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Não compre software à toa

abril 21st, 2010 — 1:20pm

Os cerca de 4.500 dabbawallas (literalmente, pessoa com uma caixa) de Mumbai entregam mais de 175.000 refeições diariamente na cidade. Cada um faz aproximadamente 40 entregas numa das cidades mais caóticas e populosas do mundo. Não há meios de transporte adequados, não há planejamento urbano, não existem ciclovias, e não há espaço para tanta gente junta na cidade. Mais, as entregas são controladas com um sistema de anotações coloridas nas caixas de entrega. Não há software para registrar os pedidos, nem GPS para controlar os tempos de entrega.  Mesmo assim, eles cometem apenas um erro a cada 16 milhões de entregas.

Entregando comidas. Alguém vê alguma tecnologia moderna aí? (fonte)

Quando morei na Índia, em Bangalore, um sujeito batia na minha porta toda semana para levar minhas roupas para a lavanderia. Anotava os itens a lápis num caderninho amarelado pelo tempo. Fazia o mesmo com todos os demais moradores do prédio e saía de lá com dois sacos enormes de roupas presos em cada lado de sua pequena lambreta. Na semana seguinte voltava com as roupas limpas, sem misturá-las com a dos demais moradores. Não havia software nem smartphone para fazer os registros de seus clientes.

Em São Paulo existe uma rádio exclusivamente dedicada a alertar os ouvintes dos problemas de tráfego na cidade. Por mais triste que seja uma cidade precisar de um serviço como este, o mesmo ajuda bastante. Ele funciona baseado no feedback dos ouvintes via telefone ou SMS. Não é necessário que os carros da cidade possuam GPS para informar sua posição à rádio, nem software para processar em tempo real as informações recebidas.

Nos EUA, a venda de livros em 2009 totalizou US$23,9 bilhões. Livros como os conhecemos hoje começaram a surgir no começo do século XVIII mas sua história acompanha a origem da escrita, 5.000 anos atrás. O livro é uma das tecnologias em uso em larga escala mais antigas. Não precisa de fonte de energia, não quebra se cair no chão, permite anotações e marcações em qualquer lugar e pode durar centenas de anos. Os recentes ebooks, mesmo com todos os benefícios pregoados para alavancar suas vendas, venderam nos EUA cerca de US$313 milhões ou módicos 1,3% do total.

(fonte: Wikipédia)

O que todos estes exemplos têm em comum? Eles utilizam nenhuma ou quase nenhuma tecnologia moderna para realizar tarefas complexas como monitorar o tráfego de São Paulo ou lavar as roupas de milhares de pessoas em Bangalore. E não há software em uso em nenhum dos exemplos acima. Não há demanda para ele nestes casos porque as tecnologias mais, digamos, arcaícas como o lápis e o caderno são mais baratas e garantem a eficiência desejada.

Software deve atender a uma demanda social. Do contrário, não tem valor. Em linhas gerais, software bom é aquele que facilita nosso trabalho. De que adianta investir milhões em uma solução se é possível fazer o mesmo sem ela? Ou com uma muito mais barata? Tomemos o caso da rádio em São Paulo. A mesma poderia investir em GPSs para uma amostragem de carros e em um software que recebesse os dados das posições dos carros e processasse-os, permitindo a divulgação da informação do tráfego em tempo real. Mas com o feedback dos motoristas a informação que chega é quase em tempo real, sem nenhum dos custos com software ou GPS.

Desperdiça-se muito dinheiro com softwares desnecessários. Em órgãos públicos no Brasil, por exemplo, compra-se software porque é livre ou porque o dinheiro está disponível e será perdido no final do ano se nada for feito (volta para a União). Em empresas, compra-se software com a esperança de que os negócios melhorarão quando na verdade os processos internos é que estão ruins e precisam melhorar.

Por isto, atender a uma demanda social significa também rearranjar as práticas atuais que o software pretende melhorar. Uma nova solução de software, por si só, não trará ganhos para uma organização. Ao contrário, pode trazer prejuízos. A adoção de software, quando necessária, exige mudanças organizacionais. É preciso se adaptar aos benefícios que um software oferece.

Em muitos casos, o uso de softwares (ou outras tecnologias modernas) é hoje essencial para um negócio. Mas estes se tornam cada vez mais pré-requisitos e não diferenciais competitivos. Os diferenciais não estão nas tecnologias em si mas na maneira como são utilizadas. Repare que as entregas feitas pelos dabbawallas em Mumbai ocorrem sem o uso de nenhum tipo de tecnologia moderna. E se apesar disto eles recebem tanta atenção de acadêmicos e jornalistas é porque a forma como  uma organização se estrutura é mais crucial para o seu sucesso que tecnologia pura e simples.

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Miscelânea de Domingo

março 28th, 2010 — 10:30am

Telefonia

Separação entre redes de telefonia e serviços é prevista em lei desde 1997 – O tão discutido “unbundling” deveria ter ocorrido desde àquela época. Porém, “a desagregação de redes não surtiu efeito porque as concessionárias acharam [os] preços muito baixos e uma das concessionárias reclamou das regras da cessão da estrutura de redes.” Só que há exemplos de sucesso contra esta defesa das concessionárias e já passou da hora do Brasil dar esta passo em favor do consumidor e do desenvolvimento tecnológico.

Entrevista – Telecom: por que é tão ruim? – Discutirei este artigo no post da próxima quarta-feira. Para o ex-diretor da Embratel, da Telebrás e da Telesp, dos sistemas de celulares da Nortel, e ex-presidente da Lucent e da Vésper, há vários problemas no setor, inclusive a falta do “unbundling”, que torna as telecomunicações no Brasil cara e ruim.

Desenvolvimento de Software

Why Can’t Programmers… Program? [en] – Por que programadores não conseguem… Programar? Jeff Atwood contribui para uma discussão recente sobre a falta de programadores aptos a escrever até os mais simples programas em entrevistas de emprego.

Toyota’s journey from Waterfall to Lean software development [en] – A Toyota, quem diria, não usava (e ainda não usa por completo) seus princípios de produção, conhecidos como Toyotismo, em seus processos de desenvolvimento de software. Ao contrário, durante várias décadas eles mantiveram (com sucesso, vale destacar) o uso do modelo em cascata, tão criticado por quem adota práticas mais modernas e estuda o assunto.

The socialist state of ThoughtWorks [en] – Um pouco sobre Roy Singham, fundador e atual presidente do conselho da ThoughtWorks, empresa na vanguarda do movimento de práticas ágeis para o desenvolvimento de software. Roy se diz socialista, gosta do Hugo Chavez e do modelo de governança da China, ao mesmo tempo em que gera lucros recordes todos os anos em sua empresa.

Outros

Rastreio de satélites em tempo real – Veja a posição dos satélites e da estação espacial em tempo real. Dá para se programar e ver a estação cruzar o céu em diversos pontos do Brasil.

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A produção de software no Brasil e o porquê da Índia ser melhor

abril 13th, 2009 — 5:08am

Ano passado um russo veio à Bangalore visitar o Instituto onde estudo, vindo de Vitória, ES, cidade onde morei praticamente toda minha infância. É isto mesmo. Fiquei tão impressionado com a coincidência que 3 horas em um restaurante próximo não foram suficientes para tanto assunto. O sujeito é pesquisador na Universidade de Berkeley (Califórnia) e conheceu a esposa lá. Ela é carioca, a propósito.

Obviamente a origem da esposa foi mais do que motivo suficiente para ele iniciar um trabalho de pesquisa no Rio. Não me recordo quanto tempo ele ficou na cidade, mas o foco do estudo era no entendimento da metodologia adotada pelos cariocas no processo de desenvolvimento de software. Por que o Rio? Bem, além do fato da esposa ser de lá, outro motivo, segundo ele, é que mais cidades no mundo podem ser comparadas ao Rio, ao contrário da grandiosa São Paulo, o que possibilita um uso mais diverso do resultado. Outro aspecto que ele considera curioso no Rio é a maneira como a cidade se coloca no mercado, à sombra de sua vizinha paulista.

Entre um arroz biryani e outro, ele me apresentou a sua visão do mercado brasileiro de software – bem interessante, por sinal. Por que, por exemplo, os brasileiros produzem software para o mercado interno enquanto a Índia fatura horrores com a exportação? Certamente a língua não é o principal fator. Segundo ele, o fato do software estar em português, o que implicaria em algum custo para tradução (principalmente se o software não foi originalmente projetado para várias línguas) não é (ou não deveria ser), de longe, o principal entrave à exportação. Vencido este primeiro obstáculo, são inúmeras as etapas a serem cumpridas para que o software possa ser comercializado internacionalmente. A língua é, literalmente, o de menos…

Mas então, por que não vendemos software lá fora?

A culpa é do nosso pequeno mercado e da maneira como as empresas brasileiras atuam nele. Ele é, na verdade, ao mesmo tempo uma benção e um calo no pé. É claro que o fato de possuirmos um mercado interno estimula a produção de software local e sem ele nossas atuais empresas provavelmente não existiriam. Entretanto, graças a ele também é que estas mesmas empresas acabam se acomodando: “O meu cliente está logo ali, para que ir mais longe?”.

Outra característica peculiar de nossas empresas de software está na relação com os clientes. Primeiro que elas nascem ou já com um cliente em mente ou pensando em arrumar um cliente. Raramente uma empresa de software no Brasil surge com um plano de negócios focado em um mercado para produzir software numa economia de escala. O foco da empresa no cliente está na natureza de nossas relações. Dificilmente negamos as solicitações dos clientes o que acaba resultando em versões customizadas de um mesmo produto para cada um deles. É mais ou menos como se a relação precisasse ser informal, em tom de amizade [en]. Parece familiar? Pois é, para mim também. Este comportamento acaba fazendo com que as empresas de software do Brasil aceitem praticamente todas as solicitações dos clientes, indo ao extremo de detalhar no software particularidades exclusivas de cada um se preciso.

Além disto, o nosso principal cliente, o governo, tem características muito distintas que exigem grande esforço e investimento na relação comercial. Este mesmo governo também dita o tipo de serviço prestado pelas empresas locais. Nas décadas de 80 e começo de 90, por exemplo, quando o governo impunha severas restrições à entrada de hardware no Brasil, houve uma demanda pela produção interna dele.

Este tipo incentivo tem grandes desvantagens. Primeiro que incentivar a produção de tecnologia em detrimento do uso, acaba favorecendo apenas um setor da indústria quando vários poderiam se beneficiar se o incentivo do governo estivesse no uso da tecnologia. Segundo que, no caso particular da produção de hardware, o mercado internacional é altamente competitivo e dominado por grandes empresas principalmente estabelecidas nos EUA.

Assim, quando se iniciou no Brasil um processo de abertura comercial, muitas das empresas de hardware brasileiras tiveram que encolher consideravelmente ou simplesmente fechar as portas. Com políticas mais recentes do governo, este quadro está se revertendo um pouco. De 2000 para cá é evidente o crescimento de nossa indústria de hardware e software.

No caso do mercado externo, entretanto, são duas razões principais para nossas pífias exportações: 1) lá fora as empresas de software brasileiras não conhecem ninguém, o que dificulta qualquer aproximação mais pessoal da maneira como fazemos no Brasil; e 2) elas muitas vezes não possuem o interesse pois o mercado brasileiro é aparentemente suficiente para elas….

Normalmente uma empresa brasileira inicia alguma operação no mercado internacional apenas quando a oportunidade bate a sua porta. Ou seja, se algum comprador internacional procurar a empresa brasileira, demonstrando bastante interesse, então a ela terá a motivação necessária para tal empreitada.

Como em toda regra, entretanto, esta também possui suas exceções. O melhor exemplo talvez seja a linguagem de programação Lua. Ela foi criada na PUC do Rio em 1993 e desde o seu nascimento foi projetada em inglês, para o mercado externo. Para se ter uma idéia, nem existe manual em português. Aliás, os melhores livros dela só são encontrados fora do Brasil e sem tradução para nossa língua. Segundo o site oficial, Lua é usada em várias aplicações de grande porte (por exemplo, o Adobe Photoshop Lightroom) e é a linguagem de script dominante na criação de jogos. Menos de 10% dos mais de 1300 assinantes da lista de discussão são do Brasil.

Para fechar, o meu amigo russo acha que os brasileiros das empresas de software são megalomaníacos (ele fala um bom português e literalmente usou esta palavra). São todos cheios de grandes planos, sonham em atingir o mercado internacional, mas pouco fazem na prática para tornar os sonhos concretos. É a perfeita justificativa, segundo ele, para que nosso país continue sendo o “país de futuro”, sem planos no presente.

***

O estudo do pesquisador ocorreu essencialmente no Rio de Janeiro. Embora alguma extrapolação seja possível, a generalização oculta outros padrões que se destacam principalmente em algumas regiões do Sul do Brasil, em São Paulo, e em Recife. Ainda assim, estamos muito atrás da Índia na indústria de software. Temos grandes empresas mas a maioria ainda é estrangeira (inclusive as Indianas Wipro e Satyam) e que só agora começam a se organizar para tornar o país competitivo. O resultado deste individualismo e falta de pró-atividade é um mercado menor que a metade do mercado Indiano (cerca de US$ 20 bilhões em comparação aos US$ 50 bi Indianos), com déficit na balança comercial, e  ainda bastante dependente do governo para se sustentar.

Para mais informações:

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