A produção de software no Brasil e o porquê da Índia ser melhor
Ano passado um russo veio à Bangalore visitar o Instituto onde estudo, vindo de Vitória, ES, cidade onde morei praticamente toda minha infância. É isto mesmo. Fiquei tão impressionado com a coincidência que 3 horas em um restaurante próximo não foram suficientes para tanto assunto. O sujeito é pesquisador na Universidade de Berkeley (Califórnia) e conheceu a esposa lá. Ela é carioca, a propósito.
Obviamente a origem da esposa foi mais do que motivo suficiente para ele iniciar um trabalho de pesquisa no Rio. Não me recordo quanto tempo ele ficou na cidade, mas o foco do estudo era no entendimento da metodologia adotada pelos cariocas no processo de desenvolvimento de software. Por que o Rio? Bem, além do fato da esposa ser de lá, outro motivo, segundo ele, é que mais cidades no mundo podem ser comparadas ao Rio, ao contrário da grandiosa São Paulo, o que possibilita um uso mais diverso do resultado. Outro aspecto que ele considera curioso no Rio é a maneira como a cidade se coloca no mercado, à sombra de sua vizinha paulista.
Entre um arroz biryani e outro, ele me apresentou a sua visão do mercado brasileiro de software – bem interessante, por sinal. Por que, por exemplo, os brasileiros produzem software para o mercado interno enquanto a Índia fatura horrores com a exportação? Certamente a língua não é o principal fator. Segundo ele, o fato do software estar em português, o que implicaria em algum custo para tradução (principalmente se o software não foi originalmente projetado para várias línguas) não é (ou não deveria ser), de longe, o principal entrave à exportação. Vencido este primeiro obstáculo, são inúmeras as etapas a serem cumpridas para que o software possa ser comercializado internacionalmente. A língua é, literalmente, o de menos...
Mas então, por que não vendemos software lá fora?
A culpa é do nosso pequeno mercado e da maneira como as empresas brasileiras atuam nele. Ele é, na verdade, ao mesmo tempo uma benção e um calo no pé. É claro que o fato de possuirmos um mercado interno estimula a produção de software local e sem ele nossas atuais empresas provavelmente não existiriam. Entretanto, graças a ele também é que estas mesmas empresas acabam se acomodando: “O meu cliente está logo ali, para que ir mais longe?”.
Outra característica peculiar de nossas empresas de software está na relação com os clientes. Primeiro que elas nascem ou já com um cliente em mente ou pensando em arrumar um cliente. Raramente uma empresa de software no Brasil surge com um plano de negócios focado em um mercado para produzir software numa economia de escala. O foco da empresa no cliente está na natureza de nossas relações. Dificilmente negamos as solicitações dos clientes o que acaba resultando em versões customizadas de um mesmo produto para cada um deles. É mais ou menos como se a relação precisasse ser informal, em tom de amizade [en]. Parece familiar? Pois é, para mim também. Este comportamento acaba fazendo com que as empresas de software do Brasil aceitem praticamente todas as solicitações dos clientes, indo ao extremo de detalhar no software particularidades exclusivas de cada um se preciso.
Além disto, o nosso principal cliente, o governo, tem características muito distintas que exigem grande esforço e investimento na relação comercial. Este mesmo governo também dita o tipo de serviço prestado pelas empresas locais. Nas décadas de 80 e começo de 90, por exemplo, quando o governo impunha severas restrições à entrada de hardware no Brasil, houve uma demanda pela produção interna dele.
Este tipo incentivo tem grandes desvantagens. Primeiro que incentivar a produção de tecnologia em detrimento do uso, acaba favorecendo apenas um setor da indústria quando vários poderiam se beneficiar se o incentivo do governo estivesse no uso da tecnologia. Segundo que, no caso particular da produção de hardware, o mercado internacional é altamente competitivo e dominado por grandes empresas principalmente estabelecidas nos EUA.
Assim, quando se iniciou no Brasil um processo de abertura comercial, muitas das empresas de hardware brasileiras tiveram que encolher consideravelmente ou simplesmente fechar as portas. Com políticas mais recentes do governo, este quadro está se revertendo um pouco. De 2000 para cá é evidente o crescimento de nossa indústria de hardware e software.
No caso do mercado externo, entretanto, são duas razões principais para nossas pífias exportações: 1) lá fora as empresas de software brasileiras não conhecem ninguém, o que dificulta qualquer aproximação mais pessoal da maneira como fazemos no Brasil; e 2) elas muitas vezes não possuem o interesse pois o mercado brasileiro é aparentemente suficiente para elas....
Normalmente uma empresa brasileira inicia alguma operação no mercado internacional apenas quando a oportunidade bate a sua porta. Ou seja, se algum comprador internacional procurar a empresa brasileira, demonstrando bastante interesse, então a ela terá a motivação necessária para tal empreitada.
Como em toda regra, entretanto, esta também possui suas exceções. O melhor exemplo talvez seja a linguagem de programação Lua. Ela foi criada na PUC do Rio em 1993 e desde o seu nascimento foi projetada em inglês, para o mercado externo. Para se ter uma idéia, nem existe manual em português. Aliás, os melhores livros dela só são encontrados fora do Brasil e sem tradução para nossa língua. Segundo o site oficial, Lua é usada em várias aplicações de grande porte (por exemplo, o Adobe Photoshop Lightroom) e é a linguagem de script dominante na criação de jogos. Menos de 10% dos mais de 1300 assinantes da lista de discussão são do Brasil.
Para fechar, o meu amigo russo acha que os brasileiros das empresas de software são megalomaníacos (ele fala um bom português e literalmente usou esta palavra). São todos cheios de grandes planos, sonham em atingir o mercado internacional, mas pouco fazem na prática para tornar os sonhos concretos. É a perfeita justificativa, segundo ele, para que nosso país continue sendo o “país de futuro”, sem planos no presente.
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O estudo do pesquisador ocorreu essencialmente no Rio de Janeiro. Embora alguma extrapolação seja possível, a generalização oculta outros padrões que se destacam principalmente em algumas regiões do Sul do Brasil, em São Paulo, e em Recife. Ainda assim, estamos muito atrás da Índia na indústria de software. Temos grandes empresas mas a maioria ainda é estrangeira (inclusive as Indianas Wipro e Satyam) e que só agora começam a se organizar para tornar o país competitivo. O resultado deste individualismo e falta de pró-atividade é um mercado menor que a metade do mercado Indiano (cerca de US$ 20 bilhões em comparação aos US$ 50 bi Indianos), com déficit na balança comercial, e ainda bastante dependente do governo para se sustentar.
Para mais informações:
- Sobre o mercado Brasileiro, acesse o site da BRASSCOM, criada em 2004 copiando o modelo Indiano;
- Sobre o mercado Indiano, acesse o site da NASSCOMM [en], criada em 1988 (!!) e hoje uma poderosa associação que defende os interesses da indústria de software Indiana;
- Sobre as diferentes características do crescimento das indústrias de software Indiana e Brasileira, leia o excelente livro From Underdogs to Tigers: The Rise and Growth of the Software Industry in Brazil, China, India, Ireland, and Israel [en].
Cristo, uma maravilha?
Devaneio sobre o resultado da votação para as 7 novas maravilhas do mundo, dentre elas o Cristo Redentor. Com a proposta do voto popular principalmente pela Internet, creio que as eleitas não indicam a preferência de todo mundo.
Conheço o Cristo muito bem. Faço questão de visitá-lo sempre que meu tempo disponível quando em visita ao Rio permite. O monumento, em si, não é um deslumbrante projeto de engenharia. Fosse a estátua colocada numa praça qualquer de uma cidade menor, não chamaria tanta atenção.
O conjunto da obra, por sua vez, chega quase à perfeição. Parece que o Cristo foi feito para o Pico do Corcovado e vice-versa. Tive a oportunidade de ver fotos antigas do Rio e o Corcovado sem o cristo parece amputado, como se um pedaço importante estivesse faltando.
Lá de cima, os braços abertos da estátua ainda reforçam ao conjunto um forte símbolo da receptividade, do calor humano e da fé dos brasileiros. Lá de cima, a vista é simplesmente deslumbrante e poucas palavras não serão suficientes para descrevê-la - poemas, músicas, filmes, fotos estão aí aos montes ainda tentando realizar esta tarefa.
Assim, apesar de merecida a escolha do Cristo, acho que a votação foi parcial e tendenciosa por três motivos: Primeiro porque leva em conta votos apenas daqueles com acesso ao computador e à Internet; Depois porque o voto popular descarta qualquer avaliação científica e histórica mais aprofundada de cada monumento (eu, por exemplo, só posso falar mesmo é do Cristo); E, por último, porque os 21 finalistas foram escolhidos pela Organização que financiou a votação.
É claro que houve contestações como a que faço e imagino que existam outros argumentos para fortalecê-las. Por este motivo, recomendo como fonte de maravilhas do mundo o site da Unesco. Infelizmente o mesmo está apenas em inglês e francês mas passeando um pouco por ele dá para descobrir que o Brasil inteiro ainda é uma maravilha e que o mundo não possui só 7 delas.
PS: Hoje pela manhã, antes de publicar este texto, li um comentário do Maurício Ricardo do site Charges.com.br que compartilha da minha opinião acima.
PS2: Veja mais fotos do Cristo quando estive lá pela última vez no Carnaval de 2007