Não há ciclovias em Vitória
Hoje, de bicicleta, dei a volta na parte continental de Vitória. Do Carrefour, na Reta da Penha, vou até a Praia do Canto e cruzo a ponte Ayrton Senna. De lá, sigo até o final de Camburi pela praia e, em seguida, entro em Jardim Camburi pela Avenida Gelo Vervloet Santos, contornando o Aeroporto Eurico Salles. Vou até o Hospital Vitória-Apart, já na Serra, e desço até chegar na Avenida Fernando Ferrari retornando assim à Vitória. Finalmente, percorro toda esta Avenida, passando pela Universidade Federal e cruzando a ponte da passagem, até chegar novamente ao Carrefour.
Ao todo são pouco mais de 18 Km em praticamente uma hora. É um trajeto bonito com vistas para a praia de Camburi, o Convento da Penha, o monte Mestre Álvaro, e a nova Ponte da Passagem. Teria sido perfeito se não fosse pela qualidade das ciclovias – quando elas existem. As únicas exceções estão na ciclovia da praia de Camburi e em um pequeno pedaço da ciclovia da Avenida Fernando Ferrari. Na primeira, o trajeto de pouco mais de 4 km é bem sinalizado e adequado para a mão dupla de bicicletas. Na segunda, num trecho de pouco mais de 1 km ao passar pela Universidade, não há sinalização mas o asfalto é bom e a ciclovia bem protegida de pedestres e carros.

(Mapa aproximado do percurso. As partes em azul são as que possuem boas ciclovias. Em vermelho as partes com ciclovias ruins e em preto onde não há ciclovia.)
Mas estes dois trechos são exceções. Nas outras partes onde existem ciclovias, não há sinalização ou conservação. Existem também vários desníveis e o percurso muitas vezes se confunde com o espaço para pedestres. Além disto, quase metade dos 18 km não possui nenhuma ciclovia e o ciclista é obrigado a disputar espaço com os carros nas ruas ou com pedestres nas calçadas. Muito pior é constatar que praticamente toda a cidade de Vitória encontra-se sem ciclovias e a prefeitura não parece demonstrar interesse nelas.
Dois exemplos recentes reforçam esta impressão. O primeiro é o da nova Ponte da Passagem. Não há ciclovia nela. O improviso dado pela prefeitura obriga o ciclista a passar por baixo do viaduto em frente à Universidade, em uma curva muito perigosa, para cruzar o canal pela ponte antiga. Depois, é obrigado a cruzar a avenida novamente, agora já na própria via porque não existe ciclovia na Reta da Penha, para respeitar a lei de trânsito e se manter no sentido dos carros. O segundo exemplo é ainda mais recente. A XX Feira do Verde, que começou no dia 10 e termina hoje, não reservou espaço para ciclistas. Parece que nem pensou neles. Não é permitida a entrada de bicicletas e não há bicicletários com segurança do lado de fora para deixá-las. Quer saber mais sobre o meio-ambiente e aprender a respeitá-lo? Vá de carro, claro.

(Projeto da nova Ponte da Passagem. Alguém vê alguma bicicleta?)
Há relatos similares de problemas não apenas na Capital mas em toda Grande Vitória por pessoas participantes do movimento Bicicletada. Parece-me que existe um ciclo vicioso em curso que ainda não foi quebrado: As pessoas não tem consciência da importância da utilização da bicicleta como meio de transporte e as prefeituras corroboram esta visão ao priorizar carros nos investimentos no trânsito.
Já passou da hora de mudarmos isto!
A produção de software no Brasil e o porquê da Índia ser melhor
Ano passado um russo veio à Bangalore visitar o Instituto onde estudo, vindo de Vitória, ES, cidade onde morei praticamente toda minha infância. É isto mesmo. Fiquei tão impressionado com a coincidência que 3 horas em um restaurante próximo não foram suficientes para tanto assunto. O sujeito é pesquisador na Universidade de Berkeley (Califórnia) e conheceu a esposa lá. Ela é carioca, a propósito.
Obviamente a origem da esposa foi mais do que motivo suficiente para ele iniciar um trabalho de pesquisa no Rio. Não me recordo quanto tempo ele ficou na cidade, mas o foco do estudo era no entendimento da metodologia adotada pelos cariocas no processo de desenvolvimento de software. Por que o Rio? Bem, além do fato da esposa ser de lá, outro motivo, segundo ele, é que mais cidades no mundo podem ser comparadas ao Rio, ao contrário da grandiosa São Paulo, o que possibilita um uso mais diverso do resultado. Outro aspecto que ele considera curioso no Rio é a maneira como a cidade se coloca no mercado, à sombra de sua vizinha paulista.
Entre um arroz biryani e outro, ele me apresentou a sua visão do mercado brasileiro de software – bem interessante, por sinal. Por que, por exemplo, os brasileiros produzem software para o mercado interno enquanto a Índia fatura horrores com a exportação? Certamente a língua não é o principal fator. Segundo ele, o fato do software estar em português, o que implicaria em algum custo para tradução (principalmente se o software não foi originalmente projetado para várias línguas) não é (ou não deveria ser), de longe, o principal entrave à exportação. Vencido este primeiro obstáculo, são inúmeras as etapas a serem cumpridas para que o software possa ser comercializado internacionalmente. A língua é, literalmente, o de menos...
Mas então, por que não vendemos software lá fora?
A culpa é do nosso pequeno mercado e da maneira como as empresas brasileiras atuam nele. Ele é, na verdade, ao mesmo tempo uma benção e um calo no pé. É claro que o fato de possuirmos um mercado interno estimula a produção de software local e sem ele nossas atuais empresas provavelmente não existiriam. Entretanto, graças a ele também é que estas mesmas empresas acabam se acomodando: “O meu cliente está logo ali, para que ir mais longe?”.
Outra característica peculiar de nossas empresas de software está na relação com os clientes. Primeiro que elas nascem ou já com um cliente em mente ou pensando em arrumar um cliente. Raramente uma empresa de software no Brasil surge com um plano de negócios focado em um mercado para produzir software numa economia de escala. O foco da empresa no cliente está na natureza de nossas relações. Dificilmente negamos as solicitações dos clientes o que acaba resultando em versões customizadas de um mesmo produto para cada um deles. É mais ou menos como se a relação precisasse ser informal, em tom de amizade [en]. Parece familiar? Pois é, para mim também. Este comportamento acaba fazendo com que as empresas de software do Brasil aceitem praticamente todas as solicitações dos clientes, indo ao extremo de detalhar no software particularidades exclusivas de cada um se preciso.
Além disto, o nosso principal cliente, o governo, tem características muito distintas que exigem grande esforço e investimento na relação comercial. Este mesmo governo também dita o tipo de serviço prestado pelas empresas locais. Nas décadas de 80 e começo de 90, por exemplo, quando o governo impunha severas restrições à entrada de hardware no Brasil, houve uma demanda pela produção interna dele.
Este tipo incentivo tem grandes desvantagens. Primeiro que incentivar a produção de tecnologia em detrimento do uso, acaba favorecendo apenas um setor da indústria quando vários poderiam se beneficiar se o incentivo do governo estivesse no uso da tecnologia. Segundo que, no caso particular da produção de hardware, o mercado internacional é altamente competitivo e dominado por grandes empresas principalmente estabelecidas nos EUA.
Assim, quando se iniciou no Brasil um processo de abertura comercial, muitas das empresas de hardware brasileiras tiveram que encolher consideravelmente ou simplesmente fechar as portas. Com políticas mais recentes do governo, este quadro está se revertendo um pouco. De 2000 para cá é evidente o crescimento de nossa indústria de hardware e software.
No caso do mercado externo, entretanto, são duas razões principais para nossas pífias exportações: 1) lá fora as empresas de software brasileiras não conhecem ninguém, o que dificulta qualquer aproximação mais pessoal da maneira como fazemos no Brasil; e 2) elas muitas vezes não possuem o interesse pois o mercado brasileiro é aparentemente suficiente para elas....
Normalmente uma empresa brasileira inicia alguma operação no mercado internacional apenas quando a oportunidade bate a sua porta. Ou seja, se algum comprador internacional procurar a empresa brasileira, demonstrando bastante interesse, então a ela terá a motivação necessária para tal empreitada.
Como em toda regra, entretanto, esta também possui suas exceções. O melhor exemplo talvez seja a linguagem de programação Lua. Ela foi criada na PUC do Rio em 1993 e desde o seu nascimento foi projetada em inglês, para o mercado externo. Para se ter uma idéia, nem existe manual em português. Aliás, os melhores livros dela só são encontrados fora do Brasil e sem tradução para nossa língua. Segundo o site oficial, Lua é usada em várias aplicações de grande porte (por exemplo, o Adobe Photoshop Lightroom) e é a linguagem de script dominante na criação de jogos. Menos de 10% dos mais de 1300 assinantes da lista de discussão são do Brasil.
Para fechar, o meu amigo russo acha que os brasileiros das empresas de software são megalomaníacos (ele fala um bom português e literalmente usou esta palavra). São todos cheios de grandes planos, sonham em atingir o mercado internacional, mas pouco fazem na prática para tornar os sonhos concretos. É a perfeita justificativa, segundo ele, para que nosso país continue sendo o “país de futuro”, sem planos no presente.
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O estudo do pesquisador ocorreu essencialmente no Rio de Janeiro. Embora alguma extrapolação seja possível, a generalização oculta outros padrões que se destacam principalmente em algumas regiões do Sul do Brasil, em São Paulo, e em Recife. Ainda assim, estamos muito atrás da Índia na indústria de software. Temos grandes empresas mas a maioria ainda é estrangeira (inclusive as Indianas Wipro e Satyam) e que só agora começam a se organizar para tornar o país competitivo. O resultado deste individualismo e falta de pró-atividade é um mercado menor que a metade do mercado Indiano (cerca de US$ 20 bilhões em comparação aos US$ 50 bi Indianos), com déficit na balança comercial, e ainda bastante dependente do governo para se sustentar.
Para mais informações:
- Sobre o mercado Brasileiro, acesse o site da BRASSCOM, criada em 2004 copiando o modelo Indiano;
- Sobre o mercado Indiano, acesse o site da NASSCOMM [en], criada em 1988 (!!) e hoje uma poderosa associação que defende os interesses da indústria de software Indiana;
- Sobre as diferentes características do crescimento das indústrias de software Indiana e Brasileira, leia o excelente livro From Underdogs to Tigers: The Rise and Growth of the Software Industry in Brazil, China, India, Ireland, and Israel [en].
Agora eu vou! Não vou… Vou!
Pois é, as últimas três semanas têm sido de extrema indecisão. Antes, tinha certeza que voltaria ao Brasil em Dezembro, depois, até ontem, tinha absoluta certeza que não voltaria, agora, tenho certeza novamente que volto! Ah, as nossas certezas...
Por causa da minha tese, um pouco atrasada, havia resolvido adiar o meu retorno ao Brasil e me concentrar mais nos trabalhos. Só que apenas ontem fui ao escritório da Air France aqui em Bangalore cancelar a passagem. Acontece que cancelar esta passagem em particular (por ser mais barata) custa um absurdo e transferí-la para Julho, data em que valeria a pena retornar ao Brasil novamente, é também mais caro por ser alta temporada (aparentemente, Dezembro não é, vai entender estas cias. aéreas).
Resultado: Volto para o Brasil! Ficarei menos, é verdade, apenas 15 dias, mas volto! Faço antes uma paradinha rápida em Paris para rever amigos (conto aqui depois, claro) e outra no Rio para rever familiares queridos que não vejo desde 2007. Dia 17, portanto, logo depois do almoço, desembarco no Aeroporto Internacional Eurico Salles!
A menos que eu mude de idéia novamente até lá... =D
Rapidinhas direto de Vitória, ES e um problema no Cinemark
Conforme divulgado, já estou de volta ao Brasil desde a semana passada. Adiantei meu vôo em dois dias para fugir da inauguração do novo aeroporto de Bangalore. Novidades governamentais na Índia são sinônimo de muita confusão e problemas.
Em Vitória, já revi meus familiares e alguns amigos. Ainda não deu tempo de “chegar” por completo. Uma boa notícia foi a excelente temperatura média do inverno daqui da capital, quase o oposto do verão indiano insuportavelmente quente e seco.
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Quarta-feira passada estive na Aracruz Celulose com um grupo de alunos do mestrado e da graduação em Ciências Econômicas da UFES. A visita foi extremamente elucidativa na abordagem dos processos inovativos que ocorrem na empresa. Conto mais detalhes depois.
Agradeço ao Prof. Arlindo Villaschi pelo convite.
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Escrevo este post após chegar de uma sessão inusitada de cinema. Ou melhor, uma pseudo-sessão. Tentei pela segunda vez assistir ao novo Indiana Jones sem sucesso. Na primeira cheguei atrasado, mas desta vez, no Cinemark (faço questão de destacar o nome), estou isento de qualquer responsabilidade pelo fracasso.
A projeção do filme começou atrasada, cheia de falhas e distorções, e sem as legendas, gerando gritarias de protestos nos primeiros 10 minutos. Depois, quando acertaram os problemas, a gerência se recusou a recomeçar o filme, provocando uma debandada geral da sessão.
Após muita reclamação, conseguimos o reembolso dos ingressos, da pipoca e do refrigerante, o mínimo aceitável pois não considera o estacionamento, a gasolina gasta, o tempo despendido, e a frustração e o aborrecimento de não conseguir ver o filme.
Era visível também o despreparo de toda a equipe em lidar com a situação. Não havia nenhum tipo de controle para o reembolso e a funcionária responsável não sabia como lidar com os clientes mais exaltados. Inacreditável também a demora em acertar o filme e a recusa em começá-lo novamente.
Já tive problemas antes no Cinemark com o excesso de iluminação durante a sessão, com falhas no som, com filas demoradas para compra de ingresso e pipoca, e com atrasos no início da projeção. Obviamente, pelo menos em Vitória, a empresa ainda precisa melhorar muito.
Quando voltei da Europa em dezembro
Quando voltei da Europa em dezembro, fiquei 30 dias no Brasil antes de retornar à Índia e não saí da região frequentemente intitulada “Grande Vitória e Guarapari”. Vitória, a capital do Espírito Santo, é minha terra natal. Nasci na vizinha Vila Velha mas lá praticamente só vi a maternidade. Meus primeiros 13 anos de vida aconteceram em Vitória, com exceções apenas em viagens esporádicas aqui e ali, durante as férias escolares.
Para uma introdução rápida desta ilha fundada em 1551, recomendo a Wikipédia e o site de turismo da Prefeitura. Para se aprofundar, o acervo da Biblioteca da Universidade Federal do Espírito Santo é um prato cheio e permite pesquisa online. Recomendo temas relacionados aos diversos colégios centenários estabelecidos por lá e, vinculado a isto, à formação do Centro da cidade e sua classe alta; às histórias por trás da estrada de ferro Vitória-Minas; à tradição das paneleiras; à culinária famosa pela moqueca e pela torta capixaba; e à economia da região, fortalecida pelo setor metal-mecânico e recentemente pela descoberta de petróleo em sua costa.
Como não só de livros vive o ser humano, há diversas opções de lazer e conhecimento acontecendo na cidade. Novamente, o site da Prefeitura é um bom ponto partida. Imperdível também são os eventos realizados pelo Centro Cultural Majestic. O local atualmente recebe o Café Literário, evento nacional do SESC com o objetivo de “oferecer um ambiente de diálogo entre o público e aqueles que produzem literatura, ou que possuam atividades diretamente ligadas a ela, como estudantes, professores, jornalistas, críticos ou editores”.
Antes, o Majestic organizou a série “História Viva” com a proposta de resgatar a história do Centro de Vitória sob diversas óticas. O projeto foi composto por mesas redondas formadas por especialistas no tema em pauta, incluindo economia e cultura; música e poesia; manifestações políticas; e educação. Todas as quatro mesas redondas foram gravadas e chegaram a ser transmitidas pela TV Educativa do Espírito Santo. Torço agora para que virem DVD e sejam colocadas à venda para o público em geral.
Há ainda que mencionar o passeio de caravela pela Baía de Vitória. Uma réplica de uma típica embarcação portuguesa do período colonial revisita a história da colonização na região enquanto percorre importantes pontos turísticos da cidade.
Outro aspecto positivo da cidade são as mais variadas opções de restaurantes de qualidade espalhados por quase todos os bairros, para todos os gostos e bolsos. O estado (e consequentemente Vitória) também faz parte do evento Brasil Sabor que este ano acontece entre 9 de abril e 11 de maio. E há ainda o evento Sabor ES que ano passado ocorreu no final de novembro e reuniu os principais chefs do estado sem contar convidados de todo país.
Finalmente, os turistas (moradores ou não) não podem deixar de visitar as principais atrações da cidade, dentre as quais recomendo: A Catedral Metropolitana e demais prédios históricos do Centro (afinal, Vitória é a terceira capital mais antiga do país), a Ilha das Caieiras, o recém-inaugurado Hortomercado, o Parque da Fonte Grande, o Museu Solar Monjardim e o Museu de Artes do Espírito Santo.
Não vou falar dos municípios vizinhos que compõem a região metropolitana e do famoso balneário de Guarapari. Estas regiões sozinhas mereceriam posts como este exclusivo para elas. Limito-me a destacar, em Vila Velha, o Convento da Penha (construído sobre um rochedo a 154 metros de altitude em 1558), o Museu Ferroviário, a Igreja Nossa Senhora do Rosário (quarta mais antiga do país), e o Museu Homero Massena; a bucólica região de Manguinhos na Serra; e todas as belas praias de Guarapari e de seu município vizinho, Anchieta.
Falar de terras capixabas dois meses depois de deixá-la faz aumentar bastante a saudade. Foi muito bom ter descansado por lá ao lado das pessoas mais queridas para mim e que amo tanto, e ter também revisitado muitos destes lugares que fazem parte da minha história.