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São Paulo faz hoje 456 anos com pouco a comemorar

janeiro 25th, 2010 — 8:51pm

Visitei São Paulo algumas vezes, o suficiente apenas para conhecer seus principais atrativos e ter uma primeira impressão formada. Gosto da cidade mas vejo-a cada vez mais como peças de Lego desencaixadas: bairros inteiros se voltam para eles próprios e ficam cada vez mais distantes uns dos outros graças aos engarrafamentos que interligam a cidade. Aos poucos, a cidade vai exarcebando suas desigualdades.

“O distrito de Moema, que abriga a Vila Nova Conceição, bairro com o metro quadrado mais caro de São Paulo, possui uma renda per capita média de 5,5 mil reais e um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,961, superior ao de países como Suíça, Dinamarca e Estados Unidos. (…) Com uma população de 124,9 mil habitantes, o distrito [de Jardim Helena] possui uma renda média de 584 reais e um IDH inferior ao de países como Gabão e Sri Lanka.” (Carta Capital, 580, p. 21)

Seria fácil culpar os governantes só pelos problemas que a cidade vem apresentando. No caso das chuvas que castigam a cidade recentemente, há vários indícios de problemas no desassoreamento do rio Tietê, dentre outros que estão longe de ter causa natural ou divina. No trânsito, a cidade teima em priorizar o alargamento e a expansão das ruas e avenidas enquanto a expansão do metrô caminha a passos lentos.  E na periferia há ocupações irregulares por quem não teve outra opção e pouco investimento. O resultado é que 57% dos entrevistados numa pesquisa do IBOPE [pdf] disseram que sairiam da cidade se pudessem e caiu de 46% para 28% os que consideram o governo atual da prefeitura bom/ótimo.

Mas, embora o povo tenha sua parcela de culpa no voto, as eleições possuem uma lógica cruel. Procure no Google por informações sobre como se eleger vereador em São Paulo. A estratégia de quem ganha não passa por planos de melhorar a cidade. Ganha quem gasta mais na campanha e mobiliza (paga) mais cabos eleitorais em diferentes bairros e comunidades. O custo médio para se eleger vereador na capital chega a 1 milhão de reais.

Os governantes são, portanto, no mínimo duas vezes culpados: uma vez pela forma irresponsável com que se elegem e apóiam tal sistema (ao invés da trabalharem para adotar o financiamento público de campanha, por exemplo). Outra pela incompetência de suas gestões públicas. Para Rodrigo Martins, da Carta Capital (Edição número 580), os governos acabam por satisfazer primeiro os interesses de quem os financia. Para o cientista político Leonardo Sakamoto, “se houve melhora na maneira como a administração municipal trata os mais humildes em São Paulo, isso se deve à sua mobilização, pressão e luta e não a bondades de supostos iluminados ou da esmola das classes mais abastadas. Até porque nossos “grandes líderes” naufragam em tempos de chuva.”

São Paulo faz hoje 456 anos com pouco a comemorar.

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Tata Nano, um carro por menos de R$ 5.000 e mais de 21Km/l de combustível

março 23rd, 2009 — 1:10am

Finalmente, o carro da Tata Motors, o tão falado Nano, deve ser lançado hoje no mercado Indiano. O carro, além de barato, possui diversas inovações registradas em patentes, e promete revolucionar o mercado automobilístico.

Tata Nano. Fonte: Wikipédia

Tata Nano. Fonte: Wikipédia

Por Rs 100.000 (cem mil rúpias), o carro é seu. Na cotação de hoje, isto significa que se o carro fosse vendido no Brasil, o preço ficaria em torno de R$ 4.500. Claro, desconsiderando os impostos brasileiros o que provavelmente fariam o preço subir praticamente o dobro (mesmo assim, muito mais barato que qualquer outro carro novo).  Entretanto, com a crise e o consequente aumento do preço das matérias-primas, ainda é incerto se a empresa conseguirá manter este preço [en]. Existem alguns acordos em andamento mas muito do que se fala na Internet ainda é especulação. Como a data de lançamento é hoje, não será preciso esperar muito para saber qual será o verdadeiro preço do carro.

Como se não bastasse ser barato, a Tata ainda tratou de fazer um carro bonito e eficiente. O mais eficiente da Índia. Nos testes [en], ele fez uma média de 24km por litro de combustível. E o carro ainda vai além, oferencendo como alternativa um interessantíssimo motor à ar comprimido [en]. Nele, não há combustão: Ele é apenas aquecido e então submetido aos cilindros do motor. Neste modelo, estima-se que a um custo de US$3 (apenas 3 dólares), um tanque cheio seria capaz de fornecer uma autonomia de 200 km!!

Agora é esperar para ver como o carro será utilizado. Muitos acreditam que ele passará a ser um substituto para as riquixás, outros que ele tornará o tráfego Indiano ainda mais caótico, e ainda outros que ele fará uma revolução nos meios de transportes, facilitando a locomoção de cada vez mais pessoas.

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Riquixás: diversidade nas cores, apetrechos e modelos

fevereiro 5th, 2009 — 10:03am

As riquixás surgiram na Ásia como meio de transporte das elites. Originalmente eram uma espécie de carroça puxadas por pessoas. Gradativamente, no entanto, este tipo foi sendo substituído pelas bicicletas e pelas riquixás motorizadas, as famosas autoriquixás ou, no termo mais carinhoso, tuk tuk.

Na Índia estes veículos são encapetados. Além de pequenos, o que lhes proporciona uma agilidade impressionante, seus motoristas não são exatamente um exemplo de cautela no trânsito. Muito pelo contrário, eles fazem questão de se enfiarem nos menores espaços, fazendo movimentos bruscos e ousados, buzinando aos ventos por qualquer motivo, e esbravejando palavras de ordem aos outros motoristas enquanto eles mesmos não respeitam nada!

Já tratei das riquixás em outras oportunidades aqui no blog, por exemplo, ao falar do trânsito de Bangalore. O que faltou destacar aqui é a diversidade com que elas se apresentam em diferentes cidades Indianas. Cada uma tem um modelo de riquixá diferente, como se fosse uma marca registrada. Confira abaixo nas fotos:

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Chegando em Kerala, litoral sudoeste da Índia

novembro 7th, 2008 — 10:53pm
Esta é a parte 1 de 2 da série Estado de Kerala, Índia

O governo do estado de Kerala, no litoral sudoeste da Índia, se define assim: “God’s own country” (literalmente, “O próprio país de Deus” ou simplesmente “paraíso de Deus”), uma referência às belezas naturais e à riqueza cultural da região. Mas há muitas inconsistências nesta definição. Embora os indicadores sociais do estado sejam um dos melhores da Índia, a região também sofre com os males da pobreza e das diferenças religiosas. Paraíso de Deus? Primeiro é preciso determinar a qual deus o slogan se refere já que além do hinduísmo, catolicismo, islamismo e até mesmo judaísmo possuem influências históricas por lá.

Bem vindo à Kerala
Bem vindo à Kerala. Placa em má conservação na divisa do estado dá uma idéia da qualidade da rodovia

Estive em Kerala em maio mas só agora encontro tempo para contar o passeio, minha primeira viagem no sul da Índia. Como tudo foi decidido em cima da hora, não tivemos outra opção senão alugar um carro. No total, foram 5 dias entre os vários destinos visitados e uma experiência muito boa. O estado pode não ser um paraíso mas não deixa de ter seus encantos e uma identidade própria forte e marcante. Danças, festivais, culinária, e artesanato típicos se misturam às influências européias e ao único regime estadual de extrema esquerda da Índia, tornando Kerala um caldeirão cultural, como toda Índia, mas com tempero exclusivo.

Neste post conto como foram as viagens de ida e volta ao estado, partindo de Bangalore. Nos próximos dois, conto respectivamente como foram as paradas em Alleppey e Cochin, as principais cidades que visitamos.

Estrada na Índia é sinônimo de estresse. À noite então tudo fica ainda pior. A menos que você esteja no trajeto entre duas grandes cidades, as chances são grandes de a rodovia ser praticamente toda esburacada, sem nenhuma sinalização, e com um trânsito de ônibus e caminhões ensandecidos de fazer qualquer um considerar as rodovias brasileiras perfeitas. O trajeto de Bangalore até Cochin possui cerca de 540 km. Só que demora umas 14 horas… Fez as contas? Isto mesmo, a média de velocidade é 40 km/h!!!

Menino vendendo repolhos
Menino vendendo repolhos

O que compensa são as atrações da beira da estrada. Ao cruzar as divisas de estados, por exemplo, vendedores ambulantes tentam atrair nossa atenção com macacos e cobras. Fomos obrigados a fechar o vidro pois tenho certeza que um daqueles macacos safados iria entrar no carro e roubar alguma coisa. Além disto, os ônibus e caminhões são uma alegoria interminável de velharias coloridas e iluminadas. Em geral, eles não passam de um latão quadrado com rodas e, no caso dos ônibus, estão sempre lotados, com gente até no teto. E as ultrapassagens dão emoção à viagem. Perdi a conta do número de vezes que nosso motorista foi obrigado a parar no acostamento por conta de um caminhão tentando passar outro ao mesmo tempo em que um carro ultrapassava os dois. Ah! E claro, o pneu furou! O pneu sempre fura nestas viagens. Já vi carro aqui com dois pneus sobressalentes porque às vezes o segundo pneu fura antes de encontrarmos uma borracharia para consertar o primeiro.

Na volta, entretanto, não tivemos tantos problemas. Ao contrário, passamos o dia inteiro, mais que as 14 horas da ida, aproveitando as belezas da nova rota escolhida, parando aqui e ali para fotos. É que escolhemos uma estrada menos freqüentada, recomendação de amigos, mas que corta um dos melhores e mais bem cuidados parques nacionais da Índia, o Nagarhole. A rota também passa por uma região muito bonita de Kerala chamada Wayanad, ponto turístico para quem gosta de trekking e demais atividades em contato com a natureza.

Por lá vimos macacos, veados, e elefantes selvagens. Há tigres na região também mas para vê-los é preciso se embrenhar floresta a dentro. Foi de fato um trajeto muito bonito, com algumas paisagens de tirar o fôlego (para quem conhece, a subida da serra lembra muito o trajeto Vitória à Pedra Azul) e muito menos trânsito. Ali estava um pedacinho de paraíso.

Subindo a serra
Subindo a serra

Finalmente, pouco antes de chegarmos à Bangalore. Ainda paramos em Mysore para contemplarmos o seu belíssimo palácio construído em 1912 para abrigar a então família real da região. Uma pena que já era noite quando chegamos e não pudemos entrar naquele dia. Mysore tem muitas outras atrações e certamente será assunto aqui no blog no futuro.

Palácio de Mysore
Palácio de Mysore

No próximo post, Alleppey e suas famosas águas represadas.

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Conversa no Táxi

outubro 23rd, 2008 — 4:39am

Se num táxi/riquixá o motorista possuir um mínimo de conhecimento de Inglês, uma típica conversa durante o trajeto acontece assim quando você é ou aparenta ser um turista estrangeiro:

- Olá senhor, tudo bem? Vai para onde?
- Tudo! Vou para XYZ, por favor.

(Alguns minutos de silêncio depois)

- Senhor, você é de que país?
- Brasil.
- “Brésiu”? Onde fica este “Brésiu”?
- Fica na América do Sul. Brasil! Futebol, Ronaldinho, Samba…
- América! Ah! Já tive muitos passageiros dos EUA. De que estad…
- Não, Brasil é o país, fica na América do Sul!
- Ah! Muito bom! Muito bom! – Responde fingindo entender. Em geral, você pode falar que é de praticamente qualquer país que eles vão pretender conhecê-lo sorrindo, tentando serem simpáticos. Certa vez respondi que era da África do Sul e que o país ficava ao sul da Alemanha. O sujeito achou que eu era europeu, claro. – E o que você faz aqui na Índia?
- Faço um mestrado aqui.
- O que? – Ele não entende a palavra mestrado. Não dá para ser nem um pouco específico nestas conversas e as frases precisam ser lacônicas:
- Estudo! Estudo!
- Ah! Entendi. Estudo. Aonde?
- No IIIT-B. Electronic City.
- E você ganha alguma coisa? – É incrível a necessidade deles de saber quanto você ganha. Esta é sempre uma das primeiras perguntas num encontro como este. Normalmente eu desvio do assunto e pergunto a ele algo:
- E você é de onde?
- Sou de Umlugaraípuram (ou Seilápur). – Responde fazendo questão de ser bem específico quanto a sua cidade de origem.
- Bacana! – Finjo saber de onde ele é.

(Mais alguns minutos de silêncio, agora quase chegando ao destino)

- Senhor, seu nome é? – Curiosamente, o nome só costuma ser perguntado depois.
- Ri-car-do. – Digo pausadamente.
- “Richardo”?
- Isso, “Richardo” (outra variação comum é “Ricado” sem o erre).
- “Richardo”, aqui o meu cartão – Recebo seu cartão de visitas com um sorriso largo, como se nos conhecêssemos há vários dias. – Me liga da próxima vez que for sair, ok?
- Pode deixar! – Respondo colocando o cartão no bolso, ao lado de vários outros colecionados ao longo do tempo aqui. – Até logo.
- Obrigado senhor

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De volta à Índia… Outra vez.

agosto 27th, 2008 — 10:09am

Estou de volta à Bangalore. Cheguei na segunda-feira muito bem recebido pelo trânsito insuportável da hora do rush. Acho que esta cidade e a Índia de maneira geral devem ter uma das piores infraestruturas de transporte do mundo. No total, levei 4 horas do novo aeroporto ao Instituto, ambos separados por meros 66 km de rodovia– Isto mesmo, 16,5 Km/h de média de velocidade!

De bicicleta eu chegaria mais rápido.

***

A propósito, o novo aeroporto pelo menos agora é uma porta de entrada decente para a cidade. 3 meses após sua inauguração não tive nenhum problema no desembarque. O serviço foi eficiente e a equipe bem prestativa.

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No vôo para cá, assisti a um filme inusitadamente atraente sobre a Índia, mais especificamente sobre aquela Índia um pouco misteriosa, sendo descoberta por um estrangeiro: Seu título em inglês é Outsourced, ainda sem tradução para o português. A história é de um gerente americano que, ameaçado a perder o emprego, foi obrigado a ir à Índia treinar seu substituto no departamento de suporte aos clientes (os famosos Call Centers).

Todos nós sabemos alguma coisa sobre outros países mas frequentemente isto resume-se a estereótipos construídos pela mídia (dois exemplos apenas para ilustrar, aqui e aqui). Percebo isto mais claramente ao ser indagado no Brasil sobre minha experiência vivida na Índia. As perguntas, em geral, resumem-se às pequenas curiosidades sobre vacas, pobreza, e as aparentes aberrações praticadas pelos indianos. Poucos se importam (sem que isto seja necessariamente bom ou ruim) em tentar entender a congruência do país.

Não que o filme faça isto com maestria mas pelo menos vai além dos clichês e dos estereótipos.  Faz isto só um pouco, é verdade, e no final das contas não deixa de se resumir a um romance de novela, mas pelo menos não é ultrajante. Ao contrário, recomendo o filme justamente por proporcionar um pouco mais de explicação sobre a Índia de maneira bem divertida e ao mesmo tempo respeitosa.

***

Enquanto estive no Brasil, este blog completava um ano de vida. O primeiro post foi do meu irmão no dia 2 de julho do ano passado. O meu primeiro veio no dia seguinte.

Para mim, tem sido uma boa experiência relatar as minhas viagens. Além de contribuir para os meus conhecimentos sobre os destinos que visito, o blog tem funcionado como um bom canal de comunicação tanto com velhos conhecidos quanto com novos amigos.

Por isto, o mínimo que posso fazer é agradecer a todos pelas visitas e pelos comentários ao longo de todo este tempo! E que venham novos destinos e novas histórias para serem compartilhadas aqui.

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