Não compre software à toa
Os cerca de 4.500 dabbawallas (literalmente, pessoa com uma caixa) de Mumbai entregam mais de 175.000 refeições diariamente na cidade. Cada um faz aproximadamente 40 entregas numa das cidades mais caóticas e populosas do mundo. Não há meios de transporte adequados, não há planejamento urbano, não existem ciclovias, e não há espaço para tanta gente junta na cidade. Mais, as entregas são controladas com um sistema de anotações coloridas nas caixas de entrega. Não há software para registrar os pedidos, nem GPS para controlar os tempos de entrega. Mesmo assim, eles cometem apenas um erro a cada 16 milhões de entregas.
Entregando comidas. Alguém vê alguma tecnologia moderna aí? (fonte)
Quando morei na Índia, em Bangalore, um sujeito batia na minha porta toda semana para levar minhas roupas para a lavanderia. Anotava os itens a lápis num caderninho amarelado pelo tempo. Fazia o mesmo com todos os demais moradores do prédio e saía de lá com dois sacos enormes de roupas presos em cada lado de sua pequena lambreta. Na semana seguinte voltava com as roupas limpas, sem misturá-las com a dos demais moradores. Não havia software nem smartphone para fazer os registros de seus clientes.
Em São Paulo existe uma rádio exclusivamente dedicada a alertar os ouvintes dos problemas de tráfego na cidade. Por mais triste que seja uma cidade precisar de um serviço como este, o mesmo ajuda bastante. Ele funciona baseado no feedback dos ouvintes via telefone ou SMS. Não é necessário que os carros da cidade possuam GPS para informar sua posição à rádio, nem software para processar em tempo real as informações recebidas.
Nos EUA, a venda de livros em 2009 totalizou US$23,9 bilhões. Livros como os conhecemos hoje começaram a surgir no começo do século XVIII mas sua história acompanha a origem da escrita, 5.000 anos atrás. O livro é uma das tecnologias em uso em larga escala mais antigas. Não precisa de fonte de energia, não quebra se cair no chão, permite anotações e marcações em qualquer lugar e pode durar centenas de anos. Os recentes ebooks, mesmo com todos os benefícios pregoados para alavancar suas vendas, venderam nos EUA cerca de US$313 milhões ou módicos 1,3% do total.
(fonte: Wikipédia)
O que todos estes exemplos têm em comum? Eles utilizam nenhuma ou quase nenhuma tecnologia moderna para realizar tarefas complexas como monitorar o tráfego de São Paulo ou lavar as roupas de milhares de pessoas em Bangalore. E não há software em uso em nenhum dos exemplos acima. Não há demanda para ele nestes casos porque as tecnologias mais, digamos, arcaícas como o lápis e o caderno são mais baratas e garantem a eficiência desejada.
Software deve atender a uma demanda social. Do contrário, não tem valor. Em linhas gerais, software bom é aquele que facilita nosso trabalho. De que adianta investir milhões em uma solução se é possível fazer o mesmo sem ela? Ou com uma muito mais barata? Tomemos o caso da rádio em São Paulo. A mesma poderia investir em GPSs para uma amostragem de carros e em um software que recebesse os dados das posições dos carros e processasse-os, permitindo a divulgação da informação do tráfego em tempo real. Mas com o feedback dos motoristas a informação que chega é quase em tempo real, sem nenhum dos custos com software ou GPS.
Desperdiça-se muito dinheiro com softwares desnecessários. Em órgãos públicos no Brasil, por exemplo, compra-se software porque é livre ou porque o dinheiro está disponível e será perdido no final do ano se nada for feito (volta para a União). Em empresas, compra-se software com a esperança de que os negócios melhorarão quando na verdade os processos internos é que estão ruins e precisam melhorar.
Por isto, atender a uma demanda social significa também rearranjar as práticas atuais que o software pretende melhorar. Uma nova solução de software, por si só, não trará ganhos para uma organização. Ao contrário, pode trazer prejuízos. A adoção de software, quando necessária, exige mudanças organizacionais. É preciso se adaptar aos benefícios que um software oferece.
Em muitos casos, o uso de softwares (ou outras tecnologias modernas) é hoje essencial para um negócio. Mas estes se tornam cada vez mais pré-requisitos e não diferenciais competitivos. Os diferenciais não estão nas tecnologias em si mas na maneira como são utilizadas. Repare que as entregas feitas pelos dabbawallas em Mumbai ocorrem sem o uso de nenhum tipo de tecnologia moderna. E se apesar disto eles recebem tanta atenção de acadêmicos e jornalistas é porque a forma como uma organização se estrutura é mais crucial para o seu sucesso que tecnologia pura e simples.
Mais:
- O site Street Use: Supreme low tech [en] coleciona exemplos de negócios usando quase nada de tecnologia
- A excelente matéria do The New Yorker avalia os benefícios do Kindle (o leitor de livros eletrônicos da Amazon) em relação ao livro impresso.