Lá e de Volta Sobre tecnologia e sociedade

5abr/085

Cingapura, cidade do leão

Uma semana depois de ter chegado à Bangalore, parti para Cingapura. Fui convidado a participar de um casamento e não podia perder esta oportunidade única. Antes de falar da cerimônia (assunto para outro post), uma introdução se faz necessária: O país é composto de 63 pequenas ilhas ao sul da Malásia, entre este e a Indonésia, e praticamente não há distinção entre o país e a cidade (é uma coisa só, de tão pequeno). Devido a sua privilegiada posição geográfica, na rota entre o Oceano Índico e o Mar da China Meridional, a região se viu influenciada (e muitas vezes colônia) de portugueses, holandeses, malaios, ingleses, japoneses e chineses desde o século II d.C.

Independência e a formação do país como ele é hoje, só veio mesmo em agosto de 1965, após dois anos de uma tentativa frustrada de união com a Malásia. À época, o país era bastante pobre como muitos ainda o são no sudeste asiático. O domínio inglês entre 1819 e 1959 e a ocupação japonesa durante a Segunda Guerra deixaram bastantes cicatrizes. “Pertencer” à Malásia (a fusão foi uma tentativa voluntária) durante dois anos também não foi muito produtivo já que este último tem até hoje problemas graves a resolver.

Assim, foi através de políticas públicas corretas, conscientização da população através da educação, leis severas, além de outros fatores menos importantes como a língua (inglês é uma das oficiais, e falada fluentemente por muitos), posição geográfica, e o tamanho populacional e territorial que este país se transformou, em 40 anos, numa grande força econômica no mundo, oferecendo excelente infra-estrutura e condições sociais aos seus cidadãos. Não à toa, portanto, chegar ao suntuoso Aeroporto de Changi (um dos melhores do mundo), vindo da Índia, causa um impacto tão grande que é difícil explicar. O outro lado é que muitos turistas acham o país um tédio só: Não há poluição, pobreza, tráfego caótico, sujeira, falta de educação, grandes aglomerações, e problemas de infra-estrutura. Tudo funciona de maneira tão eficiente e organizada que para muitos não há “emoção” na visita.

Talvez por ter amigos por lá e ter tido o privilégio de ser apresentado à cidade por eles, achei tudo formidável. Isto foi reforçado também por outros três motivos além do vínculo de amizade: Primeiro, a presença de três grandes grupos étnicos (chineses, malaios e indianos) é evidente e contribui bastante para a diversidade cultural (embora eu não tenha notado tanta miscigenação). Além disto, o poder econômico do país garante a preservação do patrimônio histórico e faz questão de destacá-lo em excelentes museus e em áreas abertas muito bem cuidadas. Por último, a modernidade oferece ainda parques temáticos, shoppings, meios de transporte eficientes, e segurança para se andar sossegado pelas ruas a qualquer hora do dia ou da noite. Apesar do clima extremamente quente e úmido, e das doenças tropicais (dengue, malária, etc.) que parecem ser o único problema ainda grave, esta é para mim uma das cidades mais atraentes que já visitei.

No dia 25 de Janeiro, quando cheguei, fui recebido por dois amigos de Cingapura e um alemão (o mesmo que viajou comigo à República Tcheca e à Polônia) que também fora convidado para o casamento. Já anoitecia então fomos direto ao Parque da Costa Leste, uma área aberta e arborizada às margens do Estreito de Cingapura, dedicado à prática de esportes e ao lazer, com várias opções de bares e restaurantes. Enquanto botávamos o assunto em dia, caminhávamos pela praia observando o pôr-do-sol atrás do moderno centro financeiro que visitaria dois dias depois. Do outro lado, também à distância, o pouso de aviões (inclusive um gigantesco Airbus A380) podia ser apreciado a todo instante. Mais tarde, no caminho para o hotel, paramos num distrito árabe para tomarmos o melhor (segundo meu amigo) teh tarik (um tipo de chá com leite condensado) de Cingapura e conhecermos a Mesquita do Sultão, construída pelo Sultão Hussain em 1826 (em um post futuro explico a colonização inglesa e a relação com o sultão).

Fotos do dia 25

O dia seguinte, 26, foi todo dedicado ao casamento (sim, um dia inteiro de cerimônias). Certamente contarei os detalhes depois. No dia 27, então, tratei de conhecer o centro da cidade. Depois de almoçar num restaurante barato do lado do hotel, tratei de ir direto ao Museu Nacional conhecer um pouco mais da história do lugar. O prédio foi construído em 1887 e completamente renovado em 2006. O aparato tecnológico chama a atenção do visitante mais incauto: Comprei o ticket num terminal e um funcionário me entregou uma espécie de computador de mão que ia me informando dos fatos históricos enquanto caminhava pelas exibições. Um luxo que não vi em nenhum outro museu até hoje.

Em seguida, caminhei em direção centro comercial e financeiro. No caminho, paradas estratégicas para contemplar os preparativos para o então próximo ano novo chinês (o atual ano do rato), a moderna Esplanade (com salas de teatro e concerto), e os belos prédios do governo como o do parlamento e da prefeitura. Cruzei o Rio de Cingapura e finalmente cheguei ao distrito financeiro. Um das principais avenidas vai gradativamente se transformando numa Times Square, tal qual Nova Iorque. Não vi muita graça então segui em frente, rumo à Chinatown.

Lá, vi finalmente uma Chinatown rica culturalmente e vibrante. Uma enorme feira livre parecia abastecer a região de energia. O vai e vem de pessoas era incrível, a gritaria dos vendedores era típica, e os cheiros de frutas, legumes, carnes, incensos, e perfumes era uma mistura sem igual. Depois de ter caminhado uns 10km até ali, não tinha melhor local para sentar e comer o que quer que fosse. Acabei comendo um pastelão recheado de legumes e carne de galinha desfiada. Logo ali, no meio de uma das ruas do mercado, está também o Centro Cultural de Chinatown. O local é imperdível por proporcionar uma visita ao passado da região, mostrando como viviam os primeiros moradores.


360 graus em torno do mercado em Chinatown

Antes de pegar o metrô de volta ao hotel, ainda parei para visitar os templos Buddha Tooth Relic (algo como o Templo da Relíquia do Dente de Buda) e o Thian Hock Keng, mais antigo deste tipo em Cingapura. À noite, fomos a uma pequena ilha ao sul, para assistir a um show de luzes projetadas em jatos de água. A atração chamada de Songs of the Sea (Músicas do Mar) foi lançada em 2007, custou S$ 30 milhões, dura pouco tempo e só me interessou pelos efeitos especiais. Foi um troço bem bobo, devo dizer.

Fotos do dia 27

No dia seguinte voltamos à Sentosa para conhecer as outras atrações. Fomos ao oceanário (incrível passear por “dentro” dele através de tubos), ao forte, ao orquidário, e à torre Carlsberg (110 metros de altura). A ilha é basicamente um parque de diversões com atrações para vários gostos e idades. Saímos de lá direto para o aeroporto onde jantamos pela última vez com o casal recém-casado.


Passeio "dentro" do oceonário

Fotos do dia 28

Quatro dias não foram suficientes para conhecer tudo. Não fui ao bairro indiano (já que conheço a Índia original), nem ao zoológico (um dos maiores do mundo). Também não fiz nenhum dos passeios recomendados nas florestas e ilhas das redondezas. Por outro lado, tive o privilégio de participar de todos os momentos (até os restritos somente a familiares) de um autêntico casamento chinês. Foi de fato mais uma destas viagens inesquecíveis que guardamos no coração.

9dez/073

Nova Delhi: Literalmente nova

Mantenho mentalmente uma lista das minhas cidades preferidas. Minha terra natal, Vitória (Espírito Santo), Montreal, Washington DC, e Helsinki (capital finlandesa) são alguns exemplos. Ao visitar Delhi, passei a considerar seriamente a inclusão da capital indiana neste rol - claro que aqui não estou contando ainda com o calor insuportável que me dizem fazer no verão por lá.

Depois da péssima experiência na minha chegada em Mumbai e Bangalore em Julho, esperava algo ainda pior em Delhi devido ao maior tamanho da cidade e ao fato dela ser a capital do país. Acabei queimando a língua durante todos os meus 4 dias na cidade.

A Delhi atual, pelo que entendi, é a 7ª reconstrução de uma cidade que tem pelo menos 5000 anos. No museu nacional, há objetos e até esqueletos da Harappan, uma civilização que cresceu nos arredores de Delhi e data de 3000 AC.

O mais interessante da experiência em Delhi, apesar dos vários monumentos históricos, museus, praças, parques e templos religiosos, foi dormir na casa de um amigo indiano e conhecer a cidade com ele. Na casa, banheiro sem papel higiênico e banho só com balde. A comida caseira era excelente e, felizmente, não vegetariana. Os indianos, de maneira geral, parecem viver com simplicidade e são muito receptivos. Mesmo protestando, não pude pagar por nada enquanto fui a visita da casa e fui tratado como rei.

Em termos de transporte público, Delhi dá um show. O metrô é um brinco de novo e impressiona até seus cidadãos ainda um tanto desacostumados com a novidade. A exigência do governo para que táxis, rickshaws e ônibus trocassem a gasolina pelo gás também acabou com outro grave problema: a poluição. Passear por Delhi, portanto, é agradável. Há vários parques, praticamente todas as ruas são limpas e arborizadas, e não há muito trânsito.

Belos parques
Um dos parques da cidade, próximo ao "Old Fort"

Na Delhi antiga, onde ainda há construções com mais de 400 anos abrigando residências e comércio, comi com segurança quitutes típicos da junk food do norte da Índia. Também passeamos pelos becos mais estreitos onde vendedores se espremem e empilham produtos até onde uma grande vara de metal alcança.

Junk food indiana
Junk food indiana

Becos aliás revelam por toda Delhi esconderijos surpreendentes. Por vezes, em pleno bairro luxuoso das embaixadas, encontramos verdadeiras favelas apertadas num cantinho que descobrimos apenas porque o taxista errou o caminho. Em ruas comerciais, becos revelam gigantescas feiras ao ar livre, vendendo de tudo um pouco. É quase uma passagem mágica para o mundo dos preços abaixo de R$ 20,00, independente do produto vendido ali.

Uma agradável coincidência foi a realização do casamento de um casal conhecido dos pais deste meu amigo. Extremamente luxuoso, o casamento seguiu à risca as práticas de um casamento hindu do norte da Índia. Primeiro o noivo chega a cavalo, acompanhado de uma banda e de seus parentes e amigos que dançam num estilo próprio da cerimônia. Ao chegar à tenda onde o casamento é realizado, os parentes (do sexo masculino) do noivo e da noiva realizam várias pujas para celebrar o laço entre as famílias.

Em seguida, o noivo é desmontado do cavalo sem tocar o chão e é carregado pelos amigos até um trono que fica numa parte central da tenda. A tenda é montada especificamente para o casamento e não tem vínculo com nenhuma igreja ou templo – pode ser montada em qualquer lugar.

Mais pujas são realizados e neste ínterim os convidados jantam. Só mais ou menos 1 hora depois que o noivo entra é que a noiva aparece. As mesma veste uma bela sári, própria do casamento e se senta ao lado do noivo. Neste momento, meu amigo não quis mais esperar e tivemos que ir embora. Ele me explicou depois que o que se segue é uma cerimônia repetida 7 vezes para selar 7 diferentes votos (fidelidade, cumplicidade, amor, etc.) do casamento. Tudo isto pode demorar mais de 8 horas e só os pais e parentes mais próximos permanecem até o final.

Noiva vestida de sári vermelha
Noiva vestida de sári vermelha

No aeroporto, como em todos pelos quais passei aqui até agora, um bocado de caos e obras de ampliação por todos os lados. A preocupação com a segurança (por conta de ameaças terroristas do Paquistão) também chama a atenção e chega quase aos níveis de paranóia dos americanos.

Pelo menos desta vez, embarquei sem atrasos para Mumbai de onde peguei meu vôo para Frankfurt. Índia agora só em 2008.