonização na região enquanto percorre importantes pontos turísticos da cidade.

Outro aspecto positivo da cidade são as mais variadas opções de restaurantes de qualidade espalhados por quase todos os bairros, para todos os gostos e bolsos. O estado (e consequentemente Vitória) também faz parte do evento Brasil Sabor que este ano acontece entre 9 de abril e 11 de maio. E há ainda o evento Sabor ES que ano passado ocorreu no final de novembro e reuniu os principais chefs do estado sem contar convidados de todo país.

Finalmente, os turistas (moradores ou não) não podem deixar de visitar as principais atrações da cidade, dentre as quais recomendo: A Catedral Metropolitana e demais prédios históricos do Centro (afinal, Vitória é a terceira capital mais antiga do país), a Ilha das Caieiras, o recém-inaugurado Hortomercado, o Parque da Fonte Grande, o Museu Solar Monjardim e o Museu de Artes do Espírito Santo.

Não vou falar dos municípios vizinhos que compõem a região metropolitana e do famoso balneário de Guarapari. Estas regiões sozinhas mereceriam posts como este exclusivo para elas. Limito-me a destacar, em Vila Velha, o Convento da Penha (construído sobre um rochedo a 154 metros de altitude em 1558), o Museu Ferroviário, a Igreja Nossa Senhora do Rosário (quarta mais antiga do país), e o Museu Homero Massena; a bucólica região de Manguinhos na Serra; e todas as belas praias de Guarapari e de seu município vizinho, Anchieta.

Falar de terras capixabas dois meses depois de deixá-la faz aumentar bastante a saudade. Foi muito bom ter descansado por lá ao lado das pessoas mais queridas para mim e que amo tanto, e ter também revisitado muitos destes lugares que fazem parte da minha história.

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De volta ao Brasil

março 7th, 2008 — 1:51am

Quando planejei esta viagem que fiz à Europa em Dezembro, um dos maiores problemas foi acomodar a agenda apertada às opções em conta de passagens de trem e avião. Em Helsinque, por exemplo, quando vi que a passagem de volta para Frankfurt um dia antes do previsto era cem vezes mais barata (!!!), nem pestanejei: Dormir uma noite no aeroporto seria moleza diante da economia.

E eu já conhecia bem o aeroporto de Frankfurt. Sabia que lá havia duchas disponíveis ao público, Internet sem fio, e sofás confortáveis. Seria mesmo uma barbada e eu não seria o primeiro a realizar tal empreitada: O site Sleeping in Airports coleciona relatos de diversos viajantes avarentos que chegam a passar dias dormindo no mesmo aeroporto enquanto conhecem a sua cidade. Lá há até dicas de como usufruir melhor da experiência e um ranking dos melhores aeroportos.

Pois bem, cheguei cedo ao aeroporto de Helsinque, cedo até demais. Foi só pisar no saguão principal que recebo uma mensagem no meu celular informando que meu vôo estava atrasado em 1 hora. Vejam, entretanto, a diferença entre as empresas aéreas finlandesas e brasileiras: Além do aviso antecipado do atraso, ainda recebi um voucher de EUR 10 para realizar compras no aeroporto. E o atraso durou mesmo só 1 hora!

Cheguei a Frankfurt por volta das 23 horas e meu vôo era às 21 do dia seguinte. Seria bem mais cedo, às 11, se a Varig não tivesse feito o favor de cancelar o meu vôo original, com a promessa de transferir-me para esta opção noturna. Após pegar as malas e guardá-las num depósito monitorado, perambulei um pouco pelos enormes corredores do aeroporto, comi um sanduíche e logo me acomodei em um dos belos sofás no salão principal. De cara notei o primeiro problema: Não há tomadas no aeroporto para que pudesse usar meu laptop! Simplesmente não há. As que existem são de uso administrativo e fui severamente advertido quando tentei usar uma responsável por recarregar as baterias dos carros elétricos da manutenção.

Tentei então comprar um livro, mas de madrugada a única livraria aberta possuía apenas livros chinfrins ou em alemão. Restou-me tentar dormir. Em vão. Durante toda madrugada as luzes permanecem acesas e pessoas não param de circular. Fiquei neste estado letárgico até umas 5 da manhã quando resolvi tomar um banho. Quanta ilusão! A ducha não estava operando desde a semana anterior por conta de um problema qualquer que não me importei. Àquela altura, nada mais importava. Passei a ler o manual de instrução do aeroporto e catálogos de loja, a contar a quantidade de vôos por hora (uns 20 nas primeiras horas daquela manhã), e a me preocupar com a confirmação da transferência do meu vôo. Cheguei a ligar para o Brasil, onde minha sempre eficiente mãe tentou um contato com o escritório brasileiro da Varig, já que na Alemanha ninguém atendia. Infelizmente no Brasil, tal qual a retórica de Lula, ninguém sabia de nada.

O balcão finalmente abriu por volta das 13 horas. Quando chegou minha vez, me senti como na música interpretada por Jimmy Cliff (“I can see clearly now the rain is gone”): A atendente não só se desculpou pelo atraso como também me encaminhou para um excelente hotel com almoço incluso. Eu tinha todo um discurso preparado e nem precisei usar o parágrafo introdutório do mesmo; Será que estamos finalmente melhorando nossos serviços e nos equiparando aos finlandeses?

Depois de comer, tomar um banho excepcional e dormir, não tinha mais como nada dar errado. No dia 18 de dezembro de 2007 cheguei de volta ao Brasil para 30 dias de férias.

***

Um detalhe curioso: Depois de tantas idas e vindas via aeroporto de Frankfurt, esta foi a primeira vez que de fato saí de seus saguões. Não vi muito pois o trajeto até o hotel foi curto. Da janela do quarto onde me hospedei, arranha-céus e muitas árvores decoravam a bela vista.

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Alguém aí já ouviu falar de Tallinn?

março 2nd, 2008 — 11:19am

Tallinn é a capital da Estônia, localizada no sul do Golfo da Finlândia. De Helsinque, onde eu estava, o trajeto de barco durou apenas 2 horas. Para quem nunca ouviu falar do país e sua capital, eu explico um pouco. Mais detalhes, claro, na sempre prestativa Wikipédia que inclusive tem um artigo em português que está em destaque.

A Estônia faz parte dos países bálticos que incluem também a Letônia e a Lituânia. Os três recebem esta denominação por compartilharem uma geografia similar, banhados pelo Mar Báltico, mas também pelo contexto histórico recente: Todos se tornaram independentes da União Soviética em 1920, foram anexados a ela novamente após a Segunda Guerra Mundial (inclusive com aprovação do Reino Unido e dos Estados Unidos) e só se tornaram independentes novamente em 1991, após a queda do regime comunista. Talvez pelo fato de terem uma economia tão fechada durante décadas, a Estônia só passou a fazer parte da União Européia em 2004 e até Dezembro do ano passado ainda fazia o controle alfandegário em suas fronteiras. Eu devo ter recebido um dos últimos carimbos aplicados em passaportes na entrada e saída do país.

Naquele dia 15 de Dezembro de 2007, chegamos cedo eu e mais dois amigos finlandeses. O local, a primeira vista, parece que está chegando do passado agora com construções modernas de grandes multinacionais brotando aqui e ali em meio a uma cidade que certamente ficou parada no tempo por pelo menos 50 anos. Em conversas com meus amigos, também percebo que existe certo preconceito dos finlandeses com os estonianos apesar das semelhanças entre os povos. Estonianos e Finlandeses compartilham o mesmo grupo lingüístico e o primeiro ainda foi fortemente influenciado pelo segundo durante todo o regime comunista. Tallinn, devido a sua proximidade à Helsinque, recebia até os sinais de TV e rádio do país vizinho (ilegalmente, claro), o que garantia um dos poucos contatos com o ocidente na região. Além disto, o país tem atualmente a Finlândia como principal parceiro econômico. Mesmo assim, os gracejos com o “sotaque” estoniano e com os sinais de pobreza que ainda aparecem aqui e ali são comuns.

A Estônia também está se tornando uma potência no setor de Tecnologia da Informação. O país realiza inclusive eleições pela Internet e é considerado o mais conectado à Internet da Europa. Este resultado faz parte de um projeto político com foco em investimentos em educação que começou logo após a independência do país e não parou mais. Para os interessados, recomendo o site oficial do Projeto Tiigrihüpe.

Logo após nossa chegada, fomos direto ao Centro Histórico, construído entre os séculos XV e XVII. Portões e muros, casas, igrejas, bares, lojas, e praças preservam todo o estilo da época. É como andar numa Ouro Preto medieval e bem mais fria. A influência russa também está lá em condomínios sem graça e colados uns aos outros, e na Catedral Alexander Nevsky.

Em seguida fomos ao KUMU, o Museu Nacional de Arte da Estônia. O prédio, moderno e belíssimo, foi projetado pelo arquiteto finlandês Pekka Vapaavuori (eu estava com amigos finlandeses, o que esperava que eu fosse ouvir?) e inaugurado em 2006. Lá dentro, mais inovação e modernidade no leiaute das galerias, na interação com TVs de plasma, e na impecável manutenção dos espaços. Tudo à altura de obras que me surpreenderam por se tratarem principalmente de artistas estonianos que nunca ouvi falar (tá vendo o preconceito?). As que mais me impressionaram mostravam a dura realidade da guerra e do regime comunista. Sobre isto, uma curiosidade triste é que a grande maioria dos artistas morreu durante ou na pós-Segunda Guerra; Certamente eram mais visados que os demais cidadãos por conta dos protestos contundentes em suas obras.

Para terminar o dia, voltamos ao Centro Histórico para jantarmos num restaurante de tema medieval. O Olde Hansa é fantástico em todos os detalhes. Toda a decoração remete a uma taverna na penumbra da luz de velas, com mesas e cadeiras de madeira, jarros e copos em cerâmica, e garçons vestidos a caráter. E, claro, as comidas e bebidas também eram de outrora: uma cerveja de mel acompanhava nossas carnes de urso e javali (que caçamos poucas horas antes com nossos arcos e flechas), patês diversos, salmão defumado e pães variados. Eu comi tanto que chego a ficar sem fome só de pensar.

Voltei à Helsinque mais do que satisfeito com a visita que queria fazer desde 2002. E finalmente a viagem parecia ter chegado ao fim. Mal eu sabia que o retorno ao Brasil seria uma aventura e tanto no aeroporto de Frankfurt…

Fotos:

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Helsingissä

fevereiro 24th, 2008 — 10:52pm

Estava em Helsinque em Dezembro. Este era meu penúltimo destino antes de retornar ao Brasil. O último era Tallinn na Estônia, do outro lado do Golfo da Finlândia, a 2 horas de barco. Aliás, o trajeto de barco é altamente recomendado. E quem vai visitar Estocolmo (capital Sueca) com um pouco mais de tempo, também pode pernoitar num cruzeiro até Helsinque ou vice-versa. Recomendo as empresas Viking Line e Silja Line, o passeio vale a pena e a passagem custa uns R$ 90,00 (a mais básica, claro).

Pois bem, em Helsinque, desta vez acabei não aproveitando muito. Apesar do bom tempo, o frio estava de doer os ossos: O termômetro registrava -8 ºC pela manhã. O resultado é que visitei apenas os principais pontos turísticos da cidade para relembrar os velhos tempos.

Dentre as paradas obrigatórias estavam a Estação Central construída em 1860 e a Catedral de Helsinque, um dos cartões postais da cidade. Também não dava para deixar de visitar a Praça do Mercado, especialmente na época de Natal. O local estava repleto de comidas típicas e artesanato natalino. Só faltou mesmo a neve…

Catedral de Helsinque; Frio de doer
Catedral de Helsinque num frio de doer

Com o frio insuportável, me restou mesmo procurar um canto para esquentar o corpo antes de retornar à Espoo, onde estava hospedado. Tentei a Stockmann, loja de departamentos preferida da minha mãe, mas o local estava insuportavelmente cheio. Lembrei então da maior livraria que já visitei até hoje e que estava logo ali ao lado. O local tem cinco andares e livros para todos os gostos e em todas as línguas. Vai aí um livro de poesias em finlandês? Hmmm, talvez você prefira cânticos de ninar em russo? Ou que tal um Paulo Coelho em umas sete diferentes línguas? Tá, o Paulo Coelho não conta, até em camelôs aqui em Bangalore encontro os livros dele à venda.

Lá achei logo um local para tomar um bom chocolate quente enquanto tentava relembrar algumas palavras básicas no Helsingin Sanomat, o Jornal de Helsinque que possui uma versão internacional on-line em inglês. Na saída, contemplei por um instante aquela que talvez seja a avenida mais movimentada da cidade. Sabe-se lá quando voltarei ali novamente.

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A Chegada em Helsinque

fevereiro 16th, 2008 — 2:05am

Precisei recontar minha experiência na Finlândia em 2002 para que vocês pudessem entender o contexto do meu retorno àquele país em Dezembro de 2007:

- “Tervetuloa!” – Escutei ao entrar no avião. Como era bom ouvir a língua finlandesa novamente!

A viagem de Varsóvia à Helsinque ocorreu sem contratempos. Cheguei por volta das 3 da tarde e já anoitecia; A temperatura cravava 0 grau no visor do carro. Finalmente esfriara o suficiente para que eu pudesse acreditar que veria neve novamente, nem que fosse pelo menos algum sinal.

Do aeroporto, em Vantaa, região metropolitana de Helsinque, parti direto para Espoo, na casa de meus amigos onde me hospedei. É claro que fui recebido de braços abertos e me senti em casa. Como era bom rever aquele povo tão querido e pelo qual guardo profunda admiração, respeito, e carinho.

Neste mesmo dia, caminhamos pelos arredores de onde estava hospedado enquanto botávamos os assuntos em dia. 5 anos foram suficientes para acumular bastante coisa. Na região pouca coisa mudou: Espoo continuava bela, mesmo no inverno de árvores desfolhadas e dias mais curtos. Entre meus amigos, algumas novidades que vêm com o amadurecimento: Casamento, filhos, melhores empregos, casa própria, essas coisas… Mas não necessariamente nesta ordem.

Acabou que não rolou turismo neste dia. E nem fiz questão mesmo. Estava ali muito mais pelo reencontro do que qualquer outra coisa. Após um saboroso jantar num restaurante local (carne de rena, minha favorita!), nos direcionamos para uma apresentação da Orquestra Senegalesa Baobad, música africana de primeira (com ligeira semelhança aos cubanos do Buena Vista Social Club), num ritmo multicultural que fez até os finlandeses dançarem. Terminamos a noite aos papos num pub. Noite inesquecível!

No próximo post conto os detalhes do passeio pelo Centro de Helsinque e se a neve veio ou não afinal.

Nähdän!

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Nove meses na Finlândia em 2002

fevereiro 8th, 2008 — 12:53pm

A Finlândia foi o primeiro país que visitei na Europa. Foi também o primeiro lugar onde morei no exterior. Antes, aliás, eu mal conhecia o sudeste do Brasil. Foi só no dia 1 de setembro de 2002, quando pisei em Helsinque, que isto começou a mudar. Graças àquela experiência compreendi o inestimável valor de explorar novos destinos, tudo o que ele oferece, e tudo o que é conseqüência da aventura.

Também naquela época comecei a registrar minhas peripécias. Relatos pessoais do que vinha à cabeça e de como eu lidava com tanta novidade. Naquele final de verão, fiquei apenas um dia na capital finlandesa antes de embarcar para Oulu, no extremo norte, quase acima do Círculo Polar Ártico. Foi quando escrevi, em tom quase infantil, estapafúrdio:

“A cidade [Helsinque] é linda, muito bem estruturada e cheia de árvores. Nas partes em que andei, no centro, pude perceber que as construções são parecidas e o povo é bem prestativo. Conheci os amigos de minha mãe e seu companheiro e eles foram super atenciosos. Foram no aeroporto me buscar, me convidaram para almoçar, fizeram um tour pela cidade comigo e me mostraram os monumentos históricos, os navios, o mercado, a prefeitura e o palácio da presidente (sim, uma mulher é a presidenta da Finlândia).

Como fiquei só 1 dia em Helsinki não posso falar muito mais, mas a primeira impressão foi muito boa.”

Dois dias depois, já estabelecido em Oulu, o tom do relato foi similar:

“A cidade é um pouco parecida com a de Helsinki mas o bem menor (115.000 habitantes enquanto Helsinki tem mais 500.000). A universidade fica a 5 km do centro e é bem grande.

Meu apartamento fica de frente para ela, a uma distância de uns 300m. Atrás, a uma distância também de uns 300m, existem lojas, uma vídeo locadora e um supermercado.

Tenho uma cama, um armário, uma mesa grande, um criado-mudo e duas cadeiras. O quarto deve ter uns 9m² e o apartamento todo uns 22m². Este tamanho todo porque tem outro quarto do lado do meu onde outro estudante está hospedado. A cozinha e o banheiro são comuns a nós dois.

Já estou aqui há 2 dias e as coisas estão caminhando bem apesar da dificuldade da língua. Apesar do curso ser em inglês (ainda não assisti nenhuma aula para comentar o curso) poucas pessoas o falam por aqui. Até na universidade tudo está escrito em Finlandês. Isto está sendo a grande dificuldade mas já estou conseguindo me virar. Acho que a medida que o tempo vai pansando vou melhorando minha fluência no inglês e também vou aprendendo algumas palavras em Finlandês.

Outro fator de dificuldade é o frio mas este vai ser mais fácil. É impressionante (pelo menos para mim está sendo) mas lá fora a temperatura fica em torno de 15ºC (parece não estar frio mas venta muito por aqui) enquanto dentro do meu quarto é de 25ºC, sem ligar o aquecedor. Ou seja, o frio só existe do lado de fora e como só vou sair para comprar coisas e ir a Universidade, vai ser mole!!”

Notem que preservo os textos originais da época, inclusive os erros de português. Os erros, de fato, não importavam muito desde que eu extravasasse as emoções que sentia. Incrível como a mais singela e pueril experiência faz toda a diferença quando vivenciada pela primeira vez, não? Parece que voltamos a ser crianças e que nada mais importa…

Só quatro meses depois, em pleno inverno, é que retornei à Helsinque. O frio era negativo, a paisagem branca, e a luz do dia durava três ou quatro horas. Somado a isto, a distância da família e dos amigos em pleno Natal tornava aquele momento um tanto depressivo. Depois de tanto tempo, afinal me dava conta que morar tão distante do Brasil não era tão mole assim como pensei nos primeiros dias.

“Dezembro e janeiro foram frio, escuro e entediante. Não por vontade própria mas pela falta de opções. É impressionante como o pessoal se desanima por aqui quando lá fora a temperatura fica abaixo dos –20 graus. Dá para ver na face o desânimo, a vontade de ficar em casa, de esperar o frio passar.”

O norte da Finlândia no inverno é pra lá de muito frio
O norte da Finlândia no inverno é pra lá de muito frio

Mais cinco meses e lá estava eu retornando pela terceira e última vez à capital pela qual me apaixonei. E Helsinque na primavera era radiante, principalmente tendo como vizinha a cidade de Espoo e suas imensas áreas arborizadas onde moravam grandes amigos que conheci nove meses antes.

Um parque em Helsinque, em pleno sol primaveril
Um parque em Helsinque em pleno dia primaveril

Foi difícil deixar a Finlândia e foi muito bom retornar ao Brasil. Não encontrava lógica para explicar aquele paradoxo, mas lembro-me como se fosse hoje do desembarque em Vitória: O dia estava ensolarado e ventava bastante. Propositalmente, eu fui o último a sair do avião. Lágrimas escorriam de felicidade num olho e de tristeza no outro. Caminhei lentamente enquanto tentava colocar aquele turbilhão de emoções em ordem. Naquele momento, não podia imaginar que cinco anos depois retornaria àquele país que um dia chamei de lar.

Mais algumas fotos de 2002 e 2003:

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Em Cracóvia, lendas de dragão e trombeteiro

fevereiro 6th, 2008 — 3:40am

“Alô pessoal! Aqui é um brasileiro em Varsóvia rumo à Cracóvia, desejando a todos um belo dia e uma viagem segura!” Foi assim que anunciei minha presença (em inglês) num rádio de baixa freqüência no carro de meu amigo. Cracóvia, claro, foi muito mais divertida que Varsóvia.

No dia anterior, nosso amigo alemão retornou à Chemnitz, sua terra natal, por conta da pressão no trabalho. Tinha um projeto de pesquisa para terminar e atrasos não eram muito tolerados. Restou a mim e ao meu amigo polonês acordar bem cedo rumo ao sul do país. Na saída de Varsóvia um tráfego surpreendente foi classificado como rotineiro: Levamos os típicos 30 minutos numa das principais rodovias de acesso à capital. Em seguida, fomos “presenteados” com uma neblina muito espessa praticamente o tempo todo. Não deu para ver a paisagem ou desconcentrar do trânsito até chegarmos ao nosso destino.

Paramos o carro próximo da estação de trem em Cracóvia e seguimos a pé. No caminho, construções antigas (e preservadas!) caracterizavam uma cidade bem diferente da capital. Cracóvia não foi tão bombardeada nem teve uma revolta local tão intensa e duradoura como em Varsóvia durante a Segunda Guerra. Para explicar um pouco, a cidade tem suas origens lá no século VII e chegou a ser capital da Polônia durante 1038 e 1596. Também fez parte do Império Austríaco entre 1846 e 1918 e atualmente é a capital de uma das províncias polonesas no extremo sul do país. Turisticamente a cidade é atrativa pela incrível quantidade de monumentos históricos que preserva e pelas opções de vôos baratos (que só a Europa tem) principalmente oriundos de Londres. Não à toa, a cidade está entupida de britânicos da mesma forma e pelos dois mesmos motivos que Praga.

Praça Central
Praça Central. Do lado direito a Basílica de Santa Maria, no centro o Hall de Drapers, e do lado esquerdo a torre da prefeitura. Fonte da foto: Wikipédia

Tínhamos só um dia na cidade então tivemos que nos contentar apenas com as principais atrações do lugar. Fomos primeiro à Praça Central, local originalmente concebido para mercantes no século XIII. No entorno, não dá para não notar a Basílica de Santa Maria, e suas duas colunas, uma diferente da outra, em estilo gótico. Diz a lenda que, no século XIII, um trombeteiro foi flechado na garganta do alto de uma das torres enquanto soava um alarme para alertar a população da invasão mongol. Até hoje a mesma melodia é tocada de hora em hora e interrompida pela metade simbolizando a fatídica morte do pobre trombeteiro.

Retábulo de Veit StossDentro da Basílica, destaque para o Retábulo de Veit Stoss, o maior retábulo em estilo gótico da Europa, esculpido por Veit Stoss entre 1477 and 1489. O danado é gigante, tem mais de 12 metros de altura e 11 metros de largura quando os painéis estão abertos. Ou seja, 132m² de área é maior que muito apartamento no Brasil.

Já era pra lá de meio-dia quando saímos da Basílica e meu estômago roncava. Graças ao meu amigo, fomos a um restaurante típico, que nenhum turista vai. O local era simples mas bem cuidado, não tinha nenhuma decoração ou cardápio ou garçom. Aliás, nem banheiro tinha, era só cozinha e uma sala de uns 30m² onde os clientes se espremiam. E eu nem sei o que comi. Na hora ele me falou o nome mas o diacho do polonês é muito complicado e já absorvi a minha parcela de línguas complicadas com o finlandês. Anyway, saí de lá satisfeito e pronto para seguir em frente.
Retábulo de Veit Stoss. Fonte: Wikipédia

A parada seguinte foi o Castelo de Wawel, referência na Europa Oriental e curiosamente considerado um dos sete chakras do mundo pelos Hindus. Esta última informação eu li lá em Cracóvia e confirmei agora na Wikipédia. No local, tesouros guardados por séculos, e o pátio interno do palácio em estilo renascentista são os destaques. Como na Basílica, ali também há espaço para lendas e folclores. A mais difundida é a do Dragão de Wawel: Nela, um dragão vivia numa gruta no pé da colina onde se encontra o Castelo de Wawel. E ele aterroriza as cidades próximas e deixava rastros de destruição por onde passava. Para evitar mais ataques, uma jovem donzela era deixada todo mês na entrada da gruta para que o dragão a devorasse (sempre as pobres das donzelas são as que sofrem).

Vista externa do castelo
Vista externa do castelo

Detalhe do pátio interno do casteloQuando só sobrou a filha do rei, a sua mão foi prometida em casamento a quem matasse o dragão. Após inúmeras tentativas fracassadas, um aprendiz de sapateiro resolveu se arriscar. Mas ao invés do ataque direto, estufou enxofre em um carneiro abatido e ofereceu ao dragão. No dia seguinte, o monstro acordou com uma sede terrível e começou a beber incontrolavelmente a água do rio Vistula. A sede não passava e o dragão bebeu tanta água que explodiu. O aprendiz de sapateiro se tornou o herói da cidade, casou-se com a princesa, e os dois viveram felizes para sempre…

Já anoitecia quando deixamos as Colinas de Wawel. Antes de partimos, porém, ainda fizemos uma parada rápida para um belo chocolate quente. Já no trajeto de volta à Varsóvia, minha cabeça estava no destino seguinte: Finlândia. A possibilidade de rever o país que foi minha casa por um ano entre 2002 e 2003 me deixara ansioso desde quando deixei a Índia. E finalmente o momento chegara.

Detalhe do pátio interno do castelo

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Marcas do passado em Varsóvia

fevereiro 1st, 2008 — 10:14pm

Continuando a narrar a viagem que fiz em Dezembro, cheguei à Varsóvia bem cedo. O céu nublado e o vento forte tornavam o frio insuportável. Pior, entretanto, era ver que as marcas da Segunda Guerra Mundial ainda estavam (e provavelmente sempre permanecerão) bem fortes na cidade.

Varsóvia não é muito bonita ou moderna. Além da guerra, o regime comunista fez muito mal ao país e principalmente à sua capital. Logo ao sair da estação de trem, o Palácio da Cultura e Ciência, um prédio imponente de arquitetura soviética dado de “presente” por Stalin, é uma destas cicatrizes que ficaram. Outras incluem casas e prédios ainda destruídos, o Centro Histórico restaurado (praticamente nada é original), e o museu da Revolta de Varsóvia, espaço que relembra a tentativa polonesa fracassada (embora heróica) de libertar a capital do controle alemão.

A Revolta, aliás, é um dos muitos ápices trágicos da Segunda Guerra para o país: após a derrota, os alemães além de mandarem os civis para prisões e campos de concentrações, terminaram de destruir a cidade, prestando atenção especial aos monumentos históricos. Segundo o Museu que visitei, após 1945 mais de 85% da cidade estava destruída e 6 milhões de poloneses por todo país estavam mortos.

Apesar disto tudo, reconstruir a cidade é um mérito muito grande. Principalmente estando o povo sob regime comunista até 1989. O Centro Histórico é pequeno mas foi incrivelmente bem restaurado. Destaque para o Castelo Real, hoje um museu que abriga parte da história recuperada.

Palácio Real
Fachada central do Castelo Real, Centro Histórico da Polônia hoje reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO

Outro local que merece visitação é o Parque Lazienki. É o maior da cidade e abriga monumentos importantes como uma estátua de Chopin, o Palácio na Água, construído numa ilha artificial no século XVII, um teatro romano, e um jardim de esculturas.

Eu no Teatro Romano
Eu no Teatro Romano

Durante todo o dia percorremos a cidade com um outro amigo que não via desde 2003. O polonês nos recebeu muito bem e à noite nos apresentou a alguns de seus amigos em um bar típico da cidade. O local foi todo construído em madeira e era bem decorado com quadros de paisagens que suponho serem do próprio país. Garçons e garçonetes se vestiam com roupas tradicionais e serviam cerveja em copos de 1 litro!

O povo bebe muito lá. E ficam muito bêbados. Acho que inconscientemente se embriagam para esquecer do passado, dos familiares que nunca tiveram, das casas destruídas e reconstruídas, e da pobreza que só agora começa a dar sinais de fraqueza.

1 litro de cerveja!
1 litro de cerveja!

Apesar do reencontro com um grande amigo, visitar Varsóvia foi muito triste. Ainda bem que a visita à Cracóvia no dia seguinte foi muito mais agradável. No próximo post conto os detalhes.

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Um trem de Praga para Varsóvia

janeiro 26th, 2008 — 12:23am

Da Alemanha fomos e meu amigo para Praga e de lá iríamos para Varsóvia, capital da Polônia. O trem saía do centro de Praga às 22 horas mas estava atrasado. Trens invariavelmente atrasam na República Tcheca. Mais do que isto, na estação de trem mais assustadora e mal cuidada que já vi na Europa, a plataforma do trem só é divulgada quando o trem chega nela.

O resultado é uma correria sem precedentes para chegar ao vagão correto pois os mesmos ficam trancados entre si por questões de segurança. Já disse e volto a repetir, é uma Europa diferente a Oriental. Além da preocupação maior com a segurança, tudo é pelo menos mais simples, quando não é também mais mal cuidado e mais feio.

Dentro do vagão, procurávamos ansiosos por nossa cabine na esperança de encontrar as belas camas onde passaríamos a noite durante a viagem. Ao acharmos as camas, bem, achamos também outras 4 numa cabine de uns 3m²!! O banheiro da minha casa deve ter o mesmo tamanho, se não for um pouco maior. E as camas não eram duas beliches, eram duas “triliches”, ou seja, 3 camas uma em cima da outra em cada lado da cabine.

A cabine mais apertada de todos os tempos
A cabine mais apertada de todos os tempos

Também não tínhamos acesso ao restaurante e dois banheiros deveriam supostamente atender nossas necessidades mais fundamentais. Pelo menos o banheiro havia de seguir o padrão europeu, pensei… A experiência prática, entretanto, se provou bem inferior: Um banheiro não funcionava e outro ficou imundo umas duas horas depois da partida do trem. Gritarias anunciavam pelo corredor o ocorrido: Um sujeito bêbado havia vomitado todo o assoalho próximo ao banheiro e ria incontrolavelmente do funcionário responsável pelo vagão, um velhinho simpático mas que não falava um “a” em inglês. O velhinho, por sua vez, resmungava insultos em polonês e não sabia o que fazer. Acabou largando o sujeito lá.

Felizmente nossos companheiros de cabine pareciam agradáveis. Além de mim e do meu amigo, outros 3 estavam lá: um casal de estudantes (ele da Alemanha, ela da Bulgária) e uma outra alemã. Todos os 3 estavam no programa de intercâmbio que mais movimenta alunos pela Europa, o Erasmus. O programa, mais pelo aprendizado social do que científico que proporciona , é um sucesso tão grande foi até tema do filme Albergue Espanhol. O filme, aliás, se passa em Barcelona, cidade que será o próximo destino do meu irmão.

Pois bem, confinados dentro da cabine batíamos um papo agradável. Aquelas coisas básicas de estrangeiros que se encontram pela primeira vez: “De onde você é? Brasil, nossa!! Quero ir um dia lá!! Onde você mora? Perto do Rio, o Carnaval lá deve ser incrível né??” e bla bla bla…

Em seguida, sem mais assunto, fomos dormir. Eu na cama mais ao alto e meu amigo na cama do outro lado. Em baixo, o casal resolveu dormir junto. Bem, eles deitaram juntos. Aí começaram a fazer uns barulhinhos estranhos juntos. E acho que chegaram até a fazer sexo juntos, com outras 3 pessoas na cabine ouvindo aos gemidos que eles tentavam conter. Eu e meu amigo olhávamos um para o outro rindo daquela situação inesperada. Não havíamos pago por nada daquilo…

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