Viajando com o Twitter
Eu ia escrever um texto longo aqui analisando o papel do Twitter [en], uma ferramenta classificada de micro-blogging [en] para envio imediato de pequenas atualizações de texto. No caso do Twitter, cada atualização é limitada por 140 caracteres e deve supostamente responder a uma simples pergunta: "O que você está fazendo?".
Mas como este blog é dedicado a viagens e como até o Fantástico já falou da ferramenta, me limito a dizer que também a uso a algum tempo. Na minha conta pessoal, escrevo em inglês praticamente o tempo todo. Na maioria das vezes trato de assuntos ligado a minha área de interesse profissional - Tecnologia da Informação. Por isto, criei uma conta para este blog. Nela as atualizações são em português e voltadas para temas ligados ao turismo e às viagens que faço. Você, claro, é muito bem vindo a me acompanhar nas duas se assim desejar!
Se você ainda não criou a sua, recomendo que faça [en]. Tem muita coisa acontecendo no Twitter e muita gente bacana escrevendo por lá. O Ricardo Freire, um dos maiores especialistas em turismo no Brasil, escreveu especificamente sobre as vantagens da ferramenta para os interessados no prazer de viajar. A Paula Bicudo já havia feito o mesmo antes. E, se você tiver dúvidas sobre como usá-lo, o Interney explica. O Interney, aliás, é provavelmente o usuário mais popular do Twitter no Brasil. Tratando de assuntos diversos, seguí-lo é uma diversão.
Faça bom proveito mas cuidado que o passarinho vicia! Nos vemos também no Twitter.
PS: O meu irmão, coautor deste blog (mas que anda meio sumido por estas bandas), também criou a conta dele ontem.
O hinduísmo e o tratamento dado a clientes e turistas na Índia
Muito da cultura e da conduta dos Indianos é fundamentada nos ensinamentos do Hinduísmo, passados de geração em geração, e que deram origem aos Vedas [en]. Os Vedas são uma das primeiras formas de literatura em sânscrito, estão entre os textos sagrados mais antigos (algo entre 1500 AC e 500 AC), e certamente são os mais antigos do Hinduísmo. Os textos formam volumes extensos de livros e tratam das divindades e seus diversos aspectos, práticas religiosas, lendas, e tradições da época. Muitos defendem que o hinduísmo não é uma religião na definição atribuída ao Catolicismo, Islamismo, e Judaísmo, as três maiores e mais influentes religiões monoteístas. E de fato, o hinduísmo é muito mais governado por códigos de conduta (tendo as divindades como exemplos) do que pela adoração a um deus onipotente e onipresente.
Neste sentido, faz parte desta tradição o respeito aos hóspedes ou clientes. No Taittiriya Upanishad, um dos mais antigos Upanishad (escrituras Hindus do Vedanta [en], uma reinterpretação dos Vedas), um verso [en] em particular trata do respeito à família e aos hóspedes: "Matru devo bhava, Pitru devo bhava, Acharya devo bhava, Atithi devo bhava" (tradução literal minha, do Inglês: Uma pessoa deve respeitar Mãe, Pai, Professor, e Hóspedes como respeitam Deus). “Atithi” significa literalmente hóspede (“um visitante que não possui data fixa de chegada ou partida” já que o termo “hóspede” não existia) e “devo” significa deus em sânscrito.
De fato, nos círculos familiares é impressionante o respeito e o cuidado com que os Indianos tratam uns aos outros. Fora destes, entretanto, a falta de educação impera: Não há respeito à propriedade pública nem às pessoas desconhecidas, principalmente estrangeiras. Ao contrário, o que mais se vê são abusos de todos os tipos contra os turistas. Ciente deste problema, o governo Indiano lançou uma campanha em 2005, intitulada “Atithi Devo Bhavah” [en], para incrementar o turismo no país e melhorar a sua imagem com os visitantes (ou “hóspedes” e "clientes" de seu país).
Segundo a campanha, a Índia recebeu 3,3 milhões de turistas estrangeiros em 2004 enquanto Singapura, Tailândia e Malásia receberam respectivamente 6,6, 9,6 e 11,5 milhões de turistas no mesmo ano. Para o governo, a Índia perdeu o senso de hospitalidade pelo qual sempre foi famosa e a campanha tenta reverter este quadro, alertando a sociedade para que sejam mais respeitosos, íntegros, amigáveis e honestos com os turistas. E para mostrar que não está brincando, recentemente o governo convocou um dos atores mais famosos e carismáticos da Índia, Aamir Khan, para ser embaixador da campanha [en].
Entretanto, se os números de 2006 [pdf en] e a minha experiência aqui na Índia até o momento servem de indicativo, os resultados não têm sido tão expressivos assim como o governo gostaria. Naquele ano a Índia recebeu 4,4 milhões de turistas, um aumento de 33% em relação a 2004. Em comparação, Singapura, Tailândia e Malásia receberam em 2006 respectivamente 7,6, 13,9, e 17,5 milhões de turistas. Um aumento de 15%, 44% e 52% respectivamente. Apenas Singapura teve um crescimento menor. A distância entre as intenções do governo e a atitude do povo Indiano ainda continua muito grande.
Até mesmo Gandhi falava disto desde o século XIX e hoje uma de suas frases estampa quadros em agências bancárias [en], hotéis, e outros tipos de estabelecimentos, quase como um objeto de arte ficcional já que a realidade ainda é bem diferente. Dizia ele num discurso em 1890 (embora muitos sites, inclusive do governo Indiano, atribuam este texto à Gandhi, a fonte não pôde ser comprovada):
“A customer is the most important visitor on our premises. He is not dependent on us. We are dependent on him. He is not an interruption of our work. He is the purpose of it. He is not an outsider to our business. He is part of it. We are not doing him a favour by serving him. He is doing us a favour by giving us the opportunity to do so.”
Tradução livre minha:
“Um cliente é o mais importante visitante em nossas premissas. Ele não é dependente de nós. Nós somos dependentes dele. Ele não é uma interrupção de nosso trabalho. Ele é o propósito dele. Ele não é um intruso nos nossos negócios. Ele é parte dele. Nós não estamos fazendo um favor ao servi-lo. Ele está nos fazendo um favor ao nos dar a oportunidade para tal.”
É uma pena pois o potencial turístico da Índia é enorme [en] mas muitos ainda não se dão conta disto. Eles continuam tentando explorar os turistas (e clientes de todas as formas e de maneira geral) como se todas as pessoas de fora de seus respectivos círculos familiares fossem enormes carteiras de dinheiro ambulantes.
Em Dubai, por um Oriente Médio sem depender (tanto) do petróleo
Cheguei à Dubai depois de intermináveis 14 horas cruzando o Atlântico e o continente Africano. Já era quase meia-noite quando fui recebido pelo calor de 37 graus e o bafo quente do deserto que circunda a região. O desembarque correu sem maiores problemas e logo cheguei ao hotel, mais um Ibis dos tantos espalhados pelo mundo.
No dia seguinte acordei bem cedo por causa do fuso trocado. Infelizmente acabei assistindo a derrota do vôlei masculino na final das Olimpíadas mas logo em seguida fui passear pela cidade. Tinha apenas aquele dia então tentava aproveitá-lo ao máximo.
Dubai é um dos sete emirados que formam os Emirados Árabes Unidos, uma monarquia estabelecida em 1971. O fato de ser um emirado significa mais ou menos ser o mesmo que uma cidade-estado: Ou seja, cada um funciona de maneira autônoma embora exista uma constituição federal mínima. O mais significante disto em termos econômicos é que cada emirado controla e detém os direitos sobre seus recursos minerais. Cada um faz quase o que dá na telha. E em Dubai ultimamente a telha tem sido bem farta.
A cidade está se transformando numa suntuosidade moderna. O local é o maior playground de engenheiros e arquitetos que já vi. A começar pelos seus atual e futuro aeroporto que juntos formarão o maior complexo mundial da aviação civil. O projeto, aliás, faz parte do Dubai World Central, a se tornar a maior região planejada do mundo, incluindo uma zona residencial, campo de golfe, shoppings, e parques tecnológicos, comerciais e de logística. O total previsto de investimentos é de US$ 33 bilhões, 5 destes só para o novo aeroporto (para comparar, o Brasil vem planejando investir R$ 3 bilhões em TODA sua infraestrutura aeroportuária).
Mais três projetos em andamento merecem destaque. Primeiro, é impossível não avistar de qualquer ponto da cidade o que já é o maior falo do mundo, superando o exibicionismo americano. O arranha-céu Burj Dubai embora ainda esteja em construção já é a mais alta estrutura construída pelo homem. Atualmente com 688m ela deixa no chinelo uma torre de TV nos Estados Unidos e seus 628m. Quando estiver pronta (previsão para setembro de 2009) é provável que ultrapasse os 700m. E com arquiteto e construtores americanos, belgas, sul coreanos e dos próprios Emirados parece que esta não vai ser uma Torre de Babel – a linguagem do lucro todos eles falam muito bem.
O arranha-céu Burj Dubai em construção
Outra obra gigante (e certamente também a maior do mundo em alguma categoria) é a Palm Jumeirah, uma ilha artificial que abriga um bairro residencial de luxo. A ilha tem o formato de uma palmeira e é, na verdade, a menor de um projeto para a construção de outras duas. A Palm Jumeirah já está quase pronta e já possui residentes (inclusive corre o boato que Tom Cruise comprou casa lá). Na ponta, no final da ilha, um gigante hotel de luxo está sendo inaugurado este mês. Toda a obra foi um tanto controversa e diversos problemas ambientais foram devidamente abafados. Outro problema não só nesta mas em obras de maneira geral em Dubai é no tratamento dado aos funcionários, geralmente oriundos da Índia e de países do sudeste asiático. São notórios os casos de abusos a estes trabalhadores e vivem em condições degradantes já que não conseguem se sustentar na região onde o custo de vida é relativamente alto (se comparado ao de outras cidades ou em relação ao salário que recebem). Mas esta é uma outra história que você pode ler com mais detalhes aqui, aqui e aqui.
Finalmente, o último dos três impressionantes projetos chama-se The World e é um arquipélago com 300 ilhas que dão forma ao mapa-múndi. O preço de cada uma varia entre módicos US$ 5 e US$ 50 milhões. The World ficou famoso após Michael Schumacher ter recebido uma ilha de presente e após artistas ficarem envolvidos em especulações de compra, entre eles Angelina Jolie e Brad Pitt. Empresas também compraram algumas ilhas e pretendem transformá-las em parques temáticos, shoppings e resorts. Como se Dubai já não tivesse estabelecimentos de luxo o suficiente, The World promete ser o supra-sumo deles.
Eu e a imensidão do deserto nos arredores de Dubai
Tanto investimento não é à toa. Bom, talvez seja um pouco. Mas o fato é que os Emirados possuem reservas de petróleo e gás com os dias contados – especula-se por lá que elas se esgotarão em 2014. Sem contar que Dubai possui uma das menores parcelas destas reservas no país. Assim, este emirado se tornou um pioneiro na região a estimular a redução da dependência do petróleo. Atualmente, 30% de seu PIB está relacionado ao turismo. A região quer se tornar um hub financeiro, comercial e turístico de alto padrão, reconhecido no mundo inteiro, mais ou menos como fez Cingapura.
Além das obras megalomaníacas, já existem opções que tornam Dubai atraente, sem contar os aspectos econômicos como baixo custo de vida (se comparado com Europa e EUA) e pouquíssimos impostos. Para o turismo há shoppings de todos os tipos, estação de ski (isto mesmo, estação de ski em pleno deserto, indoor claro), safáris no deserto, passeios de barco (é possível visitar o Irã assim), parques de diversões e aquáticos, e opções de visita a museus e ao centro histórico. Para empresários, não falta centro de convenções, hotéis de alto padrão (inclusive o Burj Al Arab, o mais alto hotel do mundo, e um dos cartões postais da cidade), salas de conferências, excelentes opções de restaurantes, e boa infraestrutura de transporte (incluindo um moderno metrô previsto para 2009).
Ao fundo, um dos cartões postais da cidade, o hotel Burj Al Arab
Sem dúvida, Dubai é uma cidade rica, moderna e bem cuidada como poucas outras no mundo. O passeio é imperdível para aqueles que fazem escala lá, em direção a algum outro destino asiático numa das melhores companhias aéreas do mundo (olha aí mais um “melhor”), a Emirates. Vale a pena planejar a visita como parte de uma viagem mais longa também. Do Brasil, não recomendo a visita exclusiva à Dubai: Além do preço bem salgado da passagem, 14 horas dentro de um avião na classe econômica ainda é um bocado desconfortável.