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Devaneios Distantes

outubro 21st, 2007 — 10:01am

Estava na minha pré-adolescência quando fui apresentado à Web pela primeira vez. 12 anos atrás as páginas demoravam minutos para carregar e continham basicamente letras piscantes e difíceis de ler com imagens borradas pelos cantos. De lá pra cá, a velocidade com que a informação passou a trafegar se reduziu ao instante. A barreira das mídias físicas havia caído.

Consequentemente, passei a acreditar durante algum tempo que a aviação moderna também acabaria com a distância entre as pessoas. Afinal, já tínhamos o Concorde como indicação do que poderia estar por vir.

Ledo engano. O Concorde foi descontinuado em 2003 e a logística do transporte aéreo, claro, continua seguindo a lógica do mercado financeiro mundial. Resultado: Da Índia até o Brasil, são necessárias mais de 40 horas em trânsito, entre escalas e diferentes vôos do mais puro desconforto da classe econômica.

No campo terrestre, a evolução dos transportes também parece regredir: Aqui em Bangalore, por exemplo, é preciso reservar cerca de 1 hora para percorrer um trajeto de míseros 15 km. Um cavalo, em tempos medievais, faria o trajeto mais rápido.

Mas tergiverso. Mesmo que os aviões fossem capazes de nos transportar a qualquer parte do mundo em questão de uma ou duas horas, a um preço ínfimo, ainda assim estaríamos “condenados” a nos mudar sempre que optássemos ou necessitássemos buscar algo além do nosso atual horizonte.

Não somos onipresentes como a informação e, mais do que isto, não somos independentes do meio em que vivemos. Necessitamos de nos relacionarmos com as pessoas a nossa volta e de interagirmos com elas. Isto obviamente é essencial a qualquer processo de aprendizagem e crescimento pessoal.

Eu não vim fazer o meu mestrado na Índia apenas para assistir às aulas. Isto poderia simplesmente ser feito via videoconferência. Aliás, Bangalore não teria se tornado uma referência em Tecnologia da Informação no mundo se a presença das pessoas num único local não fosse importante. Neste caso, bastaria que cada indivíduo trabalhasse em sua própria casa.

Além do relacionamento interpessoal, o que motiva pessoas a se deslocarem entre regiões pode incluir políticas públicas, diferenças culturais, decisões de empresas, e até mesmo xenofobia.

Seja por necessidade ou desejo, no entanto, não dá para ignorar os benefícios da tecnologia. Ela permitiu que o mundo se tornasse mais conectado e transforma a maneira como nos deslocamos e comunicamos. Graças a ela estou aqui hoje e graças a ela transmito esta mensagem num instante, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância.

Para finalizar, abro um parêntese: Se o custo da passagem aérea fosse ínfimo e a viagem demorasse poucas horas, certamente retornaria a minha terra natal nos finais de semana…

***

PS1: Para os interessados em se aprofundar nas relações da informação e do capital humano com a tecnologia e a sociedade, recomendo a leitura dos livros de Manuel Castells. Na Biblioteca Nacional há 8 diferentes livros do autor traduzidos para o português que certamente elucidarão a atual era da informação para o leitor.

PS2: Ontem almocei na casa de um casal muito simpático. Ela faz doutorado aqui no IIIT-B e ele é um arquiteto e urbanista. Os assuntos percorreram o mundo, inclusive o religioso, e finalmente pude entender um pouco melhor o hinduísmo. Prometo detalhes no próximo post.

PS3: A casa deles fica num típico bairro de classe média indiana: A rua não é asfaltada, a água não é encanada, não há coleta de lixo, e falta luz o tempo todo. Isto acontece porque a cidade não consegue acompanhar o crescimento urbano acelerado do país. Como os moradores resolvem o problema? Bem, a energia é solar, a água é captada da chuva e o lixo, quando possível, é separado na própria casa e decomposto ou reciclado por lá mesmo.

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